MORTE REJEITADA: BUSCA DA VIDA

A necessidade incontrolável de dar sentido à vida, diferente da dos outros animais, e minimizar a dor determinada pela morte de entes-queridos, está expressa com transparência em todas as culturas, materializando como opostos, a saúde e a doença. A primeira, sinônimo de vida, ficou ligada ao bem, ao bom, ao belo; a segunda, compreendida como mal, ruim, feio, antecipando o falecer temido. A pulsão inata para desvendar a forma visível, em especial a do corpo, sadio ou doente, dotado com propriedades sensíveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor, pode ser considerada como a arqueologia que materializa a vontade atávica para viver! É verdadeira em si mesma, porque dá forma ao viver, num movimento metafórico, composto pela presença da carnalidade da pele quente, pela realidade dos sentidos, da respiração e do ritmo cardíaco.
Atinge e entrelaça o ser no mundo por meio de reconstruções. O novo surge dessas reconstruções, em muitas circunstâncias, oferecendo consistência ao pensamento que transforma e consolida a consciência-de-si do corpo sadio ou do corpo doente. O conjunto sociocultural, presente na memória, adquirida e transmitida, geração após geração, desempenhou papel de extrema importância nas mentalidades. Os atuais saberes ocidentais, em parte marcados pela influência cultural greco-romana, uniram e solidificaram esse patrimônio, perdido nos confins enigmáticos do tempo indivisível. A pólis, organizada à semelhança do corpo saudável, passou a ser compreendida como organismo vivo. Ao contrário, o caos social era sinônimo de doença. O político competente era aquele que curava a sociedade doente. No mesmo patamar, o juízo de valor das condutas fora estabelecido utilizando as emoções humanas como parâmetro. No mundo das ideias e crenças religiosas, a passagem de um para o outro lado, da saúde à doença, envolvendo mudanças nas coisas e nos acontecimentos, implicando riscos à saúde e à vida, funcionando como pólos opostos, tem sido comunicada às sociedades pelo sacerdote, o representante da divindade. De modo geral, esses especialistas do sagrado, apesar de não negarem o conhecimento empírico da natureza circundante, confessam serem incapazes de compreender a vontade divina, limitando-se a obedecer e implorar a misericórdia, por meio dos ritos específicos para abrandar a ira transcendente. O poder de curar pessoas e sociedades e adivinhar com antecedência os infortúnios, evitando as doenças, para melhor organizar determinado grupo social, oferecendo a saúde e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo ora de coesão, ora de dissolução sociais. O sofrer e a morte da pessoa amada determinam transtornos complicados, em diferentes níveis do corpo, trazendo incontáveis sinais físicos de desconforto, variando em cada pessoa. Os sistemas nervosos, central e periférico, liberam substâncias que alteram o ritmo biológico e estabelecem a baixa global da defesa imunológica. A ansiedade, entendida como sensação de perigo iminente, interferindo na sociabilidade das pessoas, provoca complexas mudanças nos ciclos do sono, da fome, da sede, da libido e da afeição, ainda pouco compreendidas. O lento avançar da medicina molecular identificou a substância conhecida como GABA (ácido gama-aminobutírico), como o principal neurotransmissor, inibitório do sistema nervoso central. A maior parte das milhares de trocas químicas específicas processadas, em cada instante, nos tecidos, estão voltadas para manter o ser vivo e embotar, temporária ou perenemente, as sensações desagradáveis e perturbadoras. Parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentar da adversidade temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social, por trazerem resposta de bem-estar, para manter a vida, sempre!

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CAMINHADA CULTURAL EM PARIS

Paris continua representando um dos mais importantes pilares da cultura ocidental.
Ao contrário das festas e encontros, em muitos países, que podem se estender até a madrugada, em Paris, raramente acontece. De modo geral, não são muitos os locais onde é possível encontrar a vida noturna após 23 horas, quando ocorre a interrupção da maior parte das linhas do metro e os táxis são ainda mais es-cassos. A exceção é o triângulo Quartier Latin ? Saint Germain-des-Près ? Montparnasse, desde o século 19, reduto de muitos intelectuais, pintores e escultores que marcaram a história das artes, onde muitos restauran-tes permanecem abertos 24 horas e estão situados alguns dos mais importantes monumentos à cultura.
A primeira opção, conhecer o Jardim de Luxemburg, com especial atenção na face sul, a sede do Se-nado. Se na primavera as alamedas entrecortadas pelos nichos de flores multicoloridas extraordinariamente bem cuidadas, oferecem o ambiente ideal para a leitura ou a caminhada sem pressa, para movimentar com leveza o corpo.
Nos últimos cinco anos, na face leste das grades de ferro fundido trabalhadas que cercam o jardim, a exposição permanente de dezenas de fotografias de renomados profissionais enfocando temas do equilíbrio ecológico da França e territórios franceses.
O museu do Louvre, pode ser alcançado por meio de caminhada, ao longo da rua de Rennes, em toda a extensão, até a igreja Saint Germain-des-Près. Após conhecer esse templo medieval, pleno de história, a escolha seguinte, alguns metros subindo o bulevar Saint Germain-des-Près, seria beber o melhor bordeaux, no Café de Flore, o preferido dos intelectuais, entre eles, Jean-Paul Sartre e Simone de Bouvoir, líderes incon-testes dos protestos, nas ruas de Paris, nos anos 1968
Com o corpo rejuvenescido pelo bordeaux, o caminho seguinte seria percorrer a rua Bonaparte, pa-rando aqui e ali, para ver as relíquias milionárias dos antiquários. No final dessa rua, o museu do Louvre surge em toda grandeza. Após cruzar a ponte sobre o rio Sena, a entrada suntuosa, sobre e sob a pirâmide de vidro, uma das obras culturais do governo Miterrand, representa o convite irresistível. A primeira visita, certamente, representará o incessante desejo de retornar muitas vezes. Sem deixar de ver a Monalisa, encanto mágico da genialidade de Leonardo da Vinci no sorriso enigmático.
No final da tarde, a caminhada de volta ao longo das margens do Sena, até a ilha de la Cité, deslum-brada pelo mais belo monumento da arquitetura gótica: a catedral de Notre Dame, o Palácio da Justiça (Con-ciergerie) , o Hotel (Hospital) de Dieu e a Saint Chapelle.
Se domingo, melhor ainda, a missa das 19 horas, na Notre Dame, magnífica, plena da mágica relação com o Deus! Sempre com apresentação de algum festejado organicista e do coro da própria igreja, esse ins-trumento complexo, do século 13, um dos maiores do mundo, responde com veemência mágica sob as mãos e os pés do artista, acompanhando o canto gregoriano, o incenso, a estrutura gótica do átrio, a rosácea com-posta de vidros multicoloridos, o ambiente de fé e o rito transformam a missa domingueira da Note Dame em algo difícil de descrever, mas oferecendo a certeza do quanto o homem pode ser generoso.
A noite pode ser encerrada em um dos muitos restaurantes do Quartier Latin, seja grego, chinês, tai-landês, japonês ou italiano, onde é sempre possível beber o melhor vinho francês.

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