A DOENÇA COMO MAL: TORNANDO VISIVEL O INVISÍVEL

O corpo, visto e sentido como expressão de vida, impulsiona o ser, pensante e finito, a buscar explicação das mudanças nele produzidas interpretando as como antecipação da morte.
Ao chamarmos “paciente” o homem doente, para diferenciá lo do sadio, é inevitável aceitar dupla emoção determinada pelo choque entre o real e o imaginário, causada pela consciência da doença em si mesma. A primeira, realçada pelo visível e relacionada à enfermidade (tumor, mancha, etc.) e a segunda, fruto do exercício mental procurando interpretar a alteração visível no corpo.
A experiência ou a possibilidade de sentir dor, serve como exemplo. O desconforto doloroso é o componente real. A explicação dela, nascida no sofrimento, é profundamente mesclada pelas raízes socioculturais integrantes do imaginário do doente.
O conjunto simbólico, ainda sem explicação neurofisiológica finalizada, trabalha para dar sentido e unir o objetivo ao subjetivo. Essa complexa elaboração cerebral utiliza mecanismos cere¬brais ainda muito pouco conhecidos, capazes de engendrar respostas mentais intimamente relacionadas com o universo mítico do doente. O processo fisiológico determinado pela dor, invisível, acaba consoante à mitopoese (mecanismos socioculturais que criam os mitos).
Entre as muitas respostas para superar o sofrimento, está a organização do MAL formando a objetividade da doença como pre¬cursora da morte. Assim, é viabilizada a resposta fundamental do corpo para entender a doença: o invisível se torna visível!
De maneira semelhante, a saúde é transformada em BEM e colo¬cada em oposição frontal à doença como MAL.
O movimento dialético entre ser e não ser (aqui compreendi¬dos como correspondentes aos binômios saúde e doença, vida e morte) se faz sempre vinculado às forças contrárias (cósmicas, morais e naturais) que se opõem ao ideal do projeto existencial ou da ordem ético social.

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PRÁTICAS MÉDICAS PRÉ-COLOMBIANAS

ASTECA
A civilização asteca utilizava a idéias e crenças religiosas na explicação e no tratamento das doenças. A doença era considera o desequilíbrio entre o bem e o mal, em cujo tratamento deveria haver participação de deuses. As principais divindades eram: deusa Tlazolteotl, que pene-trava nos homens fazendo-os se contorcerem de dor; deus Xochiplli, protetor da vegetação e da fertilidade e o deus Xolótl-Nanavatzin, torturador dos homens com doenças ligadas à sexualidade.
A práticas médicas astecas utilizavam largamente o cacto peyotl no tratamento da dor. Sabe-se que esse vegetal contém a mescalina: alcalóide alucinógeno e anestésico.
Talvez pelo uso do anestésico, houve progresso na arte cirúrgica. Existem várias compro-vações arqueológicas de amputações dos membros e craniotomias (abertura dos ossos do crâ-nio), semelhantes às encontradas nas comunidades pré-históricas, que viveram há 10.000 anos.
A cidade de Tenochtitlán, na época da chegada dos espanhóis, dispunha de vasta rede de esgotos e banheiros públicos. Os mortos eram queimados ou enterrados fora dos muros das cidades e cada quarteirão era responsável pela limpeza e higiene das casas.
A primeira epidemia registrada, resultando na morte de milhares de indígenas, foi causada pela varíola trazida pelos espanhóis.
Entre centenas de manifestações artísticas existentes, principalmente no museu antropoló-gico do México, encontramos em pequenas estatuetas de argila detalhadas quadros clínicos, entre eles, tumor de órbita, amputações, defeitos congênitos, doenças da pele e deformidades ósseas e musculares.
INCA
Diverso da civilização asteca que teve os registros escritos destruídos pelo conquistador europeu, os incas não dispunham da escrita. O envolvimento religioso nas práticas médicas da civilização inca se evidencia pelos achados de estatuetas de argila e desenhos rupestres nas ruí-nas encontradas no altiplano boliviano.
A crença de que os pecados eram as causas das doenças dominava os incas tanto quanto os astecas. As doenças eram o castigo dos deuses que, simultaneamente, exigiam sacrifícios, orações e confissões. Sem dúvida, apesar de terem sido realizados, o sacrifício humano não atingiu as proporções encontradas entre os astecas.
O conhecimento que os incas tinham das ervas medicinais chegou a impressionar os es-panhóis, com destaque aos coletores de plantas medicinais e os boticários ambulantes que leva-vam à população as ervas secas e outros medicamentos de origem mineral.
Duas dessas plantas tiveram notável sucesso na medicina ocidental nos séculos seguintes: a quinaquina (Myroxylon peruiferum) cujo óleo era empregado no tratamento das feridas e que ficou conhecido nas farmácias da Europa como o Bálsamo-do-Peru e a coca. O principal alcaloide retirado das folhas da coca, a cocaína, se tornou-se a base da anestesia local em todo o mundo, até os anos 1920..
Importantes representações em forma de pequenas estatuetas de argila com clara evidên-cia de amputações dos pés e das mãos sugerem que foram práticas deliberadamente com objetivo terapêutico.
Em antigo cemitério inca, foram encontrados centenas de crânios trepanados, datando de aproximadamente 1000 anos. O estudo arqueológico mostrou que são semelhantes aos encontra-dos em diversos pontos da Europa. Como as cirurgias realizadas no Neolítico, a maior parte sobreviveu muito tempo após à intervenção cirúrgica.

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