MEDICINA HIPOCRÁTICA

A consolidação da civilização grega ligada à polis com a sua estrutura político-jurídica definida e o homem sendo visto como a medida de todas as coisas, constituem o esplendor da nova visão das relações do homem com ele mesmo e com o meio.
A figura de Hipócrates, considerado o pai da Medicina, terá nascido no ano 460 a.C., na ilha de Cos, nessa Grécia caracterizada pela busca da racionalidade. Ele foi contemporâneo de Sócrates, do sofista Górgias e de Demócrito, com quem teria tido relações pessoais e profissionais em Abdera.
Sem qualquer dúvida, foi Hipócrates o fundador das bases da atual ordem médica e ele representa para a Medicina o mesmo que Platão para a filosofia.
A produção literária atribuída a Hipócrates é enorme. Hoje, sabe-se que muitos dos livros são apócrifos, porém, parece não haver dúvidas da participação de Hipócrates, direta ou indireta-mente, na elaboração dos seguintes: Epidemia, O Prognóstico, Tratado Cirúrgico, Tratado Dietéti-co, Tratado Nosológico, Tratado Ginecológico e Tratado Ético, sendo este último o responsável pelo suporte teórico da Medicina no Ocidente.
Na mesma época em que Demócrito lançava as bases do atomismo ? tudo é formado por átomos que são partículas indivisíveis e invisíveis, eternas e imutáveis ? dando pela primeira vez a explicação do odor, da cor e do sabor, Hipócrates lançava sua teoria dos quatro humores para explicar o aparecimento de doenças.
Na ilha de Cos, foi fundada a Escola de Medicina, dirigida por Hipócrates, que conseguiu reunir dezenas de colaboradores, dando início verdadeiramente a esboço de separação da Medici-na religião.
Entre as dezenas de ensinamentos hipocráticos, destacam-se como ainda atuais e perti-nentes os conceitos de diagnósticos, prognósticos e tratamento, distinção entre sintoma e do-ença, os três afonismo ? o médico e a sua arte, o doente e a sua natureza individual e a doença. Estes conceitos, apesar de terem sofrido aperfeiçoamento ao longo dos séculos, continuam válidos e utilizados, mesmo com toda a tecnologia da moderna Medicina.
Os instrumentos cirúrgicos que foram utilizados pelos médicos gregos são absolutamente semelhantes aos de hoje: as sondas, os bisturis, os trépanos, as pinças e os afastadores. As observações do corpo humano foram responsáveis pelas descrições minuciosas e maravilhosas da anatomia, como as feitas por Herófilo, contemporâneo de Hipócrates, que distinguiu o cérebro do cerebelo, identificou as membranas meníngeas e o líquido cérebro-raquidiano, as funções motoras e sensitivas dos nervos periféricos.
Quando a Escola de Cós estava no seu apogeu e Hipócrates era reconhecido como a maior auto-ridade médica do seu tempo, havia harmoniosa convivência entre a nova Medicina e as práticas médico-míticas exercidas pelos sacerdotes-médicos dos templos de Eusculápio. Foram recupera-das várias tábuas de argila no templo-hospital de Epidauro com agradecimento ao deus Asclépio pela cura obtida.
A própria aparência do médico foi prevista pelos ensinamentos hipocráticos. No capítulo Do Médico, no Tratado Ético, lê-se: A norma do médico devera ter boa cor e bom aspecto (…) Pois será de grande utilidade para si colocar-se elegantemente e perfumado agradavelmente (…) e tudo isto agradará ao doente.

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MEDICINAS DE GALENO E SORANO

Após a terceira guerra púnica, os romanos consolidaram o vasto império no Mediterrâneo. O espírito legislador romano não deixou de abordar as atividades médicas. Com a regulamentação romana, os médicos passaram a constituir uma categoria profissional definida, tanto entre os homens livres como entre os escravos. As obrigações do médico eram estipuladas pelo Estado que pagava os seus serviços profissionais. Sob o império de Adriano, no século II d.C., os médicos eram dispensados do serviço militar e quase todas as cidades romanas dispunham de médico oficial.
Em torno do século IV d.C. a profissão médica foi severamente fiscalizada e foi instituído rigoroso exame para todos que quisessem exercer a profissão. O império romano subvencionava os estudantes de Medicina , mas em troca erram obrigados a prestar assistência aos pobres. Os médicos foram proibidos de praticar o aborto e negar o atendimento a qualquer doente, sob risco de castigo corporal e multa. Nessa mesma época, sob o império de Diocleciano, no ano de 300 d.C., um édito do Imperador impunha como condição para entrar na escola de Medicina, a apre-sentação de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade de origem.
A diferenciação entre médicos e cirurgiões foi reforçada e Cícero falava dos médicos ver-dadeiros, o que corresponderia aos clínicos gerais de hoje. Em seus versos, o poeta romano registrou a especialidade médica: Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os cílios que irritam os olhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podalírio das hérnias…
Entre os médicos romanos, um dos quais mais se destacou foi Galeno, considerado como o sucessor de Hipócrates e influenciaria de modo marcante a Medicina medieval.
Cláudio Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130 d.C. Foi sem dúvida o mais famoso médico do seu tempo. As suas obras, a maioria perdida, abordavam a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica. Estas obras foram compiladas e publicadas em Veneza no ano 1538 e constituiu o principal livro de consulta dos médicos medievais.
O outro médico romano que ficou na História foi Sorano, nascido em Éfeso. Os escritos de Sorano que foram recuperados são de extrema lucidez e bom senso. Ele descreveU a exis-tência dos obstetras, uma mistura de práticos e artesãos especializados, e os aborteiros, que eram punidos pela lei romana quando descobertos..
Entre as obras de Sorano destaca-se o Manual de Ginecologia, que serviu de orientação aos médicos durante quase quinze séculos, praticamente, sem qualquer contestação. Nessa obra genial, descreveu com absoluta precisão as posições anormais dos fetos no útero grávido.
Esses médicos extraordinários viveram no Império Romano, na em época em que foi instalado um competente sistema público de atenção à saúde
A preocupação coma saúde pública era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas que remonta aos primórdios da República, estabelecida normas para o sepultamento e queima dos cadáveres fora dos muros da cidade e a construção dos esgotos. As autoridades públicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene pública. Os grandes arquitetos romanos, como Vitrúvio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a construção das casas.

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