MEDICINA E IGREJA NA IDADE MÉDIA

Com a divisão do Império Romano, iniciada pelo Imperador Constantino e consolidada por Teodósio, em fins do século IV, o Império Romano do Ocidente teve a sua capital em Milão, na Itália, e o Império Romano do Oriente em Constantinopla, atual Istambul, capital da Turquia.
O Império Romano do Ocidente sofreu profunda transformação sócio-política nos anos seguintes em conseqüência da invasão dos visigodos, da cristianização e da gradativa mudança do sistema mercantil-escravista para o feudal e, como não poderia deixar de ser, a prática médica foi envolvida e modificada pelas mudanças em curso.
Com a cristianização do Império Romano do Ocidente, a influência exercida pela Igreja Ca-tólica na Medicina foi se fazendo de forma gradativa e irreversível. A origem da interferência re-monta aos tempos pré-cristãos, quando o pensamento judaico associava o aparecimento das doenças aos pecados. Progressivamente a doença passou a ser pecado e o único tratamento possível para o sofrimento era o perdão de Deus.
A relação social com o binômio saúde-doença evoluiu sem alteração e se consolidou definitivamente no Ocidente com a ação evangélica de Jesus Cristo, que incluía a capacidade de curar milagrosamente inúmeras doenças, cujo relatos foram passados através das gerações pelos apóstolos Novo Testamento.
Por razões não perfeitamente esclarecidas, os médicos laicos simplesmente desaparece-ram a partir do século V. O atendimento médico e o combate ás principais doenças passaram a ser feitas nos mosteiros pos padres das diferentes ordens religiosa.
Entre os mosteiros que se destacaram no exercício da atividade médica está o de Monte Cassino, na Itália, construído sobre antigo templo de Apolo. Ao mesmo tempo, multiplicava-se também o uso de relíquias e talismãs para a proteção das doenças. Exemplos marcantes de como a superstição era o fundamento da Medicina dessa época podem ser sentidos nas palavras de Santo Agostinho: O perfume de azeviche afugenta os demônios e seu uso desata e desfaz o quebranto, ligaduras e encantamentos e todos os fantasmas tristes e melancólicos.
Com o passar dos anos, os padres passaram a exercer a Medicina fora dos muros dos mosteiros. Em conseqüência dos atritos criados pelos danos causados aos doentes, como a sangria, os religiosos foram proibidos de exercer a atividade médica fora dos mosteiros por determinação dos Concílios de Remis (1131) e de Roma (1139).
Esta situação evoluiu para a formação de escolas leigas de Medicina , que foram, pouco a pouco, se formando junto aos mosteiros. A Escola de Salerno, no sul da Itália, fundada ao lado de um convento beneditino, foi o primeiro de orientação puramente leiga. Essa Escola foi responsável perante a História pela famosa frase: Primo, nou nuocere (Em primeiror, não façam mal).
Pouco tempo depois surgiu a Escola de Montpelier, na França, com as mesma características da Escola de Salerno, isto é, a fundamentação do ensino médico era baseado nas obras de Hipócra-tes e Galeno.
Os estudos da anatomia humana foram retomadas pelas mãos de Mondino de Luzzi(1270-1326), professor da Universidade de Bolonha, que realizou a sua primeira dissecção humana, na Europa, em 1315.
A Cátedra universitária remonta a este período. O professor sentado numa grande cadei-ra, daí o nome de cátedra, e ditava a aula aos alunos calados e atentos, ávidos de conhecimen-tos, sem questionar as exposições do catedrático.

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DOM DE CURAR

A sedução exercida pelos taumaturgos e adivinhos, hábeis articuladores na dualidade sagrada e profana, marcou as mentalidades. Esses homens e mulheres, reconhecidos como portadores de dotes especiais super-humanos, como no passado remoto, aqui e acolá, continuam curando e adivinhando.
O dom ou o carisma, como dádiva divina, está ajustado para unir a posse da terra à guarda do corpo. Na realidade, representa a analogia do mecanismo binário de prêmio-castigo, nos espaços sagrado e profano. A ordem sublime emprega-o, para abrigar a imagem do corpo (espírito, alma, etc.) no espaço transcendente (céu, éden, paraíso, etc.). A secular, para garantir o corpo submisso no território (casa, bairro, cidade, município, país e a área por onde se dá o fluxo de mercadorias no mercado interno e externo).
Aquele que tem o dom de curar pessoas ou sociedades (líder, messias, benzedor, pajé, padre, médico, etc.) deve ser obedecido e reverenciado (Eclo 38, 1-2).
A cultura judaica admite o sinal da deidade – o milagre. Assumiu lugar de magna impor-tância, porque é a prova da materialização do dom, isto é, a fuga do conhecido, do natural, do esperado. Esse é o motivo da aclamação e do júbilo.
Os primeiros padres da cristandade fizeram uma fantástica re-elaboração teórica dos sinais do AT. Os milagres de Cristo, em particular as curas, descritos pelos quatro evangelistas, assumiram grande importância na apologética da nova religião.
O tomismo entendeu a importância do milagre, na fé, como fato extraordinário produzido por Deus. Os anjos bons e os santos poderiam ser agentes na promoção dos acontecimentos situados à margem das leis naturais. Por outro lado, distinguiu o milagre do prodígio. Este último, simples simulacro, não era fruto do poder divino.
A abordagem tomista foi duramente criticada por diversos filósofos. Voltaire, no Dicionário Filosófico, tomou a argumentação dos físicos para contestar. Afirmava ser falso pensar no milagre como transgressão das leis matemáticas, criadas pela divindade, porque são coerentes e imutáveis. Espinoza também recusou a veracidade do milagre, apoiado na premissa de que era impossível a intervenção extraordinária para mudar o curso da criação transcendente, reafirmou o engano da prática milagrosa.
O golpe mais forte recebido pela teorização cristã do sinal foi sustentado pelo agnosti-cismo kantiano, firmado contra o determinismo absoluto. Seria incognoscível porque é muito difícil distinguir as formas variáveis e extraordinárias de agir da natureza. De acordo com Kant, não existem leis fixas e constantes, porque a estável provém, exclusivamente, do nosso aspecto subjetivo para conhecê-las. A religião não seria mais nada do que o conjunto das obrigações vistas como determinismo para facilitar a ordem de um poder transcendente.
Com o intuito de reforçar o conjunto do debate, cabe lembrar a imutabilidade das leis matemáticas, regendo a essência da coisa visível, expressando o modo de ser. Assim, em nenhuma hipótese, nem por milagre, o triângulo poderá deixar de ter os três ângulos internos.
No Ocidente cristão medieval, os santuários curadores e proféticos de Compostela (Espanha) e Jerusalém viveram vários séculos de glória, recebendo peregrinos de toda a cristandade. Nos últimos anos, o de Fátima, em Portugal, e o de Lourdes, na França, são muito procurados. Mais recentemente, surgiu o de Medjugorje, na Iugoslávia.
Milhares de curas foram anunciadas pelos fiéis que procuraram o santuário de Fátima. Como o número excedeu os limites aceitáveis, foi criado, em 1882, uma comissão de médicos e religiosos, para analisar a veracidade dos sinais, vindos da divindade, ocorridos em Lourdes. Apesar do entusiasmo dos peregrinos, a Igreja Católica anunciou, em 1990, o 65º milagre. Trata-se de uma jovem siciliana de 25 anos, portadora de uma forma incurável de câncer ósseo no joelho. Em 1976, depois de ela permanecer uma semana próxima ao santuário, um ano depois, houve o completo desaparecimento da lesão.
A crença nos poderes extraordinários, oriundos da aparição da Virgem, em Medjugorje, pequena cidade no interior da Iugoslávia, começou em 1981. Um grupo de adolescentes, quatro moças e dois rapazes, relataram ter visto uma mulher bonita que afirmavam ser a Virgem Maria. O padre Slavko Barbarich, da Igreja local, não tem dúvida da autenticidade das mensagens.
No Brasil, nos estratos sociais privilegiados, de tradição cristã, são mais enfocadas as procuras de Lourdes, Fátima e Medjugorje. Porém, existem outros locais de súplicas, como a basílica de Aparecida, a estátua do Padre Cícero, os centros de umbanda, as igrejas protestantes e grupos kardecistas. Todos recebem número muito maior de crentes, virtualmente agregados aos mesmos componentes de fé e religiosidade.

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