MEDICINA E CAOS: ONDE ESTÁ A DOENÇA?

Não há como negar que os caminhos da Medicina, na busca da arqueologia da doença, cami-nham na direção das menores porções da matéria viva, para o átomo e as partículas subatômicas. Des-sa forma, é possível articular processo teórico para rever alguns pressupostos da Medicina, tomando como parâmetro o caos, a instabilidade que persiste.
Apesar do grande avanço tecnológico, interferindo cada vez mais profundamente no domínio da natureza, persistem muitas questões fundamentais para que se possa compreender melhor a coisa em si (referida ao conceito kantiano). Contudo, deve ficar claro que essa abordagem está voltada à certeza da resolução do processo histórico do conhecimento, como ponte para transformar a coisa em si para coisa para nós.
O caos está presente na natureza circundante e se manifesta quando um objeto é submetido ao efeito de mais de uma força gerando situações impossíveis, com os atuais conhecimentos, de previsibilidade. Os exemplos dessas bizarras situações, desde as mais banais, como a tentativa de prever o próximo movimento de uma folha que corre livre ao sabor da corrente das águas de um rio, às complexas, como a bactéria sobrevive na corrente sanguínea, até às previsões climáticas (o movimento do ar). Nestes exemplos, mesmo com a ajuda dos supercomputadores, não é possível saber o que poderá acontecer à folha, à bactéria e se terá ou não tempestade, num determinado dia, mesmo utilizando os mais sofisticados e complexos sistemas de cálculos.
A maior dificuldade reside em separar a supremacia do caos à aparente estabilidade e ritmo da natureza. Aqui, tudo se apresenta dentro de um ritmo uniforme e eterno: a noite, o dia, as estações do ano, as estrelas e o movimento dos planetas. Sob a construção desse ritmo aparente, o homem come-çou a transformar a natureza e acumulou saberes. Do mesmo semelhante, se construiu a compreensão estática da saúde e da doença, onde parecia existir um divisor de águas entre o homem doente e o sadio, sendo aquele representado pela negação e este pela afirmação da vida.
O matemático francês Henri Poincaré (1854 1912) demonstrou a instabilidade mesmo nos siste-mas simples. Este pensador acabou ficando conhecido também pela avançada concepção acerca da comodidade da ciência, onde as teorias científicas traduziriam, unicamente, a arbitrariedade da razão com o objetivo de tornar inteligível um conjunto de fatos observados.
O atual entendimento de instabilidade regendo o conjunto que mantém a vida no planeta é ma-jestoso e, ao mesmo tempo, reflexivo; também fantástico porque mergulhou os cientistas na incerteza angustiante porque colocou por terra as certezas acabadas.
O estudo do caos está abrindo a matemática aos sentidos do homem onde a capacidade de abstrair formas espaciais foi incorporada à geometria diversa da euclidiana. Mesmo com a indiscutível indeterminação de Heisemberg, os médicos e fisiologistas são capazes de imaginar como é a projeção espacial de uma molécula de ADN e o feed back (retroalimentação) dos hormônios hipotalâmi-co hipofisário no controle das glândulas endócrinas (tireóide, ovário, testículo, suprarenal etc.) para o equilíbrio de funções vitais de mitos animais, especialmente, nos humanos.
O avanço foi concomitante em várias direções. Um novo entendimento de espaço surgiu e envol-veu o caos trazendo subsídios ainda maiores e mais concretos para recompor o equilíbrio tridimensio-nal.
Nesse contexto, parece razoável pressupor que as doenças, de certo modo compondo situações biológicas abstratas, nominadas pelo homem, no futuro, serão compreendidas como fenômenos dinâmicos, no tempo e espaço, capazes de serem estudada fora do espaço euclidiano. Haverá tempo em que a Medicina perguntará: em qual espaço-tempo deseja estudar o hipertireoidismo?
O simples raciocínio da hierarquização orgânica (só estamos tratando dos seres vivos) pode reforçar essa suposição. Do organismo vivo extremamente complexo, como o corpo humano, até as partículas subatômicas, o caos pode passar sucessivamente pelos sistemas orgâ¬nicos corpóreos (respiratório, digestivo, urinário etc.), órgãos, tecidos, cé¬lulas, organelas (ribossomos, mitocôndrios etc.), moléculas, átomos e partículas subatômicas.
Sendo partes do mesmo todo é possível que a caoslogia contribuirá também para a melhor com-preensão dos sistemas vivos sob o prisma da Termodinâmica. Hoje, continua sendo muito difícil enten-der o homem, como exemplo de sistema aberto, consegue manter a vida com rigorosa ordem interna e baixa entropia.
Na realidade, a saúde e a doença não existem separadamente, são partes do mesmo conjunto, e estão indissoluvelmente unidas no caos. Na realidade, esse é o maior paradoxo da Medicina: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença e se, realmente, a doença e a saúde existem como a Medicina entende.

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CÂNCER: A PARTITURA DESARMÔNICA DA VIDA

O câncer não é uma única doença! Na realidade são centenas de tipos diferentes, que se manifestam por meio de vários tipos de gravidades clínicas. Algumas formas com pouca agressividade biológica, ainda que sem tratamento, não oferecem risco à vida. Outras, sem explicação e nexo com o tipo de vida do doente, aparecem com grande agressividade, mesmo com todos os recursos de tratamento disponíveis, determinam a morte em pouco tempo.
Também é importante relembrar que os cânceres só não se manifestam nos cabelos e nas unhas porque são tecidos de granulação. Fora desses dois segmentos, os cânceres podem ocorrer em qualquer outra parte do corpo, idades e condição socioeconômica, inclusive e estranhamente no feto em formação.
Algumas formas, como os cânceres de colo uterino, absolutamente, passíveis de diagnósticos precoces por meio do exame preventivo, têm forte relação com infecções de vírus no colo uterino e certas condições traumáticas: precocidade das relações sexuais, muitos partos normais e repetidas infecções ginecológicas. Em incontáveis outras, não é possível estabelecer qualquer linha causal.
As pessoas continuam, com justa razão, alertas contra o câncer como a mais importante doença da atualidade. Por outro lado, os recursos médicos disponíveis não oferecem, na maior parte dos casos, respostas convincentes.
É provável que a enfermidade cancerosa seja o saldo de muitos distúrbios ainda desconheci-dos do equilíbrio celular, provocados por múltiplos fatores internos e externos à célula. Os determinan-tes intrínsecos seriam representados pelos códigos genéticos específicos para cada tipo de câncer na estrutura do genoma (como o teclado de um piano) e os extrínsecos pelos incontáveis fatores físicos, químicos e biológicos que poderiam estimular a chave genética (atuando repetidamente no teclado pro-duzindo sons desafinados).
Funcionaria, mais ou menos, assim: cada ser humano teria o seu próprio teclado de informações genéticas produzindo partituras harmoniosas e seqüenciadas em estrito equilíbrio dinâmico com os elementos circundantes externos. Em determinado momento, o teclado ao ser tocado de forma incorreta, possivelmente por influência de um ou mais fatores extrínsecos, forneceria um som estranho à partitura da organização da vida, dando como resultado o câncer.
Isso deve acontecer muito mais vezes do que supomos. Estatisticamente é pouco provável que os milhões de combinações físico-químicas efetuadas de uma só vez, a cada segundo, não comportem erros. Todos os dias o homem produz uma fantástica quantidade de proteínas sob a regência genômi-ca, que se colocadas em linha reta, alcançaria várias quilômetros de comprimento.
Certamente que estamos submetidos, durante toda a vida, aos processos cancerosos. A gran-de dúvida é saber por que as defesas imunológicas do corpo conseguem bloquear a maior parte dos cânceres e perde a capacidade para outros.
Muitos dos mais respeitados cancerologistas, como o pesquisa¬dor francês Dominique Stehelin, um dos responsáveis pela descoberta do oncogene (o fator intrínseco contido no teclado do piano) afirma que o câncer é a doença mais complicada do homem.
O exemplo mais marcante e socialmente importante é a relação entre o hábito de fumar cigarros e o câncer de pulmão. As pesquisas realizadas pelo Instituto de Câncer de Amsterdã (Holanda) mostra-ram o mesmo defeito no gene K Ras em trinta e nove pacientes fumantes.
Certos componentes da fumaça do tabaco alcançariam o décimo segundo aminoácido do gene humano (cada gene é formado por milhares de aminoácidos) causando o câncer pulmonar. Contudo, uma pessoa pode fumar a vida inteira e não morrer de câncer. Como se o seu teclado, por mais que seja estimulado, não forneça o som desarmônico.
Não existe dúvida de que a ação antitabagista conseguiu reverter a curva de mortalidade do câncer do pulmão. Pela primeira vez, em 1989, após várias décadas, o Jornal do National Cancer Institu-te publicou a comprovação epidemiológica da diminuição das mortes por ano causadas pela neoplasia pulmonar.
Como ainda não dispomos de tratamento eficaz para a maior parte dos cânceres, a política publica de saúde está voltada para o reforço do diagnóstico precoce e para as campanhas de alertas contra os fatores externos relacionados com o aparecimento de certos tipos de tumores.

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