MÃE TERRA: PRESSUPOSTO DA FOME SACIADA Do sangue à terra cultivada

As dezenas de milhares de anos nas quais os caçadores-coletores permaneceram em relação direta com a natureza animal, de onde retirava o sustento, deixaram traços bem definidos na nova adaptação sedentária, frente às mudanças provocadas pelo cultivo da terra e pastoreio.
As anteriores relações míticas do homem com o animal que predominaram no universo mítico do homem pré histórico caçador-coletor foram modificadas junto às práticas agrícolas. A ordem anterior foi substituída pela solidariedade mítica com o vegetal cultivado. O osso e o sangue foram deslocados pela terra e pelo esperma; o arado sulcava e germinava a terra, como o pênis, a mulher fértil. Ao mesmo tempo, ocorreu a ascensão da mulher no novo espaço social, reconhecida, tal como a Mãe Terra.
Essa mudança está muito forte na arte rupestre, que assumiu aspecto naturalista, ao contrário da precedente dos caçadores-coletores,predominantemente esquemática e geométrica. O simbolismo sexual se tornou evidente nas esculturas dos arados em forma de falo e das figuras femininas obesas com enormes mamas, conhecidas como Vênus Pré históricas. O pênis ao penetrar na mulher para fecundar, naturalmente, se comparou ao arado rasgando a Mãe Terra para germinar o alimento.
Os vestígios desse universo mítico, da esperança da vida após a morte, na cultura neolítica, parecem ter recebido muitos elementos metafóricos oriundos dos novos valores da terra cultivada e renovados, periodicamente, no ciclo eterno da natureza visível.
A antiga dispersão mítica se concentrou nos valores do espaço definido: a aldeia. Nessa fase, apareceram os primeiros lugares urbanos consagrados exclusivamente à divindade – o templo -, cujos responsáveis detinham o conhecimento historicamente acumulado, para explicar o curso da natureza, por essa se portavam como intermediários do transcendente.
Essa complexa sequência da transição do imenso espaço do caçador-coletor à pequenez da aldeia, pode ter consolidado as idéias religiosas, não só pela agricultura, de onde saía o alimento, mas também no mistério da gestação, ambos inseridos na nova consciência coletiva, identificada no ritmo da vida dos vegetais, no processo eterno de renovação do mundo.
Existem exemplos de mitos que relacionam o homem ao produto da terra cultivada que garante a vida.
Os nativos da ilha do Ceram, na Nova Guiné, onde do corpo retalhado de uma jovem semi divina Hainuwele, crescem plantas até então desconhecidas, que oferecem o alimento necessário à sobrevivência. Semelhante, o mito amazônico do guaraná, do vale dos rios Andirá e Maués, descreve o drama da morte do filho da índia Onhiamuacabe e do seu renascimento através dos olhos plantados na terra molhada, dando origem do esquerdo ao falso guaraná uaraná hôp e do direito ao verdadeiro guaraná uaraná cécé que seria usado para alimentar e curar as doenças.
A significação dos mitos nascidos da relação do homem com a terra é clara: os alimentos são sagrados por derivarem da Mãe Terra.

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MÃE TERRA: PRESSUPOSTO DA FOME SACIADA De caçador-coletor à vida sedentária

As mudanças climáticas ocorridas, em torno de 12000 anos AP (Antes do Presente), na Europa, proporcionaram incríveis transformações nas relações sociais dos caçadores coletores. O recuo das geleiras provocou a migração da fauna em direção às regiões setentrionais, com substituição das estepes pela floresta, obrigando os nossos ancestrais distantes se adaptarem à nova fase.
Os elementos sagrados continuaram acompanhando os caçadores-coletores na nova trajetória de conquistas. O espaço que garantia a sobrevivência se deslocado, efetivamen¬te, em direção das terras férteis próximas aos rios e lagos.
O lago de Stellmoor, perto de Hamburgo, na Alemanha Ocidental, constitui marco desse período. Muitos objetos com forte aparência de sacralidade, encontrados nesse sítio arqueológico, datam de 8.000 anos. Um deles chamou particularmente a atenção: a estaca de pinho com um crânio de rena na sua porção mais alta. Os posteriores estudos do solo comprovaram incontáveis resíduos ósseos desse animal, com claras marcas de a carne ter sido retirada com a ajuda de artefatos de pedra. Esse fato sugere que a rena representou um dos mais importantes fontes da sobrevivência daquelas pessoais que lutavam diuturnamente contra o congelamento dos próprios corpos.
Em outra área de pesquisa arqueológica neolítica, não muito distante da anterior, foi resgatado um tronco de salgueiro com mais de três metros de comprimento, grosseiramente esculpido, se percebendo a cabeça e o pescoço de uma figura humana. O simbolismo expressado nos totens parece configurar a convivência de dois momentos distintos do universo mítico: a divinização do bicho e a do próprio homem. Dessa forma, parece lógico pressupor não ser difícil para quem já tornou sagrado o circundante, tomar para si a sagração.
A última grande modificação climática do planeta, resultante do deslocamento das geleiras, interferiu na passagem do antepassado caçador coletor à vida sedentária, quando as comunidades neolíticas optaram pela vida mais sedentária, ao contrário das anteriores, nômades.
A mudança também reconhecida como Revolução Agro Pastoril do Neolítico se processou como o produto final de combinações circunstanciais culminando com as práticas agrícolas.
É certo que não podemos estabelecer limites rígidos no tempo para situar esse aspecto civilizatório para as diferentes culturas. Contudo, é possível assimilar que os povos situados em diferentes continentes viveram situações semelhantes em fases diversas, variando de 10.000, na Mesopotâmia, a 7.000, no planalto mexicano.

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