MÃE TERRA: PRESSUPOSTO DA FOME SACIADA De caçador-coletor à vida sedentária

As mudanças climáticas ocorridas, em torno de 12000 anos AP (Antes do Presente), na Europa, proporcionaram incríveis transformações nas relações sociais dos caçadores coletores. O recuo das geleiras provocou a migração da fauna em direção às regiões setentrionais, com substituição das estepes pela floresta, obrigando os nossos ancestrais distantes se adaptarem à nova fase.
Os elementos sagrados continuaram acompanhando os caçadores-coletores na nova trajetória de conquistas. O espaço que garantia a sobrevivência se deslocado, efetivamen¬te, em direção das terras férteis próximas aos rios e lagos.
O lago de Stellmoor, perto de Hamburgo, na Alemanha Ocidental, constitui marco desse período. Muitos objetos com forte aparência de sacralidade, encontrados nesse sítio arqueológico, datam de 8.000 anos. Um deles chamou particularmente a atenção: a estaca de pinho com um crânio de rena na sua porção mais alta. Os posteriores estudos do solo comprovaram incontáveis resíduos ósseos desse animal, com claras marcas de a carne ter sido retirada com a ajuda de artefatos de pedra. Esse fato sugere que a rena representou um dos mais importantes fontes da sobrevivência daquelas pessoais que lutavam diuturnamente contra o congelamento dos próprios corpos.
Em outra área de pesquisa arqueológica neolítica, não muito distante da anterior, foi resgatado um tronco de salgueiro com mais de três metros de comprimento, grosseiramente esculpido, se percebendo a cabeça e o pescoço de uma figura humana. O simbolismo expressado nos totens parece configurar a convivência de dois momentos distintos do universo mítico: a divinização do bicho e a do próprio homem. Dessa forma, parece lógico pressupor não ser difícil para quem já tornou sagrado o circundante, tomar para si a sagração.
A última grande modificação climática do planeta, resultante do deslocamento das geleiras, interferiu na passagem do antepassado caçador coletor à vida sedentária, quando as comunidades neolíticas optaram pela vida mais sedentária, ao contrário das anteriores, nômades.
A mudança também reconhecida como Revolução Agro Pastoril do Neolítico se processou como o produto final de combinações circunstanciais culminando com as práticas agrícolas.
É certo que não podemos estabelecer limites rígidos no tempo para situar esse aspecto civilizatório para as diferentes culturas. Contudo, é possível assimilar que os povos situados em diferentes continentes viveram situações semelhantes em fases diversas, variando de 10.000, na Mesopotâmia, a 7.000, no planalto mexicano.

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O cólera no Amazonas imperial

O cólera chegou ao Pará, em 15 de maio de 1875, a bordo da galera portuguesa ?Defensor?. O diário de bordo descreveu a agonia dos trinta e cinco dias de viagem, entre a cidade do Porto (Portugal) à Belém (Pará), retratada na morte de trinta e seis passageiros.
Nos dias que se seguiram, os registros sugerem ter havido pressão de interesses escusos e incompetência para que a galera fosse autorizada a desembarcar sem qualquer controle sanitário.
O cólera-morbo desembarcou em Belém e continuou a viagem, poucos dias depois, para Óbitos e Manaus, a bordo do vapor Tapajós, com os trinta e dois colonos estrangeiros, que desembarcaram em Óbitos, e quarenta militares do 11º Batalhão de Caçadores que se dirigiam para Manaus. Na semana seguinte, o cirurgião do Corpo de Saúde do Exército, comunicou que dois soldados do 11º Batalhão de Caçadores estavam contaminados com cólera-morbo.
É possível que a Companhia de Comércio e Navegação do Auto Amazonas, proprietária do Tapajós, concessionária da exclusividade da navegação à vapor, no rio Amazonas, tenha pressionado as autoridades da Província para a ocultação da gravidade da epidemia. A notícia chegada da mortal enfermidade alarmaria outros imigrantes estrangeiros, que implicaria em prejuízos à Companhia do Visconde de Mauá, representante dos interesses da Inglaterra na Amazônia.
O fluxo migratório de colonos europeus para a Amazônia começou em 1854, um século depois do fracasso do Diretório Pombalino, coordenado pela mesma Companhia com objetivo de substituição da mão-de-obra indígena, para melhorar a produção agrícola.
O medo coletivo da morte fora de controle, sem alternativas de tratamento, as pessoas apavoradas propuseram muitos remédios, desde o cozimento concentrado de goma arábica, até as infusões de folhas medicinais, sempre acompanhadas dos purgativos. Porém, o maior sucesso se voltou ao suco de limão concentrado como a grande revelação para o tratamento do cólera-morbo, principalmente para os pobres, a maioria da população, que não podiam pagar as extravagantes combinações farmacológicas dos médicos.
A notícia de milhares de novos casos no interior da Província aumentava o medo. Na localidade de Cametá, com a população de seis e sete mil habitantes, o número de mortes chegou a cinquenta pessoas por dia. O Presidente da Província do Pará, impressionado com a gravidade da situação fez visita no local e morreu vítima do cólera-morbo a bordo do paquete Rio Negro, quando regressava da viagem.
A busca dos culpados por meio da expiação dos pecados tomou corpo. O bispo de Belém, acreditando que a ira divina só poderia ser aplacada com rezas e penitências, promoveu com a autorização do Presidente da Comissão de Higiene, concorridas peregrinações e ritos que acabaram por se constituir em um momento facilitador da propagação do bacilo.

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