O HORROR DA LEPRA

Poucas doenças causaram tanto horror e sofrimento quanto a lepra.

A palavra zaraath, oriunda da tradi-ção oral do hebreu, apareceu no Antigo Testamento, entre os anos 587 e 538 a. C.. As passagens descritas no Levítico, onde essa palavra é encontrada, foram traduzidas equivocadamente para o grego, na Bíblia dos Setenta, destinada aos judeus da Dispersão, como sendo sinônimo de lepra.

Posteriormente, a versão latina, a Vulgata, manteve a mesma erronia compreensão.

Sob a terrível marca de doença ligada ao castigo divino, em poucos séculos, a lepra alcançou o Sudeste da Ásia, a Indonésia e o Leste do Japão. Transportada pelos exércitos de Dario e Alexandre, alcançou o Oeste e o Oriente. Os comerciantes fenícios contribuíram na difusão mediterrânea e as legiões romanas se encarregaram de propagar na Europa e no Oriente médio.

A lepra como forma específica e temida de doença estava assentada, na Europa, no século XI. Naquele contexto, de miséria e fome, as fontes são generosas para estabelecer os parâmetros da representação coletiva do medo da lepra. Esse aspecto da doença, na Europa medieval, envolveu dois aspectos: o primeiro, certamente, pelo aumento assustador da incidência, inclusive nas parcelas mais abastadas da população; o segundo, a deformidade do corpo, notadamente, da face e das extremidades, proporcionada pela doença avançada, impondo, por si mesma, a certeza do castigo divino.

É notável o estreito elo entre a severa exclusão social e o controle sexual dos leprosos. Era corrente a aceitação da absoluta necessidade de controlar os impulsos da presumida sexualidade exacerbada dos doentes, impedindo o contato com o cônjuge ou eventuais parceiros.

Durante toda a Idade Média, a busca dos culpados dessa terrível doença alcançou, uma vez mais, os ju-deus, mesmo nos guetos, eram acusados de modo vil das mais variadas conjuras, envenenamentos e feitiçaria, capazes de provocar a lepra, seguindo-se os massacres impiedosos de centenas de famílias judias.

Os leprosos foram escolhidos no Terceiro Concílio de Latrão (1179), sob o pontificado de Alexandre III (1159 -1181), para receberem tratamento especial dos cristãos; ao mesmo tempo, foi reprovado o isolamento a que eles estavam submetidos pela sociedade. A Ordem de São Lázaro foi criada para dar cumprimento às ordens conciliares e o grão-mestre deveria ser sempre um leproso
O avanço da doença foi extraordinariamente rápido. No século XIII, na Europa, já existiam mais 19.000 Xenodochium pauperum, debilium et infirmorum (hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos), a maior parte funcionando como leprosários, quase todos construídos com donativos de pessoas que associavam a caridade à salvação pessoal.
Nessas circunstâncias, bastava a simples denúncia do vizinho ou parente para que fosse iniciado o rápido processo de julgamento, em tribunais especiais reconhecidos pelos julgadores laicos e religiosos. Na cidade de Arlés, na França, no século XIV, em cada 27 de maio, as pessoas efetuavam as denúncias da existência de leprosos. Se considerado culpado de ser leproso, a pessoa era isolada em um dos muitos Xenodochium disponível, administrados pelos religiosos das Ordens dos Hospitalários de São João, dos Antoninos e do Espírito Santo.
Em quase cinco mil anos de história, felizmente, a lepra é uma doença infecciosa perfeitamente tratada e curável.

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18 DE OUTUBRO: O DIA DO MÉDICO COMO MARCO DA LUTA PELA VIDA

A epopéia para empurrar os limites da vida representou um dos principais fatores para o aparecimento dos agentes da cura: da benzedeira ao médico; materializa na Medicina como especialidade social.
Os registros da arqueologia mostram a existência de práticas de curas, em comu-nidades ágrafas de caçadores coletores. As craniotomias pré-históricas, realizadas há 10.000 anos e os vários ossos de hominídeos achados apresentando sinais de fraturas consolidadas, são inequívocas comprovações da ação intencional de alguns indivíduos do grupo para abrir o crânio e imobilizar o membro fraturado.
Curar é uma palavra mágica porque interliga o sagrado com o profano. O ato de curar traz na sua essência o poder ou a sensação de vencer o maior de todos os obstáculos da vida: a morte.
Este é o ponto básico da principal resistência humana: vencer a morte inevitável!
O fato está claro na mitologia grega. A data atual de comemoração do dia do mé-dico ? 18 de outubro ? corresponde, à época em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Asclépio, o deus da Medicina grega.
Asclépio conquistou uma fama inimaginável. Tinha a delicadeza do tocador de harpa e a fina habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os serviços médicos de Asclépio. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios das Ciclopes. Zeus matou o filho de Apolo porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreição dos mortos.
O deus da Medicina grega deixou duas filhas ? Hígia e Panacéia ? e dois filhos ? Machaon e Podalírio. As duas mulheres se tornaram famosas pelos conhecimen-tos empíricos ligados à higiene e às plantas medicinais. Os dois homens foram reco-nhecidos como médicos guerreiros praticando a cirurgia, na guerra de Tróia, e foram citados nominalmente por Homero (Ilíada, 830).
Muitas esculturas e afrescos retratando Asclépio e a sua filha Panacéia, feitos entre os anos 400 e 100 a. C.,contêm a serpente enrolada em um bastão, como símbolo do renascimento.
O poder da divindade, artisticamente construído, mantendo a primazia sobre a morte, foi revigorado pela gradativa consolidação do cristianismo como religião do-minante. O calendário cristão manteve o dia 18 de outubro como o registro festivo para marcar o nascimento de Lucas, o evangelista médico.
A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sin-cretismos religiosos da história. A primeira, símbolo da imortalidade embaixo da terra, e a cruz como a representação do inatingível acima da terra, fecham o ciclo mítico pendular entre o desconhecido situado acima da cabeça e abaixo dos pés do ho-mem.
Ainda estamos angustiantemente longe de compreender os mistérios da vida. Contudo, não é sem razão que os médicos comemoram, muitos sem saberem por-que, o dia 18 de outubro como marco da resistência à morte inevitável.

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