A CIRURGIA COMO ARTE

A cirurgia, no passar dos milênios, continua mantendo a mesma característica básica – a arte trabalhada no próprio homem ? onde a luta contra a dor e a morte é o pilar sustentador do início, meio e fim.
Da primeira amputação cirúrgica realiza, em torno de 25.000 anos, no Monte Zagros, no Iraque, até os transplantes, a cirurgia guardou íntima relação com a busca da perfeição do corpo no arquétipo divino antropomórfico.
É possível comparar a cirurgia com a pintura ou outra expressão da arte humana. Quando o cirurgião consegue retirar o câncer da tireóide ou o da laringe ulcerada, desenvolve um conjunto de gestos que é indissolúvel da arte. A sensação da obra terminada, na cirurgia, não deve ser diferente da sentida pelo pintor ao terminar o quadro ou a do compositor ao ouvir a música.
Os gregos reconheceram a importância da cirurgia para a Medicina. Os livros escritos, na escola de Cós, na Grécia antiga, em torno do 4 século a. C., atribuídos a Hipócrates, contêm volumosa referência à prática cirúrgica.
Com o avanço conquistador dos romanos e a organização militar desse povo, grandes hospitais militares foram construídos, nas principais cidades do Império, para receber os soldados feridos em combate. Nessa fase, a cirurgia alcançou grande desenvolvimento, principalmente no tratamento das feridas traumáticas de guerra. É dessa época que os estudos de Herófilo (340-? d. C.) e de Eresistrato (330-? d.C.) identificaram a tireóide, a próstata, o estômago, o duodeno, o sistema nervoso além de diferenciar o tendão do nervo.
A partir da ascensão do cristianismo, a partir de Constantino, no século 4, a Medicina começou a absorver o sentido de caridade e perdeu parte das conquistas em torno da técnica.
Os reinos cristãos edificaram os hospitais para abrigar os indigentes – nosocomia. A partir dessa fase, entre os séculos 6 e 7, iniciou o período muito difícil para os cirurgiões. Em conseqüência das restrições eclesiásticas, o corpo humano não pode mais ser estudado e a guarda sigilosa, nas abadias, dos livros de anatomia escritos pelos gregos e romanos, contribuíram para que a cirurgia fosse uma atividade temida de ser exercida.
Esta situação de estorvos à cirúrgica se consolidou ainda mais no Concílio de Tours (1163), por meio da Bula Ecclesia Abohorret a Sanguine ou ?Igreja abomina o sangue?.
A cirurgia atravessou dez séculos entre severas restrições. Nesse período, os cirurgiões-barbeiros ocuparam os espaços amputando e lancetando, arrancando dentes, cortando cabelos e barbas.
A primeira resistência a essa situação ocorreu na Faculdade de Medicina de Montpellier. Alguns cirurgiões, liderados por Jean Pitard (1238-1315) fundaram a Confraria de Cirurgiões, sob a proteção de São Cosme e São Damião e se separaram dos barbeiros.
A cirurgia foi incorporada, definitivamente, como especialidade médica a partir de 1436, quando os antigos cirurgiões-barbeiros ingressaram na Faculdade de Medicina de Paris.
Com a utilização da anestesia, a partir de 1846, e da anti-sepsia, em 1867, finalmente, o cirurgião pôde debruçar-se por mais tempo nos objetos da sua arte ? os corpos ? e reunir esforços para empurrar os limites da dor e da vida.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário

BUSCANDO A SAÚDE NA ASTROLOGIA

O encantamento da astrologia, como prática divinatória indicando caminhos para melhorar a saúde e evitar a morte, consolidou-se nos primeiros núcleos urbanos, pelo menos há quatro mil anos.
É difícil separar a astrologia das antigas crenças e idéias religiosas. Os ves-tígios dessa intrincada dependência podem ser rastreados em alguns registros em escrita cuneiforme, nas tábuas de argila, na Mesopotâmia, do segundo milênio a.C.: o sinal gráfico correspondente ao divino é o mesmo da palavra estrela. Os deuses babilônicos, Schamasch, Sin e Ischtar, eram os guardiões do céu sob a forma do Sol, da Lua e do planeta Vênus.
Dessa forma, a força social da astrologia para manter a saúde, na atualida-de, não deveria causar tanta admiração. Muitas palavras atuais estão repletas de significado astrológico. O prefixo latino menstruus, que originou ?menstruação?, está ligado ao processo repetitivo de vinte e oito dias do mês lunar.
Para estarem mais próximos dos astros ? representação física dos deuses – os homens construíram tempos nas montanhas próximas mais altas: os chineses, no Himalaia; os japoneses, na Fuji; os gregos, no Olimpo e os hebreus, no Sinai. Onde não existia montanha, os povos construíram pirâmides. Os mais antigos exemplos, os zigurates, na Mesopotâmia, com o topo dedicado à morada e culto dos deuses.
Apesar das adaptações adquiridas frente aos movimentos sociais, a astro-logia divinatória conservou a primitiva estrutura de sedução: utiliza a adivinhação dedutiva, a partir da interpretação do movimento astral.
No Império de Augusto, em Roma, a administração adotou a semana planetária de sete dias. Com a gradativa cristianização, os primeiros padres inicia-ram uma forte resistência ao culto do Sol, identificado com o deus egípcio Mitra. A resistência está muito clara no Evangelho de São Paulo, repreendendo os Gála-tas (Gl 4,8-10), que continuavam adorando as mesmas divindades do politeísmo, para identificar os dias e os meses.
Os médicos medievais ao utilizarem a concepção neoplatônica de similitude entre o macrocosmo e o microcosmo conduziram ao extremo seus prognósticos astrológicos, criando situações bizarras. A saúde, a doença, o sexo e a procriação estavam sob a decisiva influência dos astros. Entre as muitas contra-indicações para realizar uma cirurgia, era aceito pelos cirurgiões que se a Lua estivesse no signo zodiacal do paciente, a complicação pós-operatória seria conseqüência da umidade do planeta sobre a ferida operatória.
O Renascimento europeu reafirmou o prestígio da astrologia. Os reis e pa-pas só seriam coroados, se a data fosse de presságio auspicioso. As ricas resi-dências, capelas, igrejas, abadias ficaram repletas de afrescos, ampliando a glória do poder astral.
A certeza coletiva de que os planetas determinavam o rumo da vida era de tamanha solidez que a estatística de mortalidade da cidade de Londres, no ano de 1632, registrou treze mortes por planet ou pela influência do planeta.
Nos dias atuais, o astrólogo continua atuando como curador, diminuindo a insegurança em relação ao futuro desconhecido e a morte temida.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário