O DESVENDAR DO BELO NOS CORPOS MORTOS

A História evidencia que o estudo do corpo humano, escondido pela pele, encontrou muitas dificuldades nas estruturas de poderes, especialmente, das reli-giões monoteístas. A justificativa da resistência esteve contida no dogma de o homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus.

JUDAÍSMO

Com o pressuposto de o homem representar a cópia fiel de Deus nada justificaria a abertura do corpo morto para o aprendizado. O naturalmente desconhecido ? o escondido atrás da pele – fazia parte do milagre criador.

Por essa razão, só estudaram os cadáveres insepultos dos heréticos e con-dena¬dos (Talmud, Bekhoroth 45a. = Um dia os discípulos de Rabin Ismael disse-caram o corpo de uma prostituta que o governante tinha condenado à figueira…). CRISTIANISMO O cristianismo introduziu certa oposição entre o físico e o espiritual (Mt 10,28). O ser humano, concebido no corpo e espírito, deveria ser o instrumento para servir a Deus ( 2Cor 5,10 .

É interessante assinlar que o Novo Testamento (NT) manteve do Antigo Testamento (AT) o sentido mítico para o sangue (Mt 16,17 e 1Cor 15,50). A nova e eterna Aliança foi selada por Jesus com o seu próprio sangue (1Cor 11,25 = Do mesmo modo, após a ceia, tomou o cálice dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei o em memória de mim).
ISLAMISNO

A palavra anatomia em árabe – ilm al tasrib – é precedida pela raiz saraha que significa literalmente trinchar, cortar, separar, atada ao contato com o sangue coagulado.

Como o islamismo entendeu a criação dependente e seqüenciada (Sura 23,13 14 = Depois, transformamos o esperma em coágulo, e o coágulo em óvulo, e o óvulo em osso, e revestimos o osso com carne. E era mais uma criatura. Lou-vado seja Deus, o melhor dos criadores), a inevitável intervenção da dissecção anatômica, dilacerando a carne, também recebeu forte resistência.

CORPOS DESVENDADOS

A decomposição da ordem feudal contribuiu para que o desejo de conhecer o que estava encoberto sob a pele vencesse a interdição. No Renascimento europeu, cirurgiões e pintores começaram o movimento para levantar o véu opaco que cobria os músculos e as vísceras.
A emocionante harmonia do corpo desvendado vibrou os pincéis dos pinto-res. A sensibilidade de Leonardo da Vinci (1452 1519) buscando a profundidade da forma produziu desenhos perfeitos dos ossos, das artérias e veias. O belo dos corpos mortos conduziu Rembrandt (1606 1669) na tela ?Lição de Anatomia do Dr.Tulp?. Esse quadro eternizando a majestade do cirurgião e os semblantes ple-nos de admiração dos alunos, inflados de fascínio, como os desenhos anatômi-cos de Leonardo, também reforçam do quanto o desvendar do corpo moto encan-tou os homens.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário

HISTORICIDADE DA DEONTOLOGIA MÉDICA

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Na tese de doutorado do professor Derrien, defendida na Universidade de Paris, em 1955, intitulada “A ética médica”, firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do homem e da mulher.

O entendimento do eminente professor, ligado à virtude kantiana, as práticas médicas obrigatoriamente estariam atadas ao “bem”, ao “bom”, estreitando os vínculos das ações médicas, de modo geral, ao controle da dor e adiando os limites da vida. Dessa forma, é inadmissível pensar a Medicina como especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na maior parte das abordagens teóricas referenciais.

Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado que ligam a ética médica à boa prática, entendidos pelo senso comum como bons resultados atados às ações que sempre devem trazem melhorias à vida pessoal e coletiva.

Esse conjunto normativo entre ética e moral culminou, na Grécia, com o aparecimento do conceito de deontologia (do gr. déontos, “o que é obrigatório, necessário” + logia), que evoluiu para “o estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral”.

A palavra deontologia ligada à prática médica, em torno da ética e da moral, apareceu pela primeira vez, em 1845, no Congresso Médico de Paris, no trabalho do médico M. Simon intitulado “Deontologia médica ou dever e direitos dos médicos no estado atual da civilização”.

De modo geral, os códigos de deontologia médica comportam três fundamentos estruturantes: respeito à vida e dignidade do doente; liberdade do médico para exercer a profissão, doente deve manter a liberdade de escolher o médico para dirigir o tratamento.

Essa plena liberdade dos médicos e dos doentes, aderida ao conjunto de explicações por meio dos “termos de consentimentos livres e esclarecidos”, devem ser entregues aos doentes, para maior conhecimento da doença e tratamento proposto;

– O médico é responsável pelos seus atos entendidos como valores de competência amparada na ciência.

Algumas das maiores dificuldades conceituais da deontologia médica têm sido estabelecer parâmetros para separar a má-prática dos maus resultados, muitos secundários aos incontáveis vetores de incertezas e variáveis que regem o funcionamento do corpo. Sob essa ótima, os conceitos e julgamentos das más práticas e maus resultados variam nos tempos e nas sociedades.

 

Publicado em ÉTICA MÉDICA-BIOÉTICA | 1 Comentário