MITOS DO ETERNO RETORNO

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

Não tem sido fácil para o Homem, ao longo do seu processo de transformação sócio-cultural, compreender o ritmo cíclico que move a Natureza, como a moite e o dia, as flores da primavera depois do gelo do inverno, as fases da lua, as estrelas do céu, a vida e a morte.

Mesmo com toda a tecnologia disponível na atualidade, que incluem os satélites artificiais e as gigantescas estações metereológicas, é impossível prever com segurança  os terremotos, os maremotos  e as tempestades que causam modificações significativas no volume dos rios.

Desse modo, é facil imaginar o que significou esse fato nos grupos sociais que viveram há centenas e mesmo  milhares de anos atrás quando a oncorrência dos imprevistos da Natureza poderiam acarretar a morte dos seus membros pela destruição das colheitas e das cidades.

Para que se alcance a compreensão da importância do ritmo da Natureza no incosciente coletivo é necessãrio repassar as primitivasa relações do Homem com os outros animais e com a Mãe-Terra.

A partir do tempo em que os nossos ancestrais conseguiram modificar o curso da Terra, transformando-a na sua relação com o Tempo, o fruto desta conquista foi incorporado ao ritmo cíclico da própria natureza.

A chegada da primavera, ano após ano, significava sempre do eterno retorno do Homem à terra.

Nessa evolução lenta, consolidada ao lado da luta pela sobrevivência, as primeiras relações que o homem teve com os outros animais foram substituídas pela nova intimidade com a Terra. O sangue e a ocra vermelha qque simbolizavam a essência da Vida, cederam lugar para a semente e ao esperma, quando a Mãe-Terra era penetrada e germinada pelo arado.

A colheita do fruto vindo da Mãe-Terra passou a ser celebrada do mesmo modo que o nascimento dos filhos que nasciam da Mãe-Mulher.

É evidente que  essas concepções metafísicas do mundo arcaico nem sempre foram formuladas numa linguagem teórica, mas o símbolo, o mito e o rito podem exprimir um complexo sistema de valores coerentes entre si.

não teremos êxito de tentarmos  procurar nas línguas antigas os termos que hoje utilizamos para designar alguns eventos coletivos. Entretanto, a falta da palavra tal como  entendemos hoje, não deve significar a negação do fato.

Pode ter sido sobre esse antecedente que o homem absorveu e se integrou no rítmo cíclico da Natureza dando às coisas um valor intrinseco.

a pedra banal, a pérola achada no fundo do mar dentro da concha e a árvore só terão o valor simbólico se assim o homem determinar. Nesta sacrilização dirigida pela vontade do homem a coisa é transformada em ser, assumindo o lugar que ele próprio não alcança.

Um dos exemplos que nos ffanscinou foi na velha e milenar Jerusalém. No centro da Igreja que envolve o Santo Sepulcro tem um pedaço de mármore branca intensamente gasta pelo atrito das mãos de milhões de cristãos que acreditam existir nele uma força divina porque sobre ele teria sido colocado o corpo de jesus, o Cristo.

Nessa ocasião, conersamos longamente com um dos religiosos jesuítas que está em permanente vigília no Lugar Santo. Ficamos sabendo não existir qualquer documento histórico daquele pequeno sepulcro ter sevido a Jesus depois que foi retirado da cruz.

Esta dúvida da veracidade não tem qualquer importância para os cristãos. Eles transformaram a coisa – o mãrmore – em ser.

 

Entretanto, alguns atos humanos que não dependem do simples automatismo, envolvem  na sua realização o simbolismo da repetição do primeiro ato mítico que se perdeu no tempo.

A alimentação significa para o homem muito mais que o mecanismo de engolir o alimento. Ela é a comunhão do homem com a Mãe-terra produtora do pão e do vinho. Não é sem motivo que as celebrações  que se  perpetuaram eram feitas durante as refeições simbólicas, onde o pão e o vinho, ambos filhos da Mãe-Terra, estão sempre presentes.

o homem na sua ignorância do todo , reproduz eternamente as ações que já foram vividas antes por outro. tudo o que ele faz já foi feito.  A sua vida é uma repetição dos gestos inaugurados anteriormente.

É possível dividir a documentação que possibilita demonstrar esta teoria em três grupos.

  1. Achados que mostram o homem arcaico acreditando na realidade como função da imitação de um arquétipo celeste;
  2. Fatos que mostram como a realidade é dada através da participação no simbolismo do centro: cidades, templos, casas, tornam-se reais pelo fato de serem identificados com o centro do mundo.
  3. Os rituais e os gestos profanos significativos que só assumem o valor que lhes é atribuído por repetirem deliberadamente os mesmos atos feitos na origem pelos deuses, heróis e antepassados.

Todas as religiões conhecidas têm nas suas cosmovisões os ritos, mitos e símbolos que podem se enquadrar nestas alternativas.

Só muito raramente podemos testemunhar a transformação de um acontecimento em mito. Este torna-se mais verdadeiro na medida em que confere ao evento um sentido mais profundo e mais rico no conjunto sócio-cultural onde se efetiva.

Durante centenasa de anos atrás o dia 25 de dezembro era a festa de comemoração do soltíscio do inverno, consgrado ao Sol, cuja luz e calor começavam a prevalecer sobre a noite e modificar a Mãe-terra. a festa paga do  dies solts invicti natalis, ou seja, o dia do nascimento do Sol invicto, era celebrada no dia em que coincidia com os meados da saturnália ou a estação durante a qual os trabalhos paravam. nesse dia, quando o Sol começava a se dirigir para o Norte, as casas eram decoradas com árvores, presentes eram trocados entre amigos e parentes, ceias e procissões eram realizadas entre os povos pagãos em homenagem ao Sol.

É comum encontrar entre os primeiros escritos cristãos a comparação de Cristo com o Sol. É provável que ambos façam parte do grande conjunto de religiões de origem heliostática.

entre os vários pontos comuns dessas religiões está o número doze. os romanos tinham doze grandes deuses e cada um deles presidia a um mês. os gregos e os egípcios também tinham doze divindades e os cristãos formaram os doze apóstolos.

Durante os primeiros séculos da Era Cristã se festejava em todo o Império Romano a festa do deus Mitra o deus asiático difundido pelas tropas romanas, no dia 25 de dezembro, como celebração do mesmo renascimento do Sol.

Mitra era o Natalis Solis, o deus salvador e vencedor invencível. como os primitivos cristãos também comemoravam esta data, é provável que os teóricos do cristianismo tenham decidido transformae o dia 25 de dezembro para representar o nascimento de Jesus.

Em 194  d.C. Clemente de Alexandria propôs a data de 19 de novembro do ano 3  a.C., enquanto outros   pretendiam que o nascimento ocorresse em 30 de maio ou 19 de abril. enfim, não se tem qualquer comprovação para afirmar que Jesus tivese nascido nesta ou naquela data.

 

É interessante notar que algumas seitas primitivas parecem apontar que o Cristianismo teria as suas raízes históricas no primitivo culto solar. os maniqueus diziam que o sol  era o próprio Jesus. do mesmo modo qque cirilo de Jerusalém e teodoro faziam a mesma afirmação. Segundo São Leão, os os maniqueus colocavam que a alma tinha a substância do Sol com o seu calor e que depois da morte ela retornava para a sua origem.

O indiscutível é que nos Evangelhos não existe qualquer referência sobre o dia 25 de dezembro. esta citação só foi encontrada, apesar de toda a busca dirigida pelos exegetas, entre os séculos III e IV. Mas foi somente em 525 que Dionísio, o Pequeno, fixou o nascimento de jesus em 25 de dezemvro do ano 754  aburbe condita (depois da fundação de Roma).                      (depois da fundação de Roma).

Os armênios ficaram durante muitos anos resistentes a esta determinação e chegaram a chamar os membros da Igreja romana de idolatras por estarem adorando o solstício do inverno. Na inglaterra, o Parlamento, sob forte influência puritana, proibiu em 1644 as comemorações do Natal.

Nos países com tradição cristã foi acrescentado à festa pagã do solstício do inverno, o hábito de dar presentes, como repetição do ato dos reis Magos que deram presentes ao recém-Nascido.

Na tradição francesa é o bonhomme Noel, correspondente ao Papai Noel, quem desce do céu trazendo presentes para as crianças boas, enquanto o seu companheiro Père Fouettard, deixa açoites para as más. Às vezes é o próprio menino Jesus quam distribui os presentes. Noutros países é São Nicolau ou Santa Claus.

A Árvore de Natal é de origem bem mais recente. É possível que tenha  aparecido primeiramente na Alemanha, há cerca de cento e cinquenta aos atrás, revivendo a festa primitiva do pinheiro de maio. alguns historiadores acreditam que esta celebração é uma variante da do solstício de inverno.

A ligação das festas do Ano Novo com o mito do eterno retorno é bem mais simples, porque ela ficou propositalmente ligada _às suas raízes pagãs.

O estudo de algumas sociedades com organização simples, mostra que existem nelas muitos anos novos. Eles são festejados várias  vezes por ano, quando se cultivam diferentes espécies de cerais e frutas, cujos amadurecimentos são conseguidos ao longo do ano.

Isso significa que os cortes no tempo – os anos novos – são consgrados aos elementos que participam na manutenção da vida da comunidade.

O atual sentido de tempo que nós, os ocidentais, aceitamos como verdadeiro é muito particular da nossa época. Entretanto, em diferentes compreensões da realidade, é possível comprovar que após cada nova medição é anulada a anterior e pr esta razão é valorizado o culto ao novo tempo que virá. Esta  característica do incosciente coletivo sempre foi fartamente manuseada nas propagandas políticas.

A antiguidade e a uniersaçidade das crenças relativas à Lua são suficientes para confirmar a busca do homem para achar a justa medida do tempo. A lua serviu e serve até hoje para situar o homem junto ao cosmo inatingível.

Nas línguas indo-européias as palavras que designam o mês e a Lua derivam da raiz me, que em latim deu mensis e metior: medir.

As fases da Lua, o aparecimento, crescimento, diminuição, desaparecimento seguido de nova reaparição depois de três dias de escuridão, desempenharam um papel importante na fixação da regularidade cíclica da natureza.

 

É esta repetição – O eterno Estorno – que ajuda o Homem dar algum sentimento para a vida.

o Natal e o Ano novo são partes desse conjunto.

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MIGUEL SERVET : O MÉDICO HEREGE

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

O DIA 27 DE OUTUBRO É MARCADO PELA TRISTE LEMBRANÇA DA EXECUÇÃO DO MÉDICO EESPANLHO MIGUEL SERVET EM GENEBRA NO ANO DE 1553.FOI O RESULTADO FINAL DA PRSEGUIÇÃO IMPLACÁVEL DA INTOLERÂNCIA IDEOLÓGICA DOS CATÓLICOS E PROTESTANTES.

 

Ele teve o privilégio de ter incomodado igualmente a ambos. Foi queimado em imagem pela igreja Romana e levado ao fogo lento da madeira verde pelos calvinistas.

Além do impacto que até hoje a sua morte dramática e cruel representa, servet foi uma figura fascinante no conjunto renascentista pela liderança que exerceu no protestto incansável e veemente do abuso do poder exercido pelo papado e que se renovou no protestantismo emergente.

Esse singular médico espanhol nascido em 1509 na aldeia de Villanueva de Sigena, fez uma das mais importantes contribuições  no estudo na pequena circulação do AR com a VIDA.

É indispensável rever alguns aspectos da Espanha intolerante das cruzadas que se aliou aos cristãos para expulsar os árabes. A caça impetuosa aos não-cristãos, judeus e muçulmanos, atingiu o seu ponto máximo. Aparentemente nada de racial era imposto nesta infernal situação, porque os árabes e judeus eram aceitos se fossem submetidos ao batismo. milhares deles concordaram em serem levados à pia batismal. os que não cederam às pressões do poder inquisicional de Torqueada, foram imobilizados nas prisões ou deportados para o Novo  Mundo. milhares de prisioneiros  da consciência foram mortos nas fogueiras para servirem de exemplo e inibir a dúvida.

Miguel Servet estudou na Universidade de Tolousse, em 1530, que tinha nesta época algo em torno de dez mil alunos e seiscentos professores (quase o dobro da totalidade da Universidade do Amazonas). Foi lá que estudou Direito e fez seu primeiro protesto contra o Código Justiniano que legislava a pena de morte a todos que negassem a doutrina da trindade.

muitos deles, depois de batizados, foram incorporados na alta hierarquia da igreja. Um dos exemplos foi Pablo de Santa Maria Bispo de Burgos que era judeu e foi o responsável por grande parte dos estudos de Servet.

Foi a partir da leitura atenta a crítica da Bíblia que Servet comprovou a absoluta ausência de qualquer referência a Trindade. Ele escreveu no seu livro ” Sobre os erros da Trindade” (De Trinitatis erroribus), publicado em 1531, depois de analisar as implicações ideológicas do poder romano, que a doutrina da Trindade é um conjunto de sofismas com origem no Concílio de nicéa, no ano 325, coincidindo com a primeira grande quebra na unidade ideológica da igreja e com o começo do poder temporal do papado.

Nos anos que se seguiram ele se tornou conhecido nos centros acadêmicos da Europa renascentista. É provável que tenha sido editado várias vezes o seu livro De Trinitatis errobus e milhares de pessoas letratas o tenham lido.

Esta afirmação foi reforçada recentimetne pela pesquisa feita pelo historiador Carlo Ginzburg no Arquivo da Cúria Episcopal de Udine, Itália, em 1970. No seu estudo dos documetnos inquisitorais da seita Friuli, cujos membros foram identificados como bruxas e curandeiros, chamou a sua atenção o volumoso processo do  longo julgamento e da condenação do moleiro Domenico Scandella, conhecido como Menocchio.

 

S publicação do resultado desse estudo o consagrou na literatura com o livro II formaggio e I vermi. II cosmo di un mugnaio ”500”. No Brasil foi editado pela Companhia das Letras com o título ” O quijo e os vermes. O cotidiano de um moleiro peseguido pela inquisição”

no desenrolar do realto o historiador conclui que é muito provável que o moleiro Menocchio tenha lido  De trinitatis erroribus de Miguel Servet e que dofreu agudamente a influência do ideário do m+edico espanhol.

Existe incrível coincidência em algunapontos que serviram como base para a pena de morte na fogueira do moleiro e o conteúdo do livro de Servet.

carlo Ginzburg reproduziu alguns trechos do interrogatório sofrido pelo moleiro menocchio, onde ele afirmou:  ” Minha dúvida e que Cristo (…) não tivesse sido Deus, mas um profeta qualquer, um homem de bem que Deus mandou pregar neste mundo (…). Eu acredito que seja homem como nós, nascido de um homem e de uma mulher como nós, e que não tinha nada além do que recebera do homem e da mulher, mas é bem verdade que Deus mandara o Espírito Santo escolhê-lo como seu filho?”.

Grande parte dos autos do  processo da condenação de Servet publicados por Rolnad H. Bainton da Universidade de Yale, rettrata os mesmos pensamentos: ”Pois por Espírito Santo entendia era o próprio Deus, era um anjo, era o espírito do homem, concebido ou como um certo instinto, ou a natureza divina da alma, ou o impulso da mente ou o hábito, embora às vezes se note a diferença entre o sopro e espírito”. O objetivo central de todo o discurso de Miguel Servet, tanto nas suas pulicações como perante aos inquisitores, foi demonstrar que a doutrina  da Trindade era falsa. Para isto ele utilizou com frofunda sabedoria os conhecimentos acumulados até aquela época de Tertuliano, o nominalismo de Occan até a teologia oficial e a medicina aprendida na Faculdade de Medicina da Universidade de Paris.

Se é possível achar pontos comuns no discurso de Servet e do modelo italiano, o que levouo a ambos a fogueira da inquisição, é porque muitas pessoas participavam do mesmo ponto de vista sobre a doutrina cristã da Trindade. É impossível avaliar a extenção com que os questionamentos do médico espanhol penetrou no imaginário das massas da Europa naquele tempo, porém não reta dúvida que o controle sócio-político exrcido pela igreja acionou os seus mecanismos de repressão com competência para coibir este movimento.

Foi na busca dos motivos que geraram os acréscimos na palvra espírito desde o Concílio de Nicéa e os seus elos com o  sopro vital que Servet trouxe à luz na importância do ar no processo da respiração e da pequena circulação coração-pulmão-coração, que envolve o lado direito do coração.

Ele admitia que existia uma profunda analogia entre o espírito e o sopro. Acrescentou nos seus escritos: ”Tudo que é feito pelo poder de Deus dizem que é feito por força de seu sopro e de sua  inspiração pois não se pode pronunciar uma palavra sem o sopro do espírito. Da mesma forma como não podem pronunciar uma palavra sem a respiração e por isso se fala no espírito da boca e espírito dos lábios (…). Afirmo, pois que o próprio Deus é o nosso espírrito Santo em nós (…) FIÕRA DO HOMEM NÃO EXISTE NENHUM ESPÍRITO SANTO (…)”. (Grifo nosso).

Não é possível que o moleiro Menocchio quando fazia o seu discurso aos seus amigos não tivesse embasado em conhecimentos teóricos, por menores que tenham sido, marcados pelo pensamento de Srevet, que nesta época já era conhecido e citado em várias outras fontes.

 

Em trecho reproduzido por Carlo Ginzburg do julgamento do moleiro está escrito nos autos de acusação, que Menocchio afirmou :  ” Quem é que vocês pensam que seja deus? Deus não é nada além de um pequeno sopro (…) O ar é Deus (…). o que é esse Espírito Santo? (…). Não se vê esse tal de Espírto Santo?(…).

parece ser evidente que a preocupação com o Espírito Santo e sua relação com o sopro fez parte do imagina´rio daquele grupo social e a igreja tratou de impedir, de todos os modos, que se espalhasse na massa esses questionamentos.

miguel Servet passou a não ser visto com bons olhos pela hierarquia eclesiástica. Foi o chamado pela inquisição de Zara gosa e teve que fugir para Paris. Adotou o nome de Miguel de Villeneuve provavelmente em referênciaa aldeia espanhola  onde nasceu.

Como editor, em Paris, publicou a Bíblia de Pagnani em 1542. Mais de cinco mil volumes foram sucessivamente impressos. destes só vinte e três escaparam da fúria da inquisiçaõ e hoje estão espalhados nas principais bibliotecas do Ocidente.

poucos meses depois de começar os seus estudos de medicina da Faculdade de Medicina da universidade de Paris foi acusado perante o Decano de estar fazendo uso da astrologia imediatamente redigiu a sua defesa – DISCEPTATIO PRO ASTROLOGIA – que foi   reimpressa dezenas de vezes até 1880. Nela Servet resgata os conhecimentos de Platão, Aristóteles, Pitágoras, Hipócrates e Galeno para explicar as razões pelas quais utilizava a astrologia na sua própria prática médica. Sofreu, uma vez mais, a violenta perseguição da Igreja, que proibiu a leitura  do livro com a cumplicidade da Faculdade de Medicina de Paris.

É obrigação a fugir em direção a Suíça e começa, nesta fase da sua vida, a correspondência com Calvino. Numa das cartas envia os manuscritos do CHRISTIANISMI RESTITUIO, que servirá de base para a sua condenação ao fogo calvinista.

A impressão deste livro, que trata de uma nova ordenação a igreja e da necessidade de profundas modificações na sua estrutura, foi terminada no dia 3 de fevereiro de 1553.

foi com discurso essencialmente teológico que expos no  CHRISTIANISMI RESTITUIO as suas novas concepções que modificaram para sempre o conhecimento da  pequena circulação que leva o sangue do coração ao pulmão e o traz de volta já oxigenado, para ser distribuído  por todo o corpo. Foram com estas palavras que Miguel servet explicou : ” O espírito vital se regenera nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventríloco direito do coração. Sem dúvida, esta comunicaçáo  não se faz através da perede do coração, como se acredita até hoje e sim por meio de um grande orifício o sangue é impulsionado até os pulmões (…)”.

A importância maior dessa preciosa observação  da anatomia. num tempo em que a verdade galênica era indiscutível e afirmava que a renovação do sangue era realizada no fígado, é a sua união com a certeza da indivisibilidade do homem no movimento permanente de todas as coisas.

A fé renascentista admitia de modo marcante a unidade de toda a realidade. Servet também não aceitava linhas divisórias. Esclarecer o sentido do movimento do sangue poderia abrir as portas do mistério do movimento dos astros. Esta  mesma certeza também levou Giordano Bruno ao fogo aceso pela intolerância ideológica do poder religioso, nauqele tempo o mais importante no controle social.

 

É possível que Servet tenha ido buscar também na Bíblia e sua inspiração para consolidar as suas observações da anatomia. Em Gn 2,7 estã claro a relação de unidade entre o sopro e a vida, que ele defendeu durante toda a sua curta vida: ” Então Iahweh Deus modelou o homem com argila do solo, insufiou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Pode ter sido a partir dessa citação e da Gn 9,4: ” Vós não comereis a carne com a sua alma, isto é, o sangue” que tenha consolidado a sua certeza da estreita relação entre ar e o sangue no processo do aparecimento e manutenção da vida. Servet afirmou : ” (…) a alma se localiza precisamente em algo que se move: não é no coração, nem no figado como pensava Galeno, nem no cérebro, porque são estáticos, ela reside no sangue  que se move por todo o corpo”.

No CHRISTIANISMI RESTITUTIO  ele abordou a restauração do cristianismo baseado no conjunto dinâmico das relações sociais. utilizou as suas observações anatômicas como suporte para afirmar a necessidade de mudanças na igreja, porque estava imobilizada. Por esta razão, na sua compreensão, irremediavelmente comprometida pela falsa doutrina da Trindade e pelo batismo precoce das criançasa.

foi o seu fim. O poder de Roma se uniu ao da Reforma para manutenção da unidade do controle social.

no dia 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado  vivo no fogo lento da madeira verde para aumentar  o seu sofrimento. Durante todo o processo de acusação feito pelos calvinistas em Genebra, só foi possível, apesr de tudo, acusá-lo de dois crimes: o antitrinitarismo e da sua posiçao em favor do anabatismo. Era o suficiente para que os católicos e protestantes se unissem  na destruição do inimigo comum.

A brutal perseguição e morte de Miguel Servet, o médico herege, serve ainda hoje, para a reflexão e recusa do desajuste das intolerâncias ideológicas, quaisuqer que sejam elas, na busca da totalidade indivisível do homem.

 

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