SEPARANDO A MEDICINA DOS RITOS DE CURA

Em contraponto à cura mágica da doença entendida como forma de castigo aos pecadores, as práticas médicas laicas constroem e reconstroem a busca da materialidade da doença. Desde o século 4 a.C., na Escola Medica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, inicio o processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença. Por essa razão, usando a linguagem de Bachelar, eu a entendo como primeiro corte epistemológico na busca da materialidade da doença.
A associação entre as idéias da Escola Médica de Cós à filosofia jônica possibilitou avanço gigantesco ¬? a Medicina como paidéia ? estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca laica da causa das doenças.
A Medicina como paidéia abriu o caminho ao avanço da medicina oriunda das universidades. É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis, da estrutura teórica jônica, embutidos na Medicina como paidéia:
– Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: ?…a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa?;
– Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: ?A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina?).
– Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;
– Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;
– Como divindade: a physis é em si mesma divina.
Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4e a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, o deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 a.C. (Daremberg. Oeuvres Choisies d?Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):
?Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especificada e quanto as suas mudanças. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida, deve determinar, antes de mais nada o que se refere as águas e a qualidade do solo, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima?.
Não é demais repetir que Platão (Político, 296a-b-c) sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e a do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhoras.

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PECADO E DOENÇA NO MONOTEÍSMO CRISTÃO

A extraordinária reconstrução grega da doença desvinculada do pecado atingiu os ritos romanos. Para conter o avanço do laico os teóricos da coisa sagrada impuseram regras mais rígidas para evitar o erro cerimonial nos ritos, reforçando o rito puro e novas estruturas polares piedade (pietas) e impiedade (impietas) constrói. O rito mal conduzido, gerando pecado, doença, maléfico, infelicidade, seria consertado por meio de outra cerimônia (expiatio) para anular a impureza (pecado). Nessa esteira, seguiram-se os muitos cultos gnósticos defendendo desprezo pelo corpo, pela coisa exclusivamente laica. Como seguimento, os ritos corretivos dos pecados tornaram-se violentos, impondo jejuns prolongados e flagelações sangrentas, abrindo caminho às futuras teorizações do pecado sob a égide judaico-cristão.
Desde aqueles tempos, não existia consenso em torno do pecado original. Um dos exemplos mais significativo da negativa do pecado original está fincado na fundação de Roma, quando Rômulo mata por banalidade o irmão Remo: enquanto Cícero admite o pecado, no De officius, III, 41 (peccatum), Horácio defende o pressuposto de crime, no Epodon líber, VII, 1 e 17-20 (scelus) e Virgílio, afasta a idéia de pecado.
No Antigo Testamento, nas linhas mais interessantes ligando a doença ao pecado se destaca a interseção da serpente. A idéia de pecado original no AT se mostra essencialmente voltada à ordem espiritual (Gênesis 2, 8; 3; Job 14, 1-4; Salmos 50 e Ezequiel 18, 1-32), sem a marca da transmissão à descendência.
A concepção fundamental do pecado no AT é representada pela associação com doenças, desgraças, infelicidades e provocando ações para corrigir e evitar novos pecados não mortais (Samuel, 20,1; I Reis, 2,19; II Reis, 1, 1) e pecados mortais (Deutoronômio, 14,16; 21, 22; 22,26; Ezequiel, 3, 20; Amos, 9,10). Nas duas circunstâncias, o perdão divino concedido ao pecador, gerando a cura da doença, a dissolução da infelicidade ou do nó, seria alcançado por meio da confissão individual (Gênesis, 39, 9; Josué, 7, 13-23).
Nos últimos séculos do judaísmo antigo surgiram reconstruções em torno do pecado original, como fontes de doenças, infortúnios e morte prematura, voltadas à responsabilidade de Eva, em Eclesiastes, 25-24: ?Foi pela mulher que o pecado começou e, por sua causa, todos nós morremos.?
Várias passagens dos Evangelhos descrevem a concepção judia do pecado, diferenciando os pagãos como pecadores por não cumprirem as Leis, pondo a misericórdia de Deus como possibilidade do perdão puro ? Nova Aliança. Jesus Cristo ao vencer o diabo, removeu o pecado, a doença, o aleijão, a infelicidade.
Ao contrário às raízes pré-socráticas, outra vez, a doença adere fortemente ao pecado. No medievo, os teólogos acrescentaram rigores no entendimento da doença ? como obstáculo entre o homem e Deus ? como sinal de pecado, em especial, às moléstias deformantes do corpo, como a lepra.

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