RITOS DE CURAS: PECADO E DOENÇA NA GRÉCIA

No período homérico a concepção da doença ligada ao pecado se manteve expressa com clareza no temor do miasma infeccioso e hereditário, descrita por Hesíodo, cuja cura obrigava à purificação ritual da catarse para retirar o pecado-doença.
Entre os pré-socráticos, o intuito de desvendar a coisa, quantificando-a por meio da forma e do volume, iniciou outra construção. Empédocles assume especial importância ao teorizar sobre a origem das coisas fora do poder dos deuses, por meio da combinação dos quatro elementos: terra, ar, fogo e água. A genialidade de Empédocles alicerçou a magnífica teorização de Políbio, genro de Hipócrates, médico da Escola de Cós, por meio da teoria dos Quatro Humores, descrita no livro Da natureza antiga. Pela primeira vez na história dos saberes explicou a saúde e a doença no estrito domínio laico, iniciando o longo processo para retirar dos deuses e deusas a exclusividade de causar e curar as doenças: ?O sangue humano contêm sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta; que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza…?.
Um dos aspectos mais fascinantes do esplendor grego é o fato de a busca da razão, não abafou o imemorial fascínio pelo divino, pelo mítico. É possível encontrar vestígios desse passado, que interliga sagrado e profano, também no famoso ?Sermão?, atribuído a Hipócrates (460-375 a.C.), onde a questão do segredo médico assume posição esotérica e sagrada, como na confissão religiosa.
Essa inovadora abordagem estava presente também em Eurípedes, que não admitia doença de origem divina, mas do pensamento do homem ao recusar a razão frente à violência das paixões. De certa forma, Eurípedes ao admitir que ninguém é voluntariamente mau e entendendo o pecado como erro, se aproximou das idéias de Sócrates, que defendeu a premissa de o pecado estar interligado à ignorância. Logo, nessa linha, Eurípedes e Sócrates admitiram a educação como a alternativa para evitar o pecado, o erro.
O herói grego continuou associado à cura de doenças e malefícios. O senso comum compreendia grande número de deuses e deusas possuindo, entre os principais atributos, o dom de sarar as doenças e as feridas de guerra como Platão magistralmente assinalou no República: “Por conseguinte afirmaremos que também Asclépio sabia isto, e que, para os que gozam de saúde física, graças a sua natureza e à sua dieta, mas têm qualquer doença localizada, para os que têm essa constituição, ensinou a Medicina, que expulsa as suas enfermidades por meio de remédios e incisões, prescrevendo-lhes a dieta a que estão habituados, a fim de não prejudicarem os negócios políticos”.
Na mesma esteira, a histórica construção para que a doença seja desvinculada do pecado continua em curso, interferindo para que a Medicina e as ideias e crenças religiosas mantenham claro nível de conflito.

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RITOS DE CURAS E PRÁTICAS MÉDICAS: PECADO E TABU

Existem vários significantes do pecado associado à doença. Um dos mais interessantes é o pecado mágico, não ético, à violação do tabu.
De modo geral, o tabu previne contra algum de tipo de poder maléfico em pessoas, coisas e situações. Esse entendimento está claro na descrição do rito de cura relatado por Rasmussen, citado por Lévy-Bruhl, na aldeia dos esquimós Iglulik: ?Nela participam além de todos os habitantes da aldeia, o xamã, que desempenha o papel principal, e os espíritos familiares do doente. Perante as injunções do xamã, o doente enumera, uma após outra, todas as violações do tabu, leves ou graves, que cometeu. Quando tem a certeza de que nenhuma foi esquecida, a assistência retira-se, convencida de que a confissão das culpas e dos pecados quebrou a espinha da doença.? É importante entender que a confissão do doente esquimó não representa arrependimento; é, sim, a libertação que cura a doença, o mal.
A compreensão do pecado na antiguidade oferece aspectos interessantes. Entre muitas culturas-linguagens, especialmente nas religiões milenaristas, a libertação do pecado, da doença, sempre se relaciona à confissão seguida pelas rezas e penitências. Dependendo da linguagem-cultura, o curador retira o mal, exorciza o pecado, dirige as aspersões e usa imagens e outros artefatos protetores.
A maior parte das experiências empíricas acumuladas para afastar a dor fora de controle ou empurrar os limites da vida permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Esses fatores representaram ásperos obstáculos para reproduzir os saberes acumulados fora dos restritos grupos dos enclaustrados representantes das divindades, como assinala a tradição judaica:
1. O incrível poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos. Em Dt 32: 39 – E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).
2. Os saberes empíricos como dádivas divinas. Em Sb 17: 20 – Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.
Em outro momento, esses poderes foram transmitidos aos médicos:
1. O médico como representante reconhecido e festejado da divindade. Em Eclo 38: 1-2. Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.
Desafortunadamente, alguns médicos, desarticulados da construção histórica, para o infortúnio dos doentes, continuam acreditando nessa relação mítica.

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