O CIRURGIÃO-BARBEIRO COMO SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA

Após o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram dos abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, moral e caridade cristã.
Sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, certamente motivadas pelos maus resultados, as necessidades sociais buscaram caminhos alternativos para sanar as dificuldades.
Desde o século 10, na Europa cristianizada, existem muitas referências sobre um personagem estranho e temido, que preencheu os espaços vazios deixados pela proibição eclesiástica da prática cirúrgica: o cirurgião-barbeiro.
Esse personagem, sem formação médica, vínculo institucional ou obrigação ética, andarilhos percorriam os caminhos entre as cidades medievais, cortando cabelos, barbas e unhas, amputavam membros gangrenados. Em determinas situações, as práticas agressivas nas pernas e braços infectados, sem nenhum cuidado adicional, causavam mortes, que no passar dos séculos, salvo exceções, associaram os cirurgiões-barbeiros aos maus resultados, gerando intensos conflitos com a família dos mortos ou com a administração das cidades. Em certas comunidades, quando eles provocavam a morte de alguém com importância social, para evitar o linchamento, eram obrigados a fugir rapidamente da população enfurecida.
Parte significativa do conjunto da Medicina, no medievo europeu, regida pela ética atada aos dogmas cristãos, sem hospitais e escolas médicas, migrou para o interior ou proximidades das abadias e conventos, com pouca ligação com a ética e recomendações hipocráticas. Semelhante aos cirurgiões barbeiros, os padres despreparados provocaram tantos conflitos pela má prática, causando sequelas e mortes, gerando revoltas populares seguidas de destruições de igrejas e monastérios, que motivaram as autoridades cristãs, nos Concílios de Rems (1131) e de Roma (1139), proibirem os religiosos de exercessem a Medicina fora dos muros das instituições religiosas.
Por outro lado, os grandes teóricos do cristianismo como Abelardo, em Paris, Bernard, em Chartre, e Tomas de Aquino, iniciavam o processo de resgate doutrinário das obras de Platão e Aristóteles, que também alcançariam a ética da Medicina.
– Pedro Abelardo, filósofo e teólogo escolástico, como professor da Universidade de Paris, que funcionava junto à catedral Notre Damme, na época, em construção. Esse notável sacerdote defendeu de forma enfática, junto aos seus alunos, filhos de burguesas abastados ou religiosos importantes, outra leitura crítica da Bíblia, renovando a Escolástica na problemática da relação entre a fé e a razão.
– Bernardo de Chartres, reconstruiu segmentos neo-platônicos e aristotélicos. Como Reitor da Escola de Chartres, reforçou os conceitos universais em torno de três categorias da realidade: Deus, matéria e idéia.
– Tomás de Aquino, filósofo e teólogo, também professor da Universidade de Paris, fundou a síntese do cristianismo sob a visão aristotélica, firmada na revelação, baseada no exercício da razão humana, fundindo a fé e razão no rumo de Deus.
A partir da primeira metade do século 14, alguns cirurgiões-barbeiros mais esclarecidos em aliança com a Igreja adotaram São Cosme e São Damião como protetores e iniciaram ajustes das práticas médicas cirúrgicas para obter melhores resultados junto aos doentes.

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ÉTICA DA MEDICINA NO MEDIEVO EUROPEU

O processo da cristianização de Roma, durante o reinado do Constantino e após, fruto do enfraquecimento das fronteiras romanas, pelas invasões dos godos e visigodos, introduziu mudanças no sistema mercantil escravista para o feudal alcançou a ética da Medicina.
Nesse processo complexo, a Medicina se distanciou dos conceitos gregos jônicos da físis e se aproximou da doença como mal gerando o castigo divino, como nas culturas da Mesopotâmia, Egito, Índia e Grécia homérica, entre os séculos 7 e 5 a.C.. Sem pretender simplificar muito, o tratamento mais importante para a doença como mal, seria a força de Deus e de Jesus Cristo intervindo para promover a cura por meio do milagre.
É possível compreender essa abordagem, que motivou outros conceitos teóricos à ética e moral, alcançando também as práticas médicas, como regressão às conquistas greco-romanas. Essas mudanças também provocariam desconstrução urbana, no medievo cristão europeu, com as administrações das cidades se descuidando da higiene pessoal, ruas estreitas, casas abafadas e sem exposição solar, pouca água potável, retorno do enterramento dos corpos nos limites urbanos e ausência de esgoto sanitário.
Os banhos públicos, usados simultaneamente por homens, mulheres e crianças, entendidos como local de excessiva exposição dos corpos propiciando maior exacerbação da sexualidade foram precocemente combatidos pela nova ordem cristã que se empenhou em fechar todos.
Esse fato associado às outras importantes mudanças no urbanismo das cidades alcançou o novo mundo cristão em ascensão, inclusive e especialmente a prática médica, fechando as escolas de Medicina e interditando o manuseio do corpo morto para o estudo da anatomia. Esse conjunto fulminou as práticas médicas grego-romanas, sob a égide da ética hipocrática, e introduziu outro processo monolítico ideológico, sob forte fiscalização eclesiástica, reconstruindo outra ética na Medicina, que se estenderia até a baixa Idade Média.
Os serviços profissionais dos agentes da Medicina-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial, até então entendidas como trabalho profissional remunerado, passam para a categoria dos trabalhos que deveriam seguir o exemplo de Jesus Cristo e dos apóstolos, cujos sacerdócios incluíram muitas curas milagrosas. O milagre cristão passou a ser a principal motivação da cura das doenças.
A ética da Medicina absorveu, na Roma cristianizada, o entendimento da doença, como consequência da desobediência a Deus, Jesus Cristo e aos santos, se transformou em sinônimo de castigo. Com as escolas de Medicina fechadas e consequente o ciclo da formação de médicos interrompido, o povo sem opções, se intensificaram:
– Peregrinações aos santuários católicos, especialmente, Jerusalém e Santiago de Compostela, na Espanha;
– Devoção aos santos com poderes de curar determinadas doenças;
– Edificações de ofertórios dedicados aos santos ou santas relacionados à doença mais temida, nas principais ruas ou praças das cidades.
Com o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram dos abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, moral e caridade cristã.
Sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, a cirurgia foi excluída da Medicina e se tornou atividade não recomendada aos homens de bem.

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