A MEDICINA GREGA COMO PAIDÉIA

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

“…o historiador é comparável ao médico, que utiliza os quadros noso-gráficos para analisar o mal específico de cada doente. E, como o do médico, o conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjectural.” (Carlo Ginzburg).

 

A Medicina como especialização  social  estava definida centenas  de anos antes esplendor grego. Contudo, a prática   pré-grega  sobreviveu anco-rada na complexa relação  entre a adivinhação e o saber empírico. O diag-nóstico, o tratamento e o prognóstico eram executados de maneira ametódi-ca e casual. Por outro lado, uma grande parte dessa experiência foi acumula-da, de modo predominante, pelos especialistas no  trato com a coisa sagrada. Estes fatores representaram obstáculos intransponíveis para  reproduzir o co-nhecimento  fora dos restritos grupos dos eleitos.

Esta evidência fica muito clara  nas civilizações que se desenvolveram na Mesopotâmia e nas margens dos rios Indo e Nilo. Apesar do notável senso empírico, a Medicina permaneceu contida nas amarras do adivinho (Botelho, 1991).

Os livros sagrados da tradição judaico-cristã estão abarrotados de passa-gens que enaltecem o incrível poder sobre a vida e a morte do curador mágico, destacam o empirismo como dádiva divina e  o médico no conjunto social:

 

Dt 32, 39: “E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da mi-nha mão ninguém se livra).”

 

Sb 17, 20: ” Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura  do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição  dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.”

 

Eclo 38, 1-2: ” Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes“.

 

 

A cultura grega  antiga absorveu, sem esforço, as origens míticas da Medicina (Botelho, 1987b) e as mais antigas alianças   que concederam o vulto ao médico. O destaque como agente social   exclusivo, na luta contra os agra-vos à saúde,  está   reconhecida em Ilíada (XI, 510) (Homero, 1964):

 

’Máxima glória dos povos arquivos, Nestor de Gerena, toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Macáon, e para as naves escuras dirige os velozes cavalos, pois é sabido que um médico vale por muitos guerreiros, que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas.”

 

A presença do médico homérico estava atada, marcadamente, ao es-paço sagrado das relações sociais. Macáon, mencionado por Homero, e Podalírio, são os dois filhos de Asclépio, o deus da Medicina grega, que se des-tacaram na guerra de Tróia.

O deus Asclépio, filho de Apolo com a mortal Corônis conquistou uma fama inimaginável. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Junto com as suas filhas Hígia e Panacéia, era celebrado em grandes festas populares, próximas do dia 18 de outubro, data em que, até hoje, se  comemora o dia do médico no Ocidente (Botelho, 1987b).

Contudo, sem que possamos entender o porquê, na Grécia dos anos quatrocentos, a Medicina iniciou o longo processo de  libertação das suas ori-gens míticas. A Medicina como arte  ocupou, pouco a pouco, outros espaços entre a heróica  postura médico-mítica oriunda dos tempos ágrafos (Botelho, 1986).

É importante sustentar que a prática divinatória mágica continuou forte e coerente com o universo cultural grego. De modo geral, o herói estava asso-ciado ao ato curativo. Grande número de deuses  e heróis tinham, entre os seus atributos, o dom de curar  as doenças e as feridas de guerra.

No século IV a.C., a Medicina como arte se apresentava com clareza na estrutura dos saberes que procuravam compreender a natureza visível  e invisível. A profissão estava tão bem sedimentada em sistemas de aprendizado e reprodução que  influenciou, profundamente, nos vinte séculos seguintes, os caminhos tomados pela Medicina Ocidental.

É possível ter  sido depois das guerras médicas (490 – 479) que a Medicina grega tenha atravessado esse notável desenvolvimento estrutural. A partir des-ta época, o médico aparece como intermediário na formação social e na edificação do pensamento coletivo, superando os imemoriais laços mágicos e as tradicionais funções específicas no trato da doença (Botelho, 1987a, b, d).

A partir dessa época, a fisiologia do corpo que amparava a prática da Medicina estava contida nas teorias dos   pré-socráticos, especificamente, dos filósofos jônicos, para a  interpretação da natureza através da tékhne (La Vega, 1981; Thivel, 1981, Botelho, 1987c). O médico  atuava muito além do es-paço sagrado, exercendo a arte de adivinhar, porém sobre a observação dos sinais da natureza visível e invisível.

A medicina era ciência e como toda ciência é, essencialmente, etio-lógica, Leucipo de Mileto  (Os Pré-Socráticos, 1978) preconizava:

 

Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas (a partir) da razão e por necessidade”.

 

Este avanço  da Medicina, de dimensões gigantescas,  possibilitou esta-belecer a ponte que ligaria, definitivamente, o diagnóstico  ao prognóstico.

A natureza tornou-se a medida de todas as coisas. Os conceitos nor-mativos alcançaram os significantes da enfermidade como sendo desvio do natural, do funcional e, em maior amplitude, mudança na physis do homem (Entralgo, 1981).

Pode-se compor cinco pontos fundamentais  da ligação da physis com a Medicina:

1)Universalidade e individualidade : todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes, as doenças, etc. Por esta razão, o livro I Das Epidemias  (Daremberg, 1855) distingue:

 

‘’…a physis comum de todas as coisas, da physis  própria de cada coisa’’.

 

2)Principalmente: a physis é o princípio (Arkhé) de tudo que existe. No livro Sobre  os Lugares e o Homem (Daremberg, 1855) , lê-se:

 

‘’A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina’’.

3)Harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa. É a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz har-monia.

4)Racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia, a ciência na qual o logos do homem se harmoniza dire-tamente com os logos da natureza.

5)Divindade : a physis é em si mesma divina. Este caráter divino da physis se manifestou na Medicina grega como resíduo do conflito com a religião (Botelho,1991).

A influência jônica foi tão grande que toda a literatura médica desta época que chegou até nós, foi registrada em prosa jônica, apesar de ter sido escrita em Cós, ilha de população e língua dóricas. Este fato só pode ser explicado pela aceitação entre os letrados do avanço da cultura e da ciência jônicas.

A preocupação em estabelecer um elo duradouro entre o binômio saúde ¾ doença com a natureza circundante está  presente na introdução do livro Dos Ventos, Águas e Regiões ( Daremberg, 1855), escrito no século V a.C.:

 

Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especificada e quanto as suas mudanças. Deve ainda observar os ventos quentes e frios, começando pelos que são comuns a todos os homens e continuando pelas características de cada região. Deve ter presente também os efeitos dos diversos gêneros de Águas. Estas distinguem-se não só pela densidade e pelo saber, mas ainda por suas virtudes. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação as várias correntes de ar ao curso de sol (…) assim como anotar o que se refere as águas (…) e a qualidade do solo (…) Se conhecer o que diz respeito a mudança das estações e do clima, o nascimento e o ocaso dos astros, conhecerá antecipadamente a qualidade do ano. Pode ser que alguém considere isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima’’.

 

O modo grego antigo de conceber a intricada relação dos homens e das mulheres  com o mundo visível, isto é, como  partes vivas da natureza, sementou  novas analogias da saúde. As doenças deixaram de ser  compreen-didas isoladamente, e passaram a compor o  produto resultante do desequilíbrio com a natureza (Jouanna, 1974; Thivel,1981).

Esse é um dos pontos fundamentais da Medicina grega, dos séculos V e IV, marcando a união entre a Filosofia jônica da natureza e os conceitos de saúde e de doença (Botelho, 1987a, b, c, d).

O centro harmonioso dessa confluência formou-se em torno da teoria  do médico, do século V, Empédocles  (495-435 a.C.). Segundo o filósofo de Agrigento, os corpos são formados por quatro elementos  eternos que perma-necem em movimento constante ¾ fogo, terra, água e ar ¾(Os Pré-Socráticos, 1978; Botelho, 1991).

Pela primeira vez consolidou-se uma proposta teórica para explicar a origem das as doenças conhecidas e das que viessem aparecer. Toda e qualquer enfermidade seria determinada pelo desequilíbrio entre um ou mais elementos.

Empédocles foi mais longe e utilizou a clepsidra para ilustrar a sua teoria da respiração, segundo a qual o corpo transpira através dos poros espalhados por toda a superfície da pele (La Vega, 1981).

É possível estabelecer uma relação direta entre a teoria da respiração de Empédocles com a doutrina cosmológica de que o ar é uma substância corpórea. Este raciocínio é, por si só, significativo na relação concreta da Medicina com a Filosofia grega.

A partir do estudo dos livros que chegaram até nós ficou clara a exis-tência, entre os séculos V e III a.C., de  uma compreensão diferenciada de dois principais grupos  sociais que se interessavam pela Medicina:

  1. Os médicos oficiais;
  2. Eruditos de outras áreas do saber.

Na tentativa de fortalecer o seu valor social, o médico grego, a exemplo dos sofistas, começaram a expor perante o público os problemas da relação saúde ¾ doença sob a forma de conferência e discurso preparado.

Platão (Político, 296a, b, c) sistematizou  o pensamento corrente da épo-ca ao descrever a  nova postura do médico e do político. Ambos, baseados no conhecimento, deveriam, sempre que necessário, intervir para promover me-lhoras na sociedade:

 

Estrangeiro: É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém  conhe-ce leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las  à sua  própria ci-dade senão que for necessário para promover melhoras na sociedade.

Sócrates, o Jovem:  Muito bem!  Não estarão eles certos?

Estrangeiro: Talvez. Em todo o caso, se alguém dispensa esse consenti-mento e impõe a reforma pela força, que nome se dará  a esse golpe?  Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.

Sócrates, o Jovem: Que queres dizer?

Estrangeiro: Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mu-lher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se da-rá a essa violência? seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção  não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de médicos que as impuseram.

Sócrates, o Jovem: Dizes a pura verdade.

Estrangeiro: Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte po-lítica? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?”

 

Esse diálogo platônico reflete a explosão coletiva de consciência, como as que seguem as rupturas em certos conhecimentos acumulados. Estabelece  parâmetros muito claros da nova posição social do médico atuando como agente de uma Medicina como paidéia.

O avanço da credibilidade dos médicos oficiais apoiados nas idéias dos filósofos jônicos não aconteceu sem conflito de competência   (Botelho, 1991). Ao contrário, houve violenta reação adversa, sem dúvida, algumas apoiadas pelo povo, arquitetadas pelos curadores e adivinhos que atuavam no espaço sagrado das relações sociais. Sob certo aspecto, a mais famosa resistência consolidou-se no processo contra Sócrates que culminou na pena de morte

 

por não admitir  os deuses reconhecidos pelo Estado e introduzir novas divindades” (Cornford, 1981).

 

Um dos exemplos mais interessantes desta fase  da Medicina grega foi o livro Das Doenças Sagradas (Daremberg, 1855) que estuda   as manifestações patológicas das doenças que causavam alterações no comportamento social. É possível colocar a leitura desta obra, escrita na Escola de Cós, como o pri-meiro corte no conhecimento da Medicina como paidéia (Botelho, 1991). Pela primeira vez, uma enfermidade é retirada, com tamanha clareza,  do domínio dos curadores que trabalhavam no espaço sagrado das relações sociais e assentada no domínio da  tékhne, no trecho em que o autor afirma:

 

Quanto a doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras

 

Foi nessa época, na ilha de Cós, entre os séculos V e IV, o maior florescer da Escola de Hipócrates,  em quem Platão (Protágoras 313b-c  e Fedro 270c)) e Aristóteles (Político VII, 1326) reconheceram a personificação da Medicina.

Apesar de todas as obras desse período ter chegado a nós sob o nome de Hipócrates, não existem dúvidas de que foram escritas por diferentes au-tores (Hippocrate, 1986).

Os integrantes da  Escola de Cós deixaram o maior legado da Medicina  grega como paidéia: a Teoria dos Quatro Humores.

Para cada elemento de Empédocles, associaram uma categoria teórica, denominada humor,  capaz de unir com coerência  as qualidades da natureza e o corpo. Atribuída a Políbio, está no livro Da Natureza  do Homem  (Darem-berg, 1855):

 

‘’(…) o corpo humano contem sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação umas às outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturadas com as outras’’.

Por outro lado, não foram menores os embates entre os filósofos e os médicos (Botelho, 1991). As contradições estão claras na análise de quatro textos:

1º) Texto: O filósofo Heráclito de Éfeso (540-470), de  genialidade exclusi-va, é contundente na antipatia pelos médicos:

 

Os médicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças.”

 

2º) Texto:  O autor desconhecido de Sobre a Medicina Antiga, escrita em torno do ano 2400 a.C.,traz o relacionamento conflituoso entre médicos e filó-sofos. Alguns médicos repudiaram, de maneira clara, a generalização de  to-das as doenças e causas de morte pudessem estar estritamente ligadas aos quatro elementos fundamentais de Empédocles   (Daremberg, 1855):

 

1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação crua e curado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da direita, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 

  1. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou lente quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.”

 

Em alguns trechos da mesma obra Hipócrates também sustenta  que o corpo humano é composto por   grande número de coisas de naturezas diver-sas: salinas, amargas, doces, ácidas, adstringentes, insípidas, etc. e não só de quatro componentes.

É provável que Hipócrates tenha sofrido a influência de Alcméon, filósofo e médico de Crotona, no Sul da Itália. Alcméon admitia um grande número de forças atuando nos corpos (Thivel, 1981; Pigeaud, 1989)). Afirmava que a saúde era o produto do equilíbrio de todas as forças e o predomínio de um oposto provocava a doença. Tanto Hipócrates quanto Alcméon, aceitavam  a saúde como uma mistura devidamente equilibrada das qualidades;

3º) Texto: Da Natureza do Homem, atribuído a Políbio, genro de Hipócrates, na mesma época, enfatiza com veemência as idéias de Alcméon (Jouanna,1974),   defensor da idéia da saúde  ser dependente do equilíbrio de múltiplas forças dinâmicas e a doença seria o predomínio de uma sobre as outras.

4º) Texto:  Platão (República 407b, c, d, e) adotou o modelo médico dos tempos homéricos. Esta leitura platônica, em A República, ativou o conflito de competência entre a Medicina como ciência, incluída na interpretação da natureza através da tékhne, e a religião (Botelho, 1991). Por outro lado, em aparente contradição, Platão (Leis 720a, b, c, d, e) retoma a Medicina como téhkne  ao distinguir   as diferenças entre as práticas medicinais entre pobres e ricos. Platão faz a abordagem satírica de como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas  sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres:

 

’Se um deles ouvisse falar um médico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das conferências científicas, explicando como concebe a origem da doença e elevando-se a natureza de todos os corpos, morreria de rir e diria no que a maioria das pessoas chamadas médicos replicam pronta-mente em tais casos: – o que fazes, néscio, não é curar o teu paciente, mas ensiná-lo como se a tua missão não fosse devolver-lhe a saúde, mas fazer dele médico’’.

Os quatro textos não encerram as disputas entre os filósofos e os médicos. Em certos aspectos, ambos estavam de acordo em muitos aspectos da prática da Medicina. Por exemplo, Platão   (Banquete, 186,187) como Hipó-crates (Daremberg, 1855) reconhece como insofismável  a  obrigação do mé-dico em esclarecer o doente de todos os aspectos envolvidos com a enfermi-dade.

Aristóteles  (Política I, 11, 1282)  vai mais longe e chega a distinguir o mé-dico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções específicas.

A relação da Medicina com a natureza que os gregos tão bem assimila-ram ao atingir o social,  em sistemas de valores e respostas claramente configu-rados, reforçava-se como paidéia.

Este testemunho pode ser evocado em Sólon ao descrever a conexão das doenças pessoais e coletivas com a totalidade social (Jaeger, 1986). Baseado nesta relação, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento político-filosófico afirmando  que as crises políticas interferiam na qualidade da saúde de uma população. Platão  e Aristóteles, de igual modo, estabeleceram padrões comparativos entre a atividade do médico e a organização da sociedade (La Vega, 1981).

Deste modo, o sistema médico grego interagindo a saúde e a doença com a natureza   contribuiu na busca de modelos de gerencia  social.

Platão (Górgias 464 B, 465 A e 501 se ligou à Medicina utilizando-a como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concepção ético-filosófica. Estabeleceu o significado da verdadeira tékhne, como forma de conhecimento na natureza do objeto destinado a servir ao homem.

De acordo com os conceitos platônicos o médico é a pessoa que baseada no que sabe sobre a natureza do homem sadio, conhece também o contrário deste, o homem doente e pode  encontrar os meios para restituí-lo à saúde. Foi baseado neste modelo que Platão traçou a imagem do filósofo que teria a mesma função no tratamento da alma do homem. Existiu, neste ponto do pensamento grego, uma relação concreta entre o médico e o filósofo, que se completavam na busca da harmonia plena do homem com a natureza.

Os diálogos platônicos sugerem, efetivamente, que o método utilizado na Medicina -¾ identificar em primeiro lugar se a natureza do objeto acerca do qual queremos adquirir um verdadeiro conhecimento é simples ou apre-senta múltiplas formas  ¾  e por ele utilizado   é exatamente o mesmo.

Nessa fase, a Medicina grega já tinha reconhecido o problema da multiplicidade das formas das doenças e a possibilidade de teorizar com divisões para estabelecer o número exato dos tipos patológicos. Este método é identificado por Platão como dissecação ou divisão dos conceitos universais nas suas diferentes classes. Provavelmente, esta foi uma das razões que  Platão comparou a Medicina com a Filosofia, ambas como paidéia, baseado no caráter normativo de ambas : elaboração das normas para conservação da saúde do homem e da mulher.

Esse conjunto da produção médica, principalmente dos séculos IV e III a.C., contribuiu para que Platão reconhecesse as três virtudes do corpo ¾ saúde, beleza e força ¾ que harmonizariam com as quatro virtudes da alma ¾ piedade, valentia, moderação e justiça. Este pensamento platônico se esta-beleceu e influenciou os séculos seguintes na formação do conceito da saúde física e psíquica do homem ocidental.

A massagem, os remédios tirados da natureza, a prática dos esportes, a música , a dança, o teatro e os banhos coletivos foram utilizados como formas de tratamento que induziam ao melhor saber da natureza e do homem

No livro Das Epidemias (Daremberg, 1855),  produzido na Escola de Cós, esta idéia está clara:

 

A arte do médico consiste em eliminar o que causa dor e em sarar o homem, afastando o que o faz sofrer. A natureza pode por si própria conseguir isto. Se sofro for estar sentado, não é preciso mais que levantar-se; se sofre por se mover, basta descansar. E tal como neste caso, muitas coisas da arte do médico a natureza as possui em si própria’’.

 

Existem inúmeros relatos, dos séculos IV e III a.C., que associam a ade-quada ação médica com a noção de global da natureza, inclusive com recomendações da qualidade e quantidade da dieta, da prática de esportes e de atividades culturais. No livro Das Epidemias (Daremberg, 1855) é reafir-mado a relação da boa prática médica com os conceitos de harmonia e medida:

 

‘’(…) o esforço físico é o alimento para os membros e para os músculos, o sono é para as entranhas. Pensar é para o homem o passeio da alma.’’

 

Alguns filósofos gregos cuidaram para que uma parte da Filosofia siste-matizasse o discurso sobre a manifestação da natureza   com suficiente coe-rência para que permanecesse válido mesmo quando aplicado sobre a infinita manifestação da multiplicidade das formas no mundo percebido.

Aqui também brotaram, com  maravilhosas facetas, as contradições entre o particular e o universal, o invisível e o visível, contribuindo para a ques-tão fundamental do conhecimento: a reprodução do saber médico,  como verdade. Neste caso, o médico representava o homem que nunca separava a parte do todo.

Daí, surgiu a consciência para conceituar a medida na prática médica. O médico passou a ser chamado para recompor a justa medida, oculta dos não médicos, quando a doença  alterava. Ao mesmo tempo, utilizava-a como instrumento de leitura da  natureza, como a justa medida da saúde.

Hipócrates e os seguidores da Escola de Cós já possuíam a   consciência desse fato e afirmaram no livro  Da Medicina Antiga (Daremberg, 1855) que nenhum médico pode saber de Medicina nem tratar convenientemente os seus doentes sem conhecer a natureza do homem e continuam :

 

‘’ (..) os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Em-pédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído’’.

 

A concepção teóricas de saúde entre os gregos também envolveu a  harmonia.   Sendo  natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida exata e com simetria adequada as necessidades de cada um, a saúde deve ser procurada neste contexto de normalidade.

É nesta compreensão que Platão entendeu a saúde como a ordem do corpo (Fédon, 93e; Leis 773a;  Górgias 504c) e Aristóteles (Ética a Nicômaco X 1180b 7) ao analisar o comportamento moral utilizou os exemplos de dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.

A tendência do pensamento grego de agrupar em classificações gerais o todo e as partes, estimulou as tentativas de ordenar as doenças em grupos que apresentassem alguma semelhança no diagnóstico, no tratamento e no prognóstico.

A literatura médica destinada ao  público letrado com recomendações específicas das normas que deveriam ser obedecidas para obter a saúde e evitar a doença, a Medicina grega inicia outra  importante contribuição para   consolidar da Medicina como paidéia  ¾ a manutenção da saúde pela dieta adequada, pelo exercício físico contínuo e pela higiene do corpo. Foi aberto um novo espaço nas relações da Medicina com o público, os médicos passa-ram a atuar também no homem são com objetivo educativo e  profilático.

Os hospitais construídos nesse período, como o de Epidauro, eram grandes e tinham múltiplas divisões destinadas diferentes atividades dos médi-cos. Possuíam dezenas de salas de exames, alojamentos individuais para os doentes, salas de banhos coletivos, praça de esportes, anfiteatro para dez mil pessoas, onde era mantida permanente atividade de teatro e música.

A arquitetura grega antiga responsável pela construção das casas, hospitais, ruas e cidades amparava, na prática, o discurso teórico da harmonia com a natureza na busca da saúde.

O novo espaço trabalhado pela Medicina, do século III, e sua íntima relação com a natureza com o objetivo educador, fizeram surgir as mais impor-tantes obras médicas destinadas ao   público não médico.

Estes livros, Da Dieta, De um Regime de Vida SaudávelDa Natureza do Homem (Daremberg, 1855; La Vega, 1981; Jaeger, 1986; Gourevitch, 1984; Hippocrate, 1986; Jouanna, 1974) contem fantásticas conclusões de como deve ser a vida das pessoas comuns e os mecanismos que contribuem para a conservação da saúde. Alcançam a detalhes impressionantes de   deve ser a caminhada após cada refeição dependendo da idade e das condições físicas de cada pessoa nas diferentes estações do ano.

Aparece pela primeira vez a palavra higiene com sentido regulador não só da alimentação, mas também como caráter educativo das atividades da rotina do trabalho do homem são e do doente.

A ginástica passa a fazer parte das necessidades básicas para a ma-nutenção da saúde. Por esta razão os ginastas alcançaram um papel im-portante no aconselhamento do corpo e permaneceram independentes frente ao crescente poder médico nas relações sociais na sociedade grega.

O livro De um Regime de Vida Saudável  (Daremberg, 1855) se propõe servir de guia ao público letrado para orientar no tipo mais adequado de dieta que as pessoas devem obedecer. Estabelece os parâmetros da cultura médica mínima que todos devem ter para ajudar na compreensão dos pontos disciplinares mínimos para permanecer saudável.As regras sugeridas são distribuídas de modo diverso nas diferentes estações do ano, tipo  físico, idade e sexo.

O objetivo central seria estabelecer, pela lei, o caminho que todos deveriam seguir para evitar a doença e manter a saúde.

O propósito  é a mesmo do autor do livro Da Dieta (Daremberg, 1855) que aborda, em quatro capítulos, a cerne teórico que explicava a origem das doenças : a teoria dos quatro humores. Se as patologias eram causados pelo desequilíbrio dos humores ¾  o sanguíneo, o linfático, o bilioso amarelo e o bilioso negro ¾ estavam relacionadas com a vida de relação das pessoas, nada mais lógico do que estabelecer normas alimentares com o intuito de evitar as doenças secundárias à ingestão inadequada da comida.

Provavelmente, todas essas produções literárias dirigidas para as pessoas leigas em Medicina  tenham tido a  influência de  Heródio (La Vega, 1981), de Selímbria . Ele foi o primeiro que atribuiu aos exercícios físicos e a dieta um lugar de destaque como importantes fatores na conservação da saúde e no trata-mento dos doentes.

Não possuir a compreensão da medicina como paidéia  e dos  pro-cessos de transformação, contribui para aumentar a cumplicidade coletiva em torno de uma prática médica voltada a expropriação da saúde.

 

 

 

 

 

 

 

 

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O ATO DE ESCREVER E AS MEMÓRIAS SÓCIO GENÉTICAS – As memórias sócio genéticas

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

Apesar de os estudos da anátomo‑fisiologia terem desvendado alguns aspectos importantes da forma e da função do SNC relacionados com as linguagens oral e escrita,estamos longe,muito longe de compreender a maior parte das dúvidas.

A principal barreira é a fantástica multiplicidade das formas,no ser vivente,gerando funções semelhantes.Apesar de os homens e as mulheres possuírem áreas anátomo‑funcionais semelhantes, relacionadas com a linguagem,jamais se expressam igualmente.

As maneiras de articular as palavras,formando as frases e as idéias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui,como produto da interação genético‑social,a própria marca na linguagem utilizada.Apesar de a gramática ser finita,a língua gerada por ela é incomensurável.

O produto final das linguagens oral e escrita é,conseqüente,um dos vetores que modulam os componentes extrínsecos (a natureza, o social e a História) e os intrínsecos (os padrões genéticos herdados  na reprodução sexuada).

O estudo das mentalidades,em diferentes períodos,mostra um histérico repetir coletivo,a partir da  ordem vinda de um ponto perdido na escala filogenética,atrás dos anseios fundamentais,ditados por uma categoria nominada neste ensaio de  memória sócio‑genética (MSG).É traduzida na vida de relação,desde os tempos imemoriais na liberdade para  buscar,mais e mais,o conforto físico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir,de falar,de explorar e,sobretudo,a sede e a fome saciadas,o abrigo do calor e do frio)   nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.

Todos fogem da dor e procuram o prazer.A polaridade entre o conforto e o desconforto,sentido no corpo,são as chaves acionadoras da MSG.Todas as relações pessoais e com a natureza,com ou sem ajuda da técnica,que resultem prazerosas são acatadas,sem esforço,pela maioria.Sempre que a ordem social insiste em limitá‑las,ocorre resistência.A rebeldia contra o sexo limitado e seus símbolos, em todas as variáveis,o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.

A constância transmitida aos descendentes,pela reprodução sexuada,dos pontos comuns das memórias sócio‑genéticas pessoais,forma a memória sócio‑genética coletiva (MSGC),contida no cérebro primitivo,herança do traço filogenético comum.

Com reserva por ser mais abrangente e estar contida numa base anátomo‑funcional,a MSGC pode englobar a categoria junguiana  do inconsciente coletivo.

As mensagens escritas ou orais,estruturadas na ambigüidade objetivo‑subjetivo ou,sob certas leituras,do sagrado‑profano, trazendo a esperança (não é necessário a certeza,basta o leve indicativo da possibilidade) de amenizar a dor e o sofrimento,são sempre bem aceitas e festejadas pela MSGC.  Os acontecimentos,no Leste europeu,entre 1989 e 1992, são adequados para avaliar quanto o poder político age,sem obter êxito,sobre a informação consentida,tentando mudar a MSGC7.

Nenhum poder ordenador amparado pela força explícita conseguiu conter,apesar da brutal repressão nos porões da intolerância de todos os matizes,a expressão clara da MSGC,oriunda dos tempos arcaicos,ativada pelo choque das idéias.

O estudo dos regimes autoritários,em todos os tempos, mostra a ordem mais forte criando,pela ficcão,alternativas para influenciar e manter,pela coação,o pensamento idêntico.

A diversidade manifestada na linguagem,através da interpretação do subjetivo é a primeira grande vítima.Os discordantes  são perseguidos pela implacável caça ao dissidente8.Considerados loucos,os corpos perdem o valor de identidade e o confinamento compulsório,sob a guarda do poder, retira‑os da cena.

Nada mais esclarecedor do que o politicamente correto9, guiando a conduta da maioria, modificando a linguagem superficial e as atitudes,convencida da verdade na nova postura.

A capacidade de convencimento,fazendo parte da idéia institucionalizada,assenta‑se, sobretudo,na história das representações,das ideologias e das mentalidades constituídas a partir do saber acumulado e sobre ele9.Por essa razão,continua muito significativo,junto às massas populares,a sedução exercida pelos políticos,prometendo maior conforto.

Os saberes pós‑industriais,baseados nos pressupostos da racionalidade, aqueles considerados durante longo tempo como garantia de progresso e abandonados depois de Auschwitz,Hiroxima e das denúncias acerca dos porões da intolerância das ditaduras de  direita e de esquerda,não mais capazes de negar o quanto o corpo sofre durante as emoções violentas.

O empenho do poder,ordenado para orientar a mudança,não obtém resultados, quando toca,de modo inadequado,na memória das lembranças historicamente acumuladas.O medo da dor e do desconforto continuam tão fortes quanto os mecanismos subjetivos,criados pela ficção,para atenuá‑los ou confundi‑los.

As investidas político‑ideológicas para remodelar o mundo,tentando suprimir as lembranças das MSGs,fracassaram.A História também mostra que nem a ameaça da morte coletiva é capaz de desestimular a resistência10.

O ato de escrever acoplado à transformação tecnológica,adaptou‑se,continuamente,a esse querer coletivo:aumentar o conforto e afastar a dor.

Mesmo contestados pelas observações corriqueiras,muitos continuam resistindo à idéia da estreita dependência entre o subjetivo‑emocional (o mundo das idéias) e o objetivo‑biológico (o corpo).

É possível compreender,nesse ponto,a fantástica relação entre o ato de escrever com o nascer da consciência,diferenciando o cérebro da mente,traduzindo uma etapa significativa da corrente, entrelaçando a natureza,o social e a História nas MSGs.

Ao mesmo tempo,colocou o homem e a mulher numa condição singular e difícil: possuir a inteligência diferenciada e manter as mesmas características biológicas dos outros animais menos inteligentes,ligados no elo comum da filogênese.Enquanto procuram identificar‑se entre si,baseados nesse pressuposto, têm a plena certeza de que,mesmo fabricando os artefatos mais sofisticados, também precisam eliminar os excrementos pelos orifícios do corpo,exatamente como o símio preso entre grades no zoológico.

A consciência da vida confortável atingida trouxe a inconformidade com o desprazer.Sendo mais inteligente,não poderia ter a mesma importância das bestas. Logo,é inaceitável uma morte nos moldes da dos outros animais.Tornou‑se imperativo ficcionar o conforto também após a morte11. Mas,não para todos. Somente os aliados e os concordantes com a  ordem teriam um repouso perfeito depois da vida.

Nos tempos primordiais,as mudanças operadas no corpo, causando a angústia da deformidade dolorosa,eram as primeiras evitadas.A barriga eviscerada no acidente de caça ou nas disputas pela liderança,ligava o consciente à dor e à morte  e era parte do mundo temido.

O prazer, capaz de descontrair o músculo enrijecido,trazia sempre a lembrança do evento agradável.A estrutura dos neurônios foi continuamente adaptada para identificar,na MSG,a polaridade entre prazer e dor,como o caminho mantenedor da vida.

O castigo,necessariamente carregado de sofrimento doloroso,era imposto pelo homem ou pela divindade,nos espaços sagrado e profano,para gerar obediência.O medo,advindo da ameaça ou da dor física,passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados,do permitido e do proibido.

O arcabouço da dor física na MSG,transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor histórica12 na MSGC.A coesão do grupo atingido é reforçada ao identificar as causas e,assim,orientar, através das linguagens,o caminho para eliminá‑la da ordem social.

A categoria denominada dor histórica é o grito humano pela vida,pela liberdade,pela saúde, pelo conforto,pela dignidade, pela paz e pela ruptura das correntes que prendem o homem à tirania dos outros homens e dos deuses.

É  a razão por que sempre existiu a  procura de uma ética na conduta humana,ligada à sobrevivência comum,registrada nos códigos de postura,presente no Código de Hammurabi e nos livros sagrados de todas as expressões de religiosidade.

O sagrado ficcionado13 como mecanismo biológico moldando a forma com a função para compensar a dor,imponderável por si mesma,encontrou unissonância no brado dos espoliados em nome do território e do alimento negados.

Não é intenção simplificar processo de tamanha complexidade.A partir de determinada referência,impõe‑se a crença numa memorização lenta e gradual,onde as necessidades básicas para sobreviver desempenharam um papel fundamental.

A bioquímica da memória é um dos pontos mais angustiantes do saber acumulado,abriga a quase completa ignorância de como funciona o sistema nervoso humano.Contudo,as informações articuladas com o movimento social mostram a fascinante anatomia funcional no cérebro.A procura das soluções,há mais de quinhentos mil anos,para os problemas enfrentados pelos nossos ancestrais, fez‑se em etapas.

Os instrumentos foram aparecendo,ao mesmo tempo em que ocorriam mudanças significativas no cérebro,identificadas nos crânios fósseis.Todavia,o avanço foi descontínuo.A arqueologia não deixa dúvida da coexistência entre formas diferentes de artenasato num mesmo período,ajudando a superar as novas dificuldades,impostas pelo aumento gradual das trocas com o meio circundante.

As primeiras evidências do surgimento das idéias estéticas e religiosas são encontradas no Paleolítico Superior.Apesar da impossibilidade de rastrear os sistemas religiosos na pré‑história,antes de 10.000 anos,tudo indica que o homem,no Neolítico,se comportava como o atual:dominava os mais fracos,modificava a natureza para obter o alimento,fugia da dor e da morte.

Inicialmente,foram atribuídos à divindade os anseios  da vida.Como a escolha não satisfez as exigências da crítica e não ressoava no observável, iniciou‑se a longa caminhada de conflitos para achar outras vertentes capazes de responder às indagações.

O exercício do poder dos representantes da divindade,os sacerdotes e as sacerdotisas,misto de curadores e adivinhos, impondo o castigo doloroso aos resistentes,resultou nos princípios da dinâmica social,onde a coesão e a dissolução,em equilíbrio dinânico,são dependentes, respectivamente,do predomínio do conforto e da dor,em determinado segmento da sociedade.

Os contestadores das autoridades dominadoras,compreendidos como agentes da dissolução ou pecadores,eram punidos com o pior dos castigos: a exclusão pela enfermidade,mensageira do sofrimento e da morte.

Inicialmente,a linguagem oral e,depois,a escrita retiraram a doença do mundo abstrato.Passou a ser nominada e evitada pela obediência obsequiosa.

A parte significativa da MSGC,ligada à sobrevivência comum,aperfeiçoada durante centenas de gerações,foi transcrita na passagem da oralidade para a escrita.Os adivinhos,encarregados de prever os malefícios mandados,como castigo,pelos homens ou pela divindade,assumiram um papel destacado no poder político.

Os livros sagrados,referência maior da ambigüidade sagrado/profana,são claros quanto ao destaque do curador e do adivinho no controle das mentalidades e na ordem do espaço ocupado.

A adivinhação e a cura sempre estiveram associadas ao mesmo universo de idéias.Elas impõem duas vertentes de abordagem: como atitude mental dos usuários,agente e cliente,e como instituição social.Não existem separadas;são associadas e dependentes.

A reprodução de um evento,exigindo conduta específica para mudar o cotidiano,só é consolidada,se houver a prévia coerência com os registros memorizados.É exatamente o que acontece com a prática divinatória.Pouco importa a veracidade individual do ato.O peso da representação está no convencimento dos atores,amparados pela aceitação coletiva onde atuam.

De modo semelhante,o cientista,hoje,trabalhando no espaço profano, pode também mitificar a infabilidade da ciência, adotando postura igual,com as mesmas implicações  sócio‑políticas,iguais às operadas no espaço sagrado.

Os mais antigos registros escritos,feitos na Mesopotâmia, são contundentes. Os assírios e babilônicos entendiam o pecador como o rebelde possesso da antidivindade.Nos textos cuneiformes,as palavras sortilégio,malefício,pecado, doença,sofrimento aparecem como sinônimos14.

O conflito gerado na convivência dos nossos ancestrais no espaço sagrado, onde a coisa seria engendrada pela divindade,e no espaço profano,com o predomínio do conhecimento empírico, determinou os rumos escolhidos.

A cultura grega antiga,notadamente a da época hipocrático‑platônica,portou-se como o marco divisor da necessidade de distinguir a opinião do conhecimento15.Não bastava mais alguém achar,era imperativo acrescentar os argumentos demonstrativos da linha condutora do evento.

Naquela ocasião,foi mais bem delimitada a materialidade do espaço profano,onde iria florir, com maior vigor,os saberes para iniciar o moroso processo tentando desvendar o corpo e as coisas.

Com esse suporte epistemológico,os médicos gregos,particularmente os das Escolas Médicas de Cós e de Knido, começaram a usar a linguagem escrita para decompor a doença e retirá‑la da primazia divina16.

No livro A doença sagrada,escrito em torno do século IV a.C,atribuído a Hipócrates,esta questão está transparente: “Quanto à doença que chamamos sagrada, eis aqui o que ela é: ela não me parece nem mais divina,nem mais sagrada que as outras;ela tem a mesma natureza que o resto das doenças e por origem as mesmas causas que cada uma delas.”

A linguagem escrita,como a oral,está entrelaçada no conhecimento historicamente acumulado das MSGs.Por essa razão, os gregos hipocráticos foram buscar,nos elementos de Empédocles ‑ terra,água,ar e fogo ‑ a justificativa das mudanças determinadas pela doença no corpo.

O  filósofo de Agrigento,pretendendo a renovação da imagem do mundo, fundamentou a sua teoria em concepções mais antigas,que sustentavam, desde a oralidade,a importância do fogo,da terra, do ar e da água,na sobrevivência do homem.

Como a doença e a morte são as duas instituições mais marcantes do universo cultural,nada mais sedutor do que a tarefa de desvendá‑las para vencer a vontade divina sobre os corpos17.

A teoria dos Quatro Humores,refletida nos elementos empedoclinianos, defendida pela escola de Cós,concebia o ser humano formado de quatro humores: sanguíneo (ar),fleumático (água),bilioso amarelo (fogo) e bilioso preto (terra).A saúde seria o resultado da perfeita harmonia entre eles e a doença apareceria, quando um deles prevalecesse sobre os outros18.

Os jônicos,diversamente,admitiram muitos outros elementos interferindo na saúde.Os filósofos,notadamente o autor desconhecido de um dos mais célebres livros da antiguidade clássica, Da natureza do homem,recusavam‑se a crer na esquemática regra da teoria dos quatro humores. Contudo,o mais compreensível, associado com o saber acumulado,defendido pelos hipocráticos, acabou prevalecendo.

Os atos coletivos,empregados para modificar a realidade, têm de estar, obrigatoriamente, assentados em pressupostos teóricos,ligados à MSGC.É no SNC que a forma e a função se completam,dando coerência ao ato apreendido.Quem está vendo a dor da fome,estampada no rosto de penúria dos entes‑queridos, ou sentindo a ferida não cicatrizada,está sempre pronto para seguir qualquer proposta para finalizar o sofrimento.

O brutal mecanismo de forçar o convencimento pela força, sempre utilizando o castigo doloroso,colocado em prática pelo  cristianismo como religião do Estado,a partir de Constantino,no século IV,não foi suficiente para apagar da memória coletiva o mundo sagrado oriundo dos tempos arcaicos.O povo continuava cultuando as festas equinociais e os deuses planetários metamorfoseados com a proposta de salvação cristã.

A alternativa para manter a unidade e seduzir os resistentes foi iniciar um claro movimento em torno do sincretismo, retomar a MSGC,mantendo na linguagem escrita o antigo sob nova roupagem.

Os deuses pagãos e cultos agrários,da Trácia e da Frígia estavam entre os mais solicitados nos altares romanos. Foram os primeiros atingidos pelo lento  processo de mudança gradual da imagem para receber outro nome.

As divindades,que até aí contribuíram para explicar a idéia e a morte, oriundas do universo mítico babilônico,egípcio e grego foram,pouco a pouco,sendo substantivadas como antidivindades e aglutinadas no novo espaço,o inferno,adotado pela escatologia cristã,destinado aos transgressores e punidos.

A parte do povo,infelizmente a maioria,desde os tempos remotos,alheia aos determinantes profundos do movimento mítico que fortalece a consciência social, tende a aceitar a verdade sempre do lado do vencedor.

Para o simplório copiador das tabelas dos arquivos, admirador incondicional da história escrita pelo vencedor,e para aqueles que manipulam as leis em benefício próprio,os homens e os deuses vencidos são mentirosos e condenados.

Os livros escritos pelos médicos professos do cristianismo, foram adotados pelos doutores da Igreja como a nova verdade oficial.Podiam ser lidos,nunca questionados.A saúde e a doença, a vida e a morte,componentes essenciais do controle social, passaram para as mãos do Deus cristão.

O primeiro e mais importante deles,Cláudio Galeno,foi o continuador das idéias da escola de Cós.Durante toda a Idade Média e uma parte da Moderna,quem ousasse duvidar das teorias de Galeno,mesmo comprovando o disparate entre a afirmação e o observável,era considerado louco varrido.Os ensinamentos galenianos foram repassados,no mundo cristão,como uma verdade religiosa.

A repressão ideológica,patrocinada pela Igreja Católica, para manter e reproduzir os princípios do médico romano,criou uma insanidade coletiva semelhante ao que aconteceu com os escritos de Karl Marx,no Leste europeu,e entre os intelectuais da esquerda latino‑americana,,nas décadas de sessenta e setenta, ao defendê-los como verdades acabadas.

A paixão dos marxismos pós‑Marx,fruto da leitura das orelhas dos livros de ciência política,ao enveredar pela mesma trilha dogmática,contribuiu para agravar a crise de subjetividade que acelerou a derrubada do Muro de Berlim.Alcançou os limites de insanidade,quando afirmou ser o amor materno pela cria,um dos traços mais claros da filogenia,simples manifestação burguesa19.

A primeira mudança de peso na abordagem das relações entre a forma e a função do SNC (um corte epistemológico na linguagem bachelariana) ocorreu vinte séculos depois dos estudos hipocráticos,na ilha de Cós,na Grécia.O estudo da micrologia de Marcelo Malpighi (1628‑1694) iniciou o deslocamento da função dos humores hipocrático‑galênicos para o interior da célula, trazendo a forma e função para o nível celular.

Novas perspectivas foram abertas pelo descortinar da microestrutura celular.A maior parte do ensino e da prática dos saberes da atualidade está estruturada no universo da microscopia.

Pouco mais de duzentos anos se passaram,desde o corte malpighiano, para que as relações entre a forma e a função alcançassem a estrutura molecular do genoma,no núcleo da célula (nível molecular).

As pioneiras publicações do frade dominicano Gregor Mendel (1822‑1884),demonstrando a importância das características genéticas de certos vegetais,foram  aplicadas na nova busca da origem do pensamento,nas moléculas do ADN.

Hoje,a crítica do observável mostra a inoperância das três teorias ‑ humoral,celular e molecular.São frágeis e inconsistentes para explicar as dúvidas que persistem,tanto no pensamento lógico quanto no ficcional expresso nas linguagens.

Na distonia entre o visível e o lido nos compêndios,está o pólo central das contradições do ato de escrever.A fraqueza do saber,avolumando as dúvidas nas dimensões extremas da matéria, oferece o suporte para a teoria das memórias sócio‑genéticas.

Os anseios dos homens e das mulheres,presentes na memória sócio‑genética coletiva (MSGC),para reforçar o conforto é um dos fatores que  provocam o movimento social.Quando as idéias são desarmônicas com o anelo,nem mesmo os mais brutais meios de repressão conseguem mantê‑lo ativo.

A História recente evidencia,com transparência,um desses momentos marcantes da resistência: o desmoronamento da ordem socialista,no Leste da Europa.Aqueles povos demonstraram que a insatisfação com os limites da idéia não é obstruída pela oferta generosa do trabalho,da moradia e da comida.A necessidade atávica para buscar o conforto está além,muito além,da fome contida.É mais um indício da extraordinária ordem em que se processa o pensamento coletivo,quando se trata da sobrevivência comum.

As idéias arcaicas,amparando a sobrevivência,foram armazenadas,como parte dos mecanismos cerebrais primários,em algum lugar do cérebro.A capacidade de reproduzir a idéia ficaria por conta das leituras,no sistema nervoso central, identificando a proposta  como algo capaz de aprimorar o conforto.

A característica pessoal,única e intransferível,processada pelo córtex cerebral,com a marca biológico‑molecular nos genes, transmitida com a reprodução sexuada,ficaria dependente da experiência vivida no conjunto social.É como nascem e se reproduzem todos os saberes.

Apesar de a unidade ser mantida,teria traços comuns muito fortes.A dor e o desconforto seriam dois deles.Qualquer variável circunstancial,capaz de ser entendida pelo ser como sensação dolorosa,produziria resposta somático‑neurológica imediata buscando,na intimidade da memória acumulada,todos os mecanismos cerebrais para impedir ou atenuar o desconforto.

A dificuldade para moldar o pensamento coletivo,de acordo com a conveniência do poder, reside nessa barreira: é impossível encontrar duas estruturas biológicas exatamente iguais.

Por outro lado,quando o dominante compreende  o valor dos registros genéticos, principalmente a subjetividade,nascido na ficção,para suportar o desconforto e a dor,investe na conquista das mentalidades,através das linguagens oral e escrita,seduzindo a partir da valorização deles.

Existe uma inegável dificuldade para se ter acesso ao cérebro humano,não só porque se desconhece onde e como,mas também pelos limites impostos pela ética da pesquisa científica. Contudo,os casos clínicos,de achado acidental,são capazes de levar aos grandes progressos.

Os estudos desenvolvidos na Universidade Western,Ontário,sobre a consciência não manifesta (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a memória) são importantes para compreender a hipótese das MSGs3,20.

A doente,estudada pelo grupo de pesquisadores,no Canadá,tinha sofrido dano cerebral por intoxicação de monóxido de carbono.Quando se recuperou,a seqüela neurológica ficou localizada próxima ao córtex visual primário.Os testes seguintes mostraram que era incapaz de identificar uma xícara de chá,todavia os movimentos para pegar a mesma xícara e levá‑la à boca eram normais.

Esse tipo de comportamento alterado reforça a existência de,pelo menos,duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percepção e a outra das funções motoras.

O outro relato significativo foi feito pelo psicólogo suíço Claparède,no início do século.As análises foram concluídas numa paciente,portadora de severo distúrbio para assimilar os fatos recentes.Na entrevista, ao apertar a mão do entrevistador,teve a sua furada,intencionalmente,por um alfinete.No dia sequinte,ela não reconheceu ninguém,porém se recusou a repetir o gesto que provocou desconforto.

A parte ativa da consciência,alerta mesmo em situação psicótica,a lembrança do desconforto da dor,está atada ferozmente aos laços genéticos e é, incomparavelmente,muito mais forte do que a banalidade motora de levantar um objeto.

Todas as tentativas de efetivar o controle social,pelo poder dominador giram nesses dois pontos comuns e antagônicos: oferecer o prazer e a dor, respectivamente,como prêmio e castigo pela obediência.

Qualquer moção lembrando a possibilidade para atenuar a dor histórica e fortalecer a partilha igualitária,sentida pelas sucessivas gerações dos esfomiados de pão e de justiça,terá uma sedução irresistível,ao resgatar os símbolos comuns da MSGC.

As teorias políticas e práticas religiosas  para interferir no curso do movimento social utilizaram,em maior ou menor  escala, os seguintes pontos,como variáveis dos remédios para sarar as dores e das fórmulas para aumentar o conforto:

1.promessa de prolongar a vida;

2.acesso à sociedade onde o trabalho é ameno,a comida é farta e a prática sexual é liberta das amarras da conduta;

3.a inconformidade com a morte antecipada pela doença,pela fome e pela injustiça;

4.um espaço sagrado (templo) ou profano (partido político) para defender a causa comum e julgar os resistentes;

5.aumento da proteção individual;

6.melhoria das situações temidas,causadoras de desconforto: a fome e o frio.

Algo muito poderoso se passou na intimidade da memória acumulada na espécie humana. Ainda não podendo afirmar que as idéias são transmitidas de modo semelhante às características físicas,resta‑nos o êxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simbólicas que ligam o passado remoto ao presente vivido.

Por tudo isso,a escrita consolidou,nas mentalidades,o divino e a posse do território como os mais poderosos resultantes da ficção.Os dois ordenaram,no mundo objetivo,de acordo com a conveniência temporal do poder as duas mais importantes fontes de prazer:a sexualidade e o alimento.

O divino é,intrisicamente,forte e sem a sua ajuda não teria sido possível manter a atual ordem espacial,prevalente no mundo.Em qualquer hora,seria capaz de impor a dor e modificar a arqueologia do prazer,contra todos os ritmos esperados da natureza.Os mortais,feitos à imagem e semelhança da divindade, são,ao mesmo tempo,os instrumentos e as vítimas.A dádiva ou o castigo divinos não ficam restritos somente à vida;prolongam‑se após a morte.Dependendo da obediência aos preceitos,o renascimento será confortável ou aflitivo.

O Livro dos Mortos,conjunto de textos funerários grava‑dos nas paredes da Pirâmide Real do antigo Egito,com origem no reinado de Unas (2345 a.C.),último rei de V dinastia,é composto de hinos e receitas mágicas para garantir o renascer protegido.

As obras de Platão21,interpretanto pensamentos muito mais antigos,espelho fiel das angústias existenciais não resolvidas,contribuiu para manter o interesse especulativo,no Ocidente cristianizado, sobre o sentido da vida,partindo do esperado depois da morte.

O cinema,como uma das expressões de arte mais significativas do nosso tempo,continuou o movimento e mostra o quanto é robusto,no inconsciente coletivo, a sedução para continuar vendo os matizes  da  dualidade prêmio/castigo na vida e na morte22.

O controle social,imposto em diferentes momentos do processo de humanização,mesmo utilizando os recursos mais indignos da perseguição,do assassinato e do patrulhamento ideológico,não  conseguiu remover das MSGs a resistência à inevitabilidade da morte.

O político,compreendido como o sucessor do intermediário da divindade, travestido dos antigos poderes de curar e adivinhar os males da sociedade,está inserido na coerência genético‑social. A contínua penetração do seu poder espelha a força da MSCG na ordem social.

O avanço organizado para consolidar o cristianismo como religião universal foi muito bem estruturado em torno da doença como mal pessoal e social, interpretado a partir da leitura da Bíblia judaico‑cristã.O mundo cristianizado está atado nesse registro arcaico da memória coletiva, alcançando todos, independente da condição sócio‑econômica.

O cristianismo,ao contrário do rígido monoteísmo judaico, sobreviveu porque continua lembrando a metamorfose do politeísmo.Substituíram os antigos fetiches e amuletos pagãos pela água‑benta,o sinal da cruz,as velas da Ascenção,as palmas do domingo de Ramos,os rosários,as medalhas,os santinhos colocados no pescoço.

A  legitimidade da doença e do sofrimento como instrumentos de castigos  e ameaças de dor,aperfeiçoados pela linguagem escrita,está  inserida no exercício do poder.

Na crítica da proteção pura3,a relatividade do tempo é reafirmada,à medida em evidencia a fantástica coerência existencial entre o visível e o invisível.

O binômio tempo/espaço,fracionado unicamente pelo pensamento,é o começo,o meio e o fim da interação ajustada entre o ser e o objeto através das MSGs.Como unidade indissolúvel e inseparável,abriga e vivifica a diversidade das aspirações humanas arcaicas para viver sem dor e adiar a morte.

A posse do território  e a divindade são as mais importantes ficções, trabalhadas ambígua e alternadamente no profano e no sagrado.A ordem social,desde o passado ágrafo,foi montada entre a terra,morada dos homens e das mulheres,e o céu,abrigo dos deuses.

Os sacerdotes e os políticos,travestidos de curadores e advinhos,como agentes das  religiões e das ciências, continuam sendo os instrumentos legítimos, usados pelo poder,para imobilizar o tempo e separar os espaços,com o objetivo de ordenar as mentalidades.

A competência do controle das sociedades está no modo como é tocada nas MSGs.É na entranha do corpo,nos limites desconhecidos da massa com a energia,no interior das células,que o poder aperfeiçoa as ferramentas para moldar a estratégia de sedução,atualizando as projeções mentais muito antigas sobre as novas verdades e estimulando a cooperação.

O conflito das contradições,gerado pelo choque das idéias orais e escritas,é a única alternativa para afrouxar a dominação e o apagamento das MSGs.

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