Doença e saúde na Bíblia: entre regras de higiene e milagres

Doença e saúde na Bíblia: entre regras de higiene e milagres

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho
.

Milagre da perna amputada, por São Cosme e São Damião, século XVII.

Deuteronômio 32, 39: E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).

Levítico 13, 1-3: Iahweh falou a Moisés e a Aarão e disse: Se se formar sobre a pele de um homem um tumor, um dartro ou uma mancha, pode tratar-se de um caso de lepra da pele. Será conduzido a Aarão, o sacerdote, ou a um dos sacerdotes seus filhos. O sacerdote examinará a enfermidade sobre a pele. Se no lugar enfermo o pêlo se tornou branco e a enfermidade se tornou mais profunda na epiderme, é caso de lepra; depois da observação o sacerdote o declarará impuro.

Mateus 10, 1: Chamou os doze discípulos e deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda a sorte de males e enfermidades.

Marcos 16, 17-18: Estes são os sinais que acompanharão aos que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados.

O Antigo Testamento (AT), afora do significado religioso, também pode ser considerado como um conjunto de regras para o controle social do povo hebreu, nos primórdios da sua estruturação sócio-política, quando estava marcadamente influenciado pelas culturas egípcias e mesopotâmicas.

A necessidade de estabelecer as normas da organização social levou os hebreus a amalgamar a tradição oral à Lei, que deveria ser cumprida por todos porque seria inspirada na irradiação da memória onipotente e justa em si mesma de Deus. A obediência à Lei fazia com que os homens mortais se aproximassem de Deus imortal (Dt 32, 39).

O amparo inquebrantável dessa relação religiosa consolidou, no AT, um dos mais eficazes conjuntos de regras de saúde pública de todos os tempos, em grande parte, responsável pela sobrevivência do povo de Israel (Lv 13, 1-3).

Com a destruição de Jerusalém no ano 70, seguiram-se as compilações da tradição oral acumulada, como alternativa de manter viva a Lei. O Talmude reuniu esclarecimentos e ampliações dos ensinamentos bíblicos de natureza jurídica, teológica, filosófica, ética, histórica e médica.

A Medicina contida no AT foi sobreposta pela da tradição oral, transcrita no Talmude, entre os anos 100 a.C. e 1500. Os registros interpretativos foram conduzidos pelos sábios e rabinos, durante o período da tradição oral. As preciosas informações dos cuidados pessoais e coletivos sobre higiene, alimentação e médicas transcritas no Talmude, receberam forte influência das Medicinas grega, babilônica e persa. Dessa forma, os documentos rabínicos repetiram algumas premissas daquelas sociedades, como a crença no mau-olhado e a ajuda dos amuletos para curar certas doenças.

No AT, a tentativa de materializar a doença é percebida a partir do seu sentido em oposição à saúde, sendo esta representada pelo bem e aquela, pelo mal. Dessa forma, tornou-se viável oferecer sentido histórico-teológico, capaz de formar no pensamento coletivo a divisão nítida entre a saúde, como sinônimo do bem, luz, justiça, limpeza e bondade, e a doença, significando maldade, escuridão, injustiça e sujeira.

O monoteísmo em curso retirou o poder de curar e fazer adoecer dos vários deuses mesopotâmicos e realocou essas capacidades somente no Deus de Israel. Assim, o Deus de Israel incorporou outros poderes, não só sobre a vida e a morte, mas também na saúde e na doença. É a partir dessa análise, presente em várias passagens do AT, que o aparecimento e a cura das enfermidades restaram reduzidos ao poder de um único Deus. Nessa fase, a nova escatologia inserida na teogonia e teofania monoteísta já estava em curso, firmando impressionante ruptura com o politeísmo dominante em todo o passado humano.

A saúde e a doença passaram também a representar o poder de Deus sobre os homens, oferecidas, respectivamente, como prêmio ou castigo pela obediência à sua Lei. Esse entendimento escatológico explicava com coerência o aparecimento das enfermidades nos pecadores, mas não nos obedientes e tementes à Lei.

Por meio dessa regra binária de prêmio-castigo, também ficava confuso caracterizar a hierarquização da falta cometida e justificar como seriam distribuídas as manifestações da ira divina, para punir os pecadores, como a lepra, a loucura e a cegueira, que os excluíam do convívio social.

Os estudos exegéticos mostram que esse vazio, para justificar as doenças nos tementes à Lei, permaneceu no monoteísmo até o período pós-exílico. A solução do impasse ocorreu com o acréscimo da figura do antideus, como criatura inteligente, incorpórea, ligada ao mal e capaz de favorecer o aparecimento das doenças como demonstração de poder para enfrentar a Deus.

É certo que a associação simbólica da doença ao pecado no sentido de mau, escuro e dor, estava presente na escatologia do politeísmo, antes do monoteísmo. Não é impossível que os teóricos do judaísmo, nos primeiros tempos, tenham buscado na teofania e teogonia politeísta, durante o cativeiro egípcio e babilônico, essa solução que superou as expectativas para explicar as doenças e o sofrimento nos obedientes e tementes a Deus.

Vários documentos, nos papiros egípcios e nas tábuas de escrita cuneiforme, da Mesopotâmia, que tratam do assunto, deixam bem clara a associação doença-pecado. Porém, é no monoteísmo judaico que a doença é aceita como manifestação contrária à intencionalidade de um Deus bom.

Sendo Deus perfeito na sua essência e criador de todas as coisas, também seria para curar as doenças, como forma de representação de poder junto aos homens. Nada poderia ser demonstrativo de maior poder do que aumentar o tempo de vida dos homens, porque quanto mais vivessem, menos mortais se tornariam. Se a doença era a causa determinante da morte e deixava clara a inevitabilidade do fim da vida, só poderia representar a ação maléfica do antideus, também como forma de demonstrar o poder contrário ao de Deus.

A polarização da doença como mal e da saúde como bem materializou a mítica luta entre o bem e o mal, visto que, somente pela força bondosa de Deus, os humanos poderiam vencer o antideus e superar as doenças para viver mais.

Para superar os entraves na comunicação entre os obedientes à Lei e a Deus, as passagens bíblicas adicionaram os sacerdotes, como agentes intermediários, também autorizados a curar.

O simbolismo da saúde e da doença, como consciência da materialidade do corpo ligada à obediência à Lei, foi tão forte que alcançou as promessas escatológicas dos profetas. Algumas delas definem que, no fim dos tempos, não haverá enfermos nem sofrimentos e lágrimas.

Em parte, a historicidade escatológica do AT favoreceu a separação do judaísmo do catolicismo. Enquanto os judeus continuam esperando o Messias, os católicos consideram a ressurreição de Cristo como a prova da identidade como Filho de Deus, a vitória da vida sobre a morte e a promessa da vida eterna.

O Novo Testamento (NT) reproduziu muitos parâmetros do AT sobre a manifestação das enfermidades e dos curadores. Nesses pontos, uma das diferenças marcantes entre o AT e o NT reside na fé de que Jesus Cristo, o filho de Deus tornado homem, curou e ressuscitou os mortos. Nos registros dos apóstolos, Jesus Cristo encontrou e curou muitos doentes, tendo compreendido as doenças de modo semelhante aos profetas do AT e o sofrimento ligado ao pecado.

As passagens do NT sobre as curas milagrosas assumiram grande importância na catequese de Jesus Cristo. Esse aspecto catequético do cristianismo se reproduziu de modo espetacular na formação da Igreja dos primeiros tempos e nos séculos seguintes, presente nas incontáveis representações na arte e literatura.

No NT, as doenças também são justificadas pela equação pecado-castigo, onde a ação do antideus sobre a saúde dos homens é a maior determinante para o aparecimento das enfermidades e a expulsão dele do corpo representa o perdão dos pecados e a consequente cura. Desse modo, no conjunto neotestamentário, saúde e a doença continuaram resultantes da luta entre o bem e o mal, respectivamente simbolizando Deus e o antideus.

A representação da doença no NT também assumiu a forma de uma consciência corpórea no pecador, cujo peso das faltas cometidas contra a Lei macula a obra da Criação perfeita em si mesma. A cura dos cegos, leprosos, paralíticos e loucos legitima o magistério de Jesus como Filho de Deus e confirma as promessas dos profetas do AT.

O poder de Jesus para curar os doentes foi transmitido aos apóstolos como integrante da evangelização, em Mt 10, 1 e Mc 16, 17-18. Essas passagens dos apóstolos Mateus e Marcos, representando importantes pilares da catequese cristã, também estratificam algumas diferenças no trato da saúde e da doença na Bíblia: enquanto o AT mostra um Deus mais rigoroso, até intolerante, no cumprimento da Lei, e muitas recomendações higiênico-dietéticas, relacionadas às necessidades da época, o NT ligou-se mais ao enfoque salvífico pessoal.

O médico é retirado quarto para que a santa possa agir, século XIV.
Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | 5 Comentários

Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes

Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

 

Hereges queimados no fogo da madeira verde, século XVI, Alemanha.
.
A triste lembrança da execução do médico espanhol Miguel Servet, queimado vivo no fogo lento da madeira verde, em Genebra, no dia 27 de outubro de 1553, retrata o trágico resultado da perseguição aos homens e mulheres que resistiram aos dogmas encobertos pelo véu da intolerância dos católicos e protestantes.

A coragem de Servet amedrontou as duas hierarquias. Por essa razão, acabou queimado em imagem pela igreja católica, em Paris, e na fogueira pelos calvinistas.

Além da sempre atual lembrança dessa morte dramática e cruel, o extraordinário médico espanhol continua sendo lembrado como um ator fascinante, inserido nos dramas sociopolíticos do final do medievo e início do renascimento europeu, na veemente liderança contra os abusos eclesiásticos.

Miguel Servet nasceu em 1509, na aldeia espanhola Villanueva de Sigena, tornando-se um homem de fé e ciência. Como cristão devoto, entendia a Bíblia como o livro divino que transcrevia a palavra de Deus, convicto de que a origem da vida estava descrita no Gênese. Nesse sentido, nas dissecções dos cadáveres, incansavelmente, procurava nos pulmões o sopro que faz viver.

Sem achar o sopro da vida, a busca propiciou a mais importante contribuição na anatomia da pequena circulação entre o coração e os pulmões. Com clareza, o médico espanhol descreveu como o sangue caminhava do coração ao pulmão e vice-versa por meio das veias e artérias pulmonares que saiam e entravam nos átrios cardíacos.

Miguel Servet estudou na Universidade de Toulouse. Esse centro de ensino, em 1530, registrou em torno de dez mil alunos e seiscentos professores. Convivendo com os primeiros ares de maior liberdade, na alvorada renascentista, estudou Direito. Nessa ocasião, desafiando a autoridade papal, ao protestar com veemência contra o Código Justiniano, que legislava a pena de morte a todos que negassem a doutrina da Trindade, plantou o próprio calvário de sofrimento.

A partir da leitura atenta da Bíblia, Servet comprovou a absoluta ausência de qualquer referência à Trindade. Ele escreveu no seu livro Sobre os erros da Trindade (De Trinitatis erroribus), publicado em 1531, que a doutrina da Trindade seria um conjunto de sofismas originados no Concílio de Niceia, realizado no ano 325. A Trindade não estava no livro sagrado!

Homem de profunda fé, Servet admitia analogia bíblica entre o espírito e o sopro. Com discurso teológico pleno de fé, escreveu no seu famoso livro Christianismi Restituio as novas concepções que modificaram para sempre o conhecimento da pequena circulação que leva o sangue do coração ao pulmão e o traz de volta, já oxigenado, para ser distribuído por todo o corpo: “O espírito vital se regenera nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventrículo direito do coração. Sem dúvida, esta comunicação não se faz através da parede do coração, como se acreditou até hoje, e sim, por meio de um grande orifício, o sangue é impulsionado até os pulmões”.

Ao utilizar os próprios estudos anatômicos, apreendidos nas dissecções dos cadáveres, Servet materializou o sopro, como compreensão de espírito, dando vida ao corpo. O médico nunca seria perdoado de ter expressado essa arrogância frente à autoridade eclesiástica, que mantinha a partilha sopro-espírito no exclusivo domínio do sagrado.

O desafio ao dogma aumentou a perseguição. O fim avizinhava-se. As contradições do poder de Roma uniram-se em torno de um objetivo maior: destruir o audacioso médico espanhol. Ao perceber o perigo iminente, fugiu em direção à Suíça, esperançoso da prolatada maior liberdade proposta pelos calvinistas. Triste engano! Ao defender o anabatismo, os calvinistas o encarceraram. No dia 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo no fogo lento da madeira verde, usada para aumentar o sofrimento.

Durante o processo acusatório montado pelos calvinistas, em Genebra, Servet recebeu as graves acusações de dois crimes, ambas passíveis da pena de morte: o antitrinitarismo e o favorecimento do anabatismo. As incriminações foram suficientes para que católicos e protestantes se unissem na destruição do inimigo comum.

Na França, a Igreja confiscou e destruiu a maior parte dos livros do médico espanhol. Os poucos exemplares sobreviventes do Christianismi Restituio, que descreveu as relações anatômicas entre o coração e pulmão, partes essenciais da circulação sanguínea, só foram identificados anos depois de William Harvey ter publicado o livro L’Exercitatto anatomica de motu cordis et sanguinis circulatione (Exercício anatômico sobre o movimento do coração e do sangue nos animais), e recebido das mãos do rei Carlos V os louros e o título de sir.

A brutal perseguição e morte de Miguel Servet, o médico espanhol que resistiu até a morte aos dogmas católicos e protestantes, ainda hoje ampara a reflexão das iniquidades que amparam a intolerância religiosa.

Intolerância religiosa, 1555, Alemanha.
Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | 1 Comentário