Universidades, medicina e igreja na idade média europeia

 

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho
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Catedrático.
Com a divisão do Império Romano, iniciada pelo Imperador Constantino e consolidada por Teodósio, entre os séculos IV e V, o Império Romano do Ocidente adotou Milão, na Itália, como capital, e o Império Romano do Oriente, Constantinopla, atual Istambul.

O Império Romano do Ocidente sofreu profunda transformação sócio-política nos anos seguintes em consequência da cristianização, da invasão dos visigodos e da gradativa mudança do sistema mercantil-escravista para o feudal. Simultaneamente, as práticas médicas também foram envolvidas nas alterações em curso.

Com a cristianização das práticas administrativas, maior no Império do Ocidente, a influência exercida pela Igreja na Medicina transformou a doença em sinônimo de pecado e a cura divina no melhor tratamento. Desse modo, abandonou os avanços no diagnóstico e tratamento greco-romanos e retornou de forma agressiva às concepções médicas correntes, nos dois milênios anteriores, na Mesopotâmia e no Egito, quando a Medicina estava fortemente agregada às vontades dos muitos deuses e deusas.

No Império Romano do Ocidente, a partir do século VI, na medida em que a Igreja proibia o estudo da anatomia humana, reforçava a aura sagrada da doença e operava o tratamento exclusivamente no milagre, também fecharam-se as escolas de Medicina e os médicos laicos tornaram-se minguados.

Os tratamentos de qualquer doença passaram a ser realizados nos mosteiros pelos padres e freiras das diferentes ordens religiosas. Entre os mosteiros que se destacaram no exercício médico destaca-se o de Monte Cassino, na Itália, construído sobre antigo templo de Apolo.

Outras desastrosas mudanças acompanharam a cristianização, na Europa central: abandono das normas de higiene pessoal e coletiva, fechamento das casas públicas de banho para evitar o contato dos corpos, favelização generalizada das cidades, desabastecimento de água potável, esgotos a céu aberto, enterramento dos mortos nas áreas urbanas, incontáveis ratos reproduzindo-se nos lixos acumulados e sem coleta organizada, sem dúvida, contribuíram para o agravamento das doenças endêmicas, que culminariam com os surtos da peste negra, matando mais da metade da população europeia.

Sem outras opções, milhares de pessoas desesperadas e doentes usavam relíquias e talismãs, esperançosas da proteção das doenças, e seguiam as romarias na busca dos milagres, nos santuários cristãos, em Jerusalém, até a conquista pelos árabes, posteriormente, substituída por Santiago de Compostela.

Exemplo marcante de como a superstição era importante pode ser sentido nas palavras de Santo Agostinho: “O perfume de azeviche afugenta os demônios e seu uso desata e desfaz o quebranto, ligaduras e encantamentos e todos os fantasmas tristes e melancólicos”.

Nos séculos seguintes, sob pressão das populações desassistidas, os padres também exerceram a Medicina fora dos muros dos mosteiros. Sem nenhuma formação técnica, os tratamentos realizados pelos religiosos expunham o despreparo retratado no elevado número de complicações e mortes entre os doentes.

Em consequência dos atritos, alguns causando revoltas populares, com destruição de igrejas, os padres e freiras foram proibidos de exercer a Medicina fora dos mosteiros por determinação do Concílio de Remis (1131) e do Concílio de Roma (1139).

Esta situação insustentável contribuiu para a organização, sob a guarda da Igreja, nos mosteiros e nas abadias, de centros de ensino de Medicina, a partir da leitura dos livros de Hipócrates e Galeno, com o ensino pautado em dois procedimentos:

Lectio: leitura e comentários das obras greco-romanas;
Disputio: debate após a leitura.

A Escola de Medicina de Salerno, no sul da Itália, organizada nas dependências do já famoso convento beneditino, representou uma das mais importantes nesse processo de reconstrução da Medicina laica no medievo europeu. Uma das principais heranças desse grupo de Salerno, reproduzindo os ensinamentos hipocráticos, notabilizou-se na famosa frase: Primo, nou nuocere (Em primeiro, não façam mal).

Simultaneamente, entre os séculos XI e XII, surgiram outros centros de ensino que iriam mudar o perfil da Medicina medieval europeia, que mantiveram características semelhantes: maior influência laica com estrutura teórica hipocrático-galênica:

– Escola de Medicina de Monte Cassino;
– Universidade de Bolonha;
– Universidade de Montpellier;
– Universidade de Oxford;
– Universidade de Cambridge;
– Universidade de Toulouse;
– Colégio Robert De Sorbon que Originou a Sorbonne.

Como sequência, ao desmancharam-se os nós que sustentavam as proibições eclesiásticas, Mondino de Luzzi(1270-1326), professor da Universidade de Bolonha, realizou uma das primeiras dissecções humanas em 1315.

A Cátedra, como símbolo do ensino medieval, remonta a essa época. O professor sentado numa grande cadeira ditava a aula aos alunos calados e atentos, ávidos de conhecimentos, sem questionar as exposições do catedrático.

Santa Luzia, protetora dos olhos.
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Medicina nas primeiras cidades: Mesopotâmia

 

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

 

Deus bom, Ningishzida, representado em forma de cobra.

Com a consolidação do sedentarismo, nas margens dos rios piscosos, em torno de 5.000 anos, no Norte da África — Egito e Mesopotâmia — e algumas áreas da Ásia — Índia —, importantes modificações foram se processando nos antigos grupos nômades de caçadores-coletores. Entre as mais significativas, que mudariam para sempre as relações sociais humanas anteriores, se destacaram: a construção das elites dominantes laicas e religiosas, as práticas agrícolas, os ajustes e defesa da territorialidade e os panteões.

Como fruto dessas mudanças, as sociedades francamente hierarquizadas acolheram regras destinadas às propriedades privadas, moldando os assentamentos mais duradouros.

Os aldeamentos foram substituídos pelas primeiras cidades e, no milênio seguinte, as civilizações regionais se consolidaram e assimilaram diferentes formas de poderes, predominando o teocrático e o mercantil-escravista. As guerras contínuas pela posse do território ofereciam escravos e terras, fortalecendo a escravidão e a propriedade privada.

Muitas mudanças provocadas pelo sedentarismo contribuíram para fortalecer a figura social do médico. De modo geral, os registros disponíveis, no Egito (Novo Império, XVIII a XX dinastias, 1.540 a 1.069 a.C.), Mesopotâmia (Babilônia, no período de Hammurabi, 1792-1750 a.C.) e Índia (Mohenjo-Daro, 2.500 a.C.), indicam que, apesar de poucos, os médicos já eram personagens sociais reconhecidos e com nominação própria, instruídos na arte de curar por meio de remédios e cirurgias.

Os médicos dessas cidades, sem um processo teórico que explicassem a saúde e a doença, apesar de terem iniciado a Medicina como uma especialidade social, ficavam atados às crenças e idéias religiosas, onde a vontade dos deuses e deusas era mais poderosa de que os remédios e as cirurgias.

Por outro lado, mesmo com a comprovação histórica da estreita ligação dos médicos ao panteão — Medicina divina — em ensaios de acertos e erros, compondo o conhecimento historicamente acumulado, houve a busca de novos saberes da natureza circundante para curar as doenças — Medicina empírica. É possível que a proximidade entre essas duas práticas médicas, em especial as praticadas nos templos pelos representantes dos deuses e deusas, os sacerdotes e as sacerdotisas, tenha promovido a semente que levaria a construção da Medicina oficial, amparada pelo poder dominante.

De certo modo, mutatis mutandis, nos quatro cantos do planeta, continuamos comprovando a existência dessas três Medicinas.

Deus mau em forma de inseto díptero.
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Mesopotâmia

A atividade médica deveria ser intensa e diferenciada nos vários extratos sociais, no reinado de Hammurabi (1728-1688 a.C.), suficientes para gerar atritos freqüentes, perturbando a ordem social.

Como não se constroem leis proibindo ou punindo o que não se faz, a administração do rei Hamurabi dedicou vários parágrafos do famoso código de leis para disciplinar o exercício da Medicina:
§ 216 Se foi o filho de um muskenum, ele receberá 5 siclos de prata.
§ 217 Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará ao médico dois siclos de prata.
§ 218 Se um médico fez em um awilum uma operação difícil com um escalpelo de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum e destruiu o olho do awilum, eles cortarão a sua mão.
§ 219 Se um médico fez uma operação difícil com um escalpelo de bronze no escravo de um muskenum e causou-lhe a morte, ele deverá restituir um escravo como o escravo morto.
§ 220 Se ele abriu a sua nakkaptum com um escalpelo de bronze e destruiu o seu olho, ele pesará a metade de seu preço.
§ 221 Se um médico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um músculo doente, o paciente dará ao médico 5 siclos de prata.
§ 222 Se foi um muskenum, dará 3 siclos de prata.
§ 223 Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará 2 siclos de prata.

Dessa forma, o código de Hammurabi iniciou o processo histórico para estabelecer normas nos dois pontos cruciais da ordem médica: as sanções que devem receber os médicos pela imprudência, imperícia e negligência e os honorários diferenciados pelo tratamento entre pessoas de diversos grupos sociais.

Como no Egito, os tratamentos eram cercados da presença dos deuses e deusas e a doença compreendida:
– Como castigo divino;
– Ofensa específica a um determinado deus;
– Intervenção direta dos deuses maus;
– Abandono do deus protetor;
– Influência do deus mau.

O panteão era povoado por muitos deuses e deusas taumaturgos:
– Gula, mulher de Ninurta;
– Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas cobras enroladas no bastão; trata-se da primeira associação entre a cobra e a Medicina;
– Sachan, a deusa-serpente;
– Ishtar, a deusa da fecundação e libido no homem e na mulher;
– Pazuzu, o deus mau em forma de um inseto díptero.

As tábuas de escrita cuneiforme encontradas nas bibliotecas de Assurpanibal, em Nínive, e Hammurabi, em Mari, descreveram os quadros de várias doenças de modo extraordinariamente coerente e preciso: malária, tuberculose pulmonar, distúrbios mentais, alguns tumores benignos e malignos, otite, gastrite, hepatite e asma brônquica, entre muitos outros.

De modo geral, as práticas médicas, nas primeiras cidades, moldaram grande parte da compreensão da profissão, que perdura na atualidade:
– Reconhecimento social do médico;
– Trabalho remunerado;
– Fiscalização da má prática;

Talvez seja interessante refletir sobre dois aspectos significativos da relação da Medicina mesopotâmica com os deuses e deusas.

1. A significância do simbolismo da cobra ligada à cura das doenças: o caminho escolhido pelo imaginário humano na busca da pretendida imortalidade com a participação da cobra está perfeitamente claro em dois fantásticos registros. O primeiro, no Rig Veda, onde os Adityas descri­tos como descendentes da cobra, porque ao perderem a pele velha, vence­ram a morte e adquiriram a imortalidade. O segundo, na Epopéia de Gilgamesh, on­de o herói, depois de inúmeras ações sobre-humanas para obter a planta da vida eterna, cansado, após acordar na beira do rio, presencia o remédio que garantiria a vida eterna ser comido pelo réptil, seguindo-se da imediata mudança da pele, momento em que o herói mítico babilônico se dá conta da morte inevitável.
2. O deus mau Pazuzu em forma de inseto díptero: como os primeiros assentamentos, na Mesopotâmia, foram consolidados em área de várzea, pressupõe-se a existência da maior quantidade de insetos que transmitem a malária. Apesar de nada conhecerem da etiologia dessa doença, é possível que tenham associado o inseto com as febres descritas.

Desse modo, mesmo com a forte dependência das idéias e crenças religiosas para formar juízos de valores das doenças, tanto no Egito quanto na Mesopotâmia, havia a intencionalidade de compreender a doença fora do panteão.

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Diorito preto contendo o código de Hammurabi.
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