Arqueologia da doença e a teoria do caos (1/2)

 

Pro.Dr.HC João Bosco Botelho

Para iniciar a discussão teórica entre as relações da arqueologia da doença com a teoria do caos, é adequado introduzir três categorias envolvidas com a cura das doenças:

• Medicina-divina: construída desde tempos imemoriais, como parte indissociável das ideias e crenças religiosas, notadamente como instrumento de catequese. Os agentes têm sido homens e mulheres, identificados como possuidores de dons especiais, representantes das divindades taumaturgas, para curar as doenças por meio de mágicas (ou milagres) rituais que incluem os toques das mãos sobre o suplicante;

• Medicina-empírica: intimamente relacionada e tão antiga quanto a medicina-divina. Os agentes são representados por homens e mulheres com forte aderência às crenças e ideias religiosas dominantes ou marginais, identificados nas comunidades pela qualidade de possuírem o dom de curar. Além dos ritos de natureza religiosa, onde se destacam também o toque das mãos, os sopros e danças, diferenciam-se dos agentes da medicina-divina pelo uso dos recursos da natureza circundante, amparados nos conhecimentos historicamente acumulados, para obter a cura;

• Medicina-oficial: os registros são uniformes, desde o passado de 3.500 anos, que os processos teóricos que continuam amparando a reprodução dos médicos, sob a guarda do poder dominante e como agentes exclusivos da medicina-oficial, foram construídos em torno de três determinantes principais interrelacionadas:

– Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;

– Estabelecer os parâmetros do normal e da doença;

– Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor fora de controles e da morte precoce.

Antepondo-se à medicina-divina e à medicina-empírica, o conjunto teórico da medicina-oficial tem assumido posição muito clara quanto à busca da materialidade da saúde e da doença: a arqueologia da doença está sendo decifrada nas dimensões cada vez menores da matéria viva.

As resultantes apontam para a certeza de esses saberes, amparado por processos teóricos, produzidos fora das ideias e crenças religiosas, continuam produzindo mudanças sociais duradouras. Do mesmo modo, acompanhando as inovações da ciência e da tecnologia, a medicina-oficial é a única responsável pelos avanços sociais que possibilitaram, em muitas circunstâncias, as pessoas viverem mais e melhor, vencendo muitos tipos de dor e evitando incontáveis mortes nos quatro cantos do planeta.

A busca da arqueologia da doença, fora das ideias e crenças religiosas, iniciou sua trajetória no século 4 a.C., na ilha de Cós, na Grécia, nos escritos de Políbio, o genro de Hipócrates. Esse genial médico, baseado nos quatro elementos de Empódocles (água, fogo, terra e ar), estabeleceu a primeira teoria — Quatro Humores (sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso preto) —, para o entendimento das origens das doenças. Simultaneamente, provocou o longo processo, ainda em curso, de ruptura com as estruturas de poderes organizadas nas idéias e crenças religiosas e retirando dos deuses e deusas protetores a primazia de provocar a saúde e a doença.

A interpretação filosófica da teoria dos Quatro Humores, sob os conceitos de Bachelard (Bachelard, Gaston. Épistémologie. 3ª. sd. Paris. PUF. 1980), a teoria dos Quatro Humores, de autoria de Políbio, pode ser considerada o primeiro corte epistemológico da história da Medicina, materializando a partida na busca da arqueologia da doença e reduzindo a imensidão teofânica à visibilidade corpórea.

Assim, o entendimento da doença passou da abstração da mágica (ou dos milagres) ao corpo visível e mensurável.

Dois mil anos após, no Renascimento europeu, a partir do aprimoramento das lentes de aumento, ocorreu o segundo corte epistemológico da história da Medicina, nas publicações de Marcelo Malpighi, descrevendo o primeiro relato da micrologia dos seres vivos. Dessa forma, a materialidade da doença pulou da macroscopia dos corpos para os seres invisíveis aos olhos desarmados — os micróbios — mas, identificados por meio das lentes de aumento, o cerne do pensamento micrológico.

Pouco menos de duzentos anos depois, o genial frade agostiniano Gregor Mendel, na sessão de 8 de fevereiro de 1865 da União de Naturalistas de Brün, sem imaginar a grandeza do extraordinário salto que estava construindo, ao descrever as leis da segregação e da independência, explicando os resultados dos cruzamentos das ervilhas, levou a arqueologia da doença da dimensão celular à molecular, inaugurando o terceiro corte epistemológico da história da medicina, brotando o pensamento molecular, que culminaria, no século seguinte, com o estudo do genoma, uma das consequências mais fascinantes do pensamento molecular ou ultramicroscópico.

Sem pretender simplificar exageradamente, a busca da arqueologia das doenças está percorrendo o caminho da maior para a menor dimensão da matéria:

CORPO – ÓRGÃO – CÉLULA – MOLÉCULA

Com a anulação da porção teofânica, a construção dessa estrutura teórica, para que seja identificada uma parte do corpo “doente”, visível aos olhos desarmados, qual-quer que seja a ação motivadora da mudança no aspecto do corpo, determinando a “doença”, torna-se necessário que o caminho inverso seja igualmente verdadeiro, isto é, as alterações na matéria viva também estão presentes em todas as dimensões da matéria:

CORPO DOENTE – ÓRGÃO DOENTE – CÉLULA DOENTE – MOLÉCULA DOENTE

É possível oferecer abundantes exemplos de como se passa essa realidade nos tecidos vivos, dos seres multicelulares, passível de comprovação e, em muitos casos, a reprodução laboratorial.

A pessoa que apresenta, ao exame clínico, o bócio difuso não nodular (aumento do volume da glândula tireóide sem nodulação) com aumento da função (hipertireoidismo) é possível comprovar a doença nos três níveis.

– Corpo: aumento visível da porção anterior e inferior do pescoço;

– Órgão: aumento do volume da tireóide comprovado por meio do exame do ul-trassom;

– Célula: alteração visível por meio do microscópio ótico, característica somente do hipertireoidismo;

– Molecular: a dosagem dos hormônios presentes na corrente sanguínea que caracterizam o hipertireoidsmo.

Além de não existir dois bócios exatamente iguais; são diferentes entre si, mas mantêm certas características semelhantes, capazes de justificarem agrupá-los sob a mesma nominação.

A complexidade da arqueologia da doença aumenta na mesma medida em que temos a certeza de a matéria viva não termina na dimensão molécula, considerando o espectro da matéria, abaixo, da maior dimensão em direção à menor (da esquerda para a direita):

MOLÉCULA – ÁTOMO – PRÓTONS – NEUTRONS – ELETRONS – PARTÍCULAS SUBATAÔMICAS – BÓSON DE HIGGS (?)

O acesso visual como uma etapa para compreender a forma das estruturas vivas, seja por meio da visão desarmada ou com a ajuda da microscopia ótica e da microscopia eletrônica, só alcança parte da matéria viva:

– corpo e órgão, visíveis aos olhos desarmados;

– célula, visível à microscopias ótica e eletrônica;

– molécula, invisíveis;

– átomos, invisíveis;

– partículas subatômicas; invisíveis.

Essa é a razão pela qual mesmo com o inegável progresso para desvendar a arqueologia da doença, a medicina-oficial não sabe em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença (se é que a doença realmente existe como está sendo concebida). Talvez esse enigma esteja relacionada à pouca compreensão dos sistemas vivos sob o prisma da Termodinâmica. Até hoje, continua sendo muito difícil entender o homem, como exemplo de sistema aberto, consegue manter a vida com rigorosa ordem interna e baixa entropia.

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Arqueologia da doença e a teoria do caos (2/2)

 

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Atuais competências e incompetências da Medicina

Como consequência das incontáveis dúvidas, fica mais fácil entender os níveis de competência da medicina-oficial e, nessa relação direta, a maior ou menor presença do chamamento à medicina-divina e à medicina-empírica:

– Competência da medicina-oficial com pouco ou nenhum chamamento da medicina-oficial e medicina-empírica: doenças não traumáticas em pacientes com imunidade normal, portadores de doenças infecciosas causadas por fungos e bactérias;

– Incompetência da medicina-oficial com muito chamamento da medicina-oficial e medicina-empírica: doenças não traumáticas em pacientes com imunidade normal, portadores de doenças infecciosas causadas por vírus;

– Incompetência da medicina-oficial com muito chamamento da medicina-oficial e medicina-empírica: doenças não traumáticas em pacientes imunodeprimidos, portadores de doenças infecciosas causadas por bactérias, fungos e vírus;

Entre as muitas circunstâncias que envolvem incompetência da medicina-oficial, podem ser citadas:

– como aparece a primeira célula do câncer;

– previsão do infarto do miocárdio;

– como ocorrem as doenças imunomoduladas;

– alteração da forma do sistema nervoso central nas psicoses;

– diferentes manifestações da mesma doença.

A partir dessa certeza, de a medicina-oficial desconhecer em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença, parece ser possível ensaiar outra abordagem teórica da arqueologia da doença tomando como parâmetros o caos — instabilidade que persiste.

Apesar dos avanços tecnológicos alcançados, principalmente, com a mecanização automação interferindo cada vez mais no domínio da natureza, persistem muitas dúvidas estruturais para compreender melhor a coisa em si (referida ao conceito kantiano). Por outro lado, deve ficar clara que essa abordagem está voltada à certeza do resolutório patrocinado pelo processo histórico do conhecimento, como ponte para transformar a coisa em si em coisa para nós.

A busca da arqueologia da doença é, certamente, uma das dúvidas que persistem.

O caos está presente em toda a natureza e pode se manifestar quando um objeto é submetido ao efeito de mais de uma força, gerando situações impossíveis de previsibilidade, com os atuais conhecimentos. Os exemplos mais banais vão desde a ten-tativa de prever o próximo movimento de uma folha que corre livre ao sabor da corrente das águas de um rio, uma bactéria que sobrevive na corrente sanguínea até as previ-sões climáticas. Nesses exemplos, ainda não é possível saber o que poderá acontecer à folha, à bactéria e se terá ou não tempestade em Manaus num determinado dia, mesmo utilizando os mais complexos sistemas de cálculos.

A maior dificuldade reside em separar a supremacia do caos à aparente estabilidade das coisas visíveis aos olhos desarmados. A nossa visão apreende o conjunto circundante como se tudo apresentasse o mesmo ritmo uniforme e eterno: a noite, o dia, as estações do ano, as estrelas e o movimento dos planetas.

Sob essa aparente e enganosa simplicidade rítmica, o homem tem acumulado saberes e, em especial, construiu compreensões estáticas da saúde e da doença, predominando um divisor de águas entre o homem doente, como sinônimo da morte, e o sadio, como afirmação da vida.

Nada na natureza circundante se passa desse modo. O matemático francês Henri Poincaré (1854-1912) demonstrou a instabilidade mesmo em sistemas simples. Esse pensador acabou ficando conhecido também pela defesa da existência de uma “comodidade da ciência”, onde as teorias científicas traduziriam a arbitrariedade da razão com o objetivo de tornar inteligível um conjunto de fatos observados.

A atual compreensão de instabilidade regendo o conjunto que mantém a vida no planeta é absolutamente fantástica, porque obriga todos a mergulharem na incerteza angustiante ao acabar com as certezas acabadas.

O estudo do caos inseriu a matemática nos sentidos do homem onde a capacidade humana de abstrair as formas espaciais foi incorporada a outra geometria muito diferente da euclidiana. Reforçando essa fantástica capacidade de avançar para procurar respostas, homens geniais imaginaram a projeção espacial da molécula de ADN, abrindo o caminho para desvendar o genoma.

Sob esse prisma, decompondo as estruturas lineares e estáticas, na certeza de que a coisa em si passa gradual e inexoravelmente à coisa para nós, isto é, o noumeno cedendo lugar ao conhecido, é razoável pressupor que, no futuro, a doença será compreendida como fenômeno dinâmico fora do espaço euclidiano.

O possível caminho envolvendo a arqueologia da doença à caoslogia, isto é, outra compreensão do “normal” e da “doença” fora do espaço euclidiano, foi iniciado pelo pesquisador Susumi Tonegawa, o ganhador do Nobel de 1987, com o indicativo de certos fatores sociais causarem alterações genéticas, demonstráveis em laboratório por meio:

– Ocorrência de variações na ordem dos aminoácidos dos anticorpos produzidos nos linfócitos B;

– Segmentos do material genético são selecionados e misturados para formar novos genes;

– Originaram muitas sequências variadas de aminoácidos, que seriam capazes de efetuar com competência a defesa do corpo humano contra as agressões nas dimensões micro e macroscópica.

Nessas condições, as conhecidas alterações orgânicas produzidos por certos tipos de estresses repetitivos, teriam sido induzidas geneticamente no passado remoto, com a função de manter a vida:

– Redução temporária do número de linfócitos;

– Aumento de neutrófilos e das células natural killer no sangue;

– Migração dos linfócitos para a medula óssea e pele;

– Ativação rápida das glândulas do sistema hipotálamo-hipófise-adrenal, liberando grandes quantidades do hormônio cortisol, na glândula suprarrenal.

Nada impede de considerar como legítimo o pensamento inverso: se as adaptações genéticas foram competentes para gerar respostas endógenas repetitivas para manter a vida, existiriam outras circunstâncias, nas quais não teria ocorrido a mesma competência, resultando em muitas doenças. Com a liberdade requerida pelos que anseiam respostas (como ponte para transformar a coisa em si em coisa para nós), sem as tê-las, quem sabe, em alguma parte da matéria viva, estariam os encontros entre as medicina-divina, medicina-empírica e medicina-oficial, que justificaria a im-pressionante reprodução na crença dos milagres nos quatro cantos do planeta. Esse caminho possibilitaria desvendar a arqueologia da doença até nas menores dimensões da matéria, onde o normal se transforma em doença.

Bóson de Higgs

A imprensa mundial divulgou, no dia 31 de março próximo passado, o espetacu-lar acontecimento científico ocorrido no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês): o encontro de dois feixes de partículas subatômicas com a velocidade próxima à da luz, possibilitando a descoberta de outras partículas subatômicas e, talvez, de outras dimensões.

Do mesmo modo, também poderá significar o início do caminho para a ciência entender em qual dimensão da matéria o tecido normal se transforma em doença.

Sob essa magnífica realidade, igualmente, é possível teorizar que o quarto corte epistemológico da Medicina esteja em curso: a busca da materialidade da doença na dimensão atômica-subatômica.

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