Processos históricos na ética médica (6/7)

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

7. No renascimento europeu

Alguns acontecimentos marcaram o Renascimento como um novo tempo na Europa, interferindo diretamente na ética médica oriunda do medievo:

– Publicação mecanizada dos livros;

– Ruptura com as interdições eclesiásticas: dissecação pública de corpos humanos;

– Teatros de anatomia em vários reinos europeus;

– Publicação do livro De humani corporis fabrica, de André Vesálio;

– Publicação do livro A cirurgia, de Ambroise Paré;

– Publicação do livro Christianismno restitutio, de Miguel Servet, contestanto a veracidade da Trindade Cristã;

– Publicação do livro De viscerum structura, de Marcelo Malpighi, descrevendo o mundo somente visível sob as lentes de aumento, iniciando o pensamento micrológico, que pode ser considerado o segundo corte epistemológico da Medicina;

– Ampliação das fronteiras com a chegada dos europeus nas Américas, Ásia e áfrica.

Entre outras singularidades do Renascimento, se destaca a vontade coletiva de retomar os ideários políticos da Grécia platônico-aristotélica. Desse modo, inicia-se outra fase da ética médica sob menor influência dos dogmas do cristianismo medieval. Portanto, a ética médica renascentista se adaptará às liberdades chegadas com o Renascimento.

– Importante e decisiva procura da materialidade da doença;

– Retomada das diretrizes teóricas da Medicina greco-romana;

– Diminuição do valor atribuído aos santuários curadores;

– Aumento do número de médicos oriundos das novas universidades;

– Maior participação de médicos laicos no processo formador da Medicina;

– Livros escritos em latim;

– Presença de geniais pintores e escultores, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt, entre outros, detalhando nas obras de artes o corpo desnudo;

– Maior acesso aos livros produzidos no período greco-romano;

– Desenvolvimento da anatomia e da fisiologia;

– Substituição das confrarias, sob a guarda dos respectivos santos protetores – como a dos cirurgiões, sob a proteção de São Cosme e São Damião – pelos Colégios e Academias laicos, como o Royal College of Surgeons, em Londres, e a Academia de Ciências, em Paris;

– Cirurgia incorporada à Medicina;

– Forte recuo da compreensão da doença como mal, provocada pela fúria divina.

No Renascimento europeu, enquanto a Medicina ampliava os domínios da compreensão da saúde, foi consolidada a busca da materialidade da doença sob o estandarte da micrologia.

Publicado em ÉTICA MÉDICA-BIOÉTICA | Deixe um comentário

Processos históricos na ética médica (7/7)

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

8. No século 17

O século 17, também conhecido como o século da razão, trouxe o encontro entre as liberdades com a ética médica. Esse complexo conjunto sócio-político foi firmemente tocado pelas idéias de Newton, Descartes, Locke, Spinoza, Leibniz, Cornelle, Racine, La Rochefoucault e Molière.

Como nunca no passado, as práticas médicas aumentaram o valor da materialização da doença, olvidando cada vez mais a dependência das idéias e crenças religiosas. Centenas de descrições de estruturas e sistemas anatômicos, que receberam os nomes dos respectivos autores, foram acrescentadas aos saberes anatômicos.

Sob o impacto dessas profundas mudanças estruturais, a ética médica foi retomada por Spinoza, em 1661, nos seus geniais livros A ética e o Tratado da reforma do entendimento, ambos valorizando a vida e rejeitando valores negativos da compreensão dos conflitos sociais. Nesse contexto, a Medicina oficial e o médico como seu agente, foram reconhecidos como partes importantes da construção do belo, do feliz, da vida, iniciando as concepções do “direito natural”.

9. No século 18

O século 18, reconhecido como o século das luzes, brilhou sob esplendor das idéias de Locke, Leibniz e Condillac. Essa característica foi retomada por Kant que reconheceu a supremacia da razão como instrumento para superar a ignorância. Sob certas condições é possível também entender certa semelhança com as ideias sobre a natureza dos homens, defendida pelos autores setecentistas, como o início da generosidade explícita, como manifestação da virtude, que os médicos devem adotar no trato com os doentes. Nesse contexto, Diderot acorda ao caráter protetor na natureza e Rousseau defende a natureza como “delicada amiga do homem”, como princípio da verdade e da virtude. Desse modo, o século 18 também refunda a ideia da generosidade virtuosa que rapidamente se aderiu à Medicina. Também é interessante assinalar que a ideia de progresso, central no século das luzes, não se desprendeu dessa generosidade, como está claro na declaração dos Direitos do Homem.

Esse ideário de generosidade, direito e ética se transformou em mensagens de liberdades e acenderam os pavios das revoluções que forçariam, outra vez, a abordagem da ética, sob a ótica do genial Kant. Esse homem extraordinário, sem jamais sair de sua cidade natal Königsberg, na antiga Prússia oriental, publica dois livros que mudariam algumas abordagens da ética e da moral: em 1788, Crítica da razão prática, e, em 1790, Crítica da faculdade de julgar. Este, essencialmente contra o autoritarismo que dominava o mundo político no qual vivia, sob o reinado de Frederico II, rei da Prússia, cujos julgamentos sumários lembravam os realizados pela Inquisição católica, nos quais o réu já entrava no julgamento previamente condenado e só eram permitidas as respostas “sim” ou “não” do próprio réu e das testemunhas, tudo feito para evitar as emoções nos julgamentos. O desfecho contra o vício nos julgamentos viria com a introdução do não menos genial Crítica da razão pura, onde a categoria metafísica é utilizada para repudiar todos os dogmatismos despóticos, falsas genealogias, as indiferenças quanto as diferentes naturezas dos saberes humanos.

Por outro lado, a forte presença do pensamento micrológico, inaugurado por Marcelo Malpighi, no Renascimento, atingiu e ocupou a maior parte do ideário da Medicina na busca da materialidade da doença sob as lentes de aumento.

Por outro lado, chegaram os avanços nos saberes em vários aspectos da Medicina:

– Fisiologia: a anatomia já não bastava à liberdade, as academias e sociedades médicas promoviam debates sobre o funcionamento dos órgãos;

– Fisiologia experimental: muitas funções foram monitoradas e melhor compreendidas nos animais de experimentação, principalmente o cachorro e o gato domésticos;

– Os estudos de Virchow foram fundamentais para a consolidação da histologia;

– Com a associação entre anatomia-fisiologia-micrologia-histopatologia nasceria a anatomia patológica explicando os mecanismo da morte causada pelas doenças;

– Muitos cirurgiões descrevem técnicas cirúrgicas com o objetivo de diminuir as complicações pré e pós-operatórias. Contudo, permanecia a temeridade pelas cirurgias cavitárias, no crânio, tórax e abdome, quase sempre sinônimo de morte do doente.

Publicado em ÉTICA MÉDICA-BIOÉTICA | Deixe um comentário