Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – parte 1

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

I. LINGUAGENS-CULTURAS E A GENÉTICA

1. A forma do corpo antecedendo a função

A estrutura do ensino teórico-prático da ciência médica transmite precocemente, mesmo podendo não ser percebido de imediato, que a integridade das partes do corpo humano (anatomia) antecede a função (fisiologia) exercida pelas mesmas partes. Dito de outra forma, como ponto de partida, para que o sujeito veja, são necessários os olhos; ouvir, as orelhas; respirar, os pulmões, entre outros exemplos. Na evolução dos estudos, o aluno entende que não basta só esse binarismo aparentemente simples. A complexidade é muitíssimo mais densa. Em todos os níveis, é indispensável que os segmentos específicos do sistema nervoso central e do periférico, que captam, interpretam e reagem às informações coletadas também estejam com as formas e funções normais.

Sob esse pressuposto, para que haja linguagem, igualmente, é indispensável que existam e estejam funcionando as várias estruturas específicas relacionadas à linguagem, nos órgãos dos sentidos, sistema nervoso central e sistema nervoso periférico.

2. Linguagens e culturas

Um dos aspectos mais fascinantes da ciência médica é compreender o processo que culminou no acervo, guarda e reprodução dos saberes por meio das linguagens orais e escritas, que culminaram nas culturas.

As incontáveis manifestações culturais, especialmente as que elaboraram e mantiveram as construções do pensamento subjetivo, para explicar a imaterialidade e o invisível aos olhos, — estritamente dependente da integridade da forma e da função do neo-córtex cerebral, só presente nos humanos —, em última análise, na ontologia, transformaram-se nas responsáveis pela manutenção da vida, desde o aparecimento do neo-córtex nos antepassados Homo.

Sob essa perspectiva, as linguagens e as culturas são tão importantes quanto as vidas. Como mágicas, simultaneamente, desde o passado distante, as linguagens e as culturas inseriram e retiraram múltiplos sentidos às coisas e às vidas, sempre impulsionando na busca das respostas.

Se partirmos do pressuposto óbvio de que, no corpo, a forma antecede a função (para ver o objeto, o sujeito deve ter pelo menos um dos olhos íntegro; para ouvir, uma das orelhas normal; para respirar, os pulmões), é válido teorizar que sem neo-córtex, a existência das culturas seria impossível. Nesse caso, caberia perguntar: seria possível a vida sem as culturas?

O maior obstáculo para validar essa teoria é a impossibilidade de estabelecer as correlações entre a forma e a função, no sistema nervoso central, em especial, no neo-córtex cerebral, nos níveis macroscópico (órgão), microscópico (célula), ultramicroscópico (molécula), atômico e subatômico. Dito de outro modo, se a observação empírica é suficiente para comprovar que o ser humano é capaz de falar e construir culturas se torna obrigatório existirem áreas anátomo funcionais, nos níveis acima mencionados, responsáveis por aquelas ações.

Os entraves aumentam na razão direta do avanço dos estudos na direção das menores estruturas. O desconhecimento fica mais denso a partir da molécula; portanto, ainda muito distante da unidade massa energia, no interior do átomo, objetivo maior da investigação científica.

Assim, sob a guarda da anatomia, no nível macroscópico, do sistema nervoso central (SNC) humano, é possível ensaiar através da paleopatologia, com razoável margem de acerto, a análise das impressões determinadas pelo cérebro nos antepassados distantes, na face interna dos crânios fósseis. As transformações sofridas na forma do SNC há milhares de anos, e, conseqüentemente, no modo como o cérebro se mantinha em contato com os ossos do crânio, estão relacionadas com a atual capacidade de falar e de escrever.

Alguns antropólogos afirmam que as moldagens endocranianas dos Pithecanthropus (Homo erectus, viveu há 300.000 anos) evidenciam, na superfície cortical, marcas das áreas identificadas, hoje, como responsáveis pela linguagem falada. Nesse sentido, é razoável pensar que esse antepassado humanóide já possuísse algum tipo de fala.

Os atos humanos de falar e de escrever estão unidos em complexa ponte envolvendo a maior parte do SNC com a vida de relação, principalmente, certos segmentos do córtex cerebral, identificados com a capacidade de imaginar e representar a ficção, isto é, o objeto não percebido na materialidade espacial pelo sujeito.

3. Similitudes entre ontogenia e filogenia: fuga da dor e busca do prazer

Até três semanas de vida intrauterina existem incríveis semelhanças macroscópicas entre os embriões de diferentes espécies. Essa similitude impôs o conhecido axioma da biologia, presente na literatura desde a segunda metade do século 19: a ontogenia segue, em determinado tempo, a filogenia, significando que existe na espécie Homo sapiens sapiens herança genética de outras espécies.

Parte importante desse axioma, comprovado no estudo dos genomas de várias espécies, que estabeleceu pontes entre o passado muito antigo, contido no cérebro oriundo da filogenia comum e o cérebro atual, resultante do processo evolutivo é a insubstituível polaridade entre a dor e o prazer.

4. Linguagens e culturas para fugir da dor e buscar o prazer

As determinantes atávicas para fugir da dor e buscar o prazer continuam sendo os elos mais fortes das ordens filogenéticas e ontogenéticas. Todos os sujeitos, de qualquer espécie, se organizaram com o objetivo de evitar a dor de qualquer natureza e ativar as fontes naturais produtoras de prazer. Entre as mais importantes produtoras de prazer estão a sexualidade e os alimentos, ambos acompanhados das muitas derivações simbólicas.

É lógico também admitir que as contradições provocadas nas lutas em torno da sobrevivência dos antepassados distantes, pouco a pouco, induziram modificações na forma do corpo e, especificamente, na do SNC, ajustando-o para promover novas formas e funções ligadas à sobrevivência. Aceitar o prazer e recusar a dor parece ter sido um ponto comum de incontestável relevância no projeto da vida humana no planeta, incontestavelmente atado às linguagens e às culturas.

O corpo humano tornou-se adaptado a essa determinante sócio genética. Incontáveis terminações nervosas periféricas, conectadas ao cérebro, mantêm todas as estruturas corporais atentas à dor e ao prazer. É possível afirmar, sem receio de estar cometendo exagero, que a vida humana não teria sido possível sem essa adaptação neurossensorial.

Dessa forma, como fruto do processo de humanização, o neo-córtex cerebral adicionou ajustes às emoções, sempre atualizados à temporalidade da luta pela sobrevivência, ligando indissoluvelmente a fuga da dor e a busca do prazer às linguagens e culturas.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – parte 2

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

5. O neocórtex cerebral e as relações com as linguagens

O neocórtex é um conjunto heterogêneo de áreas encefálicas também relacionadas ao comportamento emocional e à capacidade de o sujeito organizar o pensamento ficcional. Entre as estruturas mais importantes, se destacam o tronco encefálico, hipotálamo, tálamo, área pré frontal e sistema límbico.

Desde 1937, os estudos de James Papez demonstraram que as emoções estão, na maior parte, relacionadas com as estruturas do sistema límbico, do hipotálamo e do tálamo, posteriormente identificadas como “circuito de Papez”.

Mesmo com os progressos posteriores da neurofisiologa, não foi possível separar a linguagem emocional (choro, riso, gestos, postura corporal, a mímica do prazer e da dor), de origem predominantemente límbica, da linguagem voluntária, cuidada no vocabulário, armazenado no neocórtex.

A cirurgia experimental evidenciou a importância vital do sistema límbico nas emoções. Após a retirada cirúrgica bilateral da parte anterior dos lobos temporais em macacos Rhesus, provocando lesões irreversíveis no hipocampo, giro parahipocampal e corpo amigdalóide, os animais modificaram o comportamento:

– Agressividade foi substituída pela passividade;

– Comer alimentos antes recusados;

– Incapacidade de reconhecer objetos, como ferro em brasa, e outros animais, como escorpiões e cobras, antes identificados como determinantes de dor física e medo;

– Aumento da atividade oral levando todos os objetos à boca, mesmo aqueles que poderiam causar a morte;

– Aumento desordenado da atividade sexual, levando os animais a tentar copular com parceiros de outras espécies e a de se masturbarem continuamente.

Fora da conhecida conjunção genética, não se conhece as razões da lateralização funcional dos hemisférios cerebrais indicam o esquerdo, nos indivíduos destros, o predominante na linguagem e no controle da atividade gestual proposital.

O hemisfério cerebral direito é o responsável pela apreensão visual-espacial, pelas atividades musicais e reconhecimento da forma fisionômica. Assim, identifica e classifica, através da análise da forma, sem que o nome do objeto, na linguagem oral, ou a palavra, na linguagem escrita, necessitem ser expressos.

Nos primatas, a vocalização organiza se na face interna do lobo frontal. No rastro da ontogênese, esse controle se tornou mais complexo. No homem, está numa área ainda mais especializada que engloba a convexidade do córtex frontal, mantendo conexões sinápticas, no sentido crânio caudal, no nível rinencefálico, reticular peduncular, bulbo e órgãos fonadores. Dessa forma, graça a essa interligação anatômica, os humanos reagem, seletivamente, ao sinal sonoro e imitam a mensagem ouvida.

Como sequência, as linguagens guardam nas origens ontogenéticas a profunda marca da vida afetiva, onde as emoções sentidas ou ficcionadas estão armazenadas em memórias, infelizmente, ainda escondidas nas dimensões molecular e atômico corpuscular.

Um dos produtos finais da interligação das estruturas cerebrais com a vida social — linguagens e culturas — é reproduzida na consciência de si mesmo sentida pelo sujeito, impondo a incrível condição de depositário e herdeiro das gerações anteriores, transmitida, inicialmente, pela oralidade e, depois, pela linguagem escrita, na construção das culturas.

6. Inter-relação neocórtex e outras estruturas cerebrais na construção das linguagens e culturas

A maior parte dos neurocientistas concorda que a linguagem, para se manifestar, estabelece estreitas correlações sinápticas em vários segmentos do encéfalo, passando no neocórtex associático, com o objetivo de manter ativa a percepção do circundande e a expressão das emoções vividas na interpretação do ato apreendido.

Na dimensão macroscópica (órgão), os pontos cerebrais em torno dos quais se organiza a linguagem são: área de Broca, área motora responsável pelo controle fonético da expressão e a zona de Heschl, de natureza receptiva, onde a mensagem é decodificada.

Os dois hemisférios cerebrais não participam igualmente desses complicados mecanismos neurofisiológicos. A dominância do esquerdo, nas atividades manuais, é programado geneticamente. Por outro lado, sabe se que o hemisfério cerebral direito não é desprovido de função linguística. Apesar de o direito não ter acesso à palavra, é capaz de manter a informação em torno de frases curtas e pode decifrar a linguagem escrita.

Sem que possamos estabelecer as razões, mesmo anatômico e funcionalmente menos adaptado para exercer o domínio da linguagem, o hemisfério direito poderá substituir o esquerdo, no caso de uma lesão irreversível que danifique a estrutura, como as sequelas pós-trauma, antes da idade de cinco anos.

Talvez essa similitude escondida na forma e trazida à tona na necessidade da função suprimida por causas não congênitas esteja relacionada com certos aspectos moduladores do discurso que interagem os dois hemisférios cerebrais, traduzidos na linguagem escrita, com os advérbios e as locuções exprimindo reserva e acentuação, como nas respostas à dor e ao prazer, expondo sentimentos e expressões muito diversas.

Mesmo não sendo ainda possível demonstrar no laboratório, é possível supor que esse processo ontogenético que mudou a forma na dimensão macroscópica, também determinou modificações estruturais, no nível celular e molecular, capazes de ajustar as funções cerebrais às necessidades sociais, especialmente nas linguagens e culturas que expressam dor e prazer, tanto pessoal quanto coletivamente.

Essa afirmativa é incisiva e incontestável em outras partes do corpo. Por exemplo, a diminuição gradativa da arcada dentária em função do menor uso do esforço mastigatório. A partir do uso do fogo, mais ou menos há trezentos mil anos, ocorreu um conjunto de fatores, incluindo o cozimento dos alimentos, tornando os mais macios, ocasionando a redução da potência da musculatura mastigatória e, em consequência, do tamanho e número de dentes eruptos, na maturidade. Essa seria a explicação de os terceiros molares permanecerem inclusos.

Infelizmente, a maior parte do SNC permanece desconhecida em nível molecular e dificulta o estudo nos moldes do método experimental.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário