Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – final

 

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

As ideias arcaicas, amparando a sobrevivência, foram armazenadas, como parte dos mecanismos cerebrais primários, em algum lugar do cérebro. A capacidade de reproduzir a idéia ficaria por conta das leituras, no sistema nervoso central, identificando a proposta como algo capaz de aprimorar o conforto.

A característica pessoal, única e intransferível, processada pelo córtex cerebral, com a marca biológico molecular nos genes, transmitida com a reprodução sexuada, ficaria dependente da experiência vivida no conjunto social. É como nascem e se reproduzem todos os saberes.

Apesar de a unidade ser mantida, teria traços comuns muito fortes. A dor e o desconforto seriam dois deles. Qualquer variável circunstancial, capaz de ser entendida pelo ser como sensação dolorosa, produziria resposta somático neurológica imediata, buscando, na intimidade da memória acumulada, todos os mecanismos cerebrais para impedir ou atenuar o desconforto.

A dificuldade para moldar o pensamento coletivo, de acordo com a conveniência do poder, reside nessa barreira: é impossível encontrar duas estruturas biológicas exatamente iguais.

Por outro lado, quando o dominante compreende o valor dos registros genéticos, principalmente a subjetividade, nascido na ficção, para suportar o desconforto e a dor, investe na conquista das mentalidades, através das linguagens oral e escrita, seduzindo a partir da valorização deles.

Existe uma inegável dificuldade para se ter acesso ao cérebro humano, não só porque se desconhece onde e como, mas também pelos limites impostos pela ética da pesquisa científica. Contudo, os casos clínicos, de achado acidental, são capazes de levar aos grandes progressos.

Os estudos desenvolvidos na Universidade Western, Ontário, sobre a consciência não manifesta (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a memória) são importantes para compreender a hipótese das MSGs.

A doente, estudada pelo grupo de pesquisadores, no Canadá, tinha sofrido dano cerebral por intoxicação de monóxido de carbono. Quando se recuperou, a sequela neurológica ficou localizada próxima ao córtex visual primário. Os testes seguintes mostraram que era incapaz de identificar uma xícara de chá, todavia os movimentos para pegar a mesma xícara e levá la à boca eram normais.

Esse tipo de comportamento alterado reforça a existência de, pelo menos, duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percepção e a outra das funções motoras.

O outro relato significativo foi feito pelo psicólogo suíço Claparède, no início do século. As análises foram concluídas numa paciente, portadora de severo distúrbio para assimilar os fatos recentes. Na entrevista, ao apertar a mão do entrevistador, teve a sua furada, intencionalmente, por um alfinete. No dia seguinte, ela não reconheceu ninguém, porém se recusou a repetir o gesto que provocou desconforto.

A parte ativa da consciência, alerta mesmo em situação psicótica, a lembrança do desconforto da dor, está atada ferozmente aos laços genéticos e é, incomparavelmente, muito mais forte do que a banalidade motora de levantar um objeto.

Todas as tentativas de efetivar o controle social, pelo poder dominador giram nesses dois pontos comuns e antagônicos: oferecer o prazer e a dor, respectivamente, como prêmio e castigo pela obediência.

Qualquer moção lembrando a possibilidade para atenuar a dor histórica e fortalecer a partilha igualitária, sentida pelas sucessivas gerações dos esfomeados de pão e de justiça, terá uma sedução irresistível, ao resgatar os símbolos comuns da MSGC.

As teorias políticas e práticas religiosas para interferir no curso do movimento social utilizaram, em maior ou menor escala, os seguintes pontos, como variáveis dos remédios para sarar as dores e das fórmulas para aumentar o conforto:

– Promessa de prolongar a vida;

– Acesso à sociedade onde o trabalho é ameno, a comida é farta e a prática sexual é liberta das amarras da conduta;

– Inconformidade com a morte antecipada pela doença, pela fome e pela injustiça;

– Espaço sagrado (templo) ou profano (partido político) para defender a causa comum e julgar os resistentes;

– Aumento da proteção individual;

– Melhoria das situações temidas, causadoras de desconforto: a fome e o frio.

Algo muito poderoso se passou na intimidade da memória acumulada na espécie humana. Ainda não podendo afirmar que as ideias são transmitidas de modo semelhante às características físicas, resta nos o êxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simbólicas que ligam o passado remoto ao presente vivido.

Por tudo isso, a escrita consolidou, nas mentalidades, o divino e a posse do território como os mais poderosos resultantes da ficção. Os dois ordenaram, no mundo objetivo, de acordo com a conveniência temporal do poder, as duas mais importantes fontes de prazer: a sexualidade e o alimento.

O divino é, intrinsecamente, forte e sem a sua ajuda não teria sido possível manter a atual ordem espacial, prevalente no mundo. Em qualquer hora, seria capaz de impor a dor e modificar a arqueologia do prazer, contra todos os ritmos esperados da natureza. Os mortais, feitos à imagem e semelhança da divindade, são, ao mesmo tempo, os instrumentos e as vítimas. A dádiva ou o castigo divinos não ficam restritos somente à vida; prolongam se após a morte. Dependendo da obediência aos preceitos, o renascimento será confortável ou aflitivo.

O “Livro dos Mortos”, conjunto de textos funerários gravados nas paredes da Pirâmide Real do antigo Egito, com origem no reinado de Unas (2345 a. C.), último rei de V dinastia, é composto de hinos e receitas mágicas para garantir o renascer protegido.

As obras de Platão, interpretando pensamentos muito mais antigos, espelho fiel das angústias existenciais não resolvidas, contribuíram para manter o interesse especulativo, no Ocidente cristianizado, sobre o sentido da vida, partindo do esperado depois da morte.

O cinema, como uma das expressões de arte mais significativas do nosso tempo, continuou o movimento e mostra o quanto é robusta, no inconsciente coletivo, a sedução para continuar vendo os matizes da dualidade prêmio/castigo na vida e na morte.

O controle social, imposto em diferentes momentos do processo de humanização, mesmo utilizando os recursos mais indignos da perseguição, do assassinato e do patrulhamento ideológico, não conseguiu remover das MSGs a resistência à inevitabilidade da morte.

O político, compreendido como o sucessor do intermediário da divindade, travestido dos antigos poderes de curar e adivinhar os males da sociedade, está inserido na coerência genético social. A contínua penetração do seu poder espelha a força da MSCG na ordem social.

O avanço organizado para consolidar o cristianismo como religião universal foi muito bem estruturado em torno da doença como mal pessoal e social, interpretado a partir da leitura da Bíblia judaico cristã. O mundo cristianizado está atado nesse registro arcaico da memória coletiva, alcançando todos, independente da condição sócio econômica.

O cristianismo, ao contrário do rígido monoteísmo judaico, sobreviveu porque continua lembrando a metamorfose do politeísmo. Substituíram os antigos fetiches e amuletos pagãos pela água benta, o sinal da cruz, as velas da Ascensão, as palmas do domingo de Ramos, os rosários, as medalhas, os santinhos colocados no pescoço.

A legitimidade da doença e do sofrimento como instrumentos de castigos e ameaças de dor, aperfeiçoados pela linguagem escrita, está inserida no exercício do poder.

Na crítica da proteção pura, a relatividade do tempo é reafirmada, à medida em evidencia a fantástica coerência existencial entre o visível e o invisível.

O binômio tempo/espaço, fracionado unicamente pelo pensamento, é o começo, o meio e o fim da interação ajustada entre o ser e o objeto através das MSGs. Como unidade indissolúvel e inseparável, abriga e vivifica a diversidade das aspirações humanas arcaicas para viver sem dor e adiar a morte.

A posse do território e a divindade são as mais importantes ficções, trabalhadas ambígua e alternadamente no profano e no sagrado. A ordem social, desde o passado ágrafo, foi montada entre a terra, morada dos homens e das mulheres, e o céu, abrigo dos deuses.

Os sacerdotes e os políticos, travestidos de curadores e adivinhos, como agentes das religiões e das ciências, continuam sendo os instrumentos legítimos, usados pelo poder, para imobilizar o tempo e separar os espaços, com o objetivo de ordenar as mentalidades.

A competência do controle das sociedades está no modo como é tocada nas MSGs. É na entranha do corpo, nos limites desconhecidos da massa com a energia, no interior das células, que o poder aperfeiçoa as ferramentas para moldar a estratégia de sedução, atualizando as projeções mentais muito antigas sobre as novas verdades e estimulando a cooperação.

O conflito das contradições, gerado pelo choque das idéias orais e escritas, é a única alternativa para afrouxar a dominação e o apagamento das MSGs.

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Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 1/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Ritos de curas como hierofanias
Desde tempos ágrafos, os homens e as mulheres ora aliaram-se aos panteões, lutando para entender, sem aceitar, a finitude da vida frente à natureza circundante; ora organizaram-se para viver mais e melhor, desafiando a tirânica competência dos deuses e das deusas para curar.

Os ritos de curas, como hierofanias*, são muito mais anteriores se comparados às práticas médicas. Alguns sítios pré-históricos mostram claras comprovações paleopatológicas, com mais de 10.000 anos, de que membros da espécie homo, utilizando artefatos cortantes executaram intervenções deliberadas e repetidas sobre os corpos, como as craniotomias e amputações de membros.

O aparecimento da palavra “médico” nas linguagens-culturas mesopotâmicas esteve associado ao forte marco identificador dos poderes pessoais desses especialistas sociais — curadores de todos os matizes e os reconhecidos como médicos — para intervir na doença, como pressuposta garantia de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle, com indissolúvel ligação aos muitos deuses e deusas curadores.

Curadores e médicos entendidos sob essa perspectiva — agentes sociais oriundos de muitas linguagens-culturas capazes de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle —, de lá para cá, como história de longa duração, mantiveram esse entendimento nos cinco continentes.

Durante mais de três mil anos, os ritos religiosos de cura inseridos nas idéias e crenças religiosas, além de manterem conflitos de competência com a Medicina, nunca foram abandonados, mais ou menos valorizado em dependência das linguagens-culturas e dos bons ou maus resultados obtidos nos tratamentos médicos. Em certos textos é difícil distinguir onde começava a prática médica e terminavam os ritos de curas.

Sob essa perspectiva, é possível entender a Medicina entremeada em três vertentes:

– Medicina-divina: os agentes entendem a saúde e a doença sob a exclusiva vontade dos deuses e deusas e a cura é obtida por meios de ritos nos lugares sagrados;

– Medicina-empírica: os agentes aceitam a doença do mesmo modo, mas aplicam os conhecimentos historicamente acumulados, da natureza circundante, na busca da cura;

– Medicina-oficial: muito mais recente do que as anteriores, os agentes têm construído e desconstruindo processos teóricos para entender e dominar as doenças fora do poder dos deuses e deusas.

Nos quase quatro mil anos de história, a Medicina-oficial tem mantido diferentes níveis de conflito de competência com a Medicina-divina e a Medicina-empírica. Só no século 19, com maior transparência no Ocidente, esse conflito se polarizou alicerçado em três paradigmas, forçando construções e desconstruções:

– Fisiologia de Claude Bernard;

– Micrologia desvendando os micróbios causadores das doenças infecciosas que atemorizaram a humanidade;

– Estudos de Pasteur instruindo irresistível oposição à crença da existência de formas de vidas larvárias, perniciosas à saúde, vindas dos ares contaminados e fedorentos, entendidos como humores pútridos.

Sem que se conheçam com maior precisão os mecanismos neuroendócrinos responsáveis pelo sofrimento, sem dúvida, a interiorização da crença no pecado gera respostas somáticas com fortes componentes emocionais: medo, angústia, culpabilidade, remorso e alterações do sistema autoimune.

Desse modo, não há dúvida que continuam vivas as construções e desconstruções tecidas em torno do conforto pessoal e coletivo — a ausência da dor, do mal, da doença — gerado na obediência às ordens orquestradas pelos homens, em nome dos deuses e deusas ao longo de milhares de anos.

PECADO E DOENÇA

É possível que a arqueologia desse intricado nó entre Medicina e a religião esteja assentada nas antigas compreensões do pecado como sinônimo de doença. Entre os claros registros nas tábuas de escrita cuneiforme, um é particularmente interessante para demonstrar o quanto as práticas médicas eram atadas aos ritos de curas religiosos: assírios e babilônios entendiam o pecador como doente, débil, angustiado, possesso do demônio (utukku). Os termos sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos. A libertação desse pecado, a doença, só seria obtida no rito religioso da confissão e penitência.

Essa compreensão do pecado ligada à doença como sinônimo do mal está mais claramente presente nas religiões que admitem o pressuposto da violação voluntária do livre arbítrio, contra a ordem divina, gerando culpa ao autor do distúrbio, punido com a doença. Desse modo, para apagar o pecado, o mal, a culpa, é necessário cumprir ritos de expiação com componentes interiores: confissão e penitência; e exteriores: rezas e sacrifícios.

Também é possível compreender o pecado não só como uma quebra da norma, mas inerente a condição humana — o pecado original. Heidegger foi mais além ao afirmar: “O homem não está apenas carregado de erros, está em falta”. Essa trilha de Heidegger segue São Paulo (Romanos, 14, 23) onde só a e a graça são os únicos remédios para combater o pecado.

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