Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 2/11

Prof.Dr.HC  João Bosco Botelho

Pecado e tabu

Existem outros significantes do pecado associado à doença. Um dos mais interessantes é o pecado mágico, não ético, a violação do tabu. Nesse caso, não é valorizado se o pecado ocorreu por omissão ou ação e não inclui, em si mesmo, a ruptura com a divindade ou qualquer tipo de arrependimento, portanto, diverso do das religiões milenaristas. De modo geral, o tabu previne contra algum de tipo de poder acumulado em pessoas, coisas e situações. Esse entendimento está claro na descrição do rito de cura relatado por Rasmussen, citado por Lévy-Bruhl, na aldeia dos esquimós Iglulik: “Nela participam, além de todos os habitantes da aldeia, o xamã, que desempenha o papel principal, e os espíritos familiares da doente. Perante as injunções do xamã, a doente enumera, uma após outra, todas as violações do tabu, leves ou graves… que cometeu… Quando tem a certeza de que nenhuma foi esquecida, a assistência retira-se, convencida de que a confissão das culpas e dos pecados quebrou a espinha da doença.” É importante entender que a confissão da doente esquimó não representa, sob nenhuma hipótese, o arrependimento; é, sim, a libertação que cura a doença, o mal.

Na mesma esteira, em outras culturas, como na citada por Taylor, nas cerimônias fúnebres, na Nova Zelândia, poderia ocorrer a transferência dos pecados da tribo para o morto.

Duas abordagens semelhantes podem ser identificadas, no medievo europeu cristianizado: por meio da Paixão, Cristo transfere para si os pecados dos homens, e o pecado contagiante, expresso na feiúra exteriorizada em algumas doenças, como a lepra e outras moléstias deformantes.

1. Pecado na antiguidade pré-grega

De modo geral, entre babilônios, budistas, celtas, chineses, egípcios, hebreus, hindus e japoneses, a libertação do pecado, da doença, da infelicidade, sempre se relaciona à confissão seguida pelas rezas e penitências. Dependendo da linguagem-cultura, o curador retira o mal, exorciza o pecado, dirige as aspersões e usa imagens e outros artefatos protetores.

Desse lá, permanece um ponto diferencial entre as três medicinas: só a medicina-oficial organizou estruturas teóricas para sustentar as práticas de curas, só registradas a partir das primeiras cidades, assim, de natureza muitíssimo mais recente do que as outras.

Do outro lado, também a partir dos primeiros registros escritos, os poderes organizadores dos núcleos urbanos mais antigos ampararam, ora para mais, ora para menos, as três medicinas, na mesma proporção em que tentavam resolver os conflitos sociais provocados pelo medo coletivo da dor e da morte prematuras das epidemias que poderiam enfraquecer a ordem social.

Desde os tempos ágrafos, a medicina-divina e a medicina-empírica evidenciam-se plenamente ancoradas nas práticas divinatórias e nos milagres e, menos, nos saberes empíricos historicamente acumulados. Por essas razões, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico trabalhados de maneira ametódica e casual, sem compromisso da compreensão das etiologias.

Por outro lado, a maior parte das experiências empíricas acumuladas permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Estes fatores representaram ásperos obstáculos para reproduzir os saberes fora dos restritos grupos dos representantes das divindades, enclaustrados nos silêncios que impedem as críticas e as respostas.

Essa evidência fica muito clara nas civilizações que se desenvolveram na Mesopotâmia e nas margens dos rios Indo e Nilo. Apesar do notável senso empírico, as práticas de cura permaneceram contidas nas amarras do sagrado, como assinala a tradição judaica em pelo menos três argumentos:

1. O incrível poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos.

Dt 32: 39 — E agora, vede bem: eu sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).

2. Os saberes empíricos como dádivas divinas.

Sb 17: 20 — Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.

3. O médico como representante reconhecido e festejado da divindade.

Eclo 38: 1-2 — Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

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Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 3/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Pecado e doença na Grécia

No período homérico, essa concepção antiga se manteve, essencialmente, expressa com clareza no temor do miasma infeccioso e hereditário, presente em Hesíodo, cuja cura obrigava à purificação ritual para retirar o pecado-doença — a catarse. Posteriormente, a transformação desse pecado, presente em uma pessoa, no pecado original, de concepção coletiva, está presente na cosmogonia e teogonia do orfismo, na morte de Dionísio, como uma doutrina da salvação.

A genialidade grega se interpôs como o primeiro contraste nessas concepções vindas de muitas linguagens-culturas indo-europeias e semitas, que construíram a doença ligada ao pecado como castigo dos deuses aos ousados transgressores da ordem divina.

O iniciante processo de mudança, na Grécia dos séculos 4 e 3 a. C., contribuiu para flexibilizar a interiorização do pecado e consequente minimização dos sentimentos dolorosos. Entre os pré-socráticos, o intuito de desvendar a coisa quantificando-a por meio da forma e do volume, consolidou a continuidade da alteração. Empédocles assume especial importância ao teorizar sobre a origem das coisas fora do poder dos deuses, por meio da combinação dos quatro elementos: terra, ar, fogo e água. A genialidade de Empédocles alicerçou a magnífica teorização de Políbio, genro de Hipócrates e médico da Escola de Cós, na estrutura da teoria dos Quatro Humores, descrita no livro Da natureza antiga, dessa vez, pela primeira vez na História, explicando a saúde e as doenças no domínio laico e, sem dúvida, iniciando o longo processo para retirar dos deuses e deusas a exclusividade de causar e curar as doenças: “O sangue humano contêm sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta; que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza…”.

Um dos aspectos mais fascinantes do esplendor grego é o fato de que a busca da maior razão não abafou o imemorial fascínio pelo divino, pelo mítico. É possível encontrar vestígios desse passado, que interliga sagrado e profano, também no famoso “Sermão”, como marco da Medicina racional, atribuído a Hipócrates (460-375 a.C.), o mais conhecido representante da Escola de Cós, na Grécia. A questão do segredo assume posição esotérica e sagrada, como na confissão religiosa. Lá, certamente, era aceita a orientação seletiva entre os iniciados para receberem a habilitação necessária para poderem exercer a profissão. De modo geral, existe semelhança entre os ritos médico, o pitagórico e o órfico. Essa compreensão é parecida com a encontrada entre os rezadores populares, onde a prática é impossível de ser exercida entre os não iniciados.

Essa inovadora abordagem estava presente também em Eurípedes, que não admitia a desgraça, a doença, de origem divina, mas do pensamento do homem ao recusar a razão frente à violência das paixões, mas com frequentes atenuantes. De certa forma, Eurípedes ao admitir que ninguém é voluntariamente mau e entendendo o pecado como erro, se aproximou das ideias de Sócrates, que defendeu a premissa de o pecado estar interligado à ignorância. Logo, nessa linha, Eurípedes e Sócrates admitiram a educação como a alternativa para evitar o pecado, o erro.

Nesse contexto, fora do poder das divindades, Platão adicionou a possibilidade do fator contaminante do pecado como erro e juntou a necessidade de punir o agente contaminador pelo banimento da polis. A Medicina como paideia é um dos marcos nessa parte da história da humanidade, onde está transparente o conflito de competência entre as três medicinas — oficial, empírica e divina — com o objetivo de ampliar os limites da vida. Esse processo complexo, oriundo desde os tempos imemoriais, alcançou o esplendor na Grécia do século 4 a.C.

A cultura grega, no século 4 a.C., absorveu as origens mais antigas da medicina-divina e da medicina-empírica, mantendo a figura social do médico, em princípio, como dono do saber notável.

Sem abandonar a influência do divino sobre a vida e a morte, os cantos homéricos mostraram o claro destaque do médico como representante da medicina-oficial e agente social na luta contra os agravos à saúde (Ilíada XI, 510: Máxima glória dos povos arquivos, Nestor de Gerena, toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Macáon, e para as naves escuras dirige os velozes cavalos, pois é sabido que um médico vale por muitos guerreiros, que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas).

O mesmo médico homérico também marcadamente estava inserido no espaço sagrado das relações sociais. Os médicos Macáon e Podalírio, que se destacaram na guerra de Troia, mencionados por Homero, são os dois filhos de Asclépio, o deus protetor das medicinas gregas.

Essa aparente dualidade homérica, onde as três medicinas mostram-se sobrepostas, reproduz uma herança sócio-cultural muitíssimo mais anterior à cultura grega, perdida no tempo da ontogenia, que a genialidade de Homero tratou de expor.

O deus Asclépio, filho de Apolo com a mortal Corônis conquistou uma fama inimaginável. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Junto com as suas filhas Hígia e Panaceia, era celebrado em grandes festas populares, próximas do dia 18 de outubro, data em que, até hoje, se comemora o dia do médico no Ocidente.

No século 4 a.C., na Grécia, a medicina-oficial expondo abertamente o processo de conflito com outras medicinas, mas compreendida como arte, apresentava-se com clareza na estrutura dos saberes que procuravam desvendar a natureza visível e invisível.

A profissão médica estava tão bem sedimentada em sistemas de aprendizado que influenciou, profundamente, nos vinte séculos seguintes, os caminhos tomados pela medicina-oficial no Ocidente.

A medicina-oficial grega do século 4 a.C., concebida como ciência, nessa condição, deveria valorizar a etiologia (Leucipo de Mileto In: Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297: Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir da razão e por necessidade). A busca pela etiologia da doença entendida como pressuposto do diagnóstico e da terapêutica estava escancarada ao futuro: a fisiologia do corpo que amparava a prática dessa medicina-oficial estava ligada aos pré-socráticos, especificamente, aos filósofos jônicos, intérpretes da natureza circundante visível ou não por meio da tékhne.

Um dos fatos que torna essa reflexão fascinante é que, como hoje, longe de haver separação entre as práticas das três medicinas, a crença no poder de cura dos deuses e deusas e o empirismo continuaram fortes e coerentes com o universo cultural grego.

O herói grego continuou associado à cura de doenças e malefícios. O senso comum compreendia grande número de deuses e deusas possuindo, entre os principais atributos, o dom de sarar as doenças e as feridas de guerra (Platon. Oeuvres Complètes. Paris. Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Rep. 407d: — Por conseguinte afirmaremos que também Asclépio sabia isto, e que, para os que gozam de saúde física, graças a sua natureza e à sua dieta, mas têm qualquer doença localizada, para os que têm essa constituição, ensinou a Medicina, que expulsa as suas enfermidades por meio de remédios e incisões, prescrevendo-lhes a dieta a que estão habituados, a fim de não prejudicarem os negócios políticos.)

Contudo, o médico atuava muito além do espaço sagrado, continuava exercendo a arte de adivinhar, porém sobre um sistema teórico coerente que observava e interpretava os sinais da natureza visível e invisível.

Esse avanço de dimensões gigantescas ¬— a Medicina como paideia — possibilitou estabelecer a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doenças ao diagnóstico, tratamento e prognóstico.

Desse modo, a Medicina como paideia feriu profunda e mortalmente o predomínio da medicina-divina e da medicina-empírica sobre a medicina-oficial.

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