Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 4/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Pecado e doença em Roma e no monoteísmo

1. Em Roma

Essa extraordinária reconstrução grega do pecado atingiu os ritos romanos que impuseram regras mais rígidas para evitar o erro cerimonial nos ritos, reforçando o rito puro e novas estruturas polares: piedade (pietas) e impiedade (impietas). O rito mal conduzido, gerando pecado, doença, malefício, infelicidade, seria consertado por meio de outra cerimônia (expiatio) para anular a impureza (pecado). Nessa esteira, seguiram-se os muitos cultos gnósticos defendendo desprezo pelo corpo, pela coisa. Como seguimento, os ritos corretivos dos pecados tornaram-se violentos, impondo jejuns prolongados e flagelações sangrentas, abrindo caminho para outras construções do pecado sob a égide judaico-cristão.

Simultaneamente, não há consenso em torno do pecado original. Um dos exemplos mais significativo da negativa do pecado original está fincado na fundação de Roma, quando Rômulo mata por banalidade o irmão Remo: enquanto Cícero admite o pecado, no De officius, III, 41 (peccatum), Horácio defende o pressuposto de crime, no Epodon líber, VII, 1 e 17-20 (scelus) e Virgílio, afasta a ideia de pecado.

2. No Antigo Testamento e judaísmo antigo

Uma das entrelinhas mais interessantes ligando a doença ao pecado é representada pela interseção da serpente. A ideia de pecado original no AT mostra-se essencialmente voltado à ordem espiritual (Gênesis 2, 8; 3; Job 14, 1-4; Salmos 50 e Ezequiel 18, 1-32), sem a marca da transmissão à descendência.

A concepção fundamental do pecado AT é representada pela associação com doenças, desgraças, infelicidades e provocando ações para corrigir e evitar novos pecados não mortais (Samuel, 20,1; I Reis, 2,19; II Reis, 1, 1) e pecados mortais (Deutoronômio, 14,16; 21, 22; 22,26; Ezequiel, 3, 20; Amos, 9,10). Nas duas circunstâncias, o perdão do pecador, gerando a cura da doença, a dissolução da infelicidade ou do nó, seria alcançado por meio da confissão individual (Gênesis, 39, 9; Josué, 7, 13-23) e/ou do sacrifício ritual (Levítico, 10,17), onde a vítima é o substituto do pecado, isto é, matando-a, o pecado morreria com ela.

Nos últimos séculos do judaísmo antigo, surgiram reconstruções em torno do pecado original, como fontes de doenças, infortúnios e morte prematura, voltadas à responsabilidade de Eva, em Eclesiastes, 25-24: “Foi pela mulher que o pecado começou e, por sua causa, todos nós morremos.”

3. No cristianismo antigo e medieval

Nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas existem quarenta e oito referências ao pecado. Em várias passagens, Jesus descreve a concepção judia do pecado, diferenciando os pagãos como pecadores por não cumprirem as Leis, sempre pondo na frente a infinita misericórdia de Deus como possibilidade do perdão puro — Nova Aliança —, curando doenças sem ritos, penitências ou sacrifícios. Essa remissão, plena de bondade como dádiva divina e infinita, se tornaria completa com o derramamento do sangue do próprio Cristo, muitíssimo diversa das muitas citações do Antigo Testamento, nas quais inexiste o perdão sem o sacrifício do pecador. No Evangelho de João o maior pecado do mundo é a hostilidade a Deus, o diabo, pré-existente ao homem. Jesus Cristo ao vencer o diabo, remove o pecado, a doença, o aleijão, a infelicidade.

A reconstrução mais significativa do cristianismo está ancorada no claro conceito de pecado original, no ano 397, por Santo Agostinho, entendendo que o homem vive em pecado desde a origem. Essa ideia agostiniana extremamente severa e pessimista foi proclamada no concílio provincial de Cartago, em 418, forçou a diferenciação do pecado original do pecado individual pelo papa Inocêncio III. Ambas foram adotadas pelos pensadores cristãos do medievo europeu, contribuindo para os excessos praticados pelas cortes de justiças eclesiásticas na interpretação dos pecados mortais: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria, todos sinônimos de doenças, desgraças e mortes. A única solução estava centrada na confissão seguida da penitência.

Desse modo, na Idade Média europeia, os teólogos mantiveram e acrescentaram rigores no entendimento da doença — como obstáculo entre o homem e Deus — como sinal de pecado, em especial, às moléstias deformantes do corpo, como a lepra.

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Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 5/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Corte epistemológico separando os ritos de cura da medicina

Em contraponto aos ritos de curas – na maior parte, usados como meio de catequese das crenças e ideias religiosas –, as práticas médicas constroem e reconstroem na busca da materialidade da doença, desde o século 4, na Escola Medica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, quando a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, iniciou o processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença, compondo o primeiro corte epistemológico na busca da materialidade da doença.

Sem dúvida, a genialidade grega, entre os séculos 4 e 3 a.C., possibilitou a mudança radical e sem volta na busca da materialidade da doença.

A associação entre as ideias da Escola Médica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, com a filosofia jônica, sem dúvida, possibilitou um avanço de dimensões gigantescas – a Medicina como paideia – estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doenças ao diagnóstico, tratamento e prognóstico.

Desse modo, a Medicina como paideia abriu o caminho para a dominação da medicina-oficial sobre a medicina-divina e medicina-empírica. É possível que, com esse objetivo central, os conceitos jônicos da natureza tornaram-se as principais medidas da medicina-oficial. As normas alcançaram os significantes das enfermidades entendendo-as como desvios da natureza e, em maior amplitude, mudança na physis do homem.

É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis embutidos na Medicina como paideia:

– Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: “…a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa”);

– Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina”).

– Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;

– Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;

– Como divindade: a physis é em si mesma divina.

É possível que esse caráter divino da physis estivesse transparecendo a necessidade de o senso comum manter a medicina-oficial ligada à medicina-divina e à medicina-empírica ou, sob outra perspectiva, não ser possível a completa separação entre as três medicinas.

Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, o deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):

“Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Deve ainda observar os ventos quentes e frios, começando pelos que são comuns a todos os homens e continuando pelas características de cada região. Deve ter presente também os efeitos dos diversos gêneros de Águas. Estas distinguem-se não só pela densidade e pelo saber, mas ainda por suas virtudes. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação as várias correntes de ar ao curso de sol (…) assim como anotar o que se refere as águas (…) e a qualidade do solo (…) Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, o nascimento e o ocaso dos astros, conhecerá antecipadamente a qualidade do ano. Pode ser que alguém considere isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima”.

As doenças deixaram de ser compreendidas sem método e passaram a compor parte da busca da etiologia. Esse é um dos pontos fundamentais da medicina-oficial grega, do século 4, marcando a união entre a filosofia jônica e os conceitos de saúde e de doença. Entre as muitas consequências é possível identificar:

– Cada doente ficou compreendido como um doente, diferente de todos os outros;

– Desaparecimento gradual da receita médica que valia para todos, como uma receita de bolo.

O centro de confluência dessa nova estrutura aproximou-se da teoria dos Quatro Elementos, do filósofo e médico Empédocles (495-435 a.C.). Segundo o magistral filósofo de Agrigento, os corpos são formados por quatro elementos eternos que permanecem em constante movimento: fogo, terra, água e ar.

Estava em curso, pela primeira vez, uma proposta teórica para explicar a origem das doenças, divorciada dos deuses e deusas. Toda e qualquer enfermidade seria consequência do desequilíbrio entre um ou mais elementos.

Como toda mudança profunda nos saberes, a passagem da medicina-divina e da medicina-empírica, ambas ametódicas, mais ou menos mágicas, para a medicina-oficial metódica, unindo o diagnóstico, prognóstico e o tratamento valorizando a busca da etiologia, encontrou resistência em muitos setores da sociedade grega. Para contornar esses estorvos, os médicos expunham, como os sofistas, perante o público, os problemas determinados pelas doenças que poderiam causar a morte e a dor fora de controles.

Não é demais repetir que Platão, sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhorias. O diálogo platônico estabelece alguns parâmetros da nova posição social do médico atuando como agente da Medicina como paideia no magistral Político (Planton. Oeuvres Complètes. Paris. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2.):

“Estrangeiro: — É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade, senão se for necessário para promover melhoras na sociedade.
Sócrates, o Jovem: — Muito bem! Não estarão eles certos?
Estrangeiro: — Talvez. Em todo o caso, se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.
Sócrates, o Jovem: — Que queres dizer?
Estrangeiro: — Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente; senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de médicos que as impuseram.
Sócrates, o Jovem: — Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: — Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?”

A autoridade de Platão não foi suficiente para estancar as resistências dos curadores da medicina-divina e da medicina-empírica, que, muito mais numerosos do que os médicos de Cós, promoveram manifestações públicas contra a nova força da Medicina como Paideia junto ao poder político.

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