Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 6/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Escola de Cós

O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como paideia, encontra-se no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.:

“Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras.”

Pela primeira vez, uma enfermidade foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, após ser retirada do domínio dos deuses e deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu o ápice da medicina-oficial grega. O genial Hipócrates, o principal representante da Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).

Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como paideia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. Na realidade, a proposta teórica uniu elementos reconhecidos da Filosofia e da Medicina. Para cada elemento de Empédocles foi associada uma categoria teórica, capaz de unir com coerência as qualidades da natureza com as do corpo.

A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, está descrita no manuscrito Da Natureza do Homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855:

“O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação umas às outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturada com as outras.”

A Medicina como paideia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou a falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarreias e sangrias. O prognóstico se materializava na presença ou na ausência de resposta à terapêutica.

A aceitação da teoria dos Quatro Humores por alguns médicos da Escola de Cós não atenuou os embates com alguns filósofos, em certa medida, defensores da medicina-empírica e da medicina-divina, ambas livres das medidas de mensurações impostas pelo entendimento jônico da natureza.

Esses conflitos aparecem em dois textos:

– O filósofo Heráclito de Éfeso (540-470), de genialidade exclusiva, é contundente na antipatia aos médicos (Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297): “Os médicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças”;

– O autor desconhecido de Sobre a Medicina Antiga, do século 4 a.C., testemunha certo conflituoso entre alguns médicos e filósofos, no qual repudiaram de maneira enfática, a generalização de todas as doenças estarem estritamente ligadas somente aos quatro elementos de Empédocles: (DAREMBERG, 1855. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação crua e curado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da dieta, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 2. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou leite quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.”

Em alguns trechos da mesma obra, Hipócrates também sustenta que o corpo humano é composto por grande número de coisas de naturezas diversas: salinas, amargas, doces, ácidas, adstringentes, insípidas etc., e não só de quatro componentes. Essa posição hipocrática é intrigante porque, em última análise, pode ser entendida como resistência à teoria dos Quatro Humores do genro Políbio.

De certo modo, a contestação hipocrática traduz o conflito que alcançou outros filósofos para reduzir a saúde e a doença somente aos quatro determinantes da teoria dos Quatro Humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). É possível que os médicos da Escola Médica de Cós tenham sofrido influência de Alcméon, filósofo e médico de Crotona, no Sul da Itália, que admitia um grande número de forças atuando nos corpos (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les Belles Lettres. 1981. p. 289-383). No livro Da Natureza do Homem, atribuído a Políbio, na mesma época, ressalta as ideias de Alcméon (Jouanna, J. Hippocrate et l’École de Cnide. Paris. Les Belles Lettres. 1974 p. 137- 174), o defensor da ideia de a saúde ser dependente do equilíbrio de múltiplas forças dinâmicas e a doença seria o predomínio de umas sobre as outras.

Platão (República 407b-c-d-e) adotou o modelo médico dos tempos homéricos. É possível que essa leitura platônica tenha contribuído para ativar o conflito de competência entre a Medicina, voltada à interpretação da natureza por meio da tékhne, e a religião. Em aparente contraditório, Platão retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo critica o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e):

“Se um deles ouvisse falar um médico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das conferências científicas, explicando como concebe a origem da doença e elevando-se a natureza de todos os corpos, morreria de rir e diria no que a maioria das pessoas chamadas médicos replica prontamente em tais casos: – O que fazes, néscio, não é curar o teu paciente, mas ensiná-lo como se a tua missão não fosse devolver-lhe a saúde, mas fazer dele médico”.

Em certos aspectos, médicos e filósofos estavam de acordo. Tanto Platão (Platon. Oeuvres Complètes. Paris: Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Banquete, 186-187) quanto Hipócrates (Darembrg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris: Labe Éditeur. 1855), reconheceram como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade. Aristóteles (Aristote. La Politique. Paris: J.Vrin. 1989. I, 11, 1282) vai mais longe e distingue o médico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções específicas.

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Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 7/11

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 7/11

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Vida saudável

A relação da medicina-oficial com a natureza, que os gregos tão bem assimilaram ao atingir o social, em sistemas de valores e respostas claramente configurados, reforçava-se como paideia. Nesta perspectiva, foi evocada por Sólon ao descrever os elos entre as doenças pessoais e coletivas com a desorganização social. Baseado nessa relação, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiam na qualidade da saúde de uma população.

Platão (Górgias 464b, 465a, 501) utilizou parte da estrutura teórica da medicina-oficial grega como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concepção ético-filosófica. Nesse genial processo, estabeleceu valor significante à verdadeira tékhne, como forma de conhecimento na natureza do objeto destinado a servir ao homem.

Os conceitos platônicos confirmaram o médico como a pessoa que, baseada no que sabe sobre a natureza do homem sadio, conhece também o contrário, o homem doente, e competente para encontrar os meios para restituí-lo à saúde.

Com base neste modelo, Platão traçou a imagem do filósofo tendo a mesma função no trato da alma. Existiu, neste ponto do pensamento platônico, uma semelhança viva entre o médico e o filósofo, ao se completarem na busca da harmonia plena do homem com a natureza.

Os médicos gregos interpretaram um dos mais complexos problemas do diagnóstico: as múltiplas formas como uma mesma doença pode se manifestar. Para superar o estorvo, os teóricos das escolas de Knido e Cós viabilizaram classificações descrevendo essas manifestações, mas reconhecendo-as como uma doença (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les belles Lettres. 1981). O genial dessa nova interpretação, nunca antes usada, é o fato de ter evitado o erro cometido nas medicinas-oficiais anteriores, praticadas nas primeiras Cidades, onde as muitas manifestações clínicas da mesma moléstia eram consideradas doenças diferentes. Esse método foi identificado por Platão como dissecação ou divisão dos conceitos universais nas suas diferentes classes (Cornford, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego. 2. ed. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 1981).

A Medicina como paideia também contribuiu para que Platão reconhecesse as três virtudes do corpo – saúde, beleza e força – que harmonizariam com as quatro virtudes da alma – piedade, valentia, moderação e justiça.

As atitudes educadoras da Medicina como paideia ultrapassaram os limites da terapêutica e incluíram a massagem, a prática dos esportes, a música, a dança, o teatro e os banhos coletivos no cotidiano da busca da saúde. No texto Das Epidemias (Darember. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855), da Escola de Cós, esta ideia está clara:

“A arte do médico consiste em eliminar o que causa dor e em sarar o homem, afastando o que o faz sofrer. A natureza pode por si própria conseguir isto. Se sofre for estar sentado, não é preciso mais que levantar-se; se sofre por se mover, basta descansar. E tal como neste caso, muitas coisas da arte do médico a natureza as possui em si própria”.

Também é possível sentir, ao longo do século 3 a.C., o vigor da ação médica ligada à noção global da natureza jônica. O livro Das Epidemias confirma os conceitos de harmonia e medida (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855): “ … o esforço físico é o alimento para os membros e para os músculos, o sono o é para as entranhas. Pensar é para o homem o passeio da alma”.

Nesse sentido, o médico era chamado para recompor a saúde, por meio de técnicas desconhecidas dos não médicos. Para esse fim, utilizava os saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “… os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído”.

A concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal. Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c) entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Aristote. Ética a Nicômaco. X 1180b) associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.

A tendência classificatória do pensamento grego, especialmente o aristocrático, estimulou as tentativas de ordenar as doenças em grupos que apresentassem alguma semelhança no diagnóstico, no tratamento e no prognóstico.

Com a literatura médica contendo as recomendações específicas das normas que deveriam ser obedecidas para evitar a doença, a medicina-oficial grega inicia outra importante contribuição para consolidar-se como paideia – a saúde não dependeria só dos médicos. A dieta, a higiene, o laser, a cultura, o esporte são partes do corpo são.

Os hospitais construídos nesse período eram grandes e possuíam divisões destinadas aos médicos e enfermos. O hospital da Escola Médica, na ilha de Cós, possuía salas de exames, alojamentos individuais para os doentes, salas de banhos coletivos, praça de esportes e anfiteatro para dez mil pessoas. É um dos muitos exemplos de como a arquitetura grega amparava o discurso teórico da harmonia com a natureza na busca da saúde.

O novo espaço da Medicina como Paideia junto aos conceitos jônicos com objetivos educadores, contribuíram para o surgimento das mais importantes obras médicas destinadas ao público não médico. Essas obras, Da Dieta, De um Regime de Vida Saudável e Da Natureza do Homem contêm fantásticas sugestões de como deve ser a vida das pessoas para evitar as doenças. Entre muitos aspectos, descrevem detalhes da caminhada após cada refeição dependendo da idade e das condições físicas de cada pessoa nas diferentes estações do ano.

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