Miguel Servet: o médico herege

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

A triste lembrança da execução do médico espanhol Miguel Servet, em Genebra, no dia 27 de outubro de 1553, foi o resultado da perseguição implacável da intolerância dos católicos e protestantes. Acabou queimado em imagem pela Igreja Romana e levado ao fogo lento da madeira verde pelos calvinistas.

Miguel Servet estudou Direito na Universidade de Tolousse, que em 1530 já abrigava em torno de dez mil alunos e seiscentos professores. Lá, fez o primeiro protesto contra o Código Justiniano que prescrevia a pena de morte aos resistentes à doutrina da Trindade. Enquanto a maioria batia palmas, ele assoviava, facilmente, tornando-se alvo dos medos de todos e rotulado como herege.

A partir da leitura atenta da Bíblia, Servet comprovou a absoluta ausência de qualquer referência à Trindade. Sobre o tema escreveu o livro “Sobre os erros da Trindade” (“De Trinitatis erroribus”), publicado em 1531, asseverando que essa doutrina constituía equívocos oriundos no Concílio de Nicéa realizado no ano 325.

Com discurso essencialmente teológico, escreveu no seu mais famoso livro “Christianismi Restituio” as suas descobertas que modificaram para sempre o conhecimento da pequena circulação que leva o sangue do coração ao pulmão e o traz de volta já oxigenado, para em seguida, ser distribuído por todo o corpo: “O espírito vital se regenera nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventrículo direito do coração. Sem dúvida, esta comunicação não se faz através da parede do coração, como se acredita até hoje, e sim por meio de um grande orifício o sangue é impulsionado até os pulmões.”

Servet utilizou as suas observações anatômicas como suporte para afirmar a necessidade de mudanças na estrutura administrativa da Igreja Romana. Na medida em que o corpo e o universo eram dinâmicos, a Igreja não poderia, jamais, se manter imobilizada. Foi o seu fim. O poder de Roma se uniu ao da Reforma Protestante para destruir o audacioso médico espanhol.

No dia 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo no fogo lento da madeira verde para aumentar o seu sofrimento. Durante todo o processo de acusação feito pelos calvinistas em Genebra, só foi possível, apesar de tudo, acusá-lo de dois crimes: o antitrinitarismo e a posiçao em favor do anabatismo. Era suficiente para que os católicos e protestantes se unissem na destruição do inimigo comum.

A brutal perseguição e morte de Miguel Servet, o médico herege, servem ainda hoje, para a reflexão e recusa do desajuste das intolerâncias de quaisquer naturezas.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | 3 Comentários

Doenças: em busca do invisível aos olhos

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

O médico Marcelo Malpighi (1626-1696) trouxe a doença da macroestrutura para a microestrutura e ofereceu novo norte à Medicina. Para ter idéia do valor das idéias de Malpighi é indispensável saber que a maior parte das ações de saúde, na atualidade, é alicerçada no diagnóstico micrológico dos tecidos, isto é, a busca da infecção ou do tumor.

O médico italiano foi auxiliado por algumas variáveis importantes. Além do estímulo coletivo de busca do invisível atrás da pele que contagiou a Europa renascentista, os primeiros estudos da óptica foram fundamentais para que pudesse ser montado o microscópio. A importância do uso das lentes de aumento, na Medicina, pode ser comparada ao vapor como fonte de energia para o desenvolvimento da indústria.

O conjunto das novas observações consequentes da utilização do microscópio foi tão grande e em espaço de tempo tão pequeno, que se formaram muitas associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas em torno da microestrutura do corpo humano. Entre as aplicações imediatas das novas observações é possível destacar a identificação do ácaro como agente causador da sarna. Essa doença da pele, conhecida desde os tempos bíblicos, estava incluída entre as doenças aceitas como contagiosas, mas até então não se tinha explicação para a transmissão. A identificação do ácaro tornou-se a primeira comprovação de que o microorganismo podia ser a causa de uma doença.

O entusiasmado pressuposto de que todos os problemas da saúde seriam resolvidos pelas “demonstrações visíveis” acabou engendrando o distanciamento entre o médico e o doente. Muitos dos valores da relação médico-pacientes foram atingidos pelos aparelhos postos entre ambos. A crítica da Medicina mecanicista atingiu consolidação adequada com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689). Nos últimos anos da sua vida, esse médico genial defendeu arduamente a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.

Existe incrível atualidade nessa questão. A persistência da atitude mecanicista dominando os rumos das ações de saúde coloca por terra o papel humano e de agente de transformação social que o médico deve ter.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário