ÍNDIA

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

ÍNDIA

 

Localização: A Índia fica situada na Ásia meridional. Apresenta duas zonas principais o sul e o norte. O sul é a penísula do Decan e no norte se encontra a cordilheira de Himalaia que entre outras montanhas separa a Índia dos outros países. Entre essas duas regiões localiza-se a planície do Hindustão sulcado pelos rios que descem do Himalaia, o Ingo, o Ganges e o Bramaputra.

O fato da Índia ser cercada  por mares ( mar de Oman e o oceano Indico) aliada a presença de montanhas contribui para o seu isolamento geográfico e cultural. Esta dificuldade observou-se também entre os povos da Índia que, pela falta de contato entre si, desenvolveram-se em ritmos diferentes, assumindo assim formas variadas.

A região do Himalaia, recoberta em grande parte de densas florestas é inadequada para a agricultura e escassamente povoada por populações primitivas que vivem da simples coleta dos recursos florestais. No planalto do Decan, embora os solos sejam pobres, é possível a agricultura nos vales e nas encostas mais suaves das montanhas, por meios dos terraços e da irrigação à base de reservatórios. Esta agricultura, estritamente dependente da domesticação da água, não atraía, contudo, muita gente por isto a região possui uma população que está longe das altas densidades na planície do Hindustão, extremamente fértil e chuvosa ou fácil de irrigar, é onde se acumulam as grandes massas de população da Índia.

Na plataforma do Decan, formado por terras baixas e úmidas, também se encontra alta densidade de população.

 

Delimitação do Tempo

 

A partir de 3.000 a.C. (Neolítico superior) – desagregação do regime de clãs e nascimento das classes no Oriente até o primeiro Império – Maúrias.

 

Civilização de Harapa

 

Localiza-se no noroeste do país, no vale do Pendjabe. Suas principais cidades eram: Harapa e Moendjo-Daro. Neste momento se desagregava o clã do regime primitivo, caracterizando todo o momento de transição para a sociedade de classes.

Nessa época, os Indus praticando uma agricultura baseado ao regime e cheia e vazante, dependiam da natureza de uma forma menos direta do que num momento anterior (comunidade primitiva).

Havia uma criação de animais domésticos e a criação de gado (carneiros, búfalos, zebus, e porcos) com certo peso na economia embora em menor escala que a agricultura.

Na Idade de bronze (apogeu da  civilização de Harapa) utilizavam esse metal para o fabrico de instrumentos de trabalho, armas e utensílios o que permitiu um maior aproveitamento das condições de terra.

O desenvolvimento do artesanato propiciou o aparecimento de uma camada intermediária prospera e um comércio interno e externo desenvolvido.

Existem provas arqueológicas de um comércio local, por terem sido encontradas nas ruínas de Moendjo-Daro ao lado das habitações, depósitos com características de loja que podem ser comparadas com o atual bazar indiano.

No que se refere a organização urbana foi encontrado vestígios de uma cidade e de uma cidadela.

A cidade caracterizava-se pela existência de ruas bem planejadas, traçadas em forma de xadrez possuindo um sistema de esgoto. As casas eram espaçosas, cômodas, possuindo lavatório com canalização simples ligadas as reles urbanas o que era excepcionalmente para a época.

A cidadela era uma espécie de fortificação for a do centro da cidade, onde estavam localizados os celeiros e os edifícios destinados ao culto e a administração, piscina, guarita para os sentinelas da cidade. Em volta as terras de cultivo e o alojamento dos trabalhadores.

 

MODO DE PRODUÇÃO

 

A  agricultura era realizada num sistema de cooperação simples da qual participava a classe trabalhadora. O comerciante se caracterizava como classe porque a atividade mercantil era desenvolvida interna e externamente em grande escala. Nota-se a presença de uma classe de artificio pela numerosa quantidade de ornamentos encontrados que poderia ser de uso pessoal da classe comerciante e para o comércio externo, existindo ainda um pequeno grupo sacerdotal.

Na primeira metade do segundo milênio a.C., começou a decadência desta civilização que, abandonada por uma parte de seus moradores permitiu a invasão e a dominação pelos árias ( indo-europeus).

É importante ressaltar que embora tenha sido destruída esta civilização  a sua influência cultural fez-se, sentir nos períodos  posteriores da história da Índia.

 

METADE DO SEGUNDO MILÊNIO Á METADE DO PRIMEIRO MILÊNIO INÍCIO DA IDADE DO FERRO

 

Esta época que iremos explicar tornou-se mais clara devido contarmos com os textos sagrados (os Vedas) e com poemas épicos, (Maabarata e Ramaiana), o que não aconteceu com os períodos anteriores, onde só dispunhamos de dados arqueológicos.

 

 

ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

 

A terra caracterizava-se como propriedade comum, cultivada pela comunidade, cuja produção era destinada ao consumo imediato desta mesma comunidade sendo que, o excedente dos produtos só se tornava mercadoria a partir do instante em que era apropriado pelo Estado.

Os trabalhos de irrigação e drenagem do solo são executadas pela comunidade que, utilizando o ferro nos instrumentos, os simplificam consideravelmente. Por essa razão, regiões do vale de Ganges e da Índia Central foram exploradas de maneira mais sistemática, resultando no aparecimento de cidades e posteriormente, uma adiantada civilização.

Ao lado dessa classe produtiva (comunidade), apareceu a classe burocrática formada pelo juiz, chefe de policia, cobrador de impostos, funções que eram exercidas por uma única pessoa, pelo detentor dos livros, um empregado encarregado da proteção dos viajantes, guardas fronteiricos, inspetor das águas, o brâmane (culto), o mestre-escola, o brâmane astrólogo, ferreiro, carpinteiro, o oleiro, o barbeiro, o lavador, o ourives, que viviam as curtas da comunidade.

Ainda encontramos aqui, resquícios da antiga estrutura (escravidão por dívidas e guerras) os chamados dasias (intruso; inimigo).

Nota-se aqui, o fortalecimento de uma aristocracia que cada vez mais se fecha e acentua a desigualdade social, constituindo uma hierarquia caracterizada pelas varnas ( castas).

A aristocracia de nascimento se agrupava em duas varnas: Os brâmanes (classe sacerdotal) e os xátrias (governantes e nobreza militar). Os elementos livres das comunidades constituiam a varna dos vaicias (Artesãos e comerciantes). A Quarta varna era formada pelos sudras fazendo parte dela os estrangeiros livres que nada possuíam dentro da comunidade, não tendo direito de participar nas cerimônias do culto e nem nas decisões comunitárias. Existem ainda os “sem castas” chamados de párias (intocáveis).

A ideologia na Índia foi exercida neste estágio pelo Bramanismo que colocava o Estado como um caráter divino, exaltando a pessoa do rei (Raja) admitindo a Hierarquia social.

O amortecimento da consciência social era conseguido pela idéia montepsicose, a pessoa poderia noutra vida ascender socialmente (mudança de casta) se tivesse cumprido com seu dever na vida precedente.

 

Século V e IV A.C.

 

Neste período, a Índia era formada por vários Estados independentes lutavam entre si, disputando a supremacia política. Gradativamente, esse número foi se reduzindo devido a absorção dos Estados mais fracos pelos mais fortes e hegemônicos.

O estado de Magada, depois de ferrenha luta com o estado de Coçola tornou-se o estado principal da Índia, seu domínio abrangia todo o vale do Ganges e território da Índia central.

Devido um maior relacionamento com outros países, a forma de riqueza da Índia provocou o interesse por parte de reinos de caráter expancionista.

Foi assim que Dario I, nos finais do século VI, dominou regiões do vale do Indo. O mesmo aconteceu no ano de 327 a.C. após a destruição do Império Persa quando foi invadida por Alexandre da Macedônia.

Embora Alexandre tenha firmado alianças com alguns reis da Índia não conseguiu estender seu domínio da maneira que desejava porque o seu exército; enfraquecido pelos combates, não quis continuar a invasão. Alexandre deixou na Índia alguns capitães macedônios que no ano de 317 a.C. foram expulsos pelos aborígenes. Vale resaltar que as rivalidades entre os aliados e os macedônios já se faziam presente.

O Bramanismo já não conseguiam justificar as desigualdades sociais os conflitos se acentuaram surgindo assim uma nova maneira de justificar essas relações – o Budismo.

Esta seita pregava a passividade e resignação com a sua condição social. Conseguindo fundamentar uma ideologia propícia a formação dos estados escravistas nascentes.

 

O IMPÉRIO MÁURIAS

 

Xandragupta era sudra que servia na corte do rei de Magada que, insatisfeito com a sua condição fugiu para o Vale de Pendjab onde se desenvolvia a luta pela expulsão dos Macedônios pelos aborígenes, aliando-se a estes e organizando a campanha militar obtendo pleno sucesso.

Apoiado no seu prestígio político e militar, invadiu Magada e derrubou a dinastia de Handas, tomando-lhe o trono e fundando sua própria dinastia.

Conseguiu submeter toda a parte norte da Índia e talvez regiões do sul, criando o Estado mais extenso da Índia antiga.

Açoca, neto de Xandragupta, conseguiu estender o seu domínio por todo o país, tendo Pataliputra por capital.

 

ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

 

A agricultura da irrigação e drenagem era a base da economia . Esses trabalhos eram realizados pela comunidade que, economicamente, estava pouco ligada a cidade (comunidade superior). A terra era propriedade coletiva, possuía administração própria ( caráter eletivo ou hereditário).

A ligação com a comunidade superior era através do pagamento de tributos (produtos em espécie) e pela participação na formação dos exércitos reais. Essa população, mesmo sendo livre, executava trabalhos forçados caracterizando uma servidão coletiva.

Na cidade efetuava-se desenvolvido comércio interno e externo Marítimo: Egito, Mesopotâmia, Ceilão, países do Sudeste Asiático. Terrestre, Irã, países da Ásia Central.. Havia circulação de moedas de cobre e prata.

Paralelamente  a servidão coletiva, existia um grande numero de escravos que trabalhavam nas propriedades reais, nas explorações menores e de modo mais efetivo, nos trabalhos domésticos.

A estrutura ideológicas do Império de Máurias era a religião budista durante o reinado do Açoca, que convertido, favoreceu seu desenvolvimento na Índia.

A queda deste Império, após a morte de Açoca, não só foi motivada por questões internas – suas frustadas tentativas de criar um estado solidamente unificado – mas também por falhas sucessivas na sua política externa.

No início do século II a.C., os Massagetas ( Ásia Central ) venceram os Máurias dominando posteiormente todo o Noroeste do País e talvez alguns territórios localizados no centro da Índia.

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em ÍNDIA

Guilherme Piso e a medicina no Brasil Colônia

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

O domínio militar holandês em Pernambuco no século XVII, possivilitou o encontro de Maurício de Nassau, o administrador intelectual e o médico Guilherme Piso em terras brasileiras.

Desse relacionamento, foi produzido pelo médico holandês, com o apoio financeiro do administrador, as maiores e mais importantes obras literárias médica-botânica-antropológica do Brasil seiscentista, ‘História natural do Brasil’e História Natural e Médica da Índia Ocidental’.

Piso nasceu em Leyden (Holanda) em 1611 e diplomou-se em Medicina em Caen (França) em 1633. Ele chegou ao Brasil em 1637 e ocupou a chefia dos serviços Médicos das Índias Ocidentais.

Permaneceu em Pernambuco 7 anos e durante este período coletou material e fez inigualável observações que culminaram na elaboração dos seus livros. Retornou à Holanda em 1644, tendo clinicado em Amsterdam até 1678, quando morreu.

Após a conquista holandesa das Capitanias de Pernambuco, Itamaraçá, Paraíba e Rio Grande do Norte, com o conseqüente fortalecimento militar do conquistador, foram iniciados, rapidamente, os acordos entre os proprietários da terra e o vencedor.

Em parte, a rapidez dessa união, tenha se dado pela impossibilidade humana  e material de enfrentar o Exército holandês, já que não podiam contar com qualquer auxílio empenhada na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) com a França. Aos flamengos interessava, acima de tudo, aumentar a produção de açúcar para repor os gastos que tinham tido coma guerra em terra Brasileiras.

Na condição de conquistador, chega, em 1637, o almirante Maurício de Nassau, Com a ajuda dos conquistadores transforma a sua administração na mais próspera de todo o período holandês no Brasil e com os fabulosos lucros da retomada da produção açucareira, foi possível mandar buscar na metrópole os homens das artes e ofícios. Foram nessas condições sócio-econômica-política que o médico Guilherme Piso chegou ao Brasil e assumiu a chefia dos Serviços Médicos das Índias Ocidentais.

De imediato, Piso constatou que a prática médica era exercida por leigos não capacitados, Propôs ao governador a reforma e ampliação do Hospital do Forte de São Jorge, no Recife, objetivando a centralização dos cuidados médicos e a sua melhor administração.

O fato observado por Piso não era novo. Já em 1521, d. Manuel, informado da má qualidade prática médica nas colônias tenta disciplinar com o ‘Regimento do Físico-Mor’. Esta normatização atingiu diretamente os padres da Companhia de Jesus, As farmácias jesuítas eram famosas pelas suas fórmulas mágicas para resolver todos os problemas de saúde, desde o ‘cozimento para a virgindade perdida’ do Irmão Boticário Manoel de Carvalho até a interferência direta ordenada por d. Sebastião Monteiro, em 1707, orientando como os médicos e cirurgiões deveriam tratar os doentes que não se confessassem e comungassem.

Com a nova diretriz dada por Piso, foi possível reunir no Hospital do Forte de São Jorge vários médicos e cirurgiões, alguns judeus fugidos das absurdas acusações da contra-reforma promovida pela Igreja Católica na Europa.

Foi, sem dúvida, nesse hospital que Guilherme Piso tomou conhecimento da medicina indígena e inteligentemente comprovou que ela curava mais que as amputações indicadas pelos cirurgiões.

 

Resgatar o conhecimento médico historicamente acumulado e aplicar na melhoria da saúde.

 

No seu livro, ‘História Natural do Brasil’ ela fez a descrição das gastroenterites e descreve quadro clínico, que hoje, nos faz supor se trata de infecção intestinal. No capítulo ‘Das lombrigas’, identifica corretamente o Ascaris lumbricoides e o Enterobius vermiculares, com o quadro clínico bem definido e a afirmação que poderiam ser encontradas no estômago, vesícula biliar e no coração, caracterizando de forma incontestável que realizava necrópsias em época que a sua prática era temida mesmo na Europa.

A Piso cabe a primazia de Ter relacionado a cirrose ao alcoolismo e a má nutrição. A descrição dele foi anterior em quase 200 anos da feita por Laennec em 1826. Como tratamento prescrevia dieta de alimentos e bebidas frescas, diuréticos vegetais e paracentece. No seu livro é claro: ‘Na dissecção dos cadáveres, sobretudo de doentes que morreram de anasarca ou ascite, às vezes se encontra no fígado de cortirante e branco, abrindo em fendas, sem vestígio sequer de sangue’.

Ele coloca por terra a dúvida da sifilização do Brasil pelo europeu. Na referência às doenças femininas, afirma que mais tarde metade das holandesas e judias sofriam de corrimento vaginal e doenças venérias e que as índias eram mais sadias que as brancas.

Esse tema tinha grande importância social e o genial Gregório de Matos, que viveu no mesmo século, em seus temidos versos, fez completo relato das doenças venérias, indicando nominalmente o portador da doença.

Entre as maravilhosas e precisas descrições médicas feitas pelo médico holandês, está a do escorbuto, comum entre os marujos seiscentista. Ele recomendava o uso, em grande quantidade, do suco de limão e maracujá.

Além das doenças com os respectivos quadros clínicos e tratamento, Piso no seu ‘História Natural do Brasil’, fez a classificação de dezenas de plantas e animais, todas elas acompanhadas de desenhos preciosos e detalhados.

A simplicidade do raciocínio científico adotado por ele, faz com que além de continuarem atuais, sob alguns aspectos, pareçam absurdas algumas recomendações de médicos do mesmo período, que prescreviam ratos domésticos com outro em pó puríssimo.

O grande professor de Guilherme Piso foi o pajé com a sua sabedoria e conhecimento acumulados ao longo dos séculos. Ele reconhece em diversas passagens do seu livro, a superioridade da medicação indígena sobre a européia e dá o seu testemunho: ‘Os índios prescindem de laboratórios, a demais, sempre tem a mão sucos verdes e frescos de ervas. Enjeitam os remédios compostos de vários ingredientes, preferem os mais simples’.

Não resta dúvida de que os espírito crítico de Piso na comparação de algumas das fórmulas terapêuticas  européias do século XVII que incluíam osso de crânio de homens mortos em acidentes, fezes humanas e pó de múmia com a simplicidade dos remédios utilizados pelos índios e principalmente pela qualidade de vida destes, não deixou dúvida quanto ao julgamento sensato da supremacia da medicina indígena.

Inquestionavelmente, verdadeiro e atual é o depoimento histórico de Piso em relação ao gencídio indígena: ‘Outrora, antes de conhecerem os lusitanos, eram numerosos e quase indefinitos; e as aldeias por toda a parte, eram tantas que os mais, entendidos exploradores das Índias duvidaram se haveria região do mundo mais povoada que o Brasil. Agora, porém estão reduzidos a pequenos número, pois pela crueldade dos lusitanos uns foram quase totalmente exterminados, outros arrastados à mísera escravidão, outros obrigados a salvar-se fugindo e ocultando-se no interior do continente’.

É evidente que seria absurdo pensar em retornar à prática médica indígena com exclusividade, porém é necessário fazer uma reflexão do que representa um paciente queimado pela radiação da bomba de cobalto ou pelos efeitos secundários da quimioterapia anticancerosa, mal indicadas freqüentemente não alteram a sobrevivência, mas certamente pioram a qualidade da pouca vida que restará ao paciente, sem falar das questões éticas e moral envolvidas.

Torna-se necessário questionar omaniqueísmo cego da medicina ocidental consumista e busca na pesquisa, alternativa para o desconhecimento de inúmeros aspectos do binômio saúde/doença.

 

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em Guilherme Piso e a medicina no Brasil Colônia