Práticas médicas no Brasil colonial

 

 

Práticas médicas no Brasil colonial

 

 

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

 

A presença da Medicina portuguesa, no século 17, no Brasil-colônia

 

A Medicina, em Portugal, começou a ser ensinada no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, fundado por D. Afonso Henriques, em torno de 1130, pouco depois da autonomia do Condado Portucalense, formando a nação portuguesa.

A utilização dos conventos e abadias para a posse do conhecimento e como núcleos do aprendizado foi uma constante durante grande parte da Idade Média. Entre as razões principais desse fato, destaca-se a guarda, pela Igreja, dos instrumentos de ensino, os manuscritos das traduções dos textos gregos e certas condições que essas instituições preenchiam, capazes de estimular o estudo em poucas pessoas, que dispunham do sustento garantido.

É certo que o Concílio de Tours, no ano de 813, já recomendava a mudança da homilia do latim para a língua vulgar. Essa prática foi aumentando, gradualmente, e contribuiu para o processo de transmissão do saber acumulado em todas as áreas do conhecimento, possibilitando maior acesso às fontes gregas e romanas. O processo cumulativo de informações em documentos escritos contribuiu para vulgarizar, mesmo em pequena parcela da população, muitos livros, que marcaram o pensamento ocidental para firmar o cristianismo como principal religião do Ocidente.

Algumas cidades, sob forte influência cristã, como Toledo depois da sua reconquista do domínio muçulmano, em 1085, notabilizaram-se pelo importante corpo de tradutores, que, aproveitando a experiência deixada pelos árabes, traduziram para a língua vulgar muitos livros gregos e latinos. Foi nesse período que a Medicina cristã tomou conhecimento das obras de Galeno, Avicena, Razes e Albucassis.

As cópias dos documentos traduzidos por letrados e reescritos pelos escribas eram guardadas nas abadias e mosteiros, construídos ao longo da Idade Média, na Europa, para abrigar as diferentes ordens religiosas que se iam formando. Essas instituições religiosas, edificadas nos moldes arquitetônicos de diferentes épocas, tinham, quase sempre, na sua estrutura física, além das suas famosas bibliotecas, certos espaços destinados ao abrigo de doentes, da própria sede e viajantes necessitados.

As primitivas enfermarias foram diferenciando-se e, com o tempo, passaram a funcionar como pequenos hospitais, dirigidos por quem mais conhecia as propriedades medicinais das ervas e tinha habilidades suficientes para prestar socorro imediato às necessidades primárias da saúde. Freqüentemente, não eram médicos, e, na maioria das vezes, tratava-se de curadores populares admitidos nas ordens religiosas. O fortalecimento desse aspecto da vida monástica deu-se à medida que as ordens religiosas tomaram parte importante no cumprimento das suas obrigações no socorro aos seus próprios membros e aos peregrinos necessitados.

As principais e mais conhecidas escolas de Medicina da Europa, no medievo, iniciaram as atividades dentro ou nas proximidades dos conventos e abadias.

A prática médica, exercida no hospital da abadia de Monte Cassino, tornou-se famosa, durante vários séculos, pela competência dos monges médicos e pela biblioteca, que abrigava as principais obras de Hipócrates e Galeno e articulava, com muita competência, as Medicina-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial.

Especificamente, os beneditinos ficaram ligados à Medicina por meio da Escola de Salerno, cidade no sul da Itália, próxima de Nápoles. É provável que esse centro de aglutinação da Medicina em Salerno já existisse, antes do ano 1000, num mosteiro que havia nas cercanias. Essa região tinha mantido a forte influência do conhecimento grego e adicionou as informações da Medicina árabe, conquistadores da vizinha Sicília.

É impossível não pensar que tenha havido uma integração de conhecimentos entre os médicos laicos e os monges que se dedicavam à cura das enfermidades dentro dos conventos para o aparecimento das primeiras escolas de Medicina.

Os religiosos desfrutavam de maior proteção dentro dos muros das instituições religiosas contra a fúria popular, quando o tratamento não dava certo e o paciente morria. Os agentes da Medicina-empírica que moravam nas cidades (aqui com sentido de comunidade urbana) tinham a vantagem de estar mais perto das mazelas da população e conhecer melhor os fatores causadores da doença. Essa troca de informações entre religiosos e leigos provocou conflito real, suficiente para gerar a reação da cúpula da Igreja, que proibiu, no Concílio de Reims, em 1131, posteriormente ratificado pelo Concílio de Latrão, em 1139, aos sacerdotes exercerem a Medicina fora dos limites das abadias.

Alguns métodos terapêuticos utilizados eram muito agressivos e causavam grandes seqüelas ou a morte dos doentes, dando origem aos conflitos que acabavam com o linchamento do curador, em especial, do cirurgião-barbeiro. Nessas circunstâncias, era muito mais seguro praticar a Medicina dentro dos conventos do que se expor à vingança popular fora deles.

Pode ter sido para manter a autoridade ou mesmo para melhor disciplinar os clérigos resistentes às orientações conciliares anteriores ao Concílio de Tours, em 1163, que as autoridades eclesiásticas proibiram, definitivamente, aos religiosos realizarem sangrias e outros procedimentos invasivos, frequentemente determinantes da morte do paciente, com base na Bula “A Igreja abomina o sangue (Ecclesia abhorret a sanguine).

A sangria, como terapêutica reconhecida estruturada a partir da teoria dos Quatro Humores, oriunda da ilha de Cós, na Grécia antiga, era largamente utilizada pelas Medicina-oficial e Medicina-empírica, na Idade Média, e, na maioria das vezes, determinava mais dano que vantagem ao doente. Apesar de as complicações serem igualmente graves para todos os agentes da cura que executavam a sangria, foi imposta particular perseguição aos médicos judeus, resultando na morte por linchamento de muitos deles, determinada pelo insucesso do tratamento. Importantes autores professos do cristianismo reconheceram também a posição de insegurança dos médicos judeus frente à fúria do povo.

Entre os séculos 12 e 13, em virtude das ordens conciliares de Trento e Tours, começou o processo de afastamento dos agentes da Medicina-empírica das abadias e a Medicina-oficial começou a ser ensinada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Alguns religiosos que se destacaram no exercício da Medicina, na exclusividade das abadias e mosteiros portugueses, organizaram o primeiro esboço da escola de Medicina em Coimbra e, por essa razão, foram mandados por D. Sancho (1185-1211) para estudar em Paris e, quando voltaram, reforçaram o já existente modelo de ensino ligado ao poder eclesiástico.

O ensino da Medicina em terras portuguesas só foi consolidado mais de um século depois, em 1290, no reinado de D. Diniz (1279-1325), ao fundar a Universidade dos Mestres e Escolares de Lisboa, autorizada a ensinar leis, artes e Medicina. Alguns meses depois, o Papa Nicolau IV (1288 -1292) reconheceu a nova universidade cristã com a Bula “De statu regni Portugaliae quod super hoc factum est, ratum et gratum habemus”.

Até 1493, o ensino em Portugal resumia-se a uma única cátedra com um lente, que lia os textos de Medicina. O mestre João, fundador da Congregação dos Cônegos Seculares de São João Evangelista, tornou-se o mais conhecido.

Somente os membros do clero e os homens ricos dispunham de tempo livre e rendimentos suficientes para se dedicarem aos estudos. As relações dos estudantes com a burguesia nunca foram amenas. Ao contrário, existiram vários atritos, que foram levados a sério pela Igreja e pelo Estado. A mesma Bula que autorizou o funcionamento da Universidade portuguesa, recomendou facilidade para o aluguel das casas aos estudantes, sendo o seu preço avaliado por dois clérigos especialmente designados para esse fim.

Entre os laicos de melhor posição socioeconômica, que podiam pagar o aluguel e o sustento, estavam os filhos dos comerciantes judeus. Com as facilidades que desfrutavam, por não serem obrigados à obediência às regras conciliares, distinguiram-se como grandes curadores, alguns com o reconhecimento da corte. Foi o caso do Mestre Nasim, ao receber carta de exclusividade concedida pelo rei Dom Duarte, em 1434, para tratar das doenças dos olhos. Essa aparente contradição, por um lado os judeus eram perseguidos e alguns médicos judeus privilegiados,  parece ter sido norteada pela competência da cura. Como esses médicos não mantinham obediência às restrições das Bulas papais, é possível que obtivessem melhor resultados se comparados aos dos médicos cristãos e ainda mais em relação aos cirurgiões-barbeiros.

É difícil avaliar com precisão como se passava, realmente, o ensino da Medicina em Portugal daquele tempo e quais foram os critérios para que os alunos obtivessem a autorização real para exercer a profissão. É provável que o candidato não enfrentasse grandes dificuldades e era suficiente dispor de tempo e dinheiro. Por outro lado, se algum curador da Medicina-empírica conseguia obter bons resultados terapêuticos no tratamento de algum cortesão importante ou financista influente, tornava-se mais fácil obter a licença para medicar.

Somente em 1493, no reinado de D. João II, foi introduzida a segunda cadeira no curso de Medicina. Seguindo as prescrições canônicas, ficaram conhecidas como Prima, ministrada nas primeiras horas da manhã, com a leitura das obras de Galeno, e a Véspera, após o almoço, para os ensinamentos de Hipócrates, quando eram lidas, sem discussão, as recomendações médicas, prescritas pela Escola de Cós e elaboradas a partir dos anos 400 a. C. Os livros, conhecidos como “Corpo Hipocrático”, eram compostos de vários manuscritos, provavelmente traduzidos por médicos árabes e judeus, que continham recomendações importantes de normas para a saúde pública, voltadas para a realidade da Grécia antiga.

A leitura dos manuscritos da experiência médica grega dos tempos hipocráticos deve ter sido muito conflituosa para os primeiros estudantes portugueses. A mensagem recebida estava muito distante da realidade vivida. Os textos gregos, oferecendo uma interpretação jônica da saúde, onde a relação do homem com a natureza era preponderante, chocavam-se de modo frontal com a Medicina de Coimbra, que valorizava a cristianização da Medicina, com o predomínio do pouco cuidado com a higiene pública, além da proibição do contato com o sangue, interdição dos estudos anatômicos nos cadáveres e fortíssima presença da autoridade eclesiástica. Grande parte dos remédios, advindos da experiência grega, eram obtidos no Oriente e comercializados por comerciantes judeus e árabes, que acabaram dominando grande parte da farmacopéia européia central medieval.

Esse fato contribuiu para que, durante a Idade Média, muitas cidades medievais tivessem boticários hebreus e florescesse a publicação de farmacologia, como o livro da “Explicação da Droga Medicinal”, de Abu Imran Musa, e o “Compendium Aromatium”, do médico Saladino di Ascoli.

A necessidade de sobreviver às perseguições político-religiosas fez com que esses letrados se adaptassem às mudanças ocorridas durante e após as lutas pelo poder entre cristãos e não cristãos. Foi o que aconteceu com o médico Yehuda Halevi, que trabalhava na cidade espanhola de Toledo, na fase cristã. Com a decisão do Concílio de Béziers, em 1246, proibindo a prática da Medicina pelos judeus, ele se dirigiu para Córdoba, onde continuou as atividades. A situação vivida por Yehuda deve ter sido semelhante a de outros curadores, que sofreram as angústias da intolerância religiosa contra os judeus e árabes.

O ensino da Medicina em Portugal atravessou três séculos sem grandes mudanças e pouco atendeu às necessidades sociais geradas pelas guerras e epidemias. Os inúmeros conflitos entre os doentes e os médicos foram agravados pela ineficiência dos tratamentos recomendados para fazer frente aos freqüentes surtos de doenças infecto-contagiosas. As fórmulas prescritas variavam de excremento de rato ao pó de múmia. As queixas da população aumentaram muito, a ponto de, em várias ocasiões, terem organizado manifestações de protestos contra os médicos. A principal denúncia era o abandono dos pacientes depois de receberem o pagamento pelos serviços prestados.

O distanciamento entre a Medicina-oficial e as necessidades de saúde do povo geraram, em 1472, uma manifestação popular junto à corte, para garantir o direito de trabalho dos agentes da Medicina-empírica. O rei não cedeu e continuou vigorando a ordem real para o físico-mor examinar todos os que pretendiam exercer a Medicina-oficial. As medidas tomadas pela Coroa portuguesa, com o objetivo de fiscalizar a prática da Medicina, estavam contidas dentro do mesmo contexto centralizador da assistência hospitalar.

Não dispondo de médicos formados em número suficiente para assumir as necessidades da população, foi montado um complicado jogo de aparências, para aplacar a fúria popular diante dos tratamentos que levavam à morte, com dois pesos e duas medidas, de acordo com os interesses imediatos. As atitudes tomadas pela administração real, para cercear a liberdade de ação dos agentes da Medicina-empírica revelaram-se competentes, com bons resultados e elogiado pelos doentes e familiares. Ao mesmo tempo em que os aceitavam com reservas, os representantes do rei perseguiam os mais desastrados, os que geravam maus resultados, aplicando-lhes punições, desestimulando outros com idéias semelhantes e incentivando a autoridade dos alunos da universidade.

As pequenas alterações feitas em 1537, no reinado de D. João III, ao introduzir novas Cátedras, inclusive abrindo certo espaço ao estudo da anatomia humana, não produziram efeitos significativos ao serem comparados aos da Reforma Pombalina, de 1772, quando foi concretizada a primeira revisão dos métodos utilizados desde a criação da Universidade dos Mestres e Escolares.

Foi Ribeiro Sanches, ministro de D. José I (1714-1777), o autor do projeto que introduziu o “Novo Método para Aprender e Estudar a Medicina”, que consolidou a obrigatoriedade das aulas de anatomia humana com a construção do Teatro Anatômico e do hospital destinado também ao ensino.

O novo horizonte proporcionado por Ribeiro Sanches, cristão-novo, com sólida formação cultural, foi o resultado da comparação dos conhecimentos que ele adquiriu em universidades européias, inclusive a de Portugal. Era evidente o grande descompasso da Medicina-oficial portuguesa. Enquanto a Universidade de Paris, em pleno Renascimento, havia desvendado a anatomia humana e ensaiava  entender os mistérios da micrologia nos trabalhos de Marcelo Malpighi (1628-1694), trazendo as diferenças entre a macroestrutura e a microestrutura, utilizando as lentes de aumento, a Universidade de Coimbra ainda resistia ao estudo da anatomia em obediência à ordem do Concílio de Tours, de 1163, que proibiu o contato com o sangue humano, por meio da Bula “A Igreja abomina o sangue”.

Esses representantes da Medicina-oficial portuguesa acompanharam os viajantes aportados nas terras do Brasil, entre os séculos 16 e 17, ainda carregados das limitações impostas pelas bulas conciliares, sem conhecer a anatomia, acostumados à passividade frente ao avanço da doença, sempre atribuindo a dor e a morte como vontade divina e usuários intransigentes das cataplasmas, sangrias, vomitórios e purgatórios para equilibrar os humores, em acordo com os textos de Hipócrates e Galeno.

Entre os séculos 16 e 18, foram poucos os médicos formados em Coimbra que se dirigiram às Colônias para trabalhar. O maior número dos curadores que se aven­tu­ra­ram além-mar foram os representantes da Medicina-empírica e da Medicina-divina, compostos de judeus, árabes, padres, alguns benzedeiras e parteiras perseguidos pela implacável Inquisição portuguesa. Essa situação só seria modificada, a partir de 22 de janeiro de 1808, com a chegada, à Bahia, da frota que conduziu D. João e a Corte, todos fugidos do exército napoleônico.

Parece ter havido a presença judia na formação de intelectualidade portuguesa, no século 16, particularmente na Medicina-oficial. Os judeus fugidos dos rigores da intolerância de todos os matizes, nos reinos cristãos da Europa medieval, ajudaram a empurrar esses especialistas em direção às novas terras descobertas, ao Brasil inclusive. Além de médicos, cirurgiões e boticários, eles povoaram as cidades brasileiras como artífices, lavradores, soldados e criadores de gado, facilmente identificados como cristãos-novos.

Outros curadores da Medicina-empírica, como parteiras, benzedores, erveiros, sangradores, cirugiões-barbeiros, mesmo professando o cristianismo, foram considerados incursos em crimes de feitiçaria e condenados em processos conduzidos pela Inquisição, a partir de denúncias assentadas na disputa dos espaços entre as Medicinas-oficial, Medicina-empírica e Medicina-divina, deslocando os fugidos ao Brasil.

 

Prática médica colonial

 

As perseguições aos médicos que ousavam enfrentar o domínio do clero não ficaram restritas à intolerância religiosa na Metrópole. Em 1729, foi queimado vivo em Lisboa o médico cristão-novo João Thomaz de Castro, brasileiro, natural do Rio de Janeiro, com trinta e um anos de idade, por ser considerado convicto, ficto, falso, simulado, confidente, diminuto e impenitente.

No Brasil-colônia, no século 18, as queixas da incompetência dos profissionais diplomados em Portugal eram permanentes e duras. O desembargador Brochado repetia que eles curavam por ignorância e matavam por experiência. O frei Caetano Brandão, bispo do Grão Pará, era mais veemente ao negar a utilidade dos médicos de Coimbra: “Melhor tratar-se uma pessoa com um tapuia do sertão, que observa com mais desembaraçado instinto de que com um médico desses vindos de Lisboa”.

A Metrópole administrava a saúde dos súditos das colônias da África, Ásia e do Brasil por meio da Fisicatura-Mor, cujo primeiro estatuto data de 1260. A reforma administrativa da segunda metade do século 18, durante o governo de D. Maria I, transformou a velha estrutura na Junta do Protomedicado. É provável que a intenção tenha sido fazer frente às novas necessidades coloniais, sem, contudo, modificar a centralização anterior. A sede continuou em Lisboa com o físico-mor controlando os delegados nas colônias. Essa Junta passou a fiscalizar a prática da Medicina desde a concessão da licença para exercer a Medicina-oficial até o controle de preços dos remédios. O desempenho dessa administração nunca foi competente. A principal causa do fracasso em administrar a saúde da Colônia foi o fato de só haver representantes nas grandes cidades coloniais. Mesmo que as obrigações ficassem restritas aos centros urbanos, ainda assim seria incapaz de exercer as obrigações pelo grande número de itens a cumprir como entidade fiscalizadora, dispondo somente de um funcionário em cada sede.

A Junta exigia que o candidato a médico fosse examinado em Lisboa para ter o diploma reconhecido. Essa foi uma das dificuldades burocráticas impostas pela Junta do Protomedicado ao exercício da Medicina nas colônias.

Os médicos formados em Coimbra eram em número insuficiente para suprir as necessidades da Metrópole; poucos se dispunham a trabalhar nas colônias além-mar.

Não pode ser negligenciado o imaginário seiscentista, que descrevia povos antropófagos e incríveis animais bicéfalos antropófagos. Outros empecilhos se somaram a esses, como a própria distância da Metrópole e a dificuldade de transporte, que podem ter contribuído para limitar a vinda de médicos tão reclamados.

Com a gradativa certeza da necessidade de o colonizador adotar a Medicina-empírica apreendida dos povos indígenas, a única disponível, para curar as doenças dos europeus, os poucos cirurgiões barbeiros, benzedores, erveiros, sangradores, beatas e parteiras, também preencheram os vazios das novas necessidades

Quando interessava à administração colonial aproveitar os saberes de algum curador popular, ele era valorizado publicamente pela corte, que buscava nele a solução para as enfermidades que não eram curadas nem pela Medicina-empírica dos índios e, muito menos, pelos curadores portugueses.

O próprio D. João VI (1767-1826) reconheceu a habilidade do soldado Antônio Rodrigues, que curava com o simples toque das mãos, concedendo-lhe pensão anual de quarenta mil réis.

A reprodução do imaginário europeu medieval em torno da bruxaria se fortaleceu entre os curadores de todos os matizes recém chegados que  utilizavam, nos ritos terapêuticos, a intermediação de bruxas, demônios e duendes, que supostamente provocavam a cura dos amigos e faziam adoecer, até a morte, os inimigos. É conhecido o exemplo da curadora, na Bahia, do século 16, a Maria-arde-lhe-o-rabo, que adquiriu fama por curar muitas doenças causadas pelos demônios.

A população desassistida, que já povoava as principais cidades no Brasil-colônia, só utilizava as alternativas oferecidas pela Medicina-empírica, originadas do conhecimento historicamente acumulado dos indígenas, africanos e europeus, para explicar o aparecimento e a cura das doenças, dando como resultado um rico mosaico de atitudes simbólicas frente às dificuldades, que permaneciam vivas entre a população européia.

A angústia pessoal vivida pelo doente, vítima das doenças tropicais desconhecidas, amedrontado frente à dor sem controle e à morte precoce, gerou novas respostas culturais processadas na complexa mistura entre o índio, o branco e o escravo africano. Naquele momento, o conhecimento indígena tinha sido empurrado para o sertão, fugindo da destruição, e os recursos oferecidos pela Medicina-oficial causavam mais prejuízos que vantagens.

Para tudo havia uma ladainha salvadora rezada com fé junto ao Santo da preferência, fazendo com que o rezador de sucesso se destacasse entre os agentes da cura. Entre as mais conhecidas se destacaram as para curar a bicheira. espinhela caída, soluço, o engasgo pela espinha de peixe e o mau-olhado,

O mau-olhado é um capítulo à parte no mundo dos conflitos sociais gerados pelas doenças e está relacionado aos muitos aspectos culturais que se perdem no tempo, Na mitologia grega, a mortal Medusa, com a cabeça coberta de serpentes e os olhos com brilho excepcional e penetrante, transformava em pedra quem ousasse fixá-la. A origem, provavelmente, é pré-grega, tendo sofrido adaptações ao longo do tempo, até chegar à conhecida concepção helenística.

Essa mesma sociedade também reconhecia a excepcionalidade dos efeitos causados à saúde pelo mau-olhado, que somente poucos representantes da Medicina-divina, com poderes especiais, poderiam tratar. As pessoas que tinham nascido envelopadas, isto é, envoltas na membrana amniótica possuíam poderes especiais e eram as mais indicadas para tratar esse mal.

A crença no mau-olhado parece ser universal. Está presente até hoje em muitas sociedades, significando sempre a mesma coisa: o malefício intencional causado pelo olhar carregado de inveja e malquerença. Quem é atingido pelo mau-olhado sente imediatamente, ou algumas horas depois, apatia generalizada, dores no corpo e na cabeça, alterações na digestão, inapetência , irritação e desânimo. Quando o alvo é criança, os efeitos são naturalmente mais graves com sonolência profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.

Exatamente como no Brasil-colônia e, ainda hoje, em outras regiões do mundo, o mau-olhado é reconhecido como uma das doenças que deve ser tratada pelos curadores das Medicina-empírica e divina.

A inviolabilidade do corpo feminino, introduzido de modo marcante, segundo as regras da castidade preconizadas por São Paulo, constituiu outro elemento complicador nas relações entre os curadores oficiais e as doentes. A interdição de palpar as partes íntimas da mulher européia doente, notadamente os seios, o abdome e o órgão genital, causava extraordinária dificuldade de colocar em prática os ensinamentos hipocráticos aprendidos na Universidade de Coimbra.

Como existia grande escassez de mulheres brancas, na Colônia, os maridos não se arriscavam a deixá-las sentir o contato das mãos de outros homens, mesmo sendo médicos. Não raras vezes, eram os próprios maridos que palpavam as partes sugeridas pelo médico na alcova da doente. Esse problema nunca era enfrentado pelo benzedor, um dos agentes da Medicina-divina e da Medicina-empírica, porque não existia o contato direto com o corpo do doente, evitando o conflito gerado pela intimidade da relação, interdito pela vigilância social e religiosa.

Nas ruas do Rio de Janeiro e de Salvador, na segunda metade do século 17, era comum, nos anúncios pregados nas portas, a caracterização da profissão médica, feita em linguagem capaz de proporcionar o conhecimento prévio dos tipos de instrumentos utilizados pelos seus agentes na cura das doenças, como o anúncio oferecendo o tratamento por meio das chupadas das sanguessugas.

Compreendia toda a intencionalidade dos cirurgiões-barbeiros, que exerciam também o ofício de cortar os cabelos e barbas. O aparecimento dos cirurgiões-barbeiros é confuso, em torno do século 11, não existindo, antes dessa data, qualquer referência a eles. É interessante notar que o surgimento dos sangradores como curadores separados dos médicos é coincidente com a decisão do Concílio de Tours (1163), que proibiu o contato com o sangue por meio da Bula “A Igreja abomina o sangue”.

Dessa forma, é possível que tenha sido um rearranjo social para superar a interdição e continuar executando as orientações de Hipócrates e Galeno, em torno da Teoria dos Quatro Humores, a base essencial de toda a estrutura teórica da Medicina exercida no medievo.

Existem citações bíblicas no Antigo Testamento, que consideram o sangue como elemento sagrado ligado à vida e no Novo Testamento, ligando-o ao sacrifício de Jesus Cristo para salvar os homens.

Dessa forma, o cirurgião-barbeiro pode ter surgido para ocupar o espaço deixado pelos médicos que não mais queriam misturar-se com os que exerciam essa prática combatida pela Igreja.

Estava criado um impasse. Apesar de o manuseio do sangue humano, naquela época, não ser aceito pela hierarquia eclesiástica, existiam manuscritos atribuídos a Hipócrates e a Galeno, respeitados pela Igreja, e amplamente divulgados entre os curadores, que recomendavam a retirada de determinada quantidade de sangue para curar todas as doenças. Esse fato foi propício para a reprodução dos curadores que faziam sangrias.

Alguns cirurgiões-barbeiros ficaram famosos e descreveram técnicas cirúrgicas de amputação e desarticulação dos membros, imobilização das fraturas e outros procedimentos cruentos com sucesso. Um dos mais famosos, Ambroise Paré (1510-1590) inicialmente como cirurgião-barbeiro e, por fim, como primeiro cirurgião, servindo quatro reis de França: Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III.

Entre as mais famosas afirmações de Paré, figuram duas com destaque: as feridas por arma de fogo não eram envenenadas por si mesmas e a absoluta necessidade de ligadura dos vasos sangrantes durante qualquer cirurgia. Esses dois preceitos, que hoje parecem insignificantes, representaram grande avanço na obtenção de melhores resultados nas feridas de guerra.

Com as observações feitas nos campos de batalha dos reis de França, Paré afirmou e comprovou que o ferimento determinado pelo corpo estranho metálico deveria ser tratado como todos os outros e, nas amputações dos membros gangrenados ou dilacerados, os vasos sangüíneos de grosso calibre deveriam ser ligados com fios e não mais comprimidos com esterco de boi.

Ambroise Paré deixou importante contribuição teórica para a consolidação da cirurgia como parte da Medicina, além do livro “Obras Completas”, composto por vinte e seis volumes, que foram usados, pelo menos, nos dois séculos seguintes como normas absolutas dos procedimentos cirúrgicos.

O cirurgião-barbeiro era considerado inferior ao médico porque o tratamento das feridas de qualquer natureza era compreendido como arte mecânica, ao contrário da do clínico, tida como arte liberal. Essa situação perdurou até o decreto de Luís XIV, de 23 de abril de 1723, que consagrou, definitivamente, a separa­ção dos barbeiros dos cirurgiões, quando esses últimos passaram a ser considerados mestres em arte e foram admitidos na Universidade de Paris, em condições iguais às dos médicos.

Os agentes da Medicina-empírica que se intitulavam cirurgiões-barbeiros, na França, eram numerosos e desfrutavam da boa aceitação popular. O decreto real que iniciou a extinção, respeitou o direito de escolha dos que não concordaram em prestar exames, para obterem a condição de médico, agente da Medicina-oficial.

A separação entre cirurgiões e barbeiros, efetivada em Paris, em 1723, teve repercussão no Brasil-colônia, com a chegada, nas décadas seguintes, dos poucos cirurgiões diplomados em Coimbra, que começaram a substituir, gradualmente, os antigos cirurgiões-barbeiros e os padres-sangradores, uma espécie de subproduto entre os religiosos que praticavam a Medicina-empírica.

Os religiosos que praticavam a sangria, principalmente jesuítas, tiveram grande participação na difusão dessa forma de tratamento, oriundo da teoria dos Quatro Humores, descrito por Políbio, o genro de Hipócrates, na Escola de Cós, no século 4 a.C.

Se, durante a sangria, algumas vezes executada nas ruas, o cirurgião-barbeiro, por imperícia, cortava algum vaso sangüíneo mais importante, causando hemorragia incontrolável, a solução era dada pela compressão local com esterco de jumento, que o sangrador sempre tinha na sua bolsa de utensílios. Essa terapêutica em nada diferia de algumas recomendações herdadas das práticas populares, dos agentes da Medicina-empírica que atravessaram incólumes a Idade Média, utilizando excrementos humanos e de ratos, urina de rato e de burro, ossos e carne de sapo.

A colocação de sanguessugas tinha, na prática, o mesmo significado da sangria. Eram postas várias delas em contato com a pele do paciente e deixadas durante determinado período de tempo. O número variava com o tipo e a gravidade da doença. A quantidade de sangue que elas sugavam era desprezível, quando comparada com a retirada pela sangria através da abertura de uma veia periférica, que tirava, no mínimo, um copo de 200 ml de sangue com a ajuda do torniquete.

Não são claros os registros de quando as sanguessugas foram usadas com o objetivo de provocar sangria como forma de tratamento. Sabe-se que esses pequenos animais eram empregados na Roma antiga, provavelmente depois da conquista da Gália, onde este recurso terapêutico era muito difundido entre os povos autóctones. Contudo, antes do século 15, os dados são escassos. Na Alta Idade Média, o uso das sanguessugas era recomendado pelos mais conhecidos médicos da época.

As qualidades atribuídas à chupada desses hirudíneos alcançaram o século 19, quando a França importou, em 1833, mais de quarenta milhões de sanguessugas para fins medicinais e a Austrália ofereceu para o mercado londrino mais de um milhão delas.

A sangria pela aplicação das bichas como forma de tratamento, objetivando a retirada gradativa de certa quantidade de sangue, era feita em todos os doentes, ricos e pobres; só variava a origem do animal sangrador e a forma como era colocado no corpo do doente, isso correndo por conta da fama do curador. As boticas de todo o Brasil tinham sanguessugas da Espanha, Itália, Noruega, Rússia, Suécia, Túnis, Portugal para os que podiam pagar caro e as de preço mais modesto, vindas dos pântanos brasileiros do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraíba.

Durante os vinte e três dias de febre e convulsão que antecederam a morte da Princesa Paula Mariana, filha do primeiro imperador do Brasil, foi submetida à chupada de quarenta sanguessugas, onze vesicatórios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pelos dez médicos da corte, que se revezavam à cabeceira real.

O mesmo tormento sofrido por um homem comum, presenciado pelo viajante inglês Lindley, que esteve no Brasil, no início do século 18, quando presenciou o doente ser sangrado vinte e uma vezes em nove dias para curar uma dor de estômago, como instrumento legal, para curar muitas doenças, como variações dos preceitos hipocráticos e galênicos e provocar a sangria.

As autorizações para que os cirurgiões-barbeiros pudessem trabalhar no Brasil, suprindo a falta de médicos, reclamada pelos colonos, continuaram sendo dadas pelo Protomedicado de Lisboa, como a emitida, em 13 de janeiro de 1787, e apresentada às autoridades coloniais, no Rio de Janeiro, por Joaquim da Silva Ramalho. Com os papéis reconhecidos, os médicos diplomados em Coimbra, agentes da Medicina-oficial, eles podiam sangrar, sarjar, amputar e colocar bichas.

A obstetrícia era exercida quase exclusivamente pelas parteiras e comadres conhecedoras dos mistérios da gestação. Eram identificadas pela grande cruz branca sobre a porta da casa. Antes de começar o acompanhamento do trabalho de parto, era colocada a espada desembainhada e entoada a ladainha, evocando a ajuda do Anjo Gabriel.

Os conhecimentos das comadres eram suficientes para saber que o parto seria bom se a criança nascesse de cabeça para baixo com os olhos voltados para as costas da mãe. O bom parto significava sempre o nascimento de uma criança chorona com pouco ferimento no períneo da mãe. Se a criança nascesse envelopada pela membrana amniótica, teria muita sorte e fortuna ao longo da vida. A comadre era uma personagem de certa idade, com conhecimento empírico dos segredos do parto, dos remédios caseiros e das rezas. Não raras vezes, quando o parto complicava, era chamado o médico mais próximo, que raramente resolvia as dificuldades.

A situação da saúde pública no Brasil-colônia, como cópia das condições sanitárias na Metrópole, era catastrófica. As autoridades reais não tinham registros das doenças infecciosas e sequer qualquer planejamento para garantir o programa mínimo de prevenção. A alta mortalidade infantil pouco significava. Ao contrário, o morto de poucos anos iria juntar-se ao grande exército dos anjos de Deus.

 

Processo de substituição das práticas de curas do pajé pelas do colonizador.

 

A estrutura da Medicina, no Brasil-colônia, ficou encurralada: por um lado, o médico formado em Coimbra representando a Medicina-oficial e o e o cirurgião-barbeiro, a Medicina-empírica; do outro lado, o pajé, dono de incalculável saber historicamente acumulado, respeitado e temido pelo seu poder de curar e fazer morrer.

Os relatos do médico holandês Guilherme Piso, desembarcado em Pernambuco em 1637, sob as ordens de Maurício de Nassau, avaliaram com precisão a importância do pajé.

A desastrosa experiência hospitalar da cristandade da alta Idade Medieval, em nada parecida a da Grécia hipocrática. A Europa medieval ficou marcada pela caridade cristã, em grandes albergues, acolhendo os desvalidos e os leprosos, enfim, vítimas de todas as doenças, sempre tratados pelas ordens religiosas, que se dirigiam em multidões desorganizadas e famintas aos santuários cristãos de cura, notadamente o de Compostela, na Espanha.

A evolução desse hospital, que mais se assemelhava com depósito de doentes recusados pela família e, na maior parte, andarilhos, para o modelo das Santas Casas foi lento. Somente no século 16, pressionado pela enorme quantidade de doentes que perambulavam nas ruas de Lisboa, a realeza iniciou o processo de organização em torno da caridade, como marco fundamental do aproveitamento social dos imemoriais elos da solidariedade em torno de um território protegido – o hospital – com garantia de alimento sem esforço.

A transformação do albergue dos séculos 12 e 13, como o lugar onde todos os doentes poderiam receber a caridade cristã, para o hospital, no modelo das Santas Casas, representou o primeiro esboço do poder real em amenizar as elevadas tensões sociais, entre os miseráveis e doentes crônicos.

A primeira Santa Casa de Lisboa, fundada em 1498, certamente também representou um instrumento para exercer melhor o controle da Medicina-oficial, Medicina-divina e Medicina-empírica, quando a grande mortalidade provocada pela peste negra poderia desestabilizar o poder.

Não é exagero articular sobre esse fato, a construção do hospital com o dinheiro das esmolas, como um dos marcos que, verdadeiramente, chamou a atenção das autoridades do reino português para a perspectiva da caridade, agora sob dois aspectos: em primeiro, aumentar e centralizar a arrecadação das doações; em segundo, diminuir as tensões sociais.

As enfermarias pavilhonadas das Santas Casas, dirigidas pelas religiosas das Ordens d’Assunção e do Espírito Santo, com os seus hábitos brancos, em clara associação simbólica ao sagrado e sob a égide do apóstolo Marcos, reproduziram a prática curativa quatrocentista portuguesa, fortemente ligada ao imaginário cristão da caridade, nascida da obediência aos preceitos bíblicos e dos interesses do Estado português.

Quando D. João e a sua corte de quinze mil desempregados chegaram ao Brasil, depois da fuga das tropas do general Junot, encontraram uma situação caótica na assistência médica. A Colônia não tinha médicos nem hospitais. É provável que a sensação próxima do pânico tenha tomado conta dos portugueses temerosos das febres tropicais.

O pequeno número de médicos diplomados, isto é, agentes da Medicina-oficial, que trabalhava no Brasil, já tinha sido motivo de reclamação veemente do vice-rei Luís de Vasconcelos, em 1789, denunciando que só havia quatro deles, insuficientes em quantidade e qualidade.

 

Ensino da Medicina no Brasil-colônia

 

A situação de insatisfação arrastou-se por mais de um século e já era do conhecimento da Metrópole. Imediatamente após a chegada do rei, sentiu-se a necessidade imperiosa da criação de estrutura de ensino capaz de fazer frente à absoluta falta de médicos para atender os recém-chegados. A pronta resposta do Príncipe Regente, futuro D. João VI, ocasionou a criação, pela Carta Régia de 18 de fevereiro de 1808, da Escola de Cirurgia da Bahia, que começou funcionando nas dependências do Hospital Militar.

Esse hospital iniciou as atividades em 4 de outubro de 1799, nas antigas dependências do Colégio dos Jesuítas, por ordem de Dom Fernando José, governador da Capitania, depois das denúncias das péssimas condições da Santa Casa de Misericórdia de Salvador.

Fato semelhante ocorreu no Rio de Janeiro, motivado por igual necessidade em outros setores da administração colonial. Poucos meses depois da chegada da corte ao Rio de Janeiro, aumentou muito a pressão para reestruturar, com maior autonomia, várias repartições públicas para que pudessem suprir as dificuldades impostas pelo distanciamento metropolitano. Assim, passaram a funcionar, no Brasil, algumas repartições que só existiam anteriormente em Portugal, como a Junta de Comércio, Junta da Agricultura, Fábrica e Navegação do Brasil, a Real Fábrica de Pólvora e também a Escola Anatômica e Cirúrgica.

Em 1768, o vice-rei Dom Antônio Rolim de Moura Tavares, Conde de Azambuja, fundou, nas antigas dependências desativadas do Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo, o Hospital Real Militar e de Ultramar, onde, inicialmente, foram dadas as primeiras aulas de Medicina na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar da valorização dos hospitais militares para a instalação dos primeiros núcleos de ensino da Medicina, o Brasil só teve o seu corpo de saúde no Exército em 1849. Entretanto, desde muito cedo, na experiência colonial, os médicos e cirurgiões-barbeiros que atendiam os militares feridos, estavam organizados como agregados às tropas e, mesmo sem patente, tinham remuneração regular, o que, certamente, contribuiu para a organização precoce dos hospitais militares.

Foi inaugurado, desse modo, com o rei utilizando os médicos recém-chegados e os hospitais militares, o ensino da Medicina no Brasil. Tudo feito rapidamente para formar as bases da assistência médica para D. João, D. Maria I, D. Carlota Joaquina e seus sete filhos, acrescidos dos quinze mil refugiados que vieram nas trinta e seis embarcações escoltadas pelos navios ingleses. Seguiram-se as nomeações dos cortesões para os cargos de direção das academias médico-cirúrgicas do Rio de Janeiro e de Salvador. Para a primeira, foi o cirurgião-mor José Corrêa Picanço, futuro barão de Goiana, e para a segunda, Manoel Vieira da Silva, barão de Alvaizete.

Para conseguir a matrícula no curso, não era necessário muito dote intelectual, bastava que o candidato soubesse ler e escrever. O período de aprendizado durava cinco anos e, até 1832, as aulas eram ministradas por apenas seis lentes e dois substitutos. O diploma recebido não oferecia os mesmos direitos do de Coimbra. Esse reconhecimento parcial pelas autoridades portuguesas gerou vários atritos entre os estudantes e o físico-mor. A tensão ficou em nível crítico depois das manifestações violentas de ambas as partes, forçando o imperador D. Pedro I a assinar, em 1826, o decreto que dava às escolas de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia a autoridade para diplomar os seus alunos.

O decreto imperial, de 9 de setembro de 1826, concretizou a reforma das Academias Médico-Cirúrgicas, transformando-as nas Faculdades de Medicina. O acontecimento ficou gravado no quadro a óleo do pintor Manoel Araújo Porto Alegre, em exposição permanente na Universidade Federal do Rio de Janeiro, retratando o imperador D. Pedro I entregando o pergaminho ao professor Vicente Navarro de Andrade, Barão de Inhomerin.

Com o crescimento das atividades escolares e maior liberdade administrativa, cresceu a pressão por melhores condições de ensino. Os alunos passaram a reclamar por melhor material didático, depois que ficou constatada a inexistência de livros editados em português. Para sanar a dificuldade, passou a ser exigido o conhecimento de inglês e francês pelos novos alunos. Esse estatuto ficou conhecido como bom será, porque além de exigir que os candidatos soubessem ler e escrever, acrescentava: Bom será que entendam as línguas francesa e inglesa.

O curso passou a ter seis anos e, pouco a pouco, os professores e alunos adotaram livros e procedimentos usados pela Universidade de Paris, considerada o centro cultural por excelência.

As diferenças no modo de vida e padrão de controle da saúde pública entre a França e o Brasil, na segunda metade do século 19, eram gritantes. Logo após a Revolução Francesa, foram tomadas medidas sanitárias pelos médicos revolucionários, que modificaram completamente a incidência das doenças infecciosas. Nessa mesma época, em que o incipiente ensino médico brasileiro adotava os métodos da universidade francesa, já ajustada à realidade pós-revolucionária, as principais cidades da França, tinham política de saúde definida.

Afora as grandes diferenças peculiares a cada sociedade, a França já tinha estruturado o ensino médico gratuito, voltado às próprias necessidades, que eram muito diferentes das brasileiras. Por exemplo, Paris tinha cerca de oitocentos quilômetros de esgotos funcionando em galerias subterrâneas. A preocupação das autoridades francesas, naquele tempo, era como poderiam evitar que os dejetos fossem lançados diretamente no Sena. No Brasil, não havia nem o projeto para diminuir a prevalência de inúmeras doenças infecciosas e nenhuma cidade dispunha de rede sanitária adequada.

A análise da grade curricular da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, depois da reforma de 1832, assinada pela Regência Trina (Bráulio Muniz, Costa Carvalho e Lima e Silva), mostra que não havia qualquer referência ao estudo das condições sanitárias e das doenças infecciosas. A atenção era projetada para as doenças mais comuns na Europa e na elite brasileira, sendo a sífilis a maior delas.

O tema central das teses apresentadas pelos primeiros alunos diplomados pode servir como indicador dessa realidade, refletindo o desajuste do ensino da Medicina com a realidade social:

– Influência das religiões e, particularmente, da religião cristã sobre a saúde pública e privada;

– Breves considerações sobre o casamento;

– Medicina e ciência filosófica.

O Estado brasileiro, ainda fortemente atado aos resíduos da estrutura colonial, e sem condição para atender às novas necessidades que acompanharam as transformações sociais, plantou a semente do ensino particular no oitavo artigo do novo regulamento, de 1833, das Faculdades de Medicina, sancionado como lei pela Câmara dos Deputados:

O ensino da Medicina fica livre; qualquer pessoa, nacional ou estrangeira, poderá estabelecer cursos particulares sobre os diversos ramos das ciências e acessórias e lecionar à sua vontade, sem oposição alguma da parte das Faculdades.

Esse importante item da regulamentação do ensino médico permaneceu até o final do Império, quando os diplomas ainda traziam impresso podeis exercer e ensinar livremente a Medicina, tendo contribuído para o aparecimento posterior do professor livre-docente.

A necessidade sentida para superar as graves deficiências do ensino estava assentada em dois aspectos: o gritante distanciamento da realidade social e a impossibilidade de os formandos atenderem às exigências dos grupos privilegiados em ascensão, que recebia as notícias dos avanços da Medicina editadas nas revistas parisienses.

O primeiro aspecto e o mais grave não obteve resposta, porque estava assentado nas necessidades da maior parte da população, desorganizada nas suas aspirações sociais. Restava a este estrato da sociedade procurar salvaguardar a saúde nos agentes da Medicina-empírica. Contudo, o segundo aspecto da mesma questão gerou imediata resposta dentro e fora da estrutura do ensino. Foram organizados vários cursos de especialização dados por ilustres médicos que não faziam parte do quadro docente, principalmente relacionados às doenças comuns dos ricos. Os cursos eram fartamente divulgados na imprensa leiga, de tal modo que toda a população tomava conhecimento deles e desestimulava os que pretendiam viajar para a Europa na procura de melhor assistência médica.

O acesso aos cursos de Medicina tornou-se mais difícil aos pretendentes situados fora de certo padrão socioeconômico. Passaram a ser exigidos os conhecimentos de inglês, francês, português, latim, filosofia, aritmética e geometria. As barreiras aumentavam porque as tarefas do aprendizado ocupavam todo o dia, não sobrando tempo para o aluno ganhar o seu próprio sustento. Não eram muitas as famílias que podiam manter o filho durante seis anos somente estudando. Se for considerado que só havia duas faculdades de Medicina, em Salvador e no Rio de Janeiro, recebendo alunos de todo o país, a despesa com a manutenção aumentava muito, incluindo os custos de moradia. Apenas os filhos dos grandes proprietários de terras, comerciantes ou nobres podiam estudar Medicina, porque eles tinham a exclusiva garantia do sustento sem o trabalho pessoal.

Nessas condições, a abertura do ensino aos professores sem vínculo com a faculdade foi concretizada sem resistência de ambas as partes. De um lado, interessava à administração compensar as deficiências escolares do aprendizado e, de outro, o corpo discente podia arcar com as despesas. Só a matrícula desses cursos custava vinte mil réis e eram oferecidos nos jornais de maior circulação. As aulas particulares passaram a fazer parte da formação universitária, dadas principalmente pelos estudantes que ocuparam a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Em 1834, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro diplomava os sete primeiros médicos da sua história, seis séculos depois da Universidade de Paris.

A convivência entre alunos e professores não foi sempre pacífica. Os atritos começaram com as denúncias feitas pelos Mordomos da Santa Casa do Rio de Janeiro, no que diz respeito à desordem feita pelos estudantes. Depois de algumas negociações, os estudantes foram aceitos acompanhados de professores, somente nas enfermarias masculinas. Os Irmãos da Misericórdia não concordaram em expor a intimidade das pacientes aos alunos.

Os atritos repetiram-se nos anos seguintes e geraram um regulamento muito severo, em 1835, interditando os alunos de andarem em grupos pela cidade. A reação foi imediata. Os estudantes, junto com a imprensa, conseguiram abrandar a dureza, limitando as medidas disciplinares ao interior das salas de aula. No entanto, foi mantida a punição de três meses de prisão para quem cometesse ofensa injuriosa contra qualquer professor.

O clima permaneceu tenso e as ameaças continuaram acesas entre as partes. A congregação endureceu na cobrança das obrigações escolares, introduzindo uma prova escrita eliminatória. Este novo fato motivou, em 1871, a rebelião dos estudantes, pois estavam faltando professores, livros e laboratórios adequados ao ensino. Novas confusões surgiram na convivência universitária com a volta da presença obrigatória às salas de aula. Muitos alunos foram reprovados pela ausência e reagiram destruindo completamente os poucos laboratórios em 1879.

Apesar de ter havido produção de textos médica, eram insuficientes para as necessidades dos alunos que continuavam estudando nos livros dos autores franceses, ingleses e alemães.

Enquanto o corpo universitário no Rio de Janeiro continuava ajustando-se, nem sempre pacificamente, as publicações médicas continuavam trazendo, de forma contundente, a discussão maior das fases de conflito de competência da Medicina com a religião, enquanto práticas de cura.

A mesma situação foi sentida de diferentes formas em várias cidades brasileiras, de tal modo que gerou respostas semelhantes no seu conjunto: a perseguição sistemática aos agentes da Medicina-empírica por parte dos poucos estudantes de Medicina.

Em algumas ocasiões, o discurso da Medicina-oficial tornava-se claro na disputa do espaço, que acreditava ser exclusivamente seu; em outras, reconhecia o conflito de competência e investia abertamente contra os curadores populares, mesmo sem poder assumir completamente a responsabilidade de assistência à saúde da população.

 

Processo de substituição do pajé pelo médico

 

O processo de substituição iniciado pelo colonizador contra a população nativa foi feito, simultaneamente, por meio da destruição do universo mítico autóctone, da morte na ponta da espada e pelas novas doenças trazidas pelo europeu. O índio não conhecia e não estava preparado para lutar com nenhuma delas e por esta razão foi rapidamente batido na própria terra.

O principal inimigo das relações míticas dos povos autóctones foi o poder da Igreja. Sem dúvida, as autoridades eclesiásticas entenderam, precocemente, que era necessário e a qualquer preço a substituição cultural da âncora de autoridade ¾ o pajé ¾ responsável pela sustentação dos instrumentos da coesão social das sociedades indígenas.

O respaldo legal dessa perversa atitude colonial estava contido na bula Romanus Pontifex, de 8 de janeiro de 1454, na qual o Papa Nicolau V fixou as normas da colonização cristã em todos os territórios conquistados.

No Brasil, os primeiros que sofreram esta ação conjugada foram os tupis, chamados pelos brancos de tupinambás. O grupo étnico tupinambá era formado por várias tribos pertencentes ao mesmo tronco lingüístico e tinham algumas características socioculturais comuns. Incluíam o Tamoio, Tomimin, Tupiniquim, Caeté, Tabajara, Potiguara e Guajajara e ocupavam a extensa faixa litorânea bem caracterizada. Os grupos indígenas que formaram a grande família Tupinambá foram os primeiros que sofreram o contato com o europeu e participaram das pioneiras expedições ao sertão.

Desses povos que os portugueses encontraram no litoral brasileiro nos anos que se seguiram à ocupação, poucos grupos consegui­ram sobreviver, em número reduzido e completamente descul­turados. Existem estimativas, algumas desencontradas, da população indígena brasileira existente em 1500, todavia os dados populacionais do início do século são bastante significativos.

 O articulado processo de substituição cultural estava atrelado, com laços finos, à compreensão da língua falada pelos povos ágrafos do litoral brasileiro. Sem dúvida que a ancoragem lingüística possibilitou, num primeiro momento, compreender os mundos míticos, em seguida, desmoralizar e, finalmente, substituir. Contudo, ocorreu lentamente, em virtude das dificuldades de compreensão das muitas línguas e também pelo limitado número de europeus que se arriscavam ao contato direto com os ind;igenas.

A partir dessa leitura, é mais fácil compreender por que somente no início do século 18 estava consolidada a marcha do processo de substituição. Nesse conjunto complexo de relações entre o elemento colonizador e o índio, ficou claro a importância do pajé como principal alicerce de muitos grupos indígenas.

Considerando o fato da presença de poucos médicos europeus, até o século 18, e que o elemento colonizador registrou o medo coletivo das desconhecidas doenças tropicais, o pajé, sabedor dos mistérios da sobrevivência, exerceu papel importante nas primeiras aproximações do colonizador em terras brasileiras. Tornou-se evidente, logo nos momentos iniciais, que o pajé oferecia tratamentos mais eficazes, se comprados aos do cirurgião‑barbeiro medieval.

Em pouco tempo, após a ocupação colonial, os europeus constataram que as soluções dadas pelos pajés eram muito mais eficazes e simples do que as sangrias, os purgativos e os vomitórios dos cirurgões‑barbeiros.

Os motivos da atenção colonial ao pajé podem ser agrupados em quatro fatores:

– Os aspectos exóticos e eficazes do tratamento do pajé nas feridas de guerra;

– O aproveitamento dos métodos aprendidos para tratar as próprias doenças, já que não tinham qualquer outra alternativa disponível;

– A associação feita entre as funções do pajé e a do médico europeu;

– A certeza política de que o poder concentrado no pajé deveria ser destruído, a qualquer custo, para que a dominação e a substituição cultural fossem efetivadas.

De modo geral, o europeu se interessou em conhecer as razões pelas quais os índios tinham tanta saúde e não sofriam das mazelas conhecidas e temidas na Europa. Esse fato se mostrou claro na invasão holandesa. O médico holandês Guilherme Piso, vindo na comitiva do Conde Maurício de Nassau, que não nutria rancores e preconceitos como os portugueses registrou a sabedoria dos pajés:

De sorte que daqui se pode ver a uniformidade com que os povos, embora ignorantes e de nenhuma letra, exercem a Medicina conosco. Conservam tão arraigados os preceitos de cura transmitidos tradicionalmente de mão em mão, que hão de sofrer antes a morte do que abandonar as suas opiniões nesta matéria.

Quanto ao último fator, os registros são bastante mais explícitos e precoces. A intenção colonial de substituir os valores do pajé está clara, desde o início da colonização.

A leitura das fontes primárias mostra que a saúde dos tupis, apesar de ter despertado grande interesse no conquistador, não foi o assunto sobre que eles mais escreveram. Entretanto, é possível tirar algumas informações de como se passava a compreensão da doença entre eles, com a ajuda das narrativas feitas pelos cronistas e viajantes que relataram sobre a guerra, a antropofagia, a religião, os mitos e o papel social do pajé. O valor histórico das narrativas sofreu diferentes influências que variaram com a época em que foi assinalada a observação.

Quanto ao valor das fontes, parece existir certa diferenciação em relação à fidelidade dos eventos. Apesar das dificuldades conceituais que envolvem até hoje a palavra saúde a partir dos primeiros relatos, é possível buscar, nos conhecimentos da sociedade tupinambá, alguns aspectos importantes para compreender me­lhor como esses grupos entendiam e tratavam as doenças.

 Esses documentos do colonizador que nos deram notícias da vida dos tupinambás foram feitos na chegada dos portugueses:

– A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manoel, datada de 1.0 de maio de 1500, escrita de Porto Seguro;

– A carta do bacharel mestre João ao rei D. Manoel com a mesma data. Nesse documento, o cirurgião do rei, que estava doente com úlcera na perna, tratou, unicamente, de justificar por que tinha feito pouco. O primeiro médico a pisar as terras brasileiras somente descreveu a sua própria doença e se limitou a montar o astrolábio na praia e determinou a latitude de 17 graus austrais. A sua habilidade de cirurgião‑barbeiro da corte portuguesa não teve qualquer utilidade nos poucos dias que a esquadra passou em Porto Seguro;

– O relato da viagem de ida e volta da frota de Pedro Álvares Cabral feito por um piloto anônimo.

 Nos quatro séculos que se seguiram a esses relatos, muita desgraça e destruição atingiram as sociedades tupinambás. Elas foram extintas com tamanha violência e rapidez que é difícil avaliar com exatidão a grandeza do genocídio.

É possível fazer estimativa aproximada da população indígena da América nos primeiros decênios de colonização. A Escola de Berkeley, uma das pioneiras nesse estudo, apresenta números impressionantes do desastre demográfico dos povos americanos durante os séculos 16 e 17.

É reconhecido que determinado grupo social pode ser extinto, principalmente por meio de dois mecanismos: pela assimilação inconseqüente dos seus membros dos novos valores da sociedade dominante e pela morte dos seus membros.

Na estratégia do processo de substituição cultural, promovida pelo elemento colonizador, a destruição moral e física do pajé assumiu o caráter prioritário na conquista. O pajé, nas sociedades indígenas, era muitíssimo mais do que um simples curador e, por isso mesmo, era respeitado e temido, como bem assinalaram os cronistas. Ele também detinha o conhecimento historicamente acumulado, passado entre as gerações, sustentáculo da coesão social, capaz de interpretar a hora adequada da nova guerra, preservar o equilíbrio populacional, a hora do plantio e da colheita, as migrações e as expedições de caça.

Uma pequena avaliação do que aconteceu aos índios, na costa sudeste brasilei­ra, pode ser sentida a partir dos estudos setoriais de alguns grupos que foram acompanhados, no século 20. Os padres dominicanos calcularam a população Kayap entre seis e oito mil pessoas em 1903. Em 1918, estavam reduzidos a quinhentos; em 1929, apenas 27.

Em poucos anos, os tupinambás passaram de uma gente parda, vistosa, baça e bem disposta, provavelmente com milhões de pessoas saudáveis desfrutando de um universo sociocultural próprio e vigoroso, para algumas centenas de caribocas perdidos, doentes e sem memória que sobrevivem na esteia de uma sociedade que continuam sem compreender.

 

Pair, pajé ou xamã?

 

É interessante o rumo europeu que tomou a nominação do pajé na literatura especializada. Recentemente, foi introduzida a palavra xamã como sinônimo de pajé. Em realidade, esse termo está associado às práticas religiosas asiáticas.

O vocábulo xamã teria a sua raiz etimológica do sânscrito ramanas = asceta com o sufixo ismo e de xaman = esconjurador, exorcista, também usado pelos tungues, povo da Sibéria Ocidental, além de referir a possível associação do xamanismo com o budismo a partir da semelhança entre as palavras sânscrita, ramana; em pali, xa‑man e em chinês, ximan.

Dessa forma, é possível identificar certa confusão na literatura entre as figuras sociais do pajé e a do xamã. Essa situação pode ter sido resultante da introdução da palavra xamã nos trabalhos publicados sobre os índios, das Américas, por alguns antropólogos e etnólogos europeus. É interessante ressaltar que essa identificação do pajé com o xamã asiático é encontrada com maior assiduidade nos escritos do nosso século. Os cronistas e viajantes do período colonial só utilizaram a palavra pajé.

Todos os que estudaram as funções sociais do pajé confirmam que a maior parte do seu poder médico-mítico está assentado na sua capacidade de comunicação com o espírito dos mortos. Este fato, certamente, contribuiu para alimentar a associação com o xamã asiático. Ambos, para concretizar as suas práticas estabelecem estreita intimidade com os mortos

Parece que a relação de intimidade que os índios pareciam ter com os espíritos não era exclusivo do pajé. Nesse sentido, outros membros do grupo eram capazes de estabelecer certo tipo de ligação com os mortos, porém somente os pajés eram detentores do poder da intimidade com os espíritos mais importantes e capazes de modificar os acontecimentos.

Entre os pajés existiam alguns que eram mais poderosos, sendo capazes de se comunicar com espíritos e determinar maior número de previsões e de curas. Talvez aqui ocorra algo parecido com a hierarquização do sagrado. A partir desse escalonamento em função da competência, fica mais fácil estabelecer o valor simbólico de cada elemento que compõe o conjunto social.

Mesmo com toda a desestruturação cultural sofrida pelos diferentes grupos indígenas, é possível verificar que, nos grupos indígenas mais resistentes à colonização, restam vestígios da tradição oral dos mitos cosmogônicos mais antigos, ainda que com sinais do sincretismo cristão, pois os pajés continuam exercendo a sua complexa função no equilíbrio social.

A linguagem dos padres salesianos que trabalharam no Alto Rio Negro, no Amazonas, até os anos 1970, quase quinhentos anos desde o início do processo de substituição cultural, ao abordar a origem das doenças, continua distante do majestoso universo da pajelança e oferece, sob a linguagem cristã, uma idéia da dimensão da tragédia dos povos indígenas:

Seus conhecimentos neste setor ficaram prejudicados pela magia e superstição. Embora a natureza que o rodeia lhe seja pródiga, o indígena quase não usa remédios caseiros, pelo conceito que faz das doenças, sob a influência do xamã ou pajé.

Longe das corredeiras do Alto Rio Negro, outros antropólogos que analisaram parte do mundo cosmogônico dos Yawalapti do Alto Xingu na relação entre os índios e os espíritos, concluiu que não é possível estabelecer relacionamento entre o conceito de doença dos brancos com o deles:

Duas figuras da sociedade humana mantêm uma relação especial com os apapalutapa: os xamãs e os feiticeiros…

De modo semelhante, o registro da transformação que resultou no desaparecimento dos pajés entre os Tapirapé desde a sua primeira visita ao grupo, em 1935, e as últimas notícias recebidas, em 1963, evidenciaram a riqueza cultural da pajelança:

O que eu, em 1935, consegui averiguar acerca do xamã tapirap mostrava‑o, principalmente, como defensor da comunidade contra os maus espíri­tos. Digno de destaque o fato de que ele, representante duma tribo tão avessa às ações bélicas na terra, tornava‑se tão combativo nas viagens ao céu… Além disso, o xamã tinha de saber sonhar para, em sonho, poder empreender as grandes excursões às regiões terrestres e celestes a fim de localizar aglomerações de caça, conhecer outros fatos interessantes para a vida da comunidade e trazer espíritos de crianças. O mais espetacular dessas viagens era a que se realizava anualmente até a casa do Trovão, na época em que violentas tempestades com chuvas ameaçavam as novas plantações… As últimas informações sobre os Tapirap me foram dadas em 1963… Nem praticavam mais atos xamânicos nem intoxicação pelo fumo, para cair em transe. Chamavam de bobagem a cerimônia do Trovão.

Em 1986, as principais agências de notícias divulgaram com ampla publicidade a pajelança feita pelos caciques Raoni e Sepain no pesquisador Augusto Ruschi. Esse acontecimento não teria tido a mesma dimensão sem o apoio explícito de autoridades públicas. Foi essa interferência de caráter político que mais chamou a atenção dos correspondentes internacionais. O jornal Liberation na sua edição de 28 de janeiro, do mesmo ano, estampou em reportagem de página inteira:

Augusto Ruschi, 70, ornitólogo, de renome mundial, parece estar condenado. A origem da sua doença é incurável, mordida de um sapo é a causa. Para salvar o naturalista, o presidente brasileiro apela aos pajés, que farão o milagre.

O ornitólogo já estava, àquela época, gravemente enfermo com cirrose hepática e insuficiência renal. Ele próprio explicava que a sua doença teria começado, dez anos antes, nas suas andanças amazônicas, quando teria sido inoculado com o veneno do sapo dendropata.

Milhões de pessoas, em todo o mundo, viram as imagens pela televisão, do cacique, no papel de pajé, soprando a fumaça de tabaco e fazendo gestos invocativos aos espíritos dos mortos para ajudar na cura do grande naturalista. A pajelança durou alguns dias e não conseguiu mudar o curso da doença e o inesquecível Ruschi morreu, algumas semanas depois, num centro de tratamento intensivo em Vitória do Espírito Santo.

As sociedades científicas divulgaram notas explicativas assegurado que o sapo do gênero Dendropates não é capaz de provocar qualquer tipo de lesão hepática. Por outro lado, esses animais possuem glândulas subcutâneas que secretam alcalóides e causam somente pequenas queimaduras na pele quando permanecem em contato.

Esse episódio em torno do sofrimento do grande cientista, que durou alguns dias, ficou publicamente exposto que a pajelança vista por milhões de pessoas, nos muitos canais de televisão, representou uma reconstrução do antigo poder do pajé.

Essa reconstrução adotou a substituição do termo pajé como sinônimo de chamam. Esse equívoco, igualando o pajé ao chamam, tem sido a regra. As fontes primárias identificaram o pajé:

É o médico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o depositário autorizado da ciência tradicional. Pajé não é qualquer. São os fortes do coração, os que sabem superar as provas de iniciação, que têm o fôlego necessário para ser pajé.

Os estudos linguísticos identificaram algumas palavras que estão diretamente ligadas ao que o elemento colonizador entendeu o pajé: Pagi, Pay, Payni, Pai, Pa, Piaec, Piach, Pantch. Todas são formadas etnologicamente estruturadas a partir da raíz pa‑y ou aquele que diz fim ou profeta.

Existem várias expressões de origem tupi para designar esse extraordinário personagem que exercia, durante os primeiros séculos da colonização, entre os tupinambás, tamanha importância entre os grupos indígenas, inclusive o domínio das práticas das curas.De modo muito especial, o relevante destaque do pajé não se restringia à cura das doenças.

A importância que ele desfrutava chamou imediatamente a atenção do colonizador, porque, apesar de não ser o chefe maior, ele era primeiramente temido pelos seus poderes de provocar e bem ou o mal. Dessa maneira, o grupo obedecia-lhe e respeitava-o, sendo as suas ordens acatadas. Certamente, essa importância social, com os anos, passou a ser a principal razão pela qual as hierarquias eclesiástica e leiga identificaram o pajé como um dos mais importantes pilares a serem destruídos, como a base do processo de substituição cultural. Por outro lado, o conjunto europeu recém-chegado passava a avaliar a sociedade tribal com os mesmos olhos e ideário de onde estava vindo.

As palavras do grande jesuíta Anchieta, o conflito de competência entre os poderes da Igreja e do pajé está absolutamente explícito:

Já não ousas agora servir‑te de teus artifícios, perverso feiticeiro, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes, nem com lábios imundos chupar as partes do corpo que os frios terríveis enregelaram, nem as vísceras que ardem de febre, nem as lentas podagras nem os lábios inchados.

As práticas médicas coloniais, unindo as relações-médico-míticas e o dom terapêutico dos santos cristãos, assumiram grande destaque na estratégia de comunicação do colonizador.

A relevância social do pajé tupinambá, estruturada na suposta possibilidade de ele poder se comunicar com os espíritos, interpretada como manifestação do demônio por vários viajantes, durante os séculos 16 e 18, e por esse motivo deveria ser duramente reprimida: Gabriel Soares de Souza, Claude d’Abbeville, Frei Vicente do Salvador, André Thevet, Maurício de Heriarte e o jesuíta João Daniel.

Por outro lado, não existem muitos registros de como era a formação do pajé. As descrições são insuficientes para que se possa avaliar com maior segurança o processo que culminava na consolidação das relações do pajé com o seu grupo social. É possível que a ascensão do iniciante se desse de vários modos, entretanto pelos relatos dos cronistas que tratam do assunto, os pajés tinham, antes de mais nada, que mostrar competência no desempenho das suas funções médico‑míticas, ter êxito no tratamento de determinadas doenças, fazer previsão do tempo e das colheitas, antever acontecimentos importantes relacionados com as guerras.

Como a figura do pajé era de grande importância na sociedade tupinambá, os europeus, além de terem percebido este fato, muito rapida­mente tiveram a certeza da absoluta necessidade de destruí‑lo. Esta certeza é da maior importância porque sobre ela se fundamentou parte do processo de substituição das aspirações em torno da saúde e das doenças dos índios pelas dos colonizadores.

Era o poder concentrado nas mãos do pajé que intermediava as forças da natureza com o conjunto social indígena. Para os cristãos era impossível conviver com essa realidade, porque se chocava com tudo quanto carregavam da ordem feudal e, principalmente, da hierarquia eclesiástica. Dessa forma, a maior parte da vigilância de dissuasão colonial esteve voltada para a eliminação física e moral do pajé e de todos os símbolos ligados à pajelança. Existem várias comprovações que mostram o quanto a cruz e a espada atuaram, conjuntamente, na substituição das memórias dos povos indígenas. A maior parte delas, mesmo reconhecendo a utilidade social, faz absoluta questão de assinalar o inadmissível poder concentrado no pajé como o pior dos males da organização social autóctone.

Está claro que, na comunicação empregada pelo conquistador para ocupar os novos espaços, o papel instrumental das memórias obteve grande importância nas relações de forças na nova ordem que se instalava. Além da relação de forças que estavam atuantes entre as culturas do branco e do índio na luta pela conquista do espaço, existiu também a interação da utilidade que os novos conhecimentos estavam tendo para os elementos dos dois grupos oponentes.

Considerar somente as relações de forças, por si mesmas, é insuficiente para determinar mudanças significativas no conjunto social. Por outro lado, se estiverem associadas às manifestações sociais das aspirações genéticas, as transformações e substituições serão duradouras e, em muitos casos, irreversíveis.

De igual modo, não há como negar que, se os pajés não tivessem sustentado tanta competência para identificar e resolver os problemas sociais dos respectivos grupos, ao longo de milhares de anos, não teriam desfrutado do imenso prestígio identificado pelos viajantes.

Assim, os saberes dos pajés não ficavam restritos à cura das doenças, mas principalmente ao extraordinário saber historicamente acumulado da natureza circundante.

O emprego da palavra caraíba como sinônimo de pajé, entre os colonizadores, traduz modificações lingüísticas, na trama entre os saberes dos índios e dos brancos, nascidas a partir de algumas características da vida dos homens e mulheres portadores do dom e, por outro lado, tem importância na análise das fases ora em conflito, ora em cooperação entre a Medicina e a religião, no período colonial brasileiro, onde ambas lutam na demonstração da maior competência para empurrar os limites da vida e evitar a morte prematura.

A atitude das mães em fugir com os filhos para a floresta com medo do batismo, que causava sofrimento, pode ter sido o resultado do trabalho do pajé, fomentando a resistência, ao chamar atenção do grupo para a ligação que existia entre a morte dos menores e a chegada do branco.

Dessa forma, as palavras que designam o poder mágico do pajé estão relacionadas com mistério envolvendo pessoas e coisas. Sob essa perspectiva, o termo mair está relacionado com as primitivas designações que os tupinambás deram aos brancos.

Os primeiros viajantes também deixaram clara essa múltipla leitura dos termos mair, caraíba e pajé. Independente da designação recebida, esses elementos humanos muito especiais para os silvícolas eram dotados, sem dúvida, do dom de curar e empurrar os limites da vida e, dessa forma, tornaram-se o alvo principal do ataque da nova ordem político-religiosa.

O modo recluso de viver dos pajés, associado com alguma coisa misteriosa em relação à diferença entre os outros membros da tribo, inclusive o tipo da habitação, descrita em vários autores, em períodos diferentes do processo colonial, de algum modo fortaleceu a proposição étnico‑cultural de colonizador para destruir o universo médico‑mítico dos povos autóctones.

O padre curador, intérprete e agente da nova ordem, traduziu o mesmo fato sob a ótica colonial e iniciou a deturpada associação de caraíba com cristão, já que os indígenas estavam chamando caraíba aos pequenos índios mortos depois de receberem os sacramentos cristãos. Talvez esse fato tenha resultado nas múltiplas associações lingüísticas em torno da identificação do pajé que persistiram, pelo menos, até a invasão holandesa.

Essa leitura torcida, dando à palavra caraíba o sentido de cristão, continuou sendo reproduzida como coisa sagrada e coisa santa, na edição de 1859 da Chrestomathia da Língua Brazílica. É significativa a antinomia da intencionalidade do silvícola, que sentiu a morte dos seus filhos depois de receberem o batismo.

Contudo, no curso do processo colonial, quando os silvícolas perceberam que, como eles, o europeu também adoecia e morria, concluíram que não tinham nada de sagrado e passaram a associá-lo com outro ser mítico ¾ mair ¾ pouco respeitado.

Os séculos passaram e a principal estratégia colonizadora ¾ a desmoralização do pajé frente ao padre curador ¾, representante da Medicina-divina cristã, continua ressoando forte, como ondas centrífugas na superfície de um lago chegando tardiamente à margem, depois de lançada a primeira pedra, ainda no papado de Gregório I. Apesar disso a resistência cultural foi mantida em pequenos grupos que moravam longe da costa, ou que fugiram em direção ao sertão e, por essas razões, tiveram o contato retardado com os brancos.

A conquista cristã do Rio Negro, no Amazonas já esteve sob a égide dos franciscanos, jesuítas, carmelitas, mercedários e capuchinos. A Prelazia do Rio Negro, sob a atual responsabilidade da Ordem Salesiana, em 1965, comemorou cinqüenta anos de atividades missionárias, quando expôs a força histórica do pajé:

Na realidade o pajé intervém na vida dos indivíduos desde o nascimento até a morte. Donde se deduz toda a importância social do pajé, e o respeito e temor que o envolvem da parte de todos os índios, não só da própria tribo, como das outras tribos também. Talvez o maior sacrifício que a catequese católica impõe aos indígenas cristãos seja a renúncia na crença no poder do pajé. Em alguns casos só o consegue parcialmente.

 

 

LEITURA COMPLEMENTAR

 

ANCHIETA, José de. De Gestis Mendi De Saa. São Paulo: Loyola. 1986.

BEOZZO, José Oscar. Leis e regimentos das Missões: política Indigenista no Brasil. São Paulo: Loyola. 1993.

BOTELHO, João Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte.  Manaus. Valer. 2009.

BOTELHO, João Bosco. História da Medicina: da abstração à materialidade. 2a. ed. Manaus. Valer. 2011.

BOTELHO, João Bosco. Medicina e religião: conflito de competência. 2ª Ed. Manaus. Valer. 2006.

BOTELHO, João Bosco. Os limites da cura. São Paulo. Plexus. 1998.

CARDIM, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia. 1980.

GOMES, Ordival Cassiano. História da medicina no Brasil no século XVI. Rio de Janeiro: Aurora. 1974.

MARTINS, Edilson. Nossos índios, nossos mortos. São Paulo: Círculo do Livro. 1978.

METRAUX, A. A religião dos tupinambás. São Paulo: Nacional. 1977.

 

 

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Práticas médicas nas sociedades do antigo Oriente Próximo: Egito, Mesopotâmia e Índia

Práticas médicas nas sociedades do antigo Oriente Próximo: Egito, Mesopotâmia e Índia

 

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

 

Considerações gerais

 

Com as mudanças sociais, políticas e econômicas provocadas pelo processo de sedentarismo, nos milênios finais do Neolítico, importantes modificações se processaram nas primeiros aldeamentos no antigo Oriente Próximo: Egito, Mesopotâmia e Índia.

Essas sociedades absorveriam a experiência acumulada em milhares de anos de luta pela sobrevivência dos grupos nômades de caçadores-coletores.

Nessa fase, teve início a modificação da economia produtora em nível de subsistência coletiva, para a concreta divisão de trabalho, com o aparecimento de excedentes de produção, trocas comerciais e propriedade privada.

As sociedades mostravam-se francamente hierarquizadas. A propriedade privada contribuiria, entre muitos fatores, no assentamento duradouro dos grupos humanos ligados por vínculos de sangue ou interesses comuns.

O aparecimento dos aldeamentos, socialmente estratificados, voltados à guarda do território ocupado se seguiu como resposta à premência da organização social, para sobreviver aos conflitos de interesses internos e externos.

Como sequência, não linear, as cidades se agigantaram, inicialmente, nas margens dos rios e lagos férteis, e, como produto dessa transformação iniciaria as civilizações regionais. As culturas assimilaram, ao longo do processo das respectivas consolidações, diferentes formas de administração, predominando o teocrático de regadio e o mercantil-escravista.

As contínuas guerras entre grupos rivais ao mesmo tempo em que renovavam as lideranças guerreira transformavam o poder com o butim. Os territórios ampliados incorporavam os escravos detentores de saberes que interessavam a organização e à ordem social dominante.

O avanço na transformação acelerada da natureza circundante alcançou níveis inimagináveis. Os metais foram fundidos, uso dos artefatos de cobre e ferro, mecanização da agricultura substituiu os arados primitivos, domesticação dos animais de tração e deslocamento, e o barco à vela constituíram condições para fomentar as trocas dos excedentes da produção e aumentar a especialização das habilidades pessoais.

Nessa etapa, a anterior crença na possibilidade de renascer após a morte, ligada aos sepultamentos rituais desde o terço inferior do Mesolítico, interferiu para que o corpo humano fosse manuseado internamente, por especialistas do sagrado, nos templos, no esforço para conservá-lo após a morte, aparentemente, sem nenhum objetivo de conhecer e nominar as diferenças anatômicas.

As sociedades que se desenvolveram, no antigo Oriente próximo – Egito, Mesopotâmia e Índia – apresentaram significativas semelhanças nas concepções que sustentavam a Medicina, especialmente, nos estreitos laços com as idéias e crenças religiosas e os respectivos deusas e deuses dos muitos panteões.

            Medicina-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial

Nas sociedades que floresceram, entre 4.000 anos e 5.000 anos, nas margens dos rios Tigre, Eufrates, Nilo e Indo, de modo mais ou menos uniforme, os registros assinalam que, além dos agentes da Medicina-empírica e Medicina-divina, os médicos como agentes da Medicina-oficial, nominados de acordo com as funções e especialidades e remunerados pelo poder político dominante.Igualmente, também está clara a inter-relação da Medicinas-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial, sempre atadas entre si, sem se poder estabelecer os limites precisos onde uma começava e a outra terminava.

É razoável se pensar que a construção das respostas, nas primeiras cidades, às demandas sociais quanto à insegurança criada pela dor fora de controle e o medo da morte prematura, tenha envolvido pelo menos:

– Aplicação do conhecimento historicamente acumulado voltado às ações que poderiam interromper ou amenizar a dor fora de controle: agentes da Medicina-empírica;

– Utilização de ritos das idéias e crenças religiosas, para buscar a cura: agentes da Medicina-divina;

– Processo formador, nos templos das divindades dominantes, sob a guarda do poder político, capaz de transmitir e registrar nas respectivas linguagens orais e escritas, os saberes envolvendo os dois anteriores acrescidos de outras observações das doenças e dos doentes: agentes da Medicina-oficial.

Dessa forma, se consolidou três processos interligados para abordar as demandas provocadas pelas doenças, secundárias ou não do trauma:

– Medicina-divina: com indissolúvel aliança com deusas e deuses protetores e taumaturgos;

– Medicina-empírica: utilizando o conhecimento historicamente acumulado a partir dos recursos terapêuticos da natureza circundante;

– Medicina-oficial: representada pelas práticas de curas realizadas médicos, desfrutando de reconhecidos e remuneração pelo poder dominante.

 

As civilizações regionais assimilaram, ao longo de vários milênios, diferentes formas de governos, predominando o teocrático de regadio e mercantil-escravista. Nessas sociedades rigidamente hierarquizadas, moldaram a ação dos curadores em torno de três vertentes, sem que existissem limites precisos:

As guerras ofereceram saques, novos escravos e territórios, fortaleceram a troca de conhecimentos entre os agentes de curas. É muito provável que os mais destacados tenham sido absorvidos nas sociedades vencedoras. Por outro lado, os traumas provocados pelo combate corpo a corpo, acrescentaram outros saberes, principalmente, no manuseio das grandes feridas, incisão de abscessos, imobilização das fraturados e nas amputações dos membros dilacerados.

Apesar de as práticas médicas serem executadas sem qualquer processo teórico para explicar a saúde e a doença, é possível perceber certos aspectos das compreensões e registros das doenças tomaram direções diferentes.

Por essa razão, alguns aspectos das Medicinas das três civilizações – Egito, Mesopotâmia e Índia – serão feitas separadamente.

 

Processo histórico da Medicina como especialidade social

Considerações gerais

 

Egito

 

Infelizmente os dados disponíveis das práticas médicas dizem respeito, exclusivamente, às camadas sociais dominantes.

Como as outras civilizações regionais estruturadas ao lado dos rios férteis, a egípcia desenvolveu-se nas margens piscosas do Nilo, de onde retiravam o sustento alimentar a população.

A civilização egípcia antiga permaneceu como unidade territorial pelo período de três mil anos, mais ou menos, entre 3.300 e 332 d.C., correspondente à conquista pelo exército de Alexandre, o Grande. Esse tempo, excepcionalmente longo, é dividido em cinco períodos:

– Primeiro período ou Antigo Império, de 2.647 a 2.140 a. C., das III a VI dinastias. Considerado o mais próspero, no qual foram produzidas algumas obras monumentais que perduram até hoje;

– Segundo período ou Médio Império, de 2.040 a 1.785 . C., das XI a XII dinastias, quando ocorreram importantes restaurações e acréscimo de novos monumentos;

– Terceiro período ou Novo Império, de 1.540 a 1.069 a.C., das XVIII a XX dinastias;

– Quarto período, de 1.069 a 333 a. C., com variações de grande prosperidade passando pela conquista de três exércitos: o assírio (663 a. C.), o persa (525 a. C.) e o grego;

– Quinto período greco-romano, de 332 a 30 a. C., até a falência do modelo administrativo.

As fontes históricas são compostas de documentos reveladores de como os egípcios, pelos menos os mais ricos, se relacionavam com a saúde e a doença, a vida e a morte: os papiros, múmias, pinturas e esculturas:

Papiros:

– Papiros: constituem a mais importante fonte de conhecimento da Medicina egípcia. Os principais são:

Papiro de Ebers: o nome corresponde ao primeiro comprador do papiro, George Ebers, que o adquiriu, em 1872 de um desconhecido egípcio. O autor ou autores escreveu(ram), em torno de 1550 a.C., durante o reinado de Amenophis I. Alguns especialistas acreditam que é a cópia de outro documento ainda mais anterior. Trata-se de conjunto de textos de natureza médica, mais tratamentos clínicos não invasivos, predominando princípios terapêuticos e farmacológicos, contendo 875 receitas, nem sempre interrelacionados, com 20 metros de cumprimento, em perfeito estado de conservação, encontra-se hoje na universidade de Leipzig, na Alemanha.

Além de incomensurável valor histórico, contém importantes diagnósticos e prescrições específicas para várias doenças, especialmente as do coração. Em uma das descrições, está claro não só o quadro clínico sugestivo do infarto do miocárdio, mas, especialmente, como o médico deveria se comportar, comunicando ao doente que nada poderia fazer para evitar a morte:

“Se examinares um homem que sofre do estômago, que se queixa de dores no braço e no peito, mais precisamente na parte lateral…Diz-se então que se trata da doença wid…Deves dizer: é a morte que se aproxima dele”.

De modo geral, o papiro de Ebers apresenta receitas para:

– Aumentar o apetite;

– Melhorar a função intestinal e a digestão;

– Dores reumáticas;

– Paralisia dos membros;

– Estados gripais;

– Doenças dos olhos;

– Doenças do ouvido;

– Doenças do estômago;

– Doenças do fígado;

– Obstruções intestinais;

– Doenças pulmonares;

– Mordeduras de animais;

– Queimaduras;

– Cuidados com a pele e o cabelo;

– Poliúria;

– Doenças dos dedos e das mãos;

– Cuidados com os dentes e a língua;

– Doenças ginecológicas;

– Abscessos e tumores;

– Doenças do coração;

– Hérnia inguinal;

– Angina do peito;

– Gastrite;

– Conjuntivite;

– Otites.

Papiro Smith: achado em uma tumba em Tebas e comprado por Edwin Smith, em 1862, um jovem egiptólogo americano. Apesar de ter sido escrito, em torno de 1540 a 1600 a. C., na XVIII dinastia, do mesmo modo que o anterior parece ser a compilação de documentos mais antigos, no Antigo Império. Trata-se de bem ordenado conjunto de informações mais voltado aos procedimentos cirúrgicos, de anatomia e tratamentos de doenças cirúrgicas. A Instrução 35 descreve com incrível atualidade o diagnóstico e o tratamento da fratura bilateral da clavícula:

“Se você estiver examinando um homem com fratura hsb em ambas as clavículas, encontrando ambas as clavículas, uma mais curta e em posição que difere em relação à segunda, então você tem que dizer: trata-se de uma fratura em ambas as clavículas, uma enfermidade de que eu cuido. Você deve deitá-lo então de costas, dobrando algum objeto para colocá-lo entre suas omoplatas. Depois deverá afastar as omoplatas para que as duas clavículas se estiquem, de modo que aquela fratura hsb retorne ao lugar certo. Faça então dois chumaços de tecido. Um deles você deve colocar do lado de dentro da parte superior do braço, o outro na parte inferior do úmero. Depois você deve colocar nela (na fratura) uma atadura com imr mineral w…”.

Parte significativa é dedicada ao diagnóstico, tratamento e prognóstico dos traumatismos. As descrições pormenorizadas incluem o quadro clínico dos traumas faciais, pescoço, clavícula, úmero, esterno, tórax, costelas, ombro, coluna lombar.

– Anatomia cirúrgica;

– Cautério;

– Curativos;

– Redução e imobilização das fraturas;

– Sinais clínicos distinguindo a fratura da luxação;

– Importância da crepitação óssea;

– Luxação da mandíbula;

– Paralisia dos membros secundária ao trauma da coluna e do crânio;

– Prognóstico ligado aos recursos disponíveis para beneficiar o doente.

Papiro de Berlin ou de Brugsch: escrito em 1540 a. C., na XVIII dinastia, contém prescrições em forma de encantamentos para proteger as mães e seus filhos.

Papiro de Londres: descreve ritos mágicos para curar as doenças dos olhos e das mulheres.

O conteúdo dos papiros de Berlin e Londres quanto os diagnósticos e receitas é muito sugestivo do quanto fazia parte do cotidiano das relações sociais a presença de agentes da Medicina-empírica e Medicina-divina exercendo ritos de curas, não ligados aos médicos, remunerados pela administração do faraó.

Papiro de Kahoun: é o mais antigo dos papiros. Escrito em torno de 2.000 a. C., abrangendo as doenças ginecológicas e obstétricas. De certa forma, a antiguidade desses registros retrata a importância da gestação e frequência de certas doenças ginecológicas, como o corrimento vaginal purulento, ambas requerendo maior atenção doa agentes da Medicina-oficial, especialmente, nas mulheres mais ricas.

Papiro Cheaster Beatty: data da XIX dinastia, em torno de 1.300 a. C., descreve as doenças e os tratamentos das doenças e do ânus. Como o papiro anterior, o conteúdo especificamente voltado para dois itens pode ser entendido como de demonstração da maior incidência das doenças da pele e do ânus em relação às outras, já que essa população morava em área de várzea, com animais domesticados, pressupondo lesões de pele pela excessiva exposição solar e muitos tipos de infestações com repercussão anal e perianal.

Múmias:

Os estudos paleopatológicos são instrumentos para determinar, com bastante precisão, doenças presentes nos corpos mumificados em diversas épocas;

Pinturas e esculturas:

Objetos artísticos, como as estátuas e pinturas de imagens e textos em hieróglifo, nos templos, sarcófagos e tumbas, nas quais estão representadaa algumas doenças que afligiam os egípcios..

O povo egípcio antigo manteve vivo, ao longo de três mil anos, panteões que variavam em certas dinastias, plenos de deusas e deuses taumaturgos. Os nomes dos curadores sagrados e os respectivos sentidos simbólicos e metafóricos giravam em torno das teogonias e teofanias, provavelmente, oriundas de idéias e crenças religiosas oriundas de tempo anterior. As máscaras mortuárias, como a de Tutancâmon, com o objetivo de conservar a fisionomia após a morte, se relacionam às crenças no renascimento.

A mitologia sofreu constantes reconstruções de acordo com as épocas e os espaços. Os deuses, deusas e reis eram, essencialmente, curadores e protetores contra o mal. Os sacerdotes representavam os intermediários do poder divino e a eles cabia a arte de curar e adivinhar.

Entre os principais deuses e deusas taumaturgos, destacaram-se:

– Thoth, um dos mais antigos do panteão, curou Horus da picada do escorpião e as feridas causadas pela luta entre Horus e Set;

– Imnhotep, filho de Ptah, representado por incontáveis estatuetas de bronze, achadas nas escavações arqueológicas de vários períodos políticos do Egito antigo;

– Isis, a curadora de Ra, possuía o poder de ressuscitar os mortos;

– Sechmet, a protetora das doenças das mulheres;

– Zoser, rei da terceira dinastia, utilizava nas correspondências a designação Sa ou aquele que cura e nas inscrições do templo o título de médico divino.

Além dos deuses e deusas, os egípcios acreditavam que objetos, tornados sagrados, tinham o poder de influenciar a vida e a morte, a doença e a saúde:

– Sol alado: não servia exclusivamente como proteção. Era um dos símbolos máximos da cosmogênese egípcia e situava-se no umbral dos pórticos dos templos, câmaras e palácios alertando a todos o extraordinário significado da luz solar;

– Kepher ou Akhpner ou escaravelho sagrado: um dos símbolos máximos do processo iniciático egípcio. Traduzia a regeneração e a paternidade do mundo e dos homens, a renovação da vida e a ressurreição. Traduzido também como transformação, representava um dos principais amuletos. Até hoje, em pequenas regiões do sul do Egito e Sudão oriental, o inseto é secado ao sol, triturado, misturado com água e bebido pelas mulheres como tônico infalível para gerar uma grande família;

– Djed ou bastão sagrado ou coluna Djed: símbolo do poder máximo acima da temporalidade, ligado ao culto do deus Sokar;

– Anki ou a cruz: simbolizava a vida boa em todos os seus sentidos e protegia da magia;

– Uaret: a serpente naja simbolizava o real conhecimento e proteção, adornando o alto da coroa faraônica;

– Shen: símbolo da eternidade envolvia e protegia os sagrados nomes do faraó e rainha.

 

Práticas Médicas

 

Os médicos, tanto os agentes da Medicina-oficial quanto os das Medicina-divina e Medicina-empírica, desfrutavam de lugar especial na sociedade egípcia antiga. E, sem dúvida, existia complexa relação entre as Medicinas e as crenças e idéias religiosas, relacionadas aos muitos aspectos da teogonia e da teofania. Dessa forma, não é possível estabelecer, para todos os períodos, um único entendimento. Contudo, a partir das fontes médicas, notadamente, nos da XVIII dinastia, isto é, entre 1.400 e 1.800 anos a. C., a compreensão dos binômios vida-morte e saúde-doença estava contida em três compartimentos:

– Corpo visível;

– Espírito: invisível, podendo ser apreendido; representado na forma de pássaro, associado à possibilidade de se descolar após a morte para visitar o corpo conservado: a múmia. O corpo morto desfigurado e decomposto pela podridão não receberia o espírito;

– Ka: invisível, podendo ser apreendido após a morte, constitui o ser imutável com personalidade própria que reside no homem, presença permanente durante a vida e após a morte. É responsável pela proteção, vida, bem-aventurança, saúde e alegria. Sendo impossível conceber, após a morte, deus ou qualquer pessoa com corpos desfigurados sem o Ka. Por essa razão, no passar dos milênios, se avolumou a importância da mumificação.

As doenças seriam causadas:

– Excessos de comida e bebida;

– Vermes intestinais;

– Oukhedou ou whdw, concepção da etiologia das doenças relacionada às fezes, explicando o destaque dos clisteres como forma de tratamento;

– Ventos transportadores de deuses ruins;

Apesar de não haver textos explicando os por quês dessa abordagem da etiologia das doenças em torno de quatro pilares, também é viável pressupor que as três primeiras, de natureza direta e indireta gastrointestinal, estivessem relacionadas ao tipo de solo e território circundante das cidades que se desenvolveram nas várzeas do Nilo. Finalmente, a quarta etiologia manteria laços com as tempestades de areia, até hoje comuns e temidas.

Por outro lado, a clara ligação entre as doenças e os parasitos intestinais, expelido com as fezes, pelo menos na camada mais rica da população, contribuiu no aparecimento das instalações sanitárias e os primeiros esgotos, para retirar das residências as fezes e as urinas, por meio de canalização especifica, evitando os odores e os contatos com os excrementos.

Outras concepções egípcias reforçam a importância dos ventos, tanto interferindo na vida quanto podendo determinar a morte, como consta no Papiro de Ebers: “O sopro da vida entra pela orelha direita e o sopro da morte entra pela orelha esquerda”.

Não há dúvida, no Egito antigo, os médicos constituíam grupo de especialistas reconhecidos e recebiam destaque social:

– Medicina-oficial: a estrutura de poder entre os agentes da Medicina-oficial era hierarquizada e submetida ao rigoroso controle administrativo. Em ordem crescente de importância, são conhecidos:

– Sounou, a palavra significa algo parecido com “aquele que se interessa pelos indivíduos que sofrem”, esse médico generalista, o último da escala hierárquica, representado pelo hierógrifo contendo uma flecha, um pote e um homem sentado;

Mer sounou, chefe dos médicos;

– Our sounou, grande médico;

– Senedj sounouou, inspetor dos médicos.

Ao lado dessa distinção administrativa, vários outros médicos foram assinalados:

– Per âa sounou ou médico da corte;

– Sounou grergetl ou médico das colonias;

– Hérishef Néknet ou médico das minas e dos templos.

Do mesmo modo, os agentes da Medicina-divina também eram identificados com precisão:

– Sacerdotes de Sekhmet, divindade com cabeça de leão, sanguinária, causadora de doenças e epidemias;

– Sacerdote de Hem ka, encarregado da circuncisão.

Quanto aos agentes da Medicina-empírica, devem ter sido numerosos, se for considerado que acesso à Medicina-oficial era restrito aos filhos de médicos e sacerdotes ou pessoas escolhidas por eles.

É muito significativa a carta de Uzahor-Resinet, médico-chefe do Egito, ao rei persa Dario, confirmando que tinha ajudado alguém indicado pelo rei, para que alcançasse êxito para ser médico. Essa correspondência com autenticação reconhecida por especialistas, retrata pelo menos dois significantes:

– Confirma a existência de escolas de Medicina-oficial no Egito antigo;

– Reconhecimento por parte do rei persa da importância e qualidade do processo formador da Medicina-oficial egípcia;

– Influência do pedido político para ingressar no processo de aprendizado.

A profissão médica era regulamentada pela administração do faraó que impunha severas punições pela má prática, especialmente, o aborto. Aqui, é importante assinalar que só se tratava dos abortos que geravam maus resultados, especialmente, a morte das gestantes. Dessa forma, essa má prática era associada ao mau resultado.

Por outro lado, entre os muitos cuidados de prevenção tomados pela administração, se destacam os dedicados aos recém-natos, incluindo a guarda do leite materno em recipientes especiais.

De modo bastante claro, as identificações dos médicos e outros curadores e as respectivas funções, asseguram a forte inter-relação não só entre a Medicinas-divina, Medicina-empírica e a Medicina-oficial, mas, principalmente com os complexos panteões das idéias e crenças religiosas

– Wabu, agiam como médicos e sacerdotes e atuavam sob a proteção de um ou mais deuses;

– Sunu, curadores empíricos que possuíam algum tipo de formação médica, contudo não estavam vinculados aos templos e deuses;

– Benzedores, sem instrução médica oficial e agiam munidos de amuletos, rezas e encantamentos,

É possível que a descrição de Heródoto dos médicos especialistas, tenha sido equívoco do grande historiador grego. Na realidade, se tratava de agentes da Medicina-empírica, que atuavam na maior parcela da população, sem acesso à Medicina-oficial, exclusiva da corte do faraó, dos membros da administração e dos mais abastados:

– Oftalmologistas ou sounou-irty ou médico dos dois olhos;

– Abdome ou sounou-khe;

– Anus ou nerou pehout ou nerihou phout , administrava os clisteres;

É razoável pensar que essas especializações médicas tenham relação com a resposta social às doenças mais comuns.

Como não há registro de sistema monetário, antes do Novo Império, de 1.540 a 1.069 a.C., das XVIII a XX dinastias, é possível que a remuneração pelos serviços prestados fosse feita por meio de coisas de valor, como alimentos, como indica o papiro achado junto à necrópole de Ramsés II: “Dois khars (unidade de medida) de grãos para os dois escribas, três khars para um comerciante e um khar para um médico”.

A intricada relação entre os médicos e os sacerdotes está clara na certeza de que a formação dos médicos estava situada nos templos mais importantes: Menphis, Abydos, El Amarna, Coptos, Esna, Edfou e Saïs. Essa era uma das diferenças, talvez a mais significante, entre as três Medicinas: somente existem registros de processos formadores da Medicina-oficial.

Por outro lado, apesar de as administrações dos templos e das escolas de Medicina-oficial estarem em locais distintos, existiu inegável intimidade entre ambas. O chefe da escola médica de Saïs e o líder sacerdotal da deusa Neith, a principal divindade dessa cidade usavam a mesma titulação.

O fato de não ter existido um sistema teórico para explicar a saúde e as doenças, a Medicina-oficial acumulou impressionantes avanços no trato empírico da saúde e da doença, comprovadas nos papiros.

Diferente da tradição assírio-babilônica, que considerava o sangue o elemento vital, no Egito antigo, a respiração era entendida como a função mais importante do corpo, sugerindo que o sangue tenha sido substituído pelo ar como a substância vital.

Não é demais repetir que a origem das doenças se atava aos componentes visíveis e facilmente identificados no cotidiano: vento, alimentos e parasitas da pele e dos intestinos. E também a estreita relação entre doença e parasita nasceu, provavelmente, a partir da grande quantidade de infestação parasitária dos que moravam e trabalhavam nas áreas de várzea do Nilo. O conhecimento historicamente acumulado, ao longo de centenas de anos, antes do sedentarismo, interligou os vermes saindo pela boca ou pelo anus com a origem das doenças dos indivíduos debilitados e incapazes de trabalhar.

A especialização dos conhecimentos médicos do Egito era um fato. O mais antigo médico conhecido, Hesy-Ra, também tratava as cáries e confeccionava próteses, nos anos 1750 a. C.

Os registros dos papiros também citam oftalmologistas e ginecologistas e Heródoto refere o início da prática da circuncisão no Egito:

“É óbvio, realmente, que os côlquios são de origem egípcia, e eu mesmo fiz essa observação antes de ouvi-la de outros…os côlquios, os egípcios e os etíopes são os únicos povos que desde sua origem praticam a circuncisão. Os fenícios e os sírios da Palestina reconhecem que aprenderam esse costume com os egípcios…”

A circuncisão, ato cirúrgico seccionando o ligamento da glande, não era obrigatória e parece que tinha sentido religioso. Não pode ser menosprezado o sentido de utilidade, como atitude para evitar as infecções da glande, facilitadas pela pouca higienização peniana em contato com o esmegma, trazido do conhecimento historicamente acumulado. Existem algumas ilustrações de como realizar essa operação. A mais antiga, na tumba de Ankh-ma-Hor, descreve-a como ato religioso, realizado por um sacerdote especializado.

O embalsamento está intimamente ligado à crença do renascimento após a morte. O corpo enterrado deveria estar conservado tendo a cabeça voltada ao Oeste, para poder renascer na outra vida. Não existem registros precisos do início do embalsamamento. No período pré-histórico, os egípcios enterravam os seus mortos sem qualquer tipo de tratamento. A especial qualidade do terreno desértico, quente e seco, conservou intactos muitos corpos. Não é improvável que a observação desses mortos, exumados muitos anos após o óbito, tenha contribuído no aperfeiçoamento das técnicas do embalsamamento com o objetivo de alcançar melhores resultados que favoreceriam o renascimento.

Os mais antigos registros de mumificação datam de 3.400 a. C.; trata-se de Hetep-Heres, mãe de Keops, que mostram os membros desarticulados antes de terem sido envoltas com as bandagens. Aparentemente, o processo mumificador que acabou prevalecendo, passou por mudanças; as múmias do Médio Império eram tratadas com as vísceras mantidas nas respectivas posições. No Novo Império, o trato do cadáver obedecia normas mais ou menos rígidas de acordo com as posses financeiras e a importância social do morto.

Sempre com variações, dependendo da riqueza do morto, em alguns casos, os embalsamamentos duravam sessenta dias:

– Corpo era transportado à casa dos deuses;

– Conteúdo craniano era retirado liquefeito por meio de trauma continuado com estiletes metálicos através das fossas nasais;

– Evisceração abdominal por meio de incisão no flanco esquerdo, para a retirada das vísceras;

– Coração permanecia no lugar;

– Vísceras retiradas recebiam cuidados especiais antes do serem colocadas nos recipientes: os canopos;

– Corpo criteriosamente desidratados, submetido às lavagens com óleos e essências e envolto com tiras de pano.

As fontes contidas nos papiros são claras no sentido de não havido correlação entre o extraordinário progresso alcançado na técnica de mumificação e o conhecimento da anatomia humana. Sob a perspectiva atual, considerando o incontável número de múmias produzidas, em mais dois mil anos, seria natural esperar-se um soberbo conhecimento anatômico humano. Mas, não foi isso o ocorrido. A descrição dos órgãos estava quase sempre identificada com ferimentos traumáticos abertos. Esses fatos reforçam as suposições no sentido de:

– Mumificadores não mantiveram nenhuma atenção com a anatomia;

– Componentes da teogonia e teofania egípcios, principalmente, o ka, que valorizava o conservação do corpo, na esperança do renascimento, contribuíram para que não fosse atribuída importância à anatomia;

– Modo como esses especialistas tratavam o corpo com o objetivo de mumificar, evitando ao máximo as deformidades, utilizando para retirar as vísceras do abdome e do tórax uma curta incisão na lateral direita da barriga e o conteúdo cerebral era extraído pela fossa nasal, também indica a importância dada à inviolabilidade corpórea.

Sem dúvida, o conhecimento empírico, estava presente em muitas faces da Medicina-oficial: o exame físico valorizava a inspeção e a palpação, notadamente, do pulso periférico associado às batidas do coração:

“O começo do segredo dos médicos: conhecer os segredos da marcha do coração e conhecimento do coração (Papiro de Ebers 854a).

A semiologia baseada na inspeção, palpação e ausculta também valorizava muitos sinais e sintomas, até hoje levados em consideração na anamnese médica;

– Dor;

– Nível da consciência após trauma;

– Coloração cutânea;

– Fisionomia;

– Deformidades;

– Hematomas;

– Paralisias;

– Aspecto da urina e das fezes.

Entre os principais grupos de doenças que foram descritas, pela riqueza dos sinais e sintomas, é possível distinguir em:

– Cardiovasculares: provavelmente ligado à importância da associação coração-pulmão em torno da respiração, existem muitas descrições sobre doenças que envolvem o coração e os vasos. Contudo, duas foram particularmente bem relacionadas:

– Palpitação;

– Insuficiência cardíaca com edema pulmonar e aumento do volume do fígado.

– Pulmonares: a maior parte das doenças pulmonares foi agrupada sob a designação de tosse. Existe a descrição, no papiro de Ebers, nos itens 326 a 335, de um quadro clínico semelhante à asma sob o nome gehoul;

– Anais: como a maior parte da população, no Egito antigo, habitava áreas de pântanos e várzeas, junto com animais de pastoreio, portanto, com grande possibilidade de infestação, é provável que o destaque dado às doenças anais também estivesse relacionado com a mesma concepção de serem os vermes um dos grandes causadores de doenças;

– Traumas da face: mesmo sem estarem associadas com outras doenças ou comprometendo funções vitais, as seqüelas desses traumas foram descritos como determinantes de distúrbios funcionais.

No Papiro de Edwin Smith, escrito na XVIII dinastia, em torno de 1550 a.C., na seção chamada Livro das Feridas, está caracterizada a diferença entre a fratura e a luxação da mandíbula, expressando, inteligívelmente, a angústia com o respectivo prognóstico:

“Quando examinares um homem com uma fratura em sua mandíbula, colocarás tua mão sobre ela e se observares que essa fratura crepita sob teus dedos deves dizer a respeito dela: – Eis alguém que tem uma fratura na mandíbula, em cuja superfície se encontra uma ferida… (e) ele tem febre devido a ela. Uma doença que não tem tratamento”.

De igual modo, o professor da Medicina egípcia detalha as manobras para reduzir com êxito a luxação mandibular, aconselhando a imobilização:

“Se examinares um homem com deslocamento da mandíbula, acharás sua boca aberta (e) se sua boca não pode ser fechada, deves colocar teu polegar (es) no fim dos dois ramos da mandíbula, no interior da boca (e) tuas duas garras abaixo do queixo (e) deves produzir um recuo de tal forma que volte ao seu lugar. Deves dizer a respeito disso: – Eis alguém que tem deslocamento da mandíbula uma doença de que tratarei. Deves amarrá-la com ymrw (e) mel, todos os dias até a recuperação”.

Igualmente, a cultura médica egípcia antiga, no mesmo papiro de Edwin Smith, distingue a gravidade dos traumas faciais da região masseterina, com ou sem fratura do osso malar acompanhada de restrição ao movimento mandibular. O quadro clínico é fortemente sugestivo de fratura do osso malar e do arco zigomático com impactação do côndilo mandibular na cavidade glenóide do osso temporal, sob a ação dos músculos pterigóideos lateral e medial no fragmento ósseo resultante da fratura traumática, impossibilitando a abertura da boca:

“Se examinares um homem com um rasgo em sua bochecha, e se encontrares o lado de fora da fenda, inchado, exposto e vermelho, deverás dizer a respeito: – Eis alguém que tem uma fenda em sua bochecha. Uma doença de que eu tratarei”.

Em outro trecho do papiro de Edwin Smith:

Se examinares um homem golpeado em sua bochecha, deves colocar tua mão na bochecha no lugar da pancada. Se crepitar sob os teus dedos, ao mesmo tempo em que ele solta sangue por sua narina…, e sofre dor ao abrir a boca, deves dizer a respeito: – Eis alguém golpeado na bochecha e que solta sangue pelas narinas… Uma moléstia que não tem cura.

Essa descrição sugere trauma da face resultando na fratura de maior gravidade, atingindo o andar médio da face e órbitas.

Pelos menos nas camadas mais abastadas havia especial cuidado com a higiene e o enfeite do corpo.

As leis puniam o aborto provocado, o abandono de crianças, o sexo oral e as relações sexuais durante a menstruação. Essas proibições poderiam estar relacionadas com algumas possibilidades médicas e sociais:

– Aborto, como na cultura mesopotâmica, aparentemente, a interdição à interrupção provocada da gravidez poderia estar relacionada às graves consequências da manipulação intra-uterina, inclusive podendo com frequência determinar a morte da grávida. Por outro lado, fincada na absoluta necessidade daqueles povos de aumentar o número dos seus habitantes.

Os registros apontam para a certeza de que a circuncisão foi iniciada, no Egito, desde as primeiras dinastias. As evidências do fato podem ser encontradas nas pinturas e esculturas, daquela época, nas quais o pênis é claramente visto sem o prepúcio. De acordo com o papiro de Ebers, as circuncisões masculina e feminina eram executadas aos quatorze anos de idade. Também é necessário refletir quanto aos motivos dessas práticas nos corpos adolescentes executadas por médicos e sacerdotes. É possível que possam estar envolvidas com motivações diferentes no homem e na mulher. De modo semelhante às mutilações femininas realizadas, ainda hoje, felizmente, em poucos países, a retirada sob coação familiar ou social do clitores está relacionada à diminuição da libido, não tendo ligação com a higiene vaginal; no homem, além de determinar a possibilidade de melhor higienização da glande pela facilidade de retirada continua do esmegma, pode interferir na melhoria da sexualidade ao evitar as inflamações e infecções locais pela falta de higiene peniana.

Apesar do avanço na compreensão de muitas doenças, os egípcios como os outros povos que construíram as respectivas culturas, entre 2.000 e 1000 anos a.C., não conseguiram articular um processo teórico capaz de explicar a saúde e as doenças.

 

Mesopotâmia

 

Considerações gerais

 

A Mesopotâmia (do grego, meso = meio; potamos = rio), pode ser considerada também como um dos berços, do processo do sedentarismo. A região compreende os vales férteis dos rios Tigre e Eufrates. Atualmente, corresponde em parte aos territórios da Turquia, Síria e Iraque.

Nessa área geográfica, entre os anos 2.000 e 1.000 anos a.C., com diferentes intensidades, floresceram as civilizações:

– Sumérios;

– Acádios, com o lendário Sargon unificando várias cidades-estados e estruturando o primeiro império do mundo;

– Babilônios, com o não menos famoso Hammurabi (1792-1750 a. C.), que reinou no apogeu da Babilônia;

– Neo-babilônicos, com Nabucodonosor II (604-562 a.C.), cujos imensos domínios ultrapassaram a Mesopotâmia e incluíram a Palestina e a Síria. Esse extenso território foi conquistado, em 539 a. C. pelos persas e, dois séculos após, dominado por Alexandre.

Algumas primeiras cidades-estados, Ur, Ourouk, Sumer e Nippur, desenvolveram-se nessa região com notáveis acervos do conhecimento em torno da Medicina, matemática, astrologia, metalurgia, astronomia e linguagem escrita.

Os sumérios foram os primeiros a inventar a escrita – os caracteres cuneiformes -, conseqüentemente, os poucos escriba assumiram grande importância na organização social. As descobertas arqueológicas e a decifração dessa linguagem têm revelado as tradições culturais e religiosas desses povos. Entre os documentos decifrados destacam-se alguns anteriores ao século 15 a.C.:

– Código de Hamurabi contendo as leis que regiam a vida e a propriedade dos súditos do imperador Hamurabi (1.728 a.C.?–1.686 a.C.?);

– Enuma Elis, poema babilônico da criação;

– Epopéia de Gilgamesh, relato da vida do lendário soberano de Uruk, cidade suméria nas margens do rio Eufrates.

Os três exemplos, entre outros de grande importância na construção da cultura mesopotâmica, uniram alguns pensamentos abstratos à concretude da ordem social. No primeiro, explicando a origem da vida e a inexorabilidade da morte, como no poema Enuma Elis e na epopéia de Gilgamesh; no segundo, a absoluta necessidade do controle da ordem social, punindo os excessos gerados pelos conflitos sociais, numa sociedade complexa, francamente hierarquizada e em franco crescimento populacional, como no Código de Hammurabi, onde estão explicitados os pagamentos pela boa prática e severíssimas punições pela má prática.

O sistema de escrita cuneiforme, desenvolvido pelos sumérios, consistia em marcas moldadas em tábuas de barro molhado. Após a secagem eram armazenados e/ou transportados para locais específicos, as bibliotecas, que abrigaram milhares de documentos fundamentais na melhor compreensão dessa cultura. Essa escrita tornou-se dominante por mais de 1.000 anos na Mesopotâmia. O sistema de escrita cuneiforme, registrado em tábuas de argila, continuam como o maior registro disponível sobre a Medicina mesopotâmica.

Existem duas grandes fontes das informações que tratam sobre práticas médicas:

– A biblioteca de Assurpanipal, composta com mais de vinte mil tábuas de argila, o último grande rei assírio, encontrada em Nínive;

– A biblioteca de Hammurabi, localizada em Mari, também com milhares de tábuas.

No início da década de 1920, alguns textos médicos, extraídos das tábuas da biblioteca de Assurbanípal, foram publicados por Campbell Thompson. Esses registros, conhecidos como “Tratado de Diagnósticos e Prognósticos Médicos”, estão entre os registros mais antigos, em torno de 1600 a. C., com informações organizadas em subseções que tratam de doenças de crianças e mulheres descritas por meio de observações minuciosas e aguçadas.

Graças aos registros, importantes concepções da Medicina, exercida pelos povos da Mesopotâmia, atravessaram os milênios. Entre as mais significativas, sinalizando o estudo de partes do corpo, estão o entendimento do coração como sede da inteligência e do fígado, como o centro da circulação. Quanto ao coração, de certo modo, é possível compreender a associação espacial com a inteligência, na medida em que o coração ao parar de bater, provoca a morte, gerando o corpo morto, sem vida, sem qualquer manifestação da inteligência. Quanto ao fígado, é possível que a associação estivesse ligada à sanguinidade do órgão, mesmo algum tempo após a morte.

 

Práticas médicas

 

Os conceitos terapêuticos mesopotâmicos antigos baseavam-se na crença de todas as mudanças nos corpos, da saúde e das doenças, se encontravam estreitamente unidos e subordinados à vontade dos deuses, identificados com os astros visíveis no céu mesopotâmico.

A compreensão teocêntrica unindo deuses e deusas, identificados nos corpos celestes, à saúde e à doença, efetivou a grande importância atribuída ao estudo dos movimentos desses corpos celestes, gerando saúde ou doença.

As doenças e curas se explicavam por meio de complexa relação entre os deuses bons e deuses maus. O deus bom protegia as pessoas dos maléficos, causadores de doenças, onde cada enfermidade conhecida e temida era associada a um ou mais deuses maus. Nessa complexa construção, o panteão mesopotâmico era dominado pelo poderoso deus Marduk, que acima de qualquer outro, poderia oferecer a saúde ou a doença a quem lhe aprouvesse. Esse conjunto associado à palavra shêtu, que significava, simultaneamente, doença, pecado ou castigo divino, demonstrando que a doença poderia estar compreendida como:

– Conseqüência de castigo divino;

– Originada em ofensa específica a determinado deus;

– Intervenção direta dos deuses maus;

– Doença como resultante do abandono do gênio protetor ou na influência de demônios.

Por essa razão, a intervenção dos curadores, representantes da Medicina-divina, iniciava-se na confissão do doente, quando expunha todos as ações que pudessem significar ofensa aos deuses e deusas. A terapêutica, também com objetivo de purificação, estava associada à catarse provocada pelo medicamento, rezas e encantamentos.

Ainda mais interessante e simbólica, a utilização da serpente como símbolo de cura, presente na teogonia e teofania mesopotâmicas, pode estar ligada à lenda do herói Gilgamesh, o rei sumério, da cidade-estado de Uruk (hoje em dia Warka, no Iraque), possivelmente, oriunda após a metade do terceiro milênio. Essa extraordinária narrativa, recuperada na tradução de doze tábuas, achada por arqueólogos, na biblioteca de Nínive, na antiga Acádia, escrita em linguagem acádia, durante o reinado de Assurbanipal (668 – 627 a.C.), reproduziu concepções ainda mais antigas da inexorabilidade da morte.

A descrição desse épico explica, inicialmente, a natureza do herói mítico Gilgamesh, sendo de natureza divina, em dois terços, e, humano, em um terço, também reconhecido guerreiro, simultaneamente, bondoso e despótico. A narrativa explica que os deuses atendendo às súplicas do povo oprimido, enviam Enkidu, meio humano, meio animal, para que enfrente Gilgamesh e o mate. A luta titânica não resultou em vencedor ou vencido. Ao contrário, os dois tornam-se amigos e partem para novas aventuras. Já longe de Uruk, enfrentam Huwawa, o guardião divino dos bosques de Cedro. Apesar de faltarem partes das tábuas, é possível deduzir que Gilgamesh derrota Huwawa. Voltando para Uruk, Ishtar, a deusa do amor e da fertilidade lhe propõe casamento. Gilgamesh sabendo do triste destino dos homens que se unem a ela recusa o convite. Ishtar, enciumada e colérica, convence outros deuses para enviar o touro celestial para matar Gilgamesh. Contudo, ele e Enkidu enfrentam o monstro e o derrotam. Por ter participado do duelo, Enkidu recebe dos deusesa ameaça de castigo em sonho, quando os três deuses, Anu, Ea e Shamah, dizem-lhe que irá morrer em breve. Como previsto, adoece e morre. Gilgamesh, desconsolado chora a morte de seu amigo e parte numa perigosa viagem em busca do sábio Ut-Napishtim, possuidor do segredo da imortalidade e único sobrevivente do dilúvio babilônico. Ut-Napishtim é relatado como justo e piedoso no meio da barbárie e da injustiça. Os deuses o advertem para que construa um barco no meio do deserto e espere o pior. Durante seis dias e seis noites, acontece uma chuva tão intensa que até mesmo os deuses se assustam. Gilgamesh sobrevive a esse novo desafio e quando o nível das águas abaixa, surge a nova Mesopotâmia. Na busca da imortalidade, Gilgamesh ouve do imortal Ut-Napishtim onde conseguir a planta que lhe dará a juventude eterna: está no fundo de um lago. Gilgamesh parte na busca da imortalidade. Na jornada, enfrenta muitos desafios inimagináveis e sempre triunfa. Ao voltar para Uruk, muito cansado, descansa na margem do lago. Durante o sono, a serpente lhe rouba a planta milagrosa e após engoli-la, rejuvenesce mudando a pele. Nada mais resta a Gilgamesh a não ser chorar, amargamente, a perda da imortalidade para todos os homens. Assim, a única oportunidade de os homens serem imortais foi perdida para a serpente, de nada adiantou as lutas épicas para obter a imortalidade, o destino do homem é ser mortal.

É possível que as duas cobras enroscadas, esculpidas em taça cerimonial, a mais conhecida representação de Ningishzida, o deus sumeriano da cura, tenha relação direta com a narrativa épica do mito de Gilgamsh. Esse deus também representa a mais antiga associação simbólica entre a cura das práticas médicas e a serpente.

É interessante relembrar que também na cultura egípcia, mais ou menos no mesmo período, apesar de não ter sido especificamente identificada com a cura de doenças, a serpente estava presente nas coroas dos faraós, também com significado de proteção.

Do outro lado, no panteão mesopotâmico, entre os deuses causadores de doenças, recebeu destaque Pazuzu, cuja representação é uma mistura grotesca de homem, leão e escorpião, com dois pares de asas emplumadas, pernas e garras. É possível articular algum pensamento

Mesmo atribuindo a dor de dente ao verme roedor, os textos médicos contidos nas tábuas de escrita cuneiforme, descreveram com muita clareza muitas doenças e quadros clínicos relacionados com:

– Febres isoladas;

– Febres acompanhadas de outros sinais e sintomas muito sugestivos de malária;

– Apoplexia, provavelmente resultantes de lesões cerebrais agudas;

– Tuberculose, em diferentes fases da evolução clínica;

– Muitâme, uma doença infecciosa endêmica desconhecida;

– Distúrbios mentais, atribuídas aos ferimentos ou aos demônios;

– Doenças dos olhos e ouvidos;

– Dores articulares;

– Certos tumores;

– Abscessos;

– Algumas doenças do coração;

– Inflamações na pele e mudanças na cor e sensibilidade;ele;

– Secreções purulentas da uretra e vagina.

As sintomatologias de várias doenças foram descritas com extraordinária precisão:

– Tuberculose pulmonar: “O doente tosse muito; sua expectoração é densa e, às vezes, contém sangue, sua respiração dá um som semelhante ao de uma flauta, sua pele é fria mas os pés estão quentes, ele sua muito e seu coração está muito perturbado. Quando a doença é extremamente grave os intestinos se abrem muitas vezes”;

– Otite: “Fogo penetra no interior do ouvido, paralisando a audição. Grande quantidade de pus irrompe no local e seu estado é de dores”;

– Gastrite: “Quando alguém come e bebe até ficar satisfeito, sentindo depois dores no estômago com o se sua pele inteira queimasse como fogo”;

– Hepatite: “Quando os olhos de alguém ganham coloração amarela e a doença avança até sua vista, de modo que o interior do olho se torna amarelo como cobre… quando ele vomita e a bebida… quando até seu rosto e o corpo todo se torna amarelo, então a enfermidade resseca o corpo todo do doente, de modo que ele chega a falecer”;

– Asma brônquica: “Quando o doente sofre de tosse; quando sua traquéia produz um chiado ao respirar; quando tem acessos de tosse”.

Existiam três tipos distintos de médicos na Mesopotâmia:

– Ashipu, era mais importante agente da Medicinas-divina e da Medicina-empírica, sendo o responsável pelo diagnóstico da doença, indicava o deus ou o demônio causador e analisava se o pecado do paciente estava relacionado à doença. Também atuava no tratamento prescrevendo o rito do encantamento que deveria ser seguido para afastar o mal e, consequentemente, obter a cura;

– Asu, agente da Medicina-oficial e especialista em remédios obtidos a partir das plantas Medicinais e certos procedimentos cirúrgicos. No tratamento das feridas, usava três movimentos: lavava a ferida, usava compressas e aplicava curativos Entre os muitos vegetais com propriedades curativas, a raiz da mandrágora era uma das mais utilizadas. Como essa planta lembra, grosseiramente, o corpo humano, lhe era atribuída propriedade mágica.

– Baru, relacionado com a Medicina-divina, como adivinho reconhecido predizia o futuro da saúde e da doença e das catástrofes coletivas.

De certa forma, não há como separar, rigidamente, as áreas de atuação dos três curadores, trabalhavam ligando o conhecimento historicamene acumulado às crenças e idéias religiosas.

É muito provável que a reprodução dos saberes para a formação de novos médicos, notadamente, o asu, o agente da Medicina-oficial, portando cartão de visita, se desenvolvessem no interior dos templos, restrito às pessoas abastados.

Por outro lado, nas sociedades escravistas é certo que a maior parte da população nunca teve acesso à Medicina-oficial. Na Mesopotâmia, não era diferente e, assim, é perfeitamente aceitável a observação de Heródoto, no século 5 a. C., descrevendo o hábito desse povo de levar os doentes à praça pública, para que fosse diagnosticado e medicado por alguém que tivesse experiência na mesma doença.

A tradução da tábua cuneiforme com seis por três centímetros de tamanho, lembrando um cartão de visitas, pertencente ao asu Urlugaledina, representa de modo categórico o pensamento médico mesopotâmico. Entre duas figuras desenhadas na argila, sendo à esquerdo, a imagem de um deus e, à direita, uma planta Medicinal, contra o texto: ó deus Edinmugi, vizir do deus Gir, que protege os animais quando tem seus filhos, o médico Urlugaledina é seu servo.

É indispensável assinalar que esse conhecimento historicamente acumulado, sempre presente e sustentando grande parte da estrutura teórica e prática das especialidades sociais, nessa época, é reforçado na sua utilidade social e, por isso mesmo, valorizado e reproduzido sem esforço. Esse fato pode ser verificável em torno das compressas, para tratar as feridas traumáticas, no qual se assentava parte dos procedimentos do asu, ainda hoje, pode ser comprovada a utilidade. Muitas dessas compressas incluíam misturas de ingredientes Medicinais aplicados sobre a ferida e mantidas no lugar com a ajuda das bandagens. Pelas descrições, algumas delas exigiam o aquecimento de resina retirada de planta ou gordura animal com teor alcalino. Essa mistura, quando aquecida, liberava sabão, que ajudaria a proteger contra as infecções bacterianas.

Do mesmo modo, as tábuas de argila encontrada na residência de um ashipu indicam que existia cooperação entre os curadores mesopotâmicos, o ashipu e o asu. Os doentes mais ricos, provavelmente, buscavam os cuidados médicos de ambos. De certa forma, além de compartilhar alguns pacientes, algumas vezes, se alternavam nas suas funções: o asu podia, ocasionalmente, fazer um encanto e o ashipu, prescrever uma droga.

O Código de Hamurabi, esculpido num bloco negro de diorita, constitui outra importante fonte de informação, tanto em relação aos tipos de procedimentos quanto aos pagamentos e penalidades, respectivamente, como recompensa pelo sucesso e castigo pelas maus resultados. Esse conjunto de normas não era um código de leis como entendemos hoje, mas provavelmente uma coleção de decisões legais tomadas pelo rei Hamurabi e tornadas leis, mais ou menos, em 1700 a. C.. Em relação à Medicina, de modo muito claro, esse conjunto de leis estabelece:

– Estratificação social, onde médicos atendiam pessoas de diferentes estratos sócio-econômicos e recebiam remuneração ou penalidades diferenciadas;

– Medicina como especialidade social;

– Trabalho médico remunerado, para os bons resultados;

– Existe muito maior atenção ao trabalho médico invasivo, isto é, para os atos cirúrgicos, fazendo supor que provocavam muito mais conflito do que as consultas não invasivas;

– Severas penalidades para as cirurgias que culminavam com resultados insatisfatórios.

As principais leis que regeram a Medicina, no código de Hammurabi, são as seguintes:

 

§ 215: Se um médico fez em um awilum, uma operação difícil com um escalpelo de bronze e curou o awilum ou (se) abriu a nakkaptum de um awilum com um escalpelo de bronze e curou o olho do awilum, ele receberá 10 siclos de prata;

 

§ 216: Se foi o filho de um muskenum, ele receberá 5 siclos de prata;

 

§ 217: Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará ao médico dois siclos de prata;

 

§ 218: Se um médico fez em um awilum uma operação difícil com um escalpelo de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum e destruiu o olho do awilum, eles cortarão a sua mão;

 

§ 219: Se um médico fez uma operação difícil com um escalpelo de bronze no escravo de um muskenum e causou-lhe a morte, ele deverá restituir um escravo como o escravo (morto);

 

§ 220: Se ele abriu a sua nakkaptum com um escalpelo de bronze e destruiu o seu olho, ele pesará a metade de seu preço;

 

§ 221: Se um médico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um músculo doente, o paciente dará ao médico 5 siclos de prata;

 

§ 222: Se foi um muskenum, dará 3 siclos de prata;

 

§ 223: Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará 2 siclos de prata.

É possível que os atos cirúrgicos além de atuarem em lesões superficiais e nos membros, mesmo em menor número, também fossem praticados no tórax e abdome. Mesmo danificadas, foram identificadas quatro tábuas de escrita cuneiforme tratando de algumas cirurgias e cuidados pós-operatórios:

– Em uma delas, existe a descrição do cirurgião incisando o peito do paciente com o objetivo de remover pus da pleura, isto é, dentro do tórax;

– Duas outras, pertencem à coleção chamada Receitas para Doenças de Cabeça, onde o cirurgião utiliza a faca do asu para incisar levemente a cabeça do paciente;

– A última, menciona os cuidados pós-operatórios de cirurgia no tórax, recomendando atadura de óleo de gergelim, planta herbácea reconhecida com atividade Medicinal.

Outro ponto importante da prática médica mesopotâmica é o uso sistemático de vários remédios, descritos com clareza, envolvendo componentes animais e vegetais. Infelizmente, não é possível a identificação de muito deles porque os nomes são metafóricos, como gordura de leão, lírio do tigre, etc. Entre as porções com as origens já esclarecidas, usadas pelo asu, constam extratos de plantas e resinas com reconhecida capacidade antibiótica e anti-séptica.

Fora dessa clara atuação da Medicina-oficial atuado em conjunto com a Medicina-empírica, os povos mesopotâmicos utilizavam, no cotidiano, a Medicina-divina com o grande panteão de deuses e deusas curadores. Alguns templos desses taumaturgos, quase sempre situados próximos aos rios, possuíam bibliotecas dedicadas aos temas da saúde e da doença.

Alguns registros indicam a crença coletiva no poder curador da água. Dessa forma, em alguns abrigos eram construídos próximo às margens dos rios para ajudar nos tratamentos de certos doentes.

A partir dos pressupostos de os astros visíveis representarem deuses e as doenças dependerem inteiramente da vontade dessas divindades, as práticas médicas em grande parte, estavam ligadas à capacidade de certos elementos da sociedade, os agentes das Medicinas-divina, Medicinas-empírica e Medicinas-oficial, para decifrar as mensagens dos deuses que poderiam causar a doença ou determinar a cura.

Dessa forma, desenvolveram-se duas vertentes da adivinhação: astrologia e hepatoscopia:

– Astrologia pretendeu estabelecer a relação entre os movimentos dos astros, as estações e as doenças. A aceitação coletiva dessa suposta inter-relação, como verdade acabada, gerou formidável exército de especialistas capazes de interpretar a irregularidade no movimento dos astros como sinais de diagnóstico e prognóstico;

– Como vestígio das primitivas relações dos nossos ancestrais com o sangue, o fígado, o mais sangüíneo dos órgãos, era identificado como o centro da vida. Assim, quem pudesse interpretar as mensagens contidas no fígado dos animais sacrificados, estaria mais próximo de saber onde, quando e como as doenças acometeriam as pessoas.

Parece que o mais antigo deus protetor da Medicina, na Mesopotâmia, foi representado pela lua, com o nome de Sin. Essa divindade noturna governava o crescimento das ervas Medicinais, por esse motivo, não poderiam ser expostas ao sol.

Os deuses protetores do panteão mesopotâmico:

– Marduk, o grande deus curador;

– Ninib, filho de Enlil;

– Nabu, deus das ciências e da arte de curar;

– Ninchursag, deus ligado a oito divindades, cada uma com poder de curar uma doença específica;

– Ninurta, deus dos médicos;

– Gula, mulher de Ninurta;

– Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas serpentes enroladas no bastão;

– Sachan, a deusa-serpente;

– Ishtar, a deusa da graça, da fecundação e criadora da libido no homem e na mulher.

Além desses deuses deusas, são citados alguns demônios que responsáveis pelo aparecimento das doenças:

– Nergal, da febre;

– Ashakku, do pulmão

– Tiu, dor de cabeça;

– Namtaru, da boca, do nariz e das orelhas.

A Medicina mesopotâmia é uma das mais antigas de que se tem conhecimento através de registros históricos. Estes foram preservados em tábuas que contém tais informações no sistema cuneiforme.

Nas tábuas de escrita cuneiforme, os relatos médicos eram bastante detalhistas, o que demonstra a preocupação e o cuidado com o indivíduo acometido por determinada doença. Outro fato importante que fica esclarecido pelas tábuas é a importância social do médico, especificamente, Ashipu, responsável pelo diagnóstico. O outro, também reconhecido, Asu, prescrevia a terapia utilizando ervas Medicinais.

 

Índia

 

Características gerais

 

A Índia, situada na Ásia meridional apresenta duas áreas geográficas distintas. O Sul, a península do Decan; o Norte; contida na cordilheira de Himalaia, que separa a Índia dos outros países. Entre essas duas regiões localiza-se a planície do Hindustão, sulcada pelos rios que descem do Himalaia, o Indo, o Ganges e o Bramaputra.

O fato de a Índia ser cercada por mares, o mar de Oman e o oceano Indico, aliado à presença de montanhas contribui para o isolamento geográfico e cultural.

A região da planície do Hindustão, extremamente fértil e chuvosa ou fácil de irrigar, é onde se acumulam as grandes massas de população da Índia.

A partir de 3.000 a.C., o primeiro Império, os Maúrias estavam assentados, no noroeste, no vale do Pendjabe. As`principais cidades eram: Harapa e Mohenjo-Daro, que ofereciam impressionante organização social, com ruas bem traçadas, silos e especial atenção com os esgotos.

Nessa época, os indus praticando agricultura baseado no regime de cheia e vazante, em conjunto com a criação de animais domésticos e gado (carneiros, búfalos, zebus, e porcos). Também utilizaram o bronze para a fabricação de instrumentos de trabalho, armas e utensílios.

O desenvolvimento do artesanato propiciou o aparecimento de grupo social, possivelmente próspero que interferiu no aumento do comércio. Foram encontradas provas arqueológicas de comércio local, nas ruínas de Moendjo-Daro, ao lado das habitações, representadas pelos depósitos com características de loja que podem ser comparada ao atual bazar indiano.

Na primeira metade do segundo milênio a.C., começou a decadência dessa civilização, sem resistência à invasão e a dominação pelos arianos ou indo-europeus.

Da metade do segundo à metade do primeiro milênio, no início da Idade do Ferro, os registros contam com os textos sagrados, os Vedas, e com poemas épicos, Maabarata e Ramaiana, o que não aconteceu com os períodos anteriores, onde só é possível estudar os dados arqueológicos.

A terra caracterizava-se como propriedade comum, cultivada pela comunidade, sendo o excedente da produção só se tornava mercadoria a partir do instante em que era apropriado pelo Estado.

Os trabalhos agrícolas eram executados pela irrigação e drenagem do solo por meio de instrumentos de ferro. Por essa razão, regiões do vale de Ganges e da Índia Central foram exploradas de maneira mais sistemática, resultando no aparecimento de cidades prósperas.

Ao lado dessa parcela social produtiva, em forma de comunidade, apareceram grupos de pessoas com funções sociais específicas:

– Juiz, chefe de policia e cobrador de impostos, exercidas por uma única pessoa;

– Escriba;

– Encarregado da proteção dos viajantes;

– Guardas fronteiriços;

– Inspetor das águas;

– Sacerdote;

– Mestre-escola;

– Brâmane astrólogo;

– Ferreiro;

– Carpinteiro;

– Oleiro;

– Barbeiro;

– Lavador;

– Ourives.

É possível, nessa fase, perceber o fortalecimento de uma aristocracia cada vez fechada e que acentua a desigualdade social, constituindo uma hierarquia caracterizada pelas varnas ou castas. A hierarquia social era composta:

– Aristocráticos de nascimento se agrupava em dois varnas:

– Brâmanes ou grupo sacerdotal;

– Xátrias formado pelos governantes e militares;

– Não aristocráticos:

– Vaicias constituída de pessoas livres, artesãos e comerciantes;

– Sudras ou estrangeiros livres, nada possuíam dentro da comunidade, sem direito de participar nas cerimônias do culto e nas decisões comunitárias.

– Sem castas:

– Párias ou intocáveis.

A administração na Índia antiga era centralizada, hierarquizada e exercida nesse estágio, pelo bramanismo que colocava o Estado como caráter divino, enaltecendo a pessoa do rei (Raja).

Não ha registros de onde surgiu a crença coletiva na metempsicose como possibilidade de dever cumprido na vida anterior, isto é, após a morte, a pessoa poderia ascender socialmente (mudança de casta) se tivesse cumprido os deveres na vida precedente.

Entre os séculos 5 e 6 a.C., a Índia era formada por vários reinos independentes que lutavam entre si, disputando a supremacia política. Aos poucos esse número foi se reduzindo devido a conquista militar dos mais fracos pelos mais fortes e hegemônicos. O reino de Magada depois de ferrenha luta com o de Coçola, se tornou o principal da Índia., cujo domínio abrangia todo o vale do Ganges e território da Índia central.

Em conseqüência do maior relacionamento com outros países, as riquezas e a prosperidade da Índia provocaram o interesse de outros reinos belicistas. Dario I, no final do século 6, dominou regiões do vale do Indo. O mesmo aconteceu, em 327 a. C., após a destruição do Império Persa, na conquista de Alexandre da Macedônia.

Embora Alexandre tenha firmado alianças com alguns reis da Índia, não conseguiu estender seu domínio da maneira que desejava porque o seu exército enfraquecido pelos combates, não quis continuar a invasão. Apesar de ter instalado, em algumas regiões conquistadas, vários comandantes macedônios, pouco adiantou porque em 317 a. C., foram expulsos pelos povos locais.

O bramanismo já não conseguia justificar as enormes desigualdades sociais e, como conseqüência, os conflitos se acentuaram surgindo assim outra interpretação do sagrado – o budismo – que pregava a passividade e resignação com a condição social de cada um. De certa forma, ajudou a fundamentar um conjunto de ações sociais e políticas propícias a formação dos Estados escravistas nascentes.

Após a expulsão dos macedônios, diferentes impérios independentes e inimigos entre si, disputaram os territórios mais férteis e prósperos. Pouco a pouco, a religião budista tornou-se dominante.

O comércio interno era vigoroso por meio das trocas comerciais e circulação de moedas de cobre e prata. Por via marítima, o comércio alcançava o Egito, Mesopotâmia, Ceilão, países do Sudeste Asiático; por via terrestre, Irã e países da Ásia Central. Paralelamente, como sociedade escravista, escravos trabalhavam nas propriedades reais e nos trabalhos domésticos.

 

Práticas médicas

 

É provável que a Medicina da Índia antiga já estivesse sistematizada como especialidade social séculos antes da sua invasão pelos arianos vedas em torno do ano 2.000 a.C.

Essa suposição é baseada nos estudo arqueológicos feitos na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da Índia, nas margens do rio Indo. Nesta cidade foram encontrados diferentes seguimentos aluvionai, datados de até 7.000 anos, o que lhe confirma a primazia de estar entre as cidades mais antigas do mundo, desde que o homem começou o seu irreversível processo de sedentarismo.

As escavações arqueológicas de Mohenjo-Daro evidenciaram ruas bem traçadas com rede de esgotos, canalização para água e banhos públicos. Estes achados colaboram na confirmação de que a civilização que se desenvolveu no vale do Indo possuía precisa da importância dos cuidados de saúde pública na profilaxia da doenças.

Essa cidade e outras do mesmo período, que floresceram no vale do Indo e dos cinco afluentes, conhecidos como Pendjad, eram constituídas por diferentes grupos étnicos que obtinham o sustento na agricultura e comercializavam o excedente.

A primeira sistematização da Medicina na Índia antiga está contida no Ayurveda, escritos originalmente em sânscrito com forte religiosidade.

O Ayurveda significa veda da longa vida e constitui a base teórica da Medicina tradicional da Índia. O texto original tem no seu conjunto mil capítulos divididos em cem mil versículos ou Shlokas, por sua vez, subdivididos em Ashtânga, palavra que até hoje é utilizada na Índia como prática médica.

O Ayurveda contém oito capítulos bem definidos que tratam de diferentes temas médicos:

1. Shalya: cirurgia para retirada de corpo estanho, feto morto retido intra-uterino, drenagem de ferida com pus e a utilização de instrumental cirúrgico para efetuar estes e outros procedimentos;

2. Shalakya: cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta, considerado hoje como um verdadeiro tratado de oftalmologia e otorrinolaringologia;

3. Kayacikitsã: trata da terapêutica em geral e descreve mais de oitocentos diferentes tipos de plantas Medicinais;

4. Bhutavidya: são os ensinamentos que permitem tratar com os espíritos dos mortos, com os demônios e com os doentes que foram possuídos pelos deuses que causam as doenças;

5. Kaumarabhritya: cuidados dos recém nascidos e das mulheres grávidas;

6. Agadatantra: se refere a toxicologia, aos venenos e os antídotos;

7. Rasayana ou Jarâ: estuda as ervas do rejuvenescimento e os afrodisíacos que contribuem para a manutenção da saúde;

8. Vajikarana ou Vrisha: descreve as propriedades dos afrodisíacos.

Como as Medicinas antigas, do Egito e da Mesopotâmia, denominadas pré-gregas, a da Índia não possuía estrutura teórica para explicar a saúde e a doença fora das idéias e crenças religiosas. Dessa forma, cada doença era uma entidade nosológica específica.

Contudo, existia esforço para compreender o binômio saúde-doença, na Índia antiga, entrelaçado à natureza circundante. Essa aproximação era entendida por meio de cinco elementos fundamentais:

– Dhatu: éter ou vazio;

– Vayu: vento;

– Agni: fogo;

– Jata: água;

– Bhumi: a terra.

O corpo humano seria resultante da complexa combinação desses elementos e as doenças seriam formadas pelo desequilíbrio entre eles.

Construção semelhante ocorreu, no século 4 a.C., na Grécia, na Escola Médica de Cós, com a teoria dos Quatro Humores de Políbio, o genro de Hipócrates. No livro “Da Medicina antiga”, Políbio ancorado nos quatro elementos de Empédocles (agua, ar, terra, fogo), fora das idéias e crenças religiosas, preconizou a origem da saúde a partir do equilíbrio entre os humores: sanguíneo, linfático, bilioso preto, bilioso amarelo.

A diferença entre as propostas teóricas reside na presença do dhatu ou éter ou vazio, na indiana, que poderia ser considerado como resíduo das idéias e crenças religiosas, portando não representando uma proposta teórica completamente desatada da religião.

Os alimentos inadequados eram considerados a principal causa do aparecimento da desarmonia entre os cinco componentes maiores da natureza humana. Como conseqüência, a dieta e a higiene desempenhavam papel importante na terapêutica contida no Ayurveda.

As diferentes formas de tratamento encontradas no Ayurveda, distingue os remédios que fortaleciam o organismo dos que curavam. Os primeiros eram os afrodisíacos e os segundos eram os vegetais com propriedades terapêuticas, que deveriam ser tomados segundo as normas rituais contidas nos Vedas. Nesse tratado de terapêutica estão descritas mais de setentas diferentes espécies de vegetais usadas, na Índia, durante mais de três mil anos.

Até hoje, nas cidades da Índia, ainda é encontrado o curandeiro andarilho shivaista, que carrega consigo os conhecimentos da formulas mágicas, administrando-as aos doentes ao som mítico dos hinos védicos cantados em tom melodioso.

Segundo os ensinamentos contidos no Ayurveda, as doenças se dividem em três tipos:

– Curáveis ou sadhya;

– Melhoráveis ou yapya;

– Incuráveis ou pratyakhyeya.

Do mesmo modo, admite claramente que as doenças são conseqüentes das culpas das vidas anteriores ou karmaja e que para curá-las totalmente é indispensável a penitência ou prayashcitta.

Após a invasão ariana veda, seguida da destruição das cidades e fortificações, os indianos foram transformados em escravos e passaram a constituir a quarta e mais inferior das castas dos tempos védicos, os shudras. Essa conquista na Índia também é relatada nos textos dos Vedas.

Esses textos podem ser entendidos como a compreensão do corpo ligado ao mundo circundante, donde Veda = o conhecimento, o saber e Ayur ou Ayu = o corpo vivente religado ao mundo pelos cinco sentidos. Dessa forma, também é aceitável compreender a palavra Ayurveda como o conhecimento da vida humana ou a ciência da vida humana.

Esse conjunto de saberes milenares tem como objeto o estudo das funções físicas e mentais dos homens e da mulheres, onde a alma (jiva) deve unir-se ao ser cósmico (divino). O corpo em si representaria uma espécie de doença, por impedir a alma de viver livremente, principalmente se ele apresentar doença.

Essa complexa relação que submete as pessoas à vontade do divino, foi implantada pelos arianos, após a conquista.

Existem quatro Vedas e eles tratam das relações míticas da trindade bramânica ¾ Vishnu, Brahma e Shiva:

 – Rigveda: formada das estrofes rik que são cantadas durante os sacrifícios rituais;

 – Yarjurveda: agrupam os Yajus ou as fórmulas dos sacrifícios;

– Sâmaveda: que reúne os Sâman ou melodias sagradas;

– Atharvaveda: compõe no seu conjunto a Atharvan ou as formulas sagradas.

A totalidade destes textos constitui a base doutrinária da religião védica e do bramanismo. Transmitidos oralmente durante milhares de anos, serviram para consolidar o controle social pelo conquistador ariano, tendo a Medicina papel destacado nessa estratégia de substituição.

Os deuses e os demônios representam parte importante da compreensão da saúde e da doença nos textos védicos. Os deuses curadores mais importantes são:

– Os gêmeos Ashvin, de certa forma lembrando São Cosme e São Damião, da religião cristã, que no Rigveda (X, 39, 3b) aparecem como médicos dos cegos, dos desnutridos e dos que sofreram fraturas;

– Rudra, de duplo caráter, maléfico e caridoso. É adorado como o primeiro médico divino nos versos do yajurveda;

– Shiva, oriundo da metamorfose de Rudra, manteve a dupla interpretação deste deus, sendo simultaneamente o deus caridoso e colérico;

– Varuna, considerado o ordenador da ordem cósmica. De certa forma, as doenças são entendidas como o castigo pelo pecado cometido contra essa ordenação.

Por outro lado, os demônios são os principais causadores das doenças incuráveis:

– Nirrit, encarna a perdição;

– Grahi, o endemoninhado;

– Rakshas, especializado em abortos;

– Sitala, a deusa da varíola.

É possível que esses demônios estivessem relacionados a certas situações comuns e temidas: alteração de comportamento, excessiva agressividade, abortos e a varíola.

A relação entre a doença e o castigo divino é constante e muito estreita. Como em outras culturas escravistas, nos segundo e primeiro milênios a. C., Egito e Mesopotâmia, era comum o uso de amuletos para a proteção contra as doenças temidas e adereços voltados a sexualidade.

A maior parte das etiologias das doenças físicas estavam relacionadas à domínio das transgressões das normas de conduta social. Em extensas áreas geográficas da atual Índia, alguns aspectos desses antigos conceitos continuam vivos.

Esse processo contribuiu para que a formação do pensamento coletivo indiano atual em relação aos significados dos binômios saúde-doença e vida-morte tivessem marcas profundas da influência dos conceitos védicos contidos no Yajurveda. Por exemplo, o termo yaksma usado muitas vezes nos textos védicos, com o sentido de debilidade e caquexia, continua sendo utilizado na atualidade pela Medicina-divina indiana, com o sentido preciso de caracterizar as doenças crônicas como a tuberculose que exaurem cronicamente o organismo.

De acordo com a mitologia védica a Medicina teve origem divina. Ela foi revelada por Brahma a Prajapati, o senhor de todas as criaturas, que transmitiu aos Ashvin, os médicos gêmeos; estes, à Indra, o rei dos deuses e este último, a Divodasa, rei de Kâshi (atual Benares). Finalmente, o rei de Benares a ensinou aos homens mortais, revelando os segredos da Medicina aos médicos. Entre eles, estava o lendário médico indiano Sushruta.

É possível que entre esses personagens míticos, tenha existido autores reais que contribuíam para a transmissão do conhecimento médico historicamente acumulado. Um dos exemplos é o personagem semidivino Atreya, que é cantado em várias lendas ao longo de centenas de anos.

O médico Sushruta, o último da cadeia da origem mítica da Medicina da Índia antiga, escreveu o Sushrutasamhita ou Manual Médico de Sushruta. Esse tratado de Medicina, com pouco mais de novecentas páginas, nas edições modernas, é conhecido como Corpus Sushruta.

Provavelmente, o Sushruta-samhita já estava elaborado nos últimos séculos antes de Cristo. Aborda os diagnósticos e os tratamentos descrevendo, minuciosamente, as plantas com as respectivas modalidades de preparo. Está dividido em seis livros que tratam de:

– Clínica;

– Cirurgia;

– Higiene pessoal e coletiva, banhos e massagens;

– Doencas;

– Dieta e exercícios;

– Gravidez.

O segundo mais importante tratado médico da Índia antiga é atribuído a Charaka. De data posterior ao de Sushruta, é caracterizado pela pouca importância dada a cirurgia como forma de tratamento das doenças. O achado de vasilha especialmente destina à guarda de remédios, fortalece a idéia de que as práticas de cura estavam perfeitamente assentadas.

A semelhança dos conceitos é muito grande para ser somente uma mera coincidência entre a teoria grega dos Quatro Humores e a indiana dos cinco elementos. Um dos exemplos da confluência dos conceitos é a referência ao vento nas obras de Sushruta e a da Escola de Cós. No livro “Dos Ventos, Águas e Ares”, atribuído a vários autores, escrito em torno do século 4 a.C., na Grécia, existem pontos muito semelhantes as dos livros indianos.

O juramento que era feito pelos iniciados na Medicina, da Índia antiga, também guarda notável similaridade ao Juramento atribuído a Hipócrates. Os pontos doutrinários de ambos os juramentos são basicamente os mesmo:

– Dedicação plena às atividades de curar;

– Origem divina da Medicina;

– Resistência frente as tentações da sexualidade;

– Manutenção do segredo profissional;

– Obediência as normas sociais.

As rotas comerciais regulares entre a Índia e a Grécia, descritas por Estrabão e Plinio, e a presença dos gregos, bem documentada, a partir do século 4 a.C., quando sob o reinado de Dario, foi fundada a cidade de Barce, na região de Cirenaica, onde já florescia um importante núcleo de conhecimento médico, explicam as trocas dos conhecimentos entre as duas populações.

O tratado médico de Charaka Samhita, composto de oito livros, uma das mais extraordinárias produções da Medicina indiana, é apresentado em forma de um diálogo entre o mestre e discípulo, descreve impressionantes conhecimentos de cirurgias, especialmente a que utiliza um retalho de pele para a reconstrução nasal, até hoje conhecida como retalho indiano.

É possível que o desenvolvimento dessa técnica cirúrgica específica tenha sido conseqüência das pressões sociais exercidas pelo grande número de pessoas que sofreram a punição, resultando na amputação do nariz, como por exemplo, no adultério.

Sushruta explica o procedimento cirúrgico: da folha de determinada planta, cortava um pedaço do tamanho do nariz para moldar a exato formato do retalho de pele a ser utilizado na reconstrução plástica. Ao final, para possibilitar que o paciente respirasse, inseria dois pedaços de junco nas cavidades nasais.

O exame clínico compreendia procedimentos semelhantes aos da Medicina grega, notadamente, os recomendados pela Escola de Cós: a inspecão e palpação das partes do corpo e a ausculta do coração e dos pulmões.

As doenças eram atribuídas ao desequilíbrio dos três humores:

– Físico-espiritual;

– Bílis;

– Fleuma.

Várias doenças foram descritas com notável precisão, como a diabetes e a tuberculose. De igual modo, existem indícios de a malária ter sido associada ao mosquito e a peste, ao rato.

Os tratamentos eram divididos em:

-Clínicos:

– Purgativos;

– Enemas;

– Sangrias pela flebotomia e sanguessugas;

– Hidroterapia;

– Banhos de vapor;

– Inalações;

– Cerca de 760 plantas Medicinais foram descritas, inclusive a Atropa belladona a Rauwolfa serpentina como sedativo.

– Cirúrgicos:

– Cirurgia plástica, para reconstrução nasal ;

– Fístulas anais;

– Hemorródas;

– Tumores no pescoço;

– Amígdalas;

– Drenagem de abscessos;

– Amputações de membros;

– Má fomação congênita do lábio e palato (fissura lábio-palatina);

– Hérnias;

– Cálculos vesicais;

– Catarata;

– Cesariana era praticada com grande precisão, de modo a salvar tanto a mãe quanto o filho;

– Retirada de feto morto retido: quando o feto já estava morto, no útero materno, era realizado o cuidadoso desmembramento através da vagina, com a finalidade de evitar o risco representado pela abertura do abdômen materno;

– Mudança da posição fetal por meio de manobras intra-uterinas para facilitar o parto

Além desses procedimentos cirúrgicos, o livro descreve o tipo e a profundidade de incisão mais recomendada. A delicadeza dos instrumentos cirúrgicos voltados à diérese e a síntese, reforçam a convicção de que a cirurgia fazia parte integrante das práticas de cura:

– Nos abscesso deveria ter dois dedos de profundidade;

– Sempre na direção das cavidades;

– Em certas áreas específicas, como pálpebras, bochechas, têmporas, lábios, axilas, deveriam acompanhar as pregas naturais;

– Direção transversa, nas para as regiões palmares;

– Circulares e semicirculares, para o ânus e o pênis;

– No término da cirurgia, a área deveria ser lavada com morna;

– Uso de retalho de linho como drenos nos abcessos que deveriam ser retirados após três dias;

– Renovação diária dos curativos;

– Imobilização das fraturas e das luxações

O médico indiano utilizava grande variedade de instrumentos cirúrgicos:

– Fórcepes;

– Especulos;

– Escalpelos;

– Tesouras;

– Serras;

– Agulhas curvas e retas para sutura;

– Cautérios;

– Seringas;

– Drenos.

De modo sistemático, as mudanças uterinas na gravidez foram abordadas nos textos médicos hindus, particularmente, a circulação materno-fetal. Do mesmo modo, chamaram a atenção para a influência que o modo de vida materno poderia interferir na saúde do recém-nato: a mulher grávida violenta e mal humorada, poderia produzir um epilético; a ingestão de bebidas alcoólicas durante a gravidez, provocaria o nascimento de crianças debilitadas; os excessos sexuais, causaria a homossexualidade.

As normas de higiene desempenhavam, pelo menos entre as camadas mais abastadas ou as próximas do poder político-militar, papel muito importante. De acordo com as leis de Manu, as prescrições higiênicas eram rigorosas e as lavagens do corpo formaram parte dos ritos religiosos.

Entre as recomendações, destacam-se:

– Higiene das mãos e da boca após cada refeição;

– Banhos completos do corpo após contatos com coisas sujas ou pessoas que apresentassem sinais de doença;

– Excrementos e água servida deveriam ser removidos, imediatamente, para fora de casa;

– Maior higiene das mulheres nos períodos menstrual e perpério;

– Lavagem dos olhos com água limpa;

– Dieta mais vegetariana;

– Cremação dos mortos;

– Punição severa do alcoolismo;

Devido a importância no conjunto normativo da Índia antiga, entre os séculos 2 a. C e 2 d. C., as Leis de Manu, semelhante ao código de Hammurabi, na Mesopotâmia, também ordenaram os procedimentos médicos, punindo os erros médicos e obrigando o pagamento dos serviços profissionais.

O processo formador do médico consistia, em grande parte, memorizar e receitar as recomendações prescritas nos textos védicos.

Parece lógico supor que somente a parcela mais abastada da população, aquela que poderia aprender a ler, estaria apta a receber esse treinamento teórico. Os exercícios práticos consistiam nas visitas aos enfermos, reconhecimento das plantas Medicinais, preparo dos medicamentos e a realização das técnicas cirúrgicas em animais mortos, frutas e bolsas de couro. Quando o mestre considerava que o discípulo estava preparado, apresentava-o ao governante, para receber a anuência da administracão, como requisito indispensável, sem o qual o aprendiz não poderia ser considerado médico.

O compromisso final do estudante assemelhava-se muito ao juramento hipocrático grego:

“Dedica-te por inteiro a ajudar ao enfermo, mesmo a custo de tua própria vida. Nunca agraves o enfermo, nem sequer com o pensamento. Esforça-te sempre em aperfeiçoar teus conhecimentos. Não trates as mulheres se não em presença de seus maridos. O médico observará todas as normas do bem trajar e da boa conduta.”.

 

Leitura complementar

 

BOTELHO, João Bosco. Medicina e religião: conflito de competência. 2ª Ed. Manaus. Valer. 2005.

BOTELHO, João Bosco. História da Medicina: da abstração à materialidade. Manaus. 2a. Valer. 2010.

Botelho, João Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte. Manaus. Valer. 2008.

BOTELHO, João Bosco. Arqueologia do prazer. Manaus.Metro Cúbico. 1992.

BOTELHO, João Bosco. Os limites da cura. São Paulo. Plexus. 1998.

BOTELHO, João Bosco. O Deus-genético. Manaus. EDUA. 2000.

BOTTÉRO, Jean. La magie et la médecine règnent à Babylone. In: Les maladies ont une histoire. L’Histoire/Seuil. Paris. 1984.

Bouzon, E. O Código de Hammurabi. 3. ed. Petrópolis: Vozes. 1980.

Kramer, Samuel Noah. L’Histoire commence à Sumer. Paris Arthaud. 1986. Le Goff, Jacques & Sournia, Jean-Charles. Les maladies ont une histoire. L’Histoire. Paris: Seuil. 1985. Lyons, Albert S. Petrucelli, R. Joseph. Histoire ilustrée de la médecine. Paris: Presses de la Renaissence. 1979. Zaragoza, Juan R. La Medicina de los pueblos mesopotámicos. In: Entralgo, Pedro Lain. História Universal de la Medicina. v. 1. Madri: Salvat. 1981.

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