Doenças: em busca do invisível aos olhos

Doenças: em busca do invisível aos olhos

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

O médico Marcelo Malpighi (1626-1696) trouxe a doença da macroestrutura para a microestrutura e ofereceu novo norte à Medicina. Para ter idéia do valor das idéias de Malpighi é indispensável saber que a maior parte das ações de saúde, na atualidade, é alicerçada no diagnóstico micrológico dos tecidos, isto é, a busca da infecção ou do tumor.

O médico italiano foi auxiliado por algumas variáveis importantes. Além do estímulo coletivo de busca do invisível atrás da pele que contagiou a Europa renascentista, os primeiros estudos da óptica foram fundamentais para que pudesse ser montado o microscópio. A importância do uso das lentes de aumento, na Medicina, pode ser comparada ao vapor como fonte de energia para o desenvolvimento da indústria.

O conjunto das novas observações consequentes da utilização do microscópio foi tão grande e em espaço de tempo tão pequeno, que se formaram muitas associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas em torno da microestrutura do corpo humano. Entre as aplicações imediatas das novas observações é possível destacar a identificação do ácaro como agente causador da sarna. Essa doença da pele, conhecida desde os tempos bíblicos, estava incluída entre as doenças aceitas como contagiosas, mas até então não se tinha explicação para a transmissão. A identificação do ácaro tornou-se a primeira comprovação de que o microorganismo podia ser a causa de uma doença.

O entusiasmado pressuposto de que todos os problemas da saúde seriam resolvidos pelas “demonstrações visíveis” acabou engendrando o distanciamento entre o médico e o doente. Muitos dos valores da relação médico-pacientes foram atingidos pelos aparelhos postos entre ambos. A crítica da Medicina mecanicista atingiu consolidação adequada com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689). Nos últimos anos da sua vida, esse médico genial defendeu arduamente a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.

Existe incrível atualidade nessa questão. A persistência da atitude mecanicista dominando os rumos das ações de saúde coloca por terra o papel humano e de agente de transformação social que o médico deve ter.

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Medicinas de Galeno e Sorano

Medicinas de Galeno e Sorano

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Após a terceira guerra púnica, os romanos consolidaram o vasto império no Mediterrâneo. O espírito legislador romano não deixou de organizar as atividades médicas. As obrigações dos médicos eram estipuladas pelo Estado que pagava pelos serviços profissionais e, sob o império de Adriano, no século II, a maior parte das cidades dispunha desse profissional.

Possivelmente em consequência dos atritos entre os médicos e a população, em torno do século IV, a profissão passou a ser fiscalizada com rigoroso exame de proficiência. O império romano subvencionava os estudantes de Medicina, mas em troca eram obrigados a prestar assistência aos pobres. Os médicos foram proibidos de praticar o aborto e negar o atendimento a qualquer doente, sob risco de castigo corporal e multa. Nessa mesma época, sob o império de Diocleciano, em 300, um édito do Imperador impunha como condição para entrar na escola de Medicina a apresentação de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade de origem.

Cícero identificara alguns médicos que exerceram diferentes especialidades: “Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os cílios que irritam os olhos; Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos; e Hermes goza de fama de ser o Podalírio das hérnias”.

Galeno e Sorano são considerados, estão entre todos os médicos romanos, como os que mais influenciaram a Medicina nos quinze séculos seguinte.

Cláudio Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130. As suas obras, a maioria perdida, abordavam a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica.

Sorano de Éfeso dedicou-se de modo mais marcante à obstetrícia. Entre as suas produções, destaca-se o “Manual de Ginecologia”, onde esse médico genial descreve com absoluta precisão as posições anormais dos fetos no útero grávido.

Esses médicos extraordinários viveram no Império Romano, no período em que já estava funcionando o competente sistema público de atenção à saúde. A preocupação com a saúde pública era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas estabelecia normas para o abastecimento de água potável, construção dos esgotos e o sepultamento e a queima dos cadáveres fora dos muros da cidade.

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