Disciplina Epistemologia da Saúde

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

Um dos pontos mais complexos no âmbito das trocas e paixões humanas é por que e como se processou o ordenamento, visando à submissão, no seio das sociedades. Todavia, existe um ponto comum: tem sido obtida com o mais forte oferecendo o prazer aos aliados e aos resistentes, a dor.

Contrapondo-se aos outros carnívoros, os humanos têm desejos filogenéticos funcionais, nem sempre adequados à rigorosa obediência ditada pela sociedade urbana. O cerne disciplinador pode ter surgido em torno da exigência de domar as múltiplas condutas, variáveis entre a unicidade libertária e a atração tutelar. Essa diversidade, exercida pelo homem e pela mulher, sempre representou obstáculo para a ordem consensual.

Traçadas pela ficção, em consonância com as memórias-sócio-genéticas, tanto no espaço profano quanto no sagrado, as regras foram organizadas através daquilo entendido, pelos dominantes legisladores, como significantes reais e alegóricos do deleite — gerando prazer — e do infortúnio — causando dor. Sob essa égide, pensamento e conhecimento conjugam-se em fina sintonia.

Os corpos vivos, dos espongiários aos mamíferos, são recobertos por tecidos especializados, em muitos milhões de anos, para reagir às agressões externas de origem física, química ou biológica. Nos cordatos (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), com maiores e melhores meios para mudar a posição do corpo, a fuga da dor por meio do movimento corporal adquiriu importância fundamental na conservação da vida e reprodução da espécie.

As peles que revestem os corpos desses animais com coluna vertebral, possuem incontáveis estruturas moleculares específicas, interligadas pelas vias sinápticas aferentes vertebrais, fixando as porções corporais mais periféricas ao sistema nervoso central, encarregadas de detonar os alarmes inatos contra a dor (terminações nervosas livres), o frio (corpúsculos de Krause) e o calor (corpúsculos de Ruffini). Do mesmo modo, as sensações agradáveis são recebidas pelos mesmos elementos e identificadas, no córtex cerebral, como prazer.

Enquanto a dor induz a repulsa, o prazer aciona os mecanismos neurológico-musculares para afrouxar as tensões. A ontogênese, repetindo a filogênese, formou-se com a prioridade de enfrentar o sofrimento e receber, com harmonia, as sensações prazerosas.

Não há dúvida do quanto é evidente como a dor lacerante contribui para alterar as emoções, deter e amedrontar qualquer ser vivo multicelular.

Nesse extraordinário processo humano, edificado para fugir da dor e aproximar do prazer, como um dos principais pilares da conquista do planeta, está inserido a luta atávica para compreender e vencer a doença, na medida em que ela tem representado, ao longo de milhares de anos, o mais importante fato material, nem sempre visível, causador de dor física no próprio corpo. Aliada à dor física pessoal, no coletivo, a dor histórica representando o grito humano pela vida, pela liberdade e pela dignidade, rompem as correntes que prendem o homem e a mulher ao sofrimento.

A Medicina, enquanto especialidade social, tem respondido a essa determinação de fugir da dor ou da ameaça do sofrimento: é possível identificar o conjunto de ações e saberes dirigidos para diminuir a abstração e aumentar a materialidade com o objetivo de apreender a saúde e a doença. Por outro lado, ao longo desse processo, não há como duvidar que tanto essa abstração quanto essa materialidade, muitas vezes sem poder diferenciar onde começa uma e termina a outra, tem contribuído para diminuir a dor pessoal e coletiva.

Este livro, como uma proposta teórica, trata desse tema: a fantástica persistência humana para diminuir a abstração e aumentar a materialidade da saúde e da doença com o objetivo de reproduzir os saberes para controlar a dor, por meio de, no mínimo, três determinantes oriundas do conhecimento historicamente acumulado:

  1. Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;
  2. Estabelecer os parâmetros do normal e do patológico;
  3. Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor e da morte.

 

Simultânea e constantemente, durante o mesmo período, outro conjunto de pensamentos e ações expressos por pessoas que expressam idéias e crenças religiosas organizadas, na maior parte das vezes, em torno das religiões politeístas e monoteístas, têm defendido manter a abstração na abordagem da saúde e da doença. Desde o passado muito distante, não pode ser, exclusivamente de ordem social, a constância desse aspecto da compreensão pessoal e coletiva da cura das doenças, isto é, a certeza de elas poderem ser tratadas pela ação divina, de modo instantâneo, mudando as normas das relações físicas entre os corpos. Por essa razão, defendemos as determinantes teóricas — memórias-sócio-genéticas — como vetores físicos corporais capazes de manter o processo atávico de fuga da dor.

Pela imensa grandeza biológica, já que respondem pelos mecanismos natos e sociais de sobrevivência, as memórias-sócio-genéticas estão distribuídas no genona e não em alguns genes específicos. Como constituem parte da herança filo e ontogenética, são ser divididas:

  1. Memórias-sócio-genéticas pré-neocortical, oriunda da filogenia comum, presentes nos animais sem neocórtex;
  2. Memórias-sócio-genéticas neocortical, processadas durante a ontogênese, exclusiva dos animais que possuem neocórtex.

O movimento social em torno da fuga da dor, durante o processo histórico que proporcionou o sedentarismo dos nossos ancestrais, com clara participação das memórias-sócio-genéticas, delimitou três tipos de Medicinas — divina, empírica e oficial — todas mantendo agentes específicos:

  1. Medicina divina: deuses e deusas taumaturgos;
  2. Medicina empírica: homens e mulheres que acreditam possuir o dom de curar, sempre ligado às crenças e idéias religiosas;
  3. Medicina oficial: médicos.

Enquanto as Medicinas divina e empírica, muitíssimo mais antigas, oriundas na pré-história, mantidas pelo pensamento religioso, admitem a doença de natureza sagrada e somente o tratamento também sagrado seria efetivo, a Medicina oficial, com registro a partir das primeiras cidades, articula-se ao processo social por meio de propostas teóricas para desvendar a materialidade da doença.

Não há como negar, no passado e no presente, nos quatro cantos do planeta, a significativa presença de homens e mulheres, distribuídos nas camadas sociais dos mais ricos e dos mais pobres,  que valorizam de modo exclusivo a abstração e acreditam poder mudar, instantaneamente,  as leis físicas que regem as relações entre os corpos e as coisas, interrompendo o curso de certas doenças  e empurrando  os limites da dor e da morte. Infelizmente, mesmo com a presença de incontáveis pessoas que procuram e acreditam na veracidade dessas ações para curar os sofrimentos, não tem sido possível a reprodução em laboratórios, sob condições controladas, desses saberes anexados às crenças e idéias religiosa.

Entre muitos aspectos e conflitos da ordem e da desordem da História da Medicina, é possível identificar com clareza que esse processo histórico de aquisição dos conhecimentos, com o objetivo de controlar a dor e empurrar os limites da morte, tem se desenvolvido, ora valorizando menos, ora valorizando mais, a materialidade da saúde e da doença.

Finalmente, também não há dúvida de que os pequenos e contínuos avanços obtidos ao longo da História da Medicina, para melhor compreender as doenças, só têm sido possível a partir da melhor compreensão do significado da materialidade — busca da dimensão da matéria onde o normal se transformaria em patológico.

 

 

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As epidemias – da peste a Aids- o medo coletivo da morte I

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

“Dizem que a doença começou na Etíopia, além do Egito, e depois desceu para o Egito e para a Líbia, alastrando-se pelos outros territórios do Rei. Subitamente ela caiu sobre a cidade de Atenas, atacando primeiro os habitantes do Pireu, de tal forma que a população local chegou a acusar os pelopenésios de haverem posto veneno em suas cisternas. Depois atingiu também a cidade alta e a partir daí a mortalidade se tornou muito maior. Médicos e leigos, cada um de acordo com sua opinião pessoal, todos falavam sobre a sua origem provável e apontavam causas que, segundo pensavam, teriam podido produzir um desvio tão grande nas condições normais da vida (…).

TUCIDES. História da Guerra do Peloponeso. 2 ed. Brasília, ed.UNB. 1986, p.102.

Brasiília, ed. UNB. 1986, p.102.

Esta impressionante descrição de Tucídides da epidemia que assolou a cidade de Atenas, entre os anos 430 e 427 a.C. na Grécia Antiga, constitui o primeiro relato das relações do homem com a ameaça da sobrevivência coletiva por doença de causa desconhecida.

Até hoje, 2414 anos depois, o comportamento do homem guarda fortes vestígios da sua herança social das grandes epidemias.

Em diferentes épocas nos últimos milênios, as epidemias apareceram, espontânea ou propositalmente, e deixaram nos seus rastros a desolação, a morte e o medo coletivo.

Durante longo tempo as epidemias foram grupadas em torno da palavra Peste. Encontram-se numerosos registros históricos a partir do II milênio a.C., entre os egípcios, os hititas e os chineses da ocorrência de diferentes epidemias, algumas delas relatadas com muita precisão, possibilitando a identificação da doença.

Não se tem dúvida de que o aparecimento das pestes foram associadas, possivelmente, pelos médicos sacerdotes, com vontade divina, como forma de aumentar o poder do controle social.

No Antigo Testamento encontramos numerosas referências das epidemias sob diferentes designações: calamidade, fome, dilúvio, fogo, doenças e outras. Todas simbolizando a mortalidade de um número grande de pessoas em curto espaço de tempo vitimado pela mesma causa.

A partir das últimos livros do judaísmo (Sb 10-19; DI 9,24-27), passando pelos Proferas (Ez 14;21 e Is 24), chega até as pragas do Egito (Ex-7-10).

Em todas estas passagens bíblicas o sentido da peste é claro: representa o castigo de Deus aos homens impuros e a proteção aos eleitos Dele.

O homem sempre fez, mesmo entorpecido pela interpretação mítico religiosa, a associação do aparecimento das epidemias com alguns insetos e roedores, como a mosca, o gafanhoto, o mosquito e o rato. Milhares de anos antes da demonstração racional da ligação destes animais coma cadeia de propagação das epidemias, foram registrados inúmeros depoimentos da importância deles no aparecimento das doenças epidêmicas.

Na realidade, a ocorrência das epidemias sempre acompanhou o homem na sua luta pela sobrevivência e de conquistas dos novos espaços.

Na alta Idade Média, a ocorrência da peste negra foi descrita com absoluta precisão por Gregório de Tours, no século IV, apesar da sua interpretação religiosa da doença com os desígnios de Deus Esta epidemia varreu a Europa até o fim do século VIII, em ritmo cíclico de agravamento e atenuação, ocasionando a desorganização social e econômica de dezenas de cidades.

Foi a epidemia do século XIV, entre 1348 e 1351, uma das que mais marcaram a humanidade pelo medo da doença e da morte coletiva.

Essa peste negra começou na Ásia Central e se propagou pela rota das caravanas no norte do mar Cáspio. Em fins de 1347 chegou a Constantinopla e daí em toda a Europa.

É difícil imaginar hoje a extensão da mortalidade de homens e animais ocorrida na Europa em conseqüência da peste negra nestes três anos. O testemunho de Simon de Cevino é eloqüinte: “O número de pessoas enterradas foi maior do que o número de vivos; as cidades estão despovoadas, milhares de casas estão fechadas a chave, milhares têm as portas abertas e desabitadas; estão repletas de podridão”.

Acredita-se que nesse espaço de tempo, entre 1348 e 1351 a Europa perdeu entre um terço e a metade dos seus habitantes vitimados pela peste negra.

Nessa fase do processo de desenvolvimento do homem europeu o cristianismo já tinha fixado a sua base doutrinária e contribuiu decididamente para a formação da idéia de que o aparecimento da peste estava associada com a vontade divina para castigar os pecados dos homens.

O mais impressionante deles, foi a suposição de que a AIDS teria sido produzida em um laboratório do Exército americano e no Centro de pesquisa de Guerra Biológica em Ford Detrick, Maryland. Em conseqüência da quebra da segurança, foi disseminado.

Na realidade, a busca dos culpados tem a mesma finalidade da que motivou, em 1630, a prisão e a morte sob tortura do barbeiro Mora de Milão. Durante o processo foi acusado de possuir um ungüento misterioso. A sua casa foi derrubada e em seu lugar foi erguida a coluna da infância, para assinalar às gerações futuras o terrível crime do barbeiro de Milão.

Este trágico acontecimento foi registrado na literatura por Manzoni (1785-1873) no seu livro Os Noivos, através de um apêndice A história da coluna infame.

Hoje, sabe-se, que o vírus da AIDS não é o único. É muito provável que existam dezenas de variedades mutantes. Em novembro do ano passado, um grupo de pesquisadores declarou a descoberta da Quarta variante do vírus, denominada HTLV- 4, que apesar de Ter a estrutura de DNA semelhante ao HTLV-2,  não tem o mesmo potencial de agressividade biológica no homem.

Os últimos estudos epidemiológicos publicados mostram que a África negra está severamente contaminada pela AIDS. A proporção atinge a inquietante cifra de 25% do total de pessoas, independente do sexom idade ou hábitos sexuais. De todos os países, o Zaire é atualmente o mais atingido. Para o povo deste país a AIDS é “uma imundice trazida pelos brancos”.

Hoje, nos Estados Unidos, já foram diagnosticados 274.000 casos de AIDS  e os órgãos de controle da Saúde Pública calculam que até 1990, morrerão 179.000 americanos em conseqüência da doença. A partir desta data a AIDS matará por ano mais do que a guerra do Vietnã, na qual morreram 58.000 americanos.

Na África estes números podem ser multiplicados por quinze ou mesmo por vinte e constituirá mais uma tragédia para a sobrevivência humana negra no continente africano.

O Brasilm, de deter cifras recordes de níveis de subdesenvolvimento social, já ocupa o quarto lugar em número de casos de AIDS  já diagnosticados, figurando abaixo somente dos Estados Unidos, França e Canadá.

A igreja Católica, através de seus membros ilustres, já associaram publicamente a AIDS com a degenerescência mora, inversão sexual, a troca de parceiros e uma interminável lista de atos condenados pela legislação divina que são os responsáveis pela rápida propagação do vírus e conclui: É Exatamente no desrespeito à moral católica que vamos encontrar o maior foco de propagação da AIDS, Entre as sombras, provocadas pelo pecador, vemos o brilhar da grandeza e a atualidade dos ensinamentos de Cristo. (dom Eugênio de Araújo Sales, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. JB, 31.1.87).

O que esta exclusivo de um pequeno grupo de risco limitado aos homossexuais, hemofílicos e usuários de drogas injetáveis, agora existe a certeza que ela pode ocorrer em qualquer pessoa, mesmo as que não apresentam dentro da moral ocidental nenhum desvio do comportamento sexual e social.

Em relatório distribuído pela Organização Mundial da Saúde, está clara a recomendação: “se deve falar da doença a todas as crianças que já tinham ou não risco de serem contaminadas mais rapidamente devem se envolver na campanha de esclarecimento. A AIDS não é mais a preocupação de apenas um segmento da sociedade. É uma preocupação de todos nós”.

Apesar dos vultosos recursos destinados à busca do tratamento eficaz, a medicina atual não tem muito a oferecer aos pacientes com AIDS.

Ao contrário das doenças transmitidas pelas bactérias, onde os antibióticos são muito úteis na maioria dos casos, no caso das viroses, como a AIDS, os recursos de tratamento são absolutamente ineficazes. Foram desenvolvidos na última década algumas substâncias que inibem o crescimento do vírus, como HPA23 ( Tungsto-Antimoniato de Sódio), o Suramin, o Ribavarin, o Interferon Alta e a Azidotimina (AZT) do ponto de vista prático, eles são tão utéis quanto foram os  misturados de osso  de crânio com pó de ouro usado no tratamento da Peste Negra do século XIV.

Apesar dos progressos tecnológicos que permitiram o vírus causador da AIDS dois anos depois da identificação clínica do primeiro doente, ao contrário da Peste Negra, cuja bactéria só foi identificada no século XIV, 1600 anos depois do primeiro registro histórico que nos chegou, os envolvimentos emocionais do homem não são muito diferentes do relatos de tucídes e os contidos nas crônicas medievais. Os conflitos, amores, ambições, mágoas e esperanças são muito semelhantes.

Já estamos vivendo a realidade dos relatórios de prospecção da epidemia para o ano 2.000. O Ministério da Saúde dos Estados Unidos afirma que morrerão 100 milhões de pessoas até o ano de 2.000. É bom lembrar que para a consolidação deste quadro faltam somente 13 anos e que a população do Brasil é em torno de 130 milhões de pessoas.

Com todo esse Panorama desolador, aonde até hoje não tem qualquer indício de tratamento eficaz, a Igreja Católica  criticou a campanha iniciada em Minas Gerais, pela linguagem clara da abordagem dos hábitos sexuais. É impressionante como, séculos depois da Peste Negra, o clero continua a insistir no castigo divino. A AIDS NÃO É UM PROBLEMA MORAL, É VIRÓTICO.

É muito importante que mesmo sabendo da atual seriedade da disseminação geométricas da AIDS não esqueçamos que no Brasil morrem 500 mil crianças por ano de doenças infecciosas e parasitárias, há 70 mil casos de Sarampo, 2 mil de Coqueluche e Tétano, 3 mil de Difteria. Os chagásicos são 5 milhões e alcançam mais de 500 mil novos casos de Malária por ano. Todos estes números, mais assustadores que os da AIDS, por representarem a situação atual, não causam comoção coletiva. Chegam a passar silenciosamente pela consciência pública.

Não é difícil pensar que aliado a real gravidade para a saúde pública que a AIDS representa, já exista interesses políticos econômicos inconfessáveis começam a atuar nos mecanismos coletivos de controle social. Infelizmente, não seria a primeira vez.

 

 

As epidemias – da peste a Aids – o medo coletivo da morte (II)

 

“(…) As vezes a morte decorria da negligência, mas de um modo geral ela sobrevinha apesar de todos os cuidados. Não se encontrou remédio algum, pode-se dizer, que contribuisse para o alívio de quem o tomasse – o que beneficiava um doente prejudicava outro – e nenhum compleição foi por si mesma capaz de resistir ao mal, fosse ela forte ou fraca (…) Mas o aspecto mais terrível da doença era a apatia das pessoas atingidas por ela, pois seu espírito se rendia imediatamente ao desespero e elas se consideravam perdidas, incapazes de reagir (…)”.

TUCÍDIDES. História da guerra do peloponeso, 2. ed. Brasília, ed. UNB. 1986, p.104.

Novamente recorremos a Tucídides para exemplificar a luta desesperada do homem para sobreviver as agressões biológicas do meio. Este relato foi feito entre os anos 430 e 427  a.C. na cidade de Atenas na Grécia.

Quando entre outubro de 1980 e maio de 1981, os Centros para Controle de Doenças (CCD) dos Estados Unidos receberam a notificação da ocorrência de vinte e seis casos de sárcoma de Kaposi ( uma das muitas formas de manifestação de um grupo de doenças designadas pela palavra CÂNCER), jamais poderiam imaginar que estava sendo aberta a porta de nova ameaça a sobrevivência da espécie humana: a AIDS (ACQUIRED IMMUNODEFICIENCY SINDROME).

A revisão dos priontuários médicos dos doentes mostrou dois pontos coincidentes em todos eles: tratava-se de pessoas que moravam de New York e Los Angeles além de serem todos homossexuais masculinos.

Os estudos laboratóriais imediatos mostraram que se tratava de uma nova forma de doença, até então desconhecida, que tinha como principal característica a diminuição das defesas naturais do organismo infectado. Em conseqüência, o sistema imunológico não oferecia qualquer resistência às infecções, levando ao aparecimento de graves e resistentes formas de infecção que evoluia para o óbito em todos os casos estudados.

As manifestações clínicas mais comuns da nova doença eram o aumento do volume dos linfonodos periféricos (ínguas), diarréia  crônica, febre, perda de peso e infecções graves de evolução rápida.

A partir dessa data, centenas de novos casos foram descritos em todos os continentes, com absoluto predomínio nos Estados Unidos, Europa Ocidental e África Equatorial.

No Brasilm, a primeira notificação foi registrada em setembro de 1982 e desde então os casos tem aumentado em proporção alarmante e 80% deles no eixo Rio- São Paulo

A descoberta do vírus responsável da AIDS foi feita dois anos depois do reconhecimento da existência da doença. Foi feita, quase simultaneamente, por BARRE- SINOUSSI do instituto Pasteur, em Paris e por ROBERT GALLO do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos. O vírus isolado recebeu a denomina”cão de HTLV (HUMAN T LEULEMIA LYMPHOMA VIRUSES).

Os vírus são partículas muito pequenas (dentro de uma célula podem se instalar centenas de vírus) e incapazes de realizar sozinhos as suas funções vitais. Por esta razão penetram no interior das células de vegetais e de animais para apropriar-se do mecânismo da síntese das proteínas, que lhes garante a reprodução.

Inicialmente, a partir do estudo retrospectivo dos casos confirmados, foi possível confirmar que mais de 90% do total estava distribuídos entre homossexuais masculino, hemofílicos, bissexuais masculinos e usuários de drogas injetáveis. Este grupo passou a ser considerado como de grande risco, isto é, eram os mais susceptíveis em adquirir a doença.

Seis anos depois do diagnóstico do primeiro doente, a AIDS é notícia diariamente em todos os jornais do Mundo. A leitura atenda destas informações, obrigatoriamente nos dirige a atenção nos sentido de confirmar que a reação coletiva, sob alguns aspectos, não difere muito dos relatos descritos ao longo dos séculos que o homem conviveu com a peste negra.

A partir da leitura do Apocalipse de São João Apóstolo no Novo Testamento, foi possível estabelecer as “provas” do furor divino contra os pecadores. Os judeus, os feiticeiros, ciganos, bruxas e leprosos foram supliciados e queimados vivos como tentativa de acalmar a fúria divina.

Dois séculos mais tarde, com a chegada de Cortez no México, a população nativa da América sofreu um dos maiores genocídios que a humanidade tomou conhecimento. Milhares de pessoas morreram em poucas semanas depois de terem contraído a varíola trazida por um escravo negro do exército de reforço que Cortez recebeu em 1520.

Rapidamente os conquistadores perceberam que a varíola era a sua maior aliada. Com o apoio dos reis católicos da Espanha, a horda européia promoveu a disseminação da doença nas Américas.

De acordo com cálculos aproximados, a população autoctone do México era de 25 milhões de pessoas em 1519 e ficou reduzida para um milhão em 1605.

Novamente, a Europa sofre nova investida da peste negra a partir de 1630. Foram as quatro maiores cidades da época as que mais sofreram: Milão, Paris, Londres e Marselha.

Uma vez mais, os homens desesperados e ameaçados na sua sobrevivência coletiva, atribuiram a causa da peste negra a pessoas que possuíram ungüentos misteriosos e que quando bessuntados nas paredes das casas eram capazes de promover a disseminação da peste. Foi iniciada, com a autorização das autoridades, a caça aos culpados, Centenas de pessoas foram sentenciadas por tribunais populares, queimados e enforcados depois de confissão sob tortura.

Foi em Londres, a partir de 1670, que começou o controle efetivo da epidemia. Foi decretado o isolamento compulsório de todas as famílias onde havia doente ou suspeitos de estarem com a peste. Foram nomeados inspetores de saúde que visitavam as casas e assinalavam aonde existiam doentes, além de fiscalizarem o confinamento.

A epidemia continuou em pequenos surtos localizados até 1830, quando começaram a surtir efeitos das medidas higiênicas tomadas. O esforço concentrado dos governos envolvidos possibilitou o isolamento do vibrião colérico por Pacini em 1854, e o bacilo de Yersin, em 1894.

Estava demonstrado pela racionalidade dos conhecimentos científicos que a peste negra, como todas as doenças do homem, nada tem de divino. Ela constituiu somente um, entre muitos obstáculos, que o homem venceu na sua luta pela sobrevivência no planeta.

Os estudos das fontes históricas não cristãs, principalmente das obras de Filon de Alexandria, Flavio Josefo e Justo de Tiberíade, reforçam o pensamento de que as relações entre a medicina e o cristianismo primitivo se fizeram baseadas principalmente na herança cultural dos judeus e de outros povos escravos que viveram próximos do centro de influência da nova religião.

O cristianismo primitivo cresceu à custa de um conjunto de circunstâncias que estavam presentes numa sociedade escravista atuando com enormes pressões econômicas e políticas.

A nova entidade religiosa representou uma das principais manifestações da crise social em curso. No seu início, traduziu contra a ordem vigente. Esse sentido está absolutamente claro no Didaque ( doutrina dos doze apóstolos) que exigia a libertação dos escravos e protestava contra a ordem vigente. Culminou com o tom inconciliável do Apocalipse de São João que condenava o poder de Roma e previa o seu fim próximo (Ap.17,15-18 e 18,1-3).

A prática médica no cristianismo primitivo deve Ter seguido rigidamente os preceitos míticos do Velho Testamento até a sua ruptura com o judaísmo. Esta nova fase deve Ter começado a partir da recusa dos judeus cristãos de se envolverem na guerra messitânica contra os romanos no ano 66. A importância deste acontecimento não passou desapercebido de Eusébio ( História eclesiática, III, 5,3).  As autoridades militares romanas evacuaram alguns para Pela, na Transjordânia, outros se refugiaram nas cidades da Síria, da Ásia Menor e em Alexandria. O resultado final foi a desvinculação dos cristãos com o destino nacional de Israel e maior difusão dos seus ensinamentos.

Até fosse elaborada a estruturas teórica da religião cristã, o Velho Testamento foi o seu suporte ideológico. A doença se apresentava como resultado do castigo divino pelas transgressões morais cometidas ( Ex.4,6; Jo 16,12; Sl 39,11 e outras) ou como um mal que nas promessas escatológicas será suprimido no novo mundo que Deus dará aos homens ( Is 35,5; 25,8;65,19 e outras). Porém, no judaísmo pós exílio aparece mais a ação dos demônios e espíritos maléficos como os grandes responsáveis pelo aparecimento das doenças.

As atenções médico míticas do Velho Testamento reproduzem as antigas politeísmo. As doenças, lepra, loucura, cegueira e paralisia, descritas como sendo de origem divina, são as mesmas e com o mesmo sentido, descritas nas sociedades que povoavam aquela região antes do aparecimento do judaísmo.

É interessante notar que o Velho Testamento não proíbe o recurso médico formal  (2R 20,7 e Tb 11,8-11) e o emprego de certos remédios (Is 1,6;Jr 8,22 e Sb 7,20), contudo ao mesmo tempo afirma: “Antes de tudo, A Deus que se deve recorrer, pois ele é o Senhor da vida”(Si 38,9-14), “Ele é quem fere e quem cura” (Dr.32,29) e “Ele é o médico por excelência do homem”.

A gradativa consolidação do cristianismo como nova religião foi uma das conseqüências das alianças políticas como o poder de Roma.

A sua separação do judaísmo foi fundamental. Este divórcio ficou ligado na literatura eclesiática ao nome de São Paulo, que no Novo Testamento é caracterizado como apóstolo dos pagãos (2,2)

Sem pormenorizar as contradições históricas dos evangélicos, Jesus apareceu inicialmente como Deus feito homem e como Messias, o Salvador anunciado pelos profetas hebreus do Velho Testamento.

A profecia rezava que a chegada do Messias redimiria o povo de Israel. Nada disto se materializou e a situação dos judeus agravou-se durante e depois da revolta contra os romanos.

Mesmo tendo nascido no meio da nação judaíca, o cristianismo enorme resistência do judaísmo. Esta oposição aumentou na medida em que os cristãos assimilavam rapidamente os elementos das outras religiões, inclusive alguns ritos e festas pagãs.

Depois da Segunda e última revolta dos judeus, sob a liderança de Bar-Kocheba, entre os anos 132-136, ocorreu o definitivo afastamento entre as duas religiões.

No local do santuário de Iahvé , os romanos ergueram em Jerusalém um templo para Jupiter. A seguir, as autoridades sobretaxaram os judeus para a conservação deste santuário.

Para que a separação entre o judaísmo e o cristianismo fosse efetivada, começou a elaboração, por este último, de um conjunto normativo as proibições. Um dos primeiros ritos judaícos abolidos foi o da circuncisão. A salvação só poderia ser alcançada com a desobediência da aliança feita entre Abraão e Deus  (Gn 17,9-14;21-24).

Seguiu-se com o tom violento da Primeira Epístola aos Tessalonicenses que afirma,  pela primeira vez, a acusação contra os judeus de tem crucificado Jesus (1 Ti, 2,15). Foi com base neste veredito que os representantes da Igreja, ao longo de diferentes períodos, perseguiram os judeus,

A conseqüência da interrupção desse rito entre os cristãos foi comprovada nas estatísticas médicas de mil e setecentos anos depois. Os homens que não são circuncisados nos primeiros meses de vida pagam um maior preço na incidência dos tumores malignos do pênis e as suas companheiras do câncer de colo uterino.

A base doutrinária cristã – os Evangélicos – já elaborados nesta fase, se espalhou por grande parte do Império Romano, apesar da resistência da hierarquia militar em algumas regiões.

Com muita rapidez o cristianismo renunciou a santa pregação contra as opressões e induziu as massas populares a pensar que tudo era a vontade de Deus (Rm 8,18; 2 Co 5,1).

Os escritores eclesiáticos se esforçam para apresentar a famosa sentença “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus” como uma forma de compromisso com o poder divino.

A separação cada vez mais nítida entre os chefes das comunidades cristãs e a massa dos religiosos está contida na declaração “Se alguém vos subjugar, se alguém vos devorar, se alguém se apoderar de vós, se alguém for arrogante, se alguém vos bater na cara, suportai-o”( 2Co 11,20).

A partir daí a Igreja é um fato histórico, tal como o Estado, a ordem feudal e o próprio cristianismo. A primeira premissa da sua constituição foi a gradual união das comunidades cristãs dispersas.

Nesse conjunto sócio político se estabeleceu duas medicinas: a praticada pelo povo oprimido e miserável e a que era privilegiada da pequena minoria que detinha o poder econômico e político.

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