Medicina hipocrática

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho
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Anfiteatro da Escola de Cós.
A consolidação da civilização grega ligada à polis, com forte estrutura político-jurídica, que constituiu o esplendor da nova visão das relações dos homens e das mulheres entre si e com a sociedade, mudou muitos dos antigos valores presentes nas primeiras cidades, particularmente, os das práticas médicas.

De modo mais enfático, com menor dependência dos deuses e deusas, os gregos pré-socráticos procuravam a origem de tudo centrada em elementos da natureza visível e outras categorias, por meio de processos teóricos:
– Tales: água;
– Anaximandro: ilimitado;
– Anaxímenes: ar;
– Pitágoras: números;
– Parmênides: fogo e terra;
– Zenão: se aquilo que existe não possui grandeza (volume) não existe;
– Heráclito: fogo;
– Empédocles: terra, ar, fogo e água;
– Leucito e Demócrito: todas as coisas são ilimitadas e se transformam umas nas outras – átomo.

De modo semelhante, poucos anos depois, no período platônico, os médicos da Escola de Cós procuravam desvendar a natureza humana por meio de três questionamentos:
– Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;
– Estabelecer os parâmetros do normal e da doença;
– Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor e da morte.
Um dos destaques dessa nova cultura foi Hipócrates, nascido no ano 460 a.C., na ilha de Cós, nessa Grécia plena de movimento nas buscas da racionalidade. O pai da Medicina foi contemporâneo de Sócrates, do sofista Górgias e Demócrito, com quem teria trocado idéias, durante a estada em Abdera.

Hipócrates e os médicos da Escola de Cós foram os fundadores das atuais bases da ordem médica. De modo geral, representam para a Medicina valores semelhantes aos conferidos à Filosofia por Platão e seus seguidores.

É grande a produção literária atribuída a Hipócrates e aos médicos de Cós. Sabe-se que muitos desses livros são apócrifos, porém não há dúvida da participação de Hipócrates, direta ou indiretamente, na elaboração dos seguintes textos: Epidemias, O prognóstico, Tratado cirúrgico, Tratado dietético, Tratado nosológico, Tratado ginecológico e Tratado ético, sendo este último, até hoje, o responsável pelo suporte teórico da Medicina no Ocidente.

Na mesma época em que Demócrito lançava as bases do atomismo – tudo é formado por átomos, que são partículas indivisíveis e invisíveis, eternas e imutáveis – dando pela primeira vez a explicação do odor, da cor e do sabor, Políbio, o genro de Hipócrates, no livro Da natureza do homem, lançava a teoria dos Quatro Humores para explicar o aparecimento de doenças: “O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza”.

Pela grandeza teórica do enunciado, estruturando a primeira teoria para explicar a saúde e a doença fora do poder das deidades dos panteões, eu entendo esse processo como o primeiro corte epistemológico da Medicina.

Aplicação da teoria dos Quatro Humores.

A frase atribuída a Hipócrates é reveladora do quanto essa teoria dos Quatro Humores foi importante no processo, ainda em curso, para desvincular os saberes médicos das idéias e crença religiosas: “Quanto a doença que chamamos sagrada (epilepsia), eis o que significa: não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras, tem a mesma natureza das demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe natureza e origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras.”

Considerando a relação de conquista territorial grega sobre a Índia, seguida das trocas comerciais e conhecimentos, poucos anos antes da teoria dos Quatro Humores, por Políbio, é possível que tenha ocorrido algum tipo de influência da Medicina da Índia antiga na Escola de Cós, já que existe muita semelhança entre as duas posições teóricas que categorizaram a saúde e a doença como dependentes do equilíbrio ou desequilíbrio dos humores: a contida no Susruta Samhita (espírito, bile e fleuma) e a descrita por Políbio (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra), somente associada aos quatro elementos de Empédocles (fogo, ar, terra e água).

Na ilha de Cós, a Escola de Medicina fundada e liderada por Hipócrates, conseguiu reunir muitos colaboradores, que, sob perspectivas semelhantes, olharam as práticas médicas de modo diferente das predominantes nas primeiras cidades, dando início ao lento processo de separação da Medicina com a religião.

Entre as dezenas de ensinamentos hipocráticos, destacam-se como ainda atuais e pertinentes os conceitos de diagnósticos, prognósticos e tratamento, distinção entre sintoma e doença, os três aforismos: o médico e a sua arte, o doente e a sua natureza individual e a doença.

Os conceitos hipocráticos, apesar de terem absorvido aperfeiçoamentos ao longo dos séculos, continuam válidos, mesmo com toda a tecnologia da moderna Medicina.

A melhor aparência do médico também está nos ensinamentos hipocráticos. No capítulo “Do Médico”, do livro Tratado Ético, está claríssimo que o doente gosta do médico desleixado consigo: “A norma do médico deverá ter boa cor e bom aspecto (…) Pois será de grande utilidade para si colocar-se elegantemente e perfumado agradavelmente (…) e tudo isto agradará ao doente”.

Alguns instrumentos cirúrgicos que foram utilizados pelos médicos gregos são semelhantes aos de hoje: sondas, bisturis, trépanos, pinças e afastadores. As observações do corpo humano foram responsáveis pelas descrições minuciosas da anatomia, como as realizadas por Herófilo, contemporâneo de Hipócrates, que distinguiu o cérebro do cerebelo, identificou as membranas meníngeas e o líquido cérebro-raquidiano, as funções motoras e sensitivas dos nervos periféricos.

Quando a Escola de Cós estava no apogeu e Hipócrates era reconhecido como a maior autoridade médica do seu tempo, havia harmoniosa convivência entre a nova Medicina e as práticas exercidas pelos sacerdotes nos templos de Asclépio, o deus da Medicina grega, na mesma ilha de Cós. As escavações arqueológicas recuperaram várias esculturas de mármore como agradecimento a Asclépio pela cura obtida.

Na Grécia Hipocrática, mesmo com todos os avanços dos saberes do corpo humano, as Medicinas divina, empírica e oficial, também conviveram amparadas pelo poder dominante.

Hipócrates examinando um doente.

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SERPENTE: O SíMBOLO DA MEDICINA

PROF.DR.HC JOÄO BOSCO L.BOTELHO

          ” Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato.”

                                   Carl G.Jung

                                          A elaboraçäo do universo religioso do curador primordial foi processada,no primeiro momento,no âmago do conhecimento empírico da natureza circundante,e,no sequinte,pela transformaçäo imposta a ela pelo homem,para obter o alimento e o abrigo.

          A primitiva relaçäo com o bicho que gerou a fígura mítica do SENHOR DO ANIMAL foi sicretisada com outros símbolos,nascidos pela posse da terra cultiva,dando como fruto o mito da MÄE‑TERRA. A utilizaçäo empírica do vegetal,indispensável para a sobre­vivência,se processou em complexa compreensäo mítica da realidade.Foi marcada pelas explicaçöes que se sucederam no tempo para dar sentido à vida,onde a busca da saúde e do conforto se colocaram entre o SER e o NÄO SER.

          Ao sentir a sua pequenez frente à impossibilidade de vencer o seu destino mortal,o homem estabeleceu alianças com as divindades mais fortes,como a cirurgia de fimose feita pelos judeus no sétimo dia após o nascimento,marcando na própria carne a prova da obediência ( Ge 17,9‑14 ).

          KOLAKOWSKI colocou com precisäo o pânico sentido pelo homem ao tomar consciência do que representa para ele a morte inevitável: “Fugimos da antecipaçäo da morte,que é para nós uma fonte de sofrimen­to,mas näo o fazemos para domesticá‑la,e sim para afastá‑la do campo da nossa atençäo,para expulsar da vida o choque com as perguntas que dizem respeito ao horizonte último,dissolvendo‑nos no imediatismo da existência”.

          É possível situar a elaboraçäo dos mitos cosmogônicos na organizaçäo do pensamento do tipo tese‑antítese‑síntese,onde a VIDA representa o SER em oposiçäo a MORTE como NÄO SER.A regra binária de opostos é estruturads no coletivo como um jogo dialético de luta per­manente pela renovaçäo do SER,onde o animal e vegetal,tornados sagra­dos pelo homem,passaram a ter os papeis principais.

          Com a melhor compreensäo da escrita,utilizada nos primeiros povoamentos urbanos organizados próximos das terras férteis dos rios e lagos,foi possível esfregar a história para tirar algumas informaçöes que mostram o quanto é forte a herança cultural simbólica  nas práti­cas de cura.

          Nas sociedades antigas que se desenvolveram e prosperaram,há 5.000 anos, ao longo dos vales dos rios Tigre,Eufrates,Nilo e Ganges,o sincretismo entre o SENHOR DO ANIMAL e a MÄE‑TERRA estava claramente presente no cotidiano  do curador.

          A adivinhaçäo na sociedade babilônica englobava uma porçäo muito importante das relaçöes sociais.Era utilizada por todos as pes­soas ricas e poderosas,pobres e miseráveis,para saber da sorte,da saúde,da doença e da morte.

          As técnicas divinatórias eram feitas com o auxílio do exame das vísceras dos animais sacrificados,principalmente o fígado,o pul­mäo,o baço e os rins,traduzindo traços,muito mais antigos,da relaçäo do homem com a força do animal.

          Foi da Grécia,há 2.500 anos AP (Antes do Presente) que nos chegou material historiográfico suficiente para traçar,com alguma segurança,um perfil da medicina ligada aos mitos cosmogônicos,onde o sagrado e o profano estäo unidos num só corpo em permanente luta pelo predomínio.

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DESTAQUE

          Essa análise assume maior importância,na medida em que as atuais práticas médicas ocidentais,exclusivamente tecnológicas, passam por severas críticas.Apesar da imposiçäo feita pela indústria médico‑ hospitalar,fica cada vez mais claro que as antigas ligaçöes da medici­na com as crenças religiosas continuam vivas na memória coletiva,par­ticipando do conjunto cultural e da mitopoiese.

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          A interligaçäo do mito com a  memória coletiva é reconhecido por LE GOFF ao assinalar nas sociedades ágrafas três núcleos de coe­säo: 1) a identificaçäo do grupo nos seus mitos de origem, 2) o pres­tígio das genealogias familiares e 3) o saber técnico ligada à magia e à religiäo.

          A sociedade grega arcaica foi uma das que valorizou a funçäo social da memória com o “mnemon”.Os “mnemones” eram os utilitários resgatáveis da memória do grupo,isto é,eles reproduziam quando solici­tados os fatos que presenciaram.

          A passagem da oralidade para a escrita näo se fez sem resis­tência.PLATÄO (Fedro,274) resgatou a lenda  do deus egípcio Thot,pro­tetor dos escribas ,inventor dos números e dos cálculos para criticar a substituiçäo da lembrança oral,já em curso,naquele tempo na Grécia.

          O médico continua construindo a sua relaçäo com o paciente através da anamnese ou reminiscência; busca nas informaçöes prestadas pelo doente os fatos que podem esclarecer o diagnóstico.

          Näo se tem mais dúvida de que grande parte dos registros históricos da medicina na mitologia grega säo o produto da miscigena­çäo com o pensamento e atitudes religiosasdos antepassadossócio‑culturais.

          De acordo com a mitologia grega,a medicina começou com Apo­lo,filho de Zeus com Leto.Apolo é reconhecido na literatura com deze­nas de qualificaçöes além de deus‑curador.Foi também identificado como Aplous,aquele que fala a verdade.O seu poder era transmitido à água dos banhos que purificava a alma e  por isto era considerado o deus que lavava e libertava o mal.

          De modo geral,o herói grego estava quase sempre associado à arte de curar.Grande número de deuses e personagens da mitologia grega tinham, entre os seus atributos,o dom de curar doenças e feridas de guerra.BRANDÄO esclarece melhor: “O herói também é médico e tal é a conexäo entre Mântica e a Iátrica,que é impossível separar os dois tópicos,a näo ser,como fizemos por motivos didáticos.Iátrica,em grego Iatriké’ de iatrós = médico,é a arte de curar”.

          Um dos filhos de Apolo,Asclépio,foi educado pelo centauro Quiräo para ser médico.O centauro,metade homem e metade cavalo,possuia o completo conhecimento da música,magia,adivinhaçäo,astronomia e da medicina,além de ter a maior habilidade entre todos,a ponto de manejar com igual beleza o bisturi e a lira.Ele também é citado como o primei­ro a semear a Gentiana centarium,a planta medicinal primordial.

          Outros discípulos famosos do centauro foram Jasäo e Dioní­sio.O primeiro,diretamente ligado à medicina pela raiz etmológica do seu nome de origem indo‑européia que expressa a idéia de CURAR, e o segundo,associado à metamorfose e à vegetaçäo.

          Para os gregos predominou a idéia de que Asclépio deificava a medicina na mitologia.Por esta razäo,era celebrado em grandes festas públicas,próximas ao dia 18 de outubro do nosso calendário,data em que,até hoje,se comemora o Dia do Médico no Ocidente.

          Ele conquistou uma fama inimaginável.Tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgiäo.Todos os doen­tes que näo obtinham cura em outros oráculos procuravam os seus servi­ços.Muito mais cirurgiäo,ele criou as tiras,as ligaduras e as tentas para drenar as feridas.Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razäo foi fulminado por Zeus com os raios das Cíclopes.Zeus matou Asclépio porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreiçäo dos mortos.

          O episódio da morte do deus da medicina,motivada pelo ciúme de Zeus, retrata o conflito do sagrado com o profano quando a competi­çäo entre eles tem que trazer um único vencedor.Neste caso,Asclépio ao tentar vencer a morte,ressuscitando os mortos,ofendeu a divindade mais forte.Zeus reagiu violentamente e matou‑o para manter o seu poder e o determinismo da mortalidade.

          Asclépio deixou duas filhas,Hígia e Panacéia.A primeira representava a  medicina preventiva e a higiene,e a segunda se notabi­lizou por curar os doentes com os segredos das plantas medicinais.Além delas,teve dois filhos,Machaon e Podalírio,médicos‑guerreiros que se destacaram na guerra de Tróia e citados nominalmente por HOMERO (Ilía­da,830).

          Os doentes que recuperavam a saúde nos templos do deus da medicina,tornavam público os seus agradecimentos em esculturas que especificavam o nome do doente e a cura milagrosa obtida.Existem dois particularmente bem documentados: o caso da cegueira de um certo Pha­lysios e o da cura das varizes de outro paciente anônimo.Ambos ofere­ceram tábuas de mármore onde estava esculpida a história das suas doenças.

          Muitas afrescos retratando Asclépio produzidas entre os 2.500 e 2.200 anos AP  contêm uma serpente enrolada num bastäo.A asso­ciaçäo da serpente com a medicina já estava presente na sociedade babilônica alguns séculos antes da consolidaçäo da polis grega.O deus da cura Ningishzida,da regiäo de Lagash,era representado por um bastäo com duas serpentes enroladas nele. ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑

DESTAQUE

          É possível estabelecer duas imagens simbólicos que uniram  a serpente com a medicina.A primeira está ligada ao fato dela poder viver acima e abaixo da terra,mediando dois mundos diferentes,em es­treito vinculo com a localizaçäo subterrânea do outro mundo.A outra,mais importante,está associada ao renascimento  através da renovaçäo periódica da pele.

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          O caminho escolhido pelo imaginário do homem na busca da imortalidade com a participaçäo da serpente,está perfeitamente claro em dois fantásticos registros.No Rig Veda,onde os Adityas säo descri­tos como descendentes dela porque ao perderem a pele velha,eles vence­ram a morte e adquiriram  a imortalidade e na Epopéia de Gilgamesh,on­de o herói,depois de inúmeras peripécias,vê a planta da vida eterna ser comida pelo réptil e a imediata mudança da pele dele.

          O elo da serpente com a medicina é a herança viva  das his­tóricas relaçöes do homem com o SENHOR DO ANIMAL e com a MÄE‑TERRA,on­de o agente da cura representa o símbolo vivo da luta para modificar o determinismo da morte.

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