O CÓLERA NO AMAZONAS E NO PARÁ

O CÓLERA NO AMAZONAS E NO PARÁ

 

Prof.Dr.HC João Bosco Botellho

 

” O cólera se transformou em obcessão. Não havia a respeito mais do que aprendera na rotina de algum curso marginal e lhe parecera inverossimil que apenas trinta anos tivesse causado na França, inclusive Paris, mais de cento e querenta mil mortes. Mas depois da morte do pai aprendeu tudo o que se podia aprender sobre as diversas formas do cólera, quase como uma penitência para dar descanço a sua memória, e foi aluno do epidemiológico mais destacado do seu tempo e criador dos cordões sanitários, o professor Adrien proust, pai do grande romancista. De modo que quando voltou a sua terra e sentiu a vinda do mar a pestilência do mercado, e viu os ratos nos esgotos expostos e os meninos se resolvendo nus nas poças das ruas, não só compreendeu que a desgraça tivesse acontecido como teve a certeza de que se repetiria a qualquer momento”.

 

O cólera-morbo já era conhecido há centenas de anos antes de Cristo pelos navegantes árabes e europeus que viajavam pelos grandes rios na Ásia meridional.

Os gregos  chamavam a doença do kholera ou fluxo de bílis e sabiam que era acompanhada por diarréia grave, vômitos incoersíveis, placas azuladas no corpo, emagrecimento rápido seguido da morte após alguns dias ou mesmo horas depois da enfermidade ter se instalado.

Acredita-se que a designação cólera tenha surgido na Escola de Cós, entre os séculos V e III a.C. Os sinais e sintomas do mal passaram a ser explicados pela Teoria dos Quatro Humores. Segundo esta antiga teoria elaborada nesta Escola, a saúde do homem seria o equilíbrio entre os quatro humores fundamentais: sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso negro.

A produção excessiva desse último humor provocaria todas as manifestações da doença e sua eliminação deveria ser feita através dos purgativos.

Até hoje náo foi possível determinar como e onde o cólera começou a atingir o  homem no seu processo de transformação. a mais remota notícia  que se tem dele data do início do século XIX, quando apareceu de modo epidêmico.

Segundo alguns registros, em 1817 houve surtos desta enfermidade em Calcutá, tendo também atingido a China na mesma época.

em 1821, disseminou-se no Irá, devido a intensificação das trocas comerciais que aumentou o contato entre diferentes povos. Neste país, a devastação causada pelo cólera foi de tal gravidade que facilitou a conquista de grande parte do seu território pela Rússia. Milhares de soldados do exército morreram do mal nos primeiros meses da ocupação militar.

Em janeiro de 1832, a epipdemia alcançou o porto francês de Calais, fato que contribuiu para a difusão pelo resto da Eupada.

Dois meses mais tarde, o cólera-morbo matou mais de cento e quarenta mil pessoas na França.

Do mesmo modo que a Peste Negra e a AIDS (JC, As epidemias – da Peste a AIDS – o medo coletivo da morte, 1.2.87), suspeitou-se que algumas pessoas estariam envenenando a população. O Prefeito de Paris chegou a oferecer recompensa para quem desse a informação correta do culpado.

O Governo Imperial do Brasil, com base nas notícias chegadas da Europa, iniciou a implantação de medidas higiênicas e profiláticas com o objetivo de conter o possível avanço do cólera.

O Imperador baixou o Decreto Confidencial de 10 de outubro de 1854 e o mandou para os Presidentes das Províncias.

O Presidente da Província do Pará em documento datado de 24 do mesmo mês, determinou as seguintes medidas:

” 1) os navios considerados suspeitos pelo Provedor de Saúde do Porto ou que viessem diretamente de portos infeccionados fossem obrigados a quarentena defronte da Ilha de Tatuoca;

                 2) que um navio de guerra fundeado próximo à ilha fiscalizasse rigorosamente esta quarentena;

               3) que se tratasse de concluir, quanto antes, o lazareto começado na ludida ilha”.

Apesar da existência destas medidas profiláticas, o cólera chegou ao Pará em 15 de maio de 1875 a bordo da galera portuguesa Defensor.

Durante os trinta e cinco dias de viagem de Porto (Portugal) à Belém (Pará) morreram a bordo trinta e seis passageiros.

Na chegada em Belém, o Secretário da Provendoria da Saúde determinou a sua interdição depois de ter constatado o cólera-morbo em alguns passageiros.

Nos dias que se seguiram os fatos se desenvolveram de modo que sugerem ter havido pressão de interesses pessoal e econômico ou incompetência profissional para que a galera fosse autorizada a desembarcar normalmente.

Com todas as evidências de que os passageiros da Defensor estavam infectados e de que as mortes que ocorreram durante a viagem teriam sido causada pelo cólera, o Provedor da Comisao de Higiene pública não levou em consideração o relatório de seu secretário e se baseou unicamente nas informações de um médico que estava a bordo para liberar o livre trânsito da galera prtuguesa.

            No seu depoimento perante as autoridades sanitárias esse médico afirmou que as morte s ocorridas durante a viagem tinham sido em consequência das péssimas condições de higiene que o navio oferecia da fome, dos maus tratos do comandante.

O Presidente da Comissão de Higiene justificou o seu parecer favorável em documetno enviado ao Presidente da província do Pará: ”Fui imediatamente ezaminar a referida galera e conheci na realidade que esses infelizes não faleceram de moléstia alguma de caráter malígno ou contagioso que na viagem aparecesse, mas sim morreram de fome, da sede e espancados pelo capitão que, além de dar-lhes péssimos alimentos ainda chegou a tanto a maldade deste capitão que era cozinhado com água salgada. A vista do deplorável estado em que achei estes passageiros,cobertos de misérias, desembarquei a dita galera, dado-lhe neste porto livre pratica . 

Enquanto as autoridades locais se ocupam em punir o capitão autoritário ,o cólera-morbo desembarcou em Belém e comtinuou a viagem ,poucos dis depois ,para Óbitos e Manaus ,a bordo do vapor Tapajós com os trinta e dois colonos que desembarcaram em  Óbitos e os quarenta soldados do décimo primeiro Batalhão de Caçadores que se dirigiam para Manaus.

Alguns dias depois da partida do Tapajós, o cirurgião do Corpo de Saúde do Exército, comunicou que dois soldados do décimo primeiro Batalhão de Caçadores estavam com cólera-morbo epidêmico.

É possível que há Companhia de Comércio e Navegação do Auto Amazonas, proprietária do Tapajós que tinha a exclusividade da navegação à vapor pelo Rio Amazonas, tenha pressionado as autoridades da Província para a ocupação da real gravidade da epidemia que já tinha começado.

É claro que a notícia chegada de tão grave e mortal enfermidade alarmaria os colonos extrangeiros que estvam chegando à Belém. Este fato implicaria em enormes prejuizos para a Companhia do Visconde de Mauá ,representante dos interesses da Inglaterra no Brasil.

O fluxo migratório de colonos europeus para a religião começou em 1854, um século depois do fracasso do Diretório Pombalino e dez anos depois da Diretoria dos índios. Foi coordenado pela mesma Companhia e objetivou a substituição da mão-de-obra indígena para melhorar a produção agrícola e diminuir a dependência da importação de alimentos. Entretanto, não chegou a dar grandes resultados, porque a maior parte deles acabou não ficando nas colônias agrícolas e preferiu participar do extrativismo que oferecia melhores lucros.

Os jornais  locais começaram a publicar notícias da evolução da incidência do mal na população . Várias alternativas de tratamento foram levantadas . Incluiam desde o cozimento concentrado de goma arábica  ate as inumeras infusões de folhas medicinais, sempre acompanhadas dos purgativos.  Porém, foi o suco de limão concentrado a grande revelação para o tratamento do cólera-morbo. Passou a ser a receita mais usada pela  população de baixa renda que não tinha dinheiro para aviar as extravagantes combinações farmacológicas dos médicos.

Apesar da gravidade da epidemia, não foram tomadas medidas efetivas para evitar a maior disseminação. Somente em novembro do mesmo ano, depois de terem início o declíneo expontâneo do surto, foram iniciadas publicações pelo governo da Província das normas de higiene e profilaxia. Nesta época, Belém tinha em torno de vinte mil habitantes e dois tenços da população foi contaminada com mais de duas mil mortes.

Nessa altura dos acontecimentos, já se tinha notícia de milhares de novos casos no interior da Província. Na localidade de cametá, com a população de seis e sete mil habitantes, o número de mortes chegou a cinquente pessaos por dia.

O Presidente da Província do Pará, impressionado com a gravidade da situação fez visita no local e morreu vítima do cólera-morbo a bordo do paquete Rio Negro, quando regressava da viagem.

Como em toda a ameaça da segurança coletiva por causa desconhecida que o homem enfrentou em condições adversas o cólera foi a exempo de outras epidemias, atribuído ao castigo divino pelas infrações morais cometida pela população. Neste sentido, é ilustrativo o discurso pastoral feito em 9 de junho de 1855 em Belém : ” E que outra coisa deveríamos esperar depois de tantos excessos pecaminosos? Quando em 1850, durante a febre amarela, vimos alguns pecadores correr ao templo, na aparència arrependida de seus pecados, julgávamos que sua emenda era sincera e o seu comportamento duradouro, enganamo-nos: passada a epidemia, passou-se também a devoção extinguiu-se a dor dos pecadores e o pecador esquecido do mal entregou-se novamente ao mundo e seus prazeres; seu gemido de aflição converteram-se logo em risos profanos, Deus ficou no esquecimento , sua religiao , suas leis foram postergadas , o mundo ,suas maximas ,seus prazeres foram novamente abraçadas .Uma tal conduta devia certamente desafiar novamente a justiça divina.”

E mais uma vez,iniciou-se com a cumplicidade do Estado e a decisiva participação da Igreja,o manuseio do medo coletivo como arma para obter o controle social.

O povo passou a contribuir mais na manutenção da Igreja, comprava santos e crucifixos com a benção cristã , faziam procissões e filas nos confessionários.

O bispo de Belém,  acreditando que a ira divina só poderia ser aplacada com rezas e penitências, promoveu com a autorização do Presidente da Comissão de Higiene, concorridas peregrinações e ritos que acabaram por se constituir em um momento facilitador da propagação do bacilo.

Na exposição feita pelo 1º vice-Presidente da Província do Amazonas, datado de 28 de janeiro de 1856, ficou comprovada a chegada do cólera em Manaus no dia 9 de junho de 1955, trazido pelos passageiros do vapor Tapajós.

Este importante documento diz: ” O vapor Tapajós, que ancorou no porto desta cidade a 9 de julho do ano passado, foi o portador da desagradável notícia de que no Pará tinha aparecido uma moléstia de caráter  mortífero, que os profissionais a classificaram de CHOLERINA; deis as preciss providências para que fossem examinadas quarenta praças da linha, que vieram no vapor, visto  acharem alguns doentes (…) e no decorrer da viagem desenvolvendo-se a moléstia a seu bordo, tinha feito algun~mas vítimas, das quais ainda existem duas que a pouco tinham expirado (…) Entendi que era conveniente fazer o vapor fundear longe desta cidade, expedir neste sentido as ordens ao agente da Companhia de Navegação do Comércio do Amazonas (…) Só no dia seguinte se verificou a retirada do vapor (…)”.

Não é difícil concluir que houve uma sucessão de erros e omissões nas administrações das Províncias do Pará e Amazonas, que efetivamente contribuíram para disseminar a doença em toda a região.

Começou co a autorização da livre prática da galera portuguesa Defensor no porto de Belém e continuou com a chegada do vapor Tapajós em Manaus, aonde descarregou sem qualquer restrinção durante quase dois dias. Tanto lá como cá, já existia uma norma preventiva, pormenorizando os cuidados necessãrios para evitar a propagação do mal.

É muito provável que tenha prevaleciado no Amazonas os mesmos interesses pessoais e econômico do Pará. Só assim podemos justificar a desobediência grosseira das autoridades sanitárias da província às recomendações para a proteção da saúde pública. Não tem sentido tanta incopetência junta.

O relatório apresentado à assembléia de 8 de julho 1856, comunica o fim da epidemia: ”(…) Antes porém, que o faça permitir pela grande importância do assunto, em relação aos nossos interresses sociais e políticos (grifo nosso), que eu tenha a satisfação de anunciar (…) a notícia da extinção da epidemia do cólera”.

Nesses documentos consta que em 1855, cento e oitenta e oito adquiriram a infecção com um óbito. Reconhece também a ocorrência  de quatorze mortos em cinquenta pacientes na Serpa e vinte e um infectados na Vila de Silves que resultaram em dois óbitos nos meses de janeiro a fevereiro de 1856.

Apesar desses números oficiais, não se pode afastar a possibilidade de que o total de enfermos e de mortos tenha sido bem maior que os divulgados.

O jornal Estrela do Amazonas de 25 de agosto de 1855 registrou : ”O  Vice-presidente da província para complemento das providências que acertadamente tem tomado para preservar os habitantes desta capital do rigor do cólera, tenciona brevemente consultar o Provedor da saúde a escolher para estabelecimento de lazerotos de quarentena e observação”.

Esta atenção não teria sido pensada se o total de pessoas doentes não fosse grande a ponto de não ter aonde alojá-los.

Entre março de 1856 a dezembro de 1861 não se tem mais notícia do cólera nos documentos publicados pelas autoridades.

Ele vai reaparecer em 14 de fevereiro de 1862 nas mãos do Inspetor de Saúde Pública do Amazonas encaminhando ao Presidente da Província as medidas higiênicas e terapêuticas para conter o seu avanço. Nesta publicação não é feita nenhuma situação do episódio colérico que houve no Pará e no Amazonas entre os anos de 1855 e 1856. Na sua introdução, como justificativa o Inspetor com uma penada transportou o perigo para Pernambuco: ” Tendo chegado a esta cidade a Infausta notícia que o exterminador cólera-morbo, deixando novamente as plagas do Velho Mundo, se manifestou em caráter epidêmico na Província de Pernambuco, no lugar denominado Cruangy (…)”.

É difícil enterder o oportunismo dessas medidas tão tardias, mesmo porque não é verdade a referência do novo surto da Europa em 1861 e em 1862. Depois da primeira epidemia de 1862, a doença só reapareceu em 1865-1866, depois em 1873 e pela última vez em 1874.

Pode-se pensar que o cólera não deixou de fazer vítimas no Amazonas no período de 1856-1862, havendo faceamento nas estatísticas do governo provincial ou tratava-se da nova chegada da doença no Império, começando em Pernambuco, e autoridade sanitária local desconhecia o que tinha ocorrido entre 1855 e 1856. de quaquer forma esta última possibilidade nãop faz sentido porque é a principal ligação comercial de Manaus naquela época era Belém.

A Igreja Católica, no Amazonas, repetiu a postura de associar o cólera-morbo com a fúria divina pelos pecados cometidos. o correspondente em Manaus do jornal Treze de Maio de Belém, em carta datada de 9 de julho  de 1855, descreveu do seguinte modo: ”(…) o povo reconhecia na terrível peste em castigo do céu e que o melhor remédio para combatê-lo era a penitência e a humilhação”.

É muito provável que essa atitude tenha contribuído na multipplicação dos efeitos desastrosos da epidemia na região amazônica e no relaxamento das adequadas medidas de prevenção.

É importante não esuqecer que além das vítimas da nova entidade mórbida, o povo das províncias de Pará e Amazonas continuava morrendo também de febre amarela,, malária, hepatite, gastrointerite, verminoses, henseniase, tuberculose, sarampo e varíola. Aquela situação não era diferente da encontrada nos dias atuiais.

Pouco mais de vinte anos depois, em 1883, o bacteriologista Robert Koch (1843-1910), o meso que identificou o bacilo da tuberculose, reconheceu e provou que o bacilo em forma de vírgula de Pacini  (1812-1883) era o responsável pelo cólera.

Durante todo o século XIX milhares de pessoas morreram em todo o mundo vítimas dele. contudo, mais uma vez na história do homem, a busca da verdade na racionalidade da ciência demonstrou que o cólera, a exemplo de todas as doenças, não era um castigo divino e representou uma parcela da luta do homem na conquiata e ocupação do território.

Não pode haver dúvida de que o abandono da racionalidade dos conhecimentos médicos  historicamente acumulados, seja por incopetência ou por pressões de grupos e ideologias que defendem os seus próprios interesses, continuam contribuindo para que os homens paguem um alto preço pela sua sobrevivência.

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A COISA SAGRADA: O CORPO DA MEDICINA POPULAR

A COISA SAGRADA: O CORPO DA MEDICINA POPULAR

Prof.Dr.HC JOÄO BOSCO L.BOTELHO

 

“Por nove dias,as setas do deus dizimaram o exército…

 

Filho de Atreu,quero crer que nos cumpre voltar para casa sem termos nada alcançado,no caso de à morte escaparmos,pois os Aqui­vos,além das batalhas,consome‑os a peste.Sus! consultemos,sem mora,qualquer sacerdote ou profeta,ou quem de sonhos entenda ‑ que os sonhos de Zeus se originam ‑ para dizer‑nos a causa de estar Febo Apolo indignado: se por näo termos cumprido algum voto ou,talvez,heca­tombes,ou se lhe apraz,porventura,de nós receber o perfume de pingues cabras e ovelhas,a fim de livrar‑nos da peste.”

Homero (Ilíada,I,53).

A análise das heteropráxis (práticas marginais no seio das instituiçöes ou paralelas a elas) é indispensável  para penetrar na íntima associaçäo do conflito de competência entre a medicina e a religiäo que se manifesta no social há milhares de anos.

Ela nos envia,a cada momento,à coisa sagrada fazendo parte  de uma religiäo popular desvinculada da estrutura hierárquica e transformada na religiäo do corpo.Só assim poderemos justificar como é possível que os curadores,adivinhos,magnetizadores,feiticeiros e benzedores nunca cessaram de receber os consultantes.Por esta razäo,esse repensar deve suscitar contínuo interesse sociológico.             Aqui näo pode existir nenhum comprimisso fechado com a ver­dade lógica das concepçöes científicas,trata‑se da credulidade na sua mais pura manifestaçäo.O processo reprodutor desse fenômeno social passa necessariamente pela crença,pessoal ou coletiva,no sagrado poder de curar.Deste modo,a coisa sagrada é,antes de mais nada,aquilo que cura.

A presença da coisa sagrada nas relaçöes da medicina popular com uma religiäo do corpo transcendeu no tempo e chegou a nós vivifi­cada täo intensamente que fica impossível saber onde terminam os seus limites .Esse fato se passa täo naturalmente  e é compreendido com tamanha certeza que já näo existem muitos questionamentos da sua his­toricidade.

Em consequência da disputa gerada com a medicina oficial, raramente essa questäo vem à tona despida das paixöes parcimoniosas.A análise ahistórica acaba contribuindo para que os pressupostos teóri­cos da medicina sejam  conduzidos por fora dessa relaçäo.A importância social é diluida na polarizaçäo de uma luta de poder  que pode ser simbolizada na mesma essência de Apolo e Dionísio ,onde uma medicina‑ciência se confronta com a religiäo‑medicina.Tudo é passado como se o conhecimento historicamente acumulado em nada interferisse nessa com­plexa relaçäo e simplesmente o jogo da linguagem pudesse separar os componentes sociais que acompanham o homem há dezenas de milhares de anos.

Com frequência,ao longo da busca que motivou esse ensaio,en­contramos muitas dificuldades para selecionar a palavra adequada que pudesse colocar o pensamento ao lado da linguagem escrita,capaz de traduzir a certeza que temos do quanto a medicina contínua vinculada à religiäo através da coisa sagrada.Os empecilhos aumentaram na mesma razäo em que nós nos distanciamos dos primeiros registros escritos.

As poucas mensagens deixadas nas paredes das cavernas pelos nossos ancestrais mais distantes deixam entender,quando associadas aos outros dados da paleoantropologia ,mesmo aos mais céticos,que as  práticas de curas e as expressöes de religiosidade estariam  incrivel­mente atadas e dependentes.

Os maiores entulhos que se colocam entre essa associaçäo histórica  säo, em grande parte, fruto das muitas mudanças sofridas por ambas ao longo dos séculos,näo só nos ritos,mas inclusive e prin­cipalmente no modo como foram compreendidas pelo homem nos sucessivos processos de transformaçäo social.

A ignorância da origem das enfermidades,principal impedi­mento da vida e do conforto físico,contribuiu para que fosse inicia­do,num determinado momento da história do homem,o processo de divini­zaçäo do desconhecido.A doença e a saúde,a vida e a morte passaram gradualmente a fazer parte de um mundo exclusivo da divindade e dos seus representantes na terra,capazes de interpretar e manusear o sagrado.

A questäo que relaciona o objeto sagrado à religiäo foi analisada por  CROCE que negou a independência de uma ” categoria religiäo ” e a considerava como sub‑produto da ” categoria moral “,en­quanto  OTTO   se esforçou para demonstrar a realidade da experiência do “sagrado” como fundamental para qualquer religiäo.GRAMSCI desconsi­derou qualquer conceito de religiäo sem a correspondente relaçäo cul­tural entre o indivíduo e o objeto sagrado.Os estudos gramscianos colocaram a religiäo como integrando uma concepçäo da vida cotidiana contida no conjunto ideológico ligado à ética e por isso contribuin­do,em certas circunstâncias,para que o homem aceitasse as desigualda­des sociais.

A partir desses dois pressupostos,a necessidade da existén­cia do objeto  sagrado nas manifestaçöes religiosas e  a religiäo dominante mantendo claros níveis de conflito com outras categorias que vamos encontrar as atitudes médicas  que conduziram o homem na busca do conforto e da saúde se interligando numa atitude de disputa, desde um tempo longínquo,com diferentes expressöes de  religiosidade,onde o homem,dono único da linguagem, dá a si próprio uma  origem mítica ao representar  ao mesmo tempo o papel de executor e de objeto das práti­cas da medicina e da religiäo.

Näo devemos reduzir a religiäo ao que escreveu PORTTER:  “A religiäo foi a mäe das ciências e das artes…”,mas necessariamente   ampliar o  seu   horizonte em   JUNG que fundamenta a confissäo reli­giosa na transformaçäo provocada pela experiência  do  ” numinoso ”  sentida  pelo  homem, seguida  de  um conjunto de atitudes fundamenta­das na fé e fidelidade ao objeto sacro.

Foram feitas várias tentativas para trazer a origem do atual conceito de religiäo a partir das palavras latinas “relegere” e “reli­gare”,porém todas säo passíveis de crítica já que estes termos latinos näo tinham o atual sentido.Parece que indicavam um conjunto complexo de regras e interdiçöes que näo estavam diretamente relacionados com adoraçäo de divindades nem a celebraçöes de festas consideradas hoje como religiosas.

Näo é interesse desse ensaio discutir toda a representaçäo da religiäo nas relaçöes sociais,mas näo podemos esquecer que diferen­tes formas de expressös religiosas estäo presentes em mais de três quartos da populaçäo do mundo.Do mesmo modo,uma porçäo significativa dessas populaçöes também entende  a causa das  suas doenças e  os processos terapêuticos utilizados pela medicina  como de ordem  sagra­da,a partir de sincretismos com os antigos mitos de origem que relatam as primitivas relaçöes do homem com os outros animais e com a terra.

Os livros de medicina e religiäo näo pararam de ser escri­tos,de geraçäo a geraçäo, para além dos sistemas de valores de refe­rência e de interpretaçöes aos quais se ligam.A maioria deles foi elaborado numa historia linear quantitativa onde as estruturas e o cotidiano foram seguidamente pouco valorizadas.A literatura especiali­zada mais atual se afastou  dessa postura pouco crítica e foi enrique­cida de trabalhos associando as práticas religiosas  ao conjunto so­cial.

Isto significa que a manifestaçäo de caráter dominante da medicina e da religiäo continuam ocupando atualmente a maior parte dos livros já escritos,fazendo com que eles fiquem restritos ao domínio exclusivo do pensamento organizado,racional e logicamente construí­do.Tudo o mais que escape às formulaçöes quantitativas,nascido das profundezas reais do cotidiano permanece relegado ao esquecimento alienador.

Os progressos alcançados pela nova história das mentalidades ao analisar as manifestaçöes sociais coletivas proporcionadas pelo cotidiano dos homens,ao longo da sua história,estäo se fazendo de modo concreto e contínuo,inclusive no que diz respeito às novas abordagens da história da medicina e da doença,antes exclusivas dos relatos fac­tuais e épicos pessoais.

Do mesmo modo que a história como ciência saiu do seu isola­mento e se integrou na totalidade do conhecimento acumulado,a história da medicina inevitavelmente assumirá a mesma estratégia.

A complicada tentativa de empreender a busca dos elos perdi­dos da coisa sagrada na medicina popular,deve necessariamente estar contida na representatividade delas no cotidiano do homem.

Existem grandes evidências da íntima associaçäo que mantive­ram ao longo de milhares de anos.A própria data atual de comemoraçäo do dia do médico ‑ 18 de outubro ‑ corresponde, na mitologia grega,à época em que se celebrava a festa do filho de Apolo,Asclépio,o mais importante deus curador da mitologia grega.Pela importância dessa comemoraçäo e pela sua força nas tradiçöes populares da antiguidade, o cristianismo acabou sincretizando‑a e manteve o mesmo registro festivo no calendário cristäo para marcar o nascimento de Säo Lucas,o evange­lista médico.

No intervalo de tempo entre o início e o fim da vida,o homem sempre conviveu com a certeza da doença e da morte.Nas poucas dezenas de anos que ele consegue viver,gasta grande parte deles na procura incessante do seu conforto ( conjunto de situaçöes,de lugares e coisas que däo prazer,protegem do frio e do calor,prolongam a vida e mantém a saúde combatendo a doença ).

Nessa intrincada busca,o homem elaborou sistemas complexos de  justificativas para o desconforto que  predominava na sua vida  ( frio,fome,doença e morte ) e,a partir duma fase impossível de precisar o seu início, passou a projetar o conforto perfeito na imaginável vida depois da morte.

Pode ter sido a epopéia que o homem construiu pela sua imor­talidade, um dos principais fatores que contribuíram no aparecimento da especializaçäo que näo só deu origem à procura sistemática do con­forto e da saúde,mas também forneceu os subsídios para a materializa­çäo da medicina como especialidade social com a decisiva participaçäo do objeto sagrado.            É claro que o cuidado com a saúde pode ter começado em qual­quer ponto da escala genealógica do homem.Sem dúvida que o aperfeiçoa­mento da linguagem teve grande importância,já que a elaboraçäo dos sons para caracterizar a dor do seu desconforto deve ter sido um dos pontos de partida para o domínio da natureza com objetivo de gerar o conforto.ENGELS fez a análise dessa transformaçäo atribuindo ao traba­lho e à linguagem as bases da hominizaçäo e da socializaçäo.

A medicina surgiu como especialidade social em comunidades ágrafas de caçadores‑coletoras.Nesta fase,muito antes do homem falar e escrever,comunicou as suas experiências e sentimentos por meio das açöes concretas näo verbais,gestos isolados,olhares ou com o silên­cio.Foi provavelmente com esta linguagem simbólica que nossos antepas­sados referiram uma dor na cabeça,no braço estraçalhado em acidente de caça ou o desconforto causado pela febre.

Nessa época remota dos nossos antepassados,eles já  utilizavam as cavernas para proteçäo contra as intempéries da natureza gelada,fabricava e usava  utensílios de pedra e osso trabalhados com delicadeza e objetividade,além de usar  fogo domado e de já praticar o sepultamento ritualizado dos seus mortos.

A reproduçäo do imaginário popular numa crença de poder curador da coisa passa por todos esses caminhos da totalidade social do homem com as mudanças que ele processou na procura do conforto.

O hostoriador MIRCEA ELIADE,com uma propriedade incompará­vel,atribuiu a dificuldade,quase intransponível,de se buscar as expli­caçöes no fato de que as crenças e as idéias näo säo fossilizá­veis.Quando os arqueólogos descobrem um túmulo com significaçäo histó­rica,todos os detalhes do esqueleto,do esquife e dos acompanhamentos säo importantes para compreender o grupo social do morto,porém grande parte dos valores e revelaçöes intrínsecas do morto continuaräo em vagas suposiçöes.Estas dificuldades säo proporcionalmente maiores na medida que recuamos no tempo.Por esta razäo,alguns autores como LEROI‑GOURHAN assumem posiçäo crítica em relaçäo à religiosidade na pré‑história anterior há 40.000 anos atrás.

O imaginável renascimento depois da morte deve ter acompa­nhado o homem na sua busca para prolongar cada vez mais o seu tempo de vida e dar a sensaçäo repousante da possibilidade de desfrutar do conforto noutro mundo,já que náo conseguiu senti‑lo na terra.

Essa fantástica busca pode ter começado com a idéia religio­sa arcaica de que é possível ao animal renascer a partir dos ossos, provavelmente ligada com o início da prática do sepultamento rituali­zado.Nesse sentido säo claras as passagens  do  Antigo   Testamento explicativas do  aparecimento da mulher como obra acabada de Deus a partir da costela ( Gn 2,21‑24 ) do primeiro homem e do renascimento a partir  dos ossos descarnados ( Ez 37,1‑8 ).Estas citaçöes bíblicas fazem pensar que o culto aos ossos e a partir dele o renascimento tiveram o seu início nos primórdios da sagraçäo dos objetos pelo ho­mem,depositárias da certeza de que esses ritos se confundem com a origem do próprio homem.Assim,näo deve parecer estranha a crença popu­lar no poder curador dos ossos dos santos,conservados como relíquias e amuletos contra a doença e o infortúnio.           O mundo que envolve e forma o corpo da medicina popular ajusta a sua seduçäo na eficiência simbólica dos ritos,da linguagem e da prece como instrumentos para unir,em atitude mágica de credulida­de,num só corpo,o pedinte e o objeto sagrado.

 

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