DOM DE CURAR

DOM DE CURAR

 

MILAGRE DO FREI ANGÉLICO, SÉCULO XV

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

 

A sedução exercida pelos taumaturgos e adivinhos, hábeis articuladores na dualidade sagrada e profana, marcou as mentalidades. Esses homens e mulheres, reconhecidos  como portadores de dotes especiais super-humanos,  como no passado remoto, aqui e acolá, continuam curando e adivinhando.

O dom ou o carisma, como dádiva divina, está  ajustado  para unir a posse da terra à guarda do corpo. Na realidade, representa a analogia do mecanismo binário de prêmio-castigo, nos espaços sagrado e profano.  A ordem sublime emprega-o, para abrigar  a  imagem  do  corpo (espírito, alma, etc.) no espaço transcendente (céu, éden,  paraíso, etc.).  A secular, para garantir o corpo  submisso  no  território (casa, bairro, cidade, município, país e a área por onde se dá  o fluxo de mercadorias no mercado interno e externo).

Aquele que tem o dom de  curar  pessoas ou  sociedades  (líder,  messias, benzedor, pajé, padre, médico, etc.) deve ser obedecido e reverenciado (Eclo 38, 1-2).

A cultura judaica admite o sinal da deidade – o milagre.  Assumiu  lugar de magna importância, porque é a prova da materialização do  dom, isto é, a fuga do conhecido, do natural, do esperado.  Esse é o motivo da aclamação e do júbilo.

Os   primeiros  padres  da  cristandade  fizeram  uma   fantástica re-elaboração  teórica  dos sinais do AT.  Os milagres  de  Cristo, em particular  as  curas, descritos  pelos  quatro evangelistas, assumiram  grande  importância na apologética da nova religião.

O tomismo entendeu a importância do milagre, na fé, como   fato extraordinário  produzido por Deus.  Os anjos bons e os santos  poderiam ser agentes na promoção dos acontecimentos situados à  margem  das  leis naturais.  Por  outro lado, distinguiu o milagre do prodígio.  Este  último, simples simulacro, não era fruto do poder divino.

A  abordagem tomista foi duramente criticada por diversos  filósofos.  Voltaire, no Dicionário Filosófico, tomou a argumentação dos físicos  para contestar.  Afirmava ser falso  pensar no milagre como  transgressão  das leis  matemáticas, criadas pela divindade, porque são  coerentes  e imutáveis.  Espinoza também recusou a veracidade do  milagre, apoiado na premissa de que era impossível a intervenção extraordinária para mudar o curso da criação transcendente, reafirmou o engano da prática milagrosa.

O  golpe mais forte recebido pela teorização cristã do sinal  foi sustentado pelo  agnosticismo kantiano, firmado contra o determinismo absoluto.  Seria incognoscível porque é muito difícil distinguir as formas variáveis  e extraordinárias de agir da natureza.  De acordo com Kant, não existem leis  fixas e  constantes, porque a estável provém, exclusivamente, do  nosso  aspecto subjetivo  para conhecê-las.  A religião não seria mais nada do  que  o conjunto das obrigações vistas como determinismo  para facilitar a ordem de um poder transcendente.

Com o  intuito de reforçar o conjunto do debate, cabe lembrar  a  imutabilidade  das leis matemáticas, regendo a  essência  da  coisa visível, expressando o modo de ser.  Assim, em nenhuma hipótese, nem por  milagre, o triângulo poderá deixar de ter os três ângulos internos.

No Ocidente cristão medieval, os santuários curadores e proféticos de Compostela  (Espanha) e Jerusalém viveram vários séculos de  glória, recebendo peregrinos de toda a cristandade.  Nos últimos anos, o de Fátima, em Portugal, e o de Lourdes, na França, são muito procurados.   Mais recentemente, surgiu o de Medjugorje, na Iugoslávia.

Milhares de curas foram anunciadas pelos fiéis que procuraram o santuário de Fátima.  Como o número excedeu os limites aceitáveis,  foi  criado, em 1882, uma comissão  de  médicos e religiosos, para analisar a veracidade dos sinais, vindos da divindade, ocorridos em Lourdes. Apesar do entusiasmo dos peregrinos, a Igreja Católica  anunciou, em 1990, o  65º  milagre.  Trata-se de uma jovem siciliana de 25  anos,  portadora de uma forma incurável de câncer ósseo no joelho.  Em 1976, depois de ela permanecer uma semana próxima ao santuário, um ano depois, houve o completo desaparecimento da lesão.

A  crença  nos  poderes extraordinários, oriundos da aparição  da Virgem, em  Medjugorje, pequena  cidade  no interior da Iugoslávia, começou em 1981.  Um grupo de adolescentes, quatro moças e dois rapazes, relataram ter  visto uma mulher bonita que afirmavam ser a Virgem Maria. O padre Slavko  Barbarich, da Igreja local, não tem  dúvida da autenticidade das mensagens.

No   Brasil, nos estratos  sociais  privilegiados, de   tradição cristã,  são  mais enfocadas as procuras de Lourdes, Fátima e Medjugorje. Porém, existem outros locais de súplicas, como a  basílica de Aparecida, a estátua do Padre Cícero, os centros de umbanda, as igrejas protestantes e grupos  kardecistas.  Todos recebem número muito maior de crentes, virtualmente agregados aos mesmos componentes de fé e religiosidade.

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CORPO, SAUDE E DOENÇA NA FILOSOFIA GREGA II

CORPO, SAUDE E DOENÇA NA  FILOSOFIA GREGA II

 

EMPÉDOCLES, MOEDA DO SÉCULO III A. C.

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

 

Na Grécia, entre os séculos V e IV, existiu complexa interdependência entre os conceitos produzidos pelos filósofos não médicos e pelos médicos. Algumas vezes, estavam em acordo; em outras, em completa discordância.

O autor desconhecido do livro Da Natureza Antiga, discorda do dogmatismo a priori da filosofia de que todas as doenças são formadas pelo excesso de calor, frio, secura ou humanidade. No Corpus Hipocraticum (cap.XIII), o autor argumenta sobre o mesmo assunto: 1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da direita, se o calor, se o frio, se a humanidade ou a secura; 2. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou leite quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.

Apesar da compreensão entre médicos e filósofos que a saúde era o produto do equilíbrio de várias forças no organismo, existiu outra corrente de pensamento, provavelmente liderada por Políbio, genro de Hipócrates, que sob a influência da idéia dos quatro elementos da Empédocles – fogo, ar, água e a terra – e da noção do equilíbrio justo de Anaximandro, produziu a teoria dos quatro humores fundamentais – sanguíneo,  linfático,  bilioso amarelo e  bilioso negro –  para explicar a causa das doenças.

A teoria dos quatro humores, atribuída a Políbio, está no livro Da Natureza Antiga:  O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra; que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsável pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação uma ás outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturada com as outras.

Essa teoria norteou os rumos da Medicina e transpassou o tempo e dominou o diagnóstico e terapêutica por quase vinte séculos.

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