AS EPIDEMIAS – DA PESTE A AIDS – O MEDO COLETIVO DA MORTE

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

 

” (…) As vezes a morte decorria de negligência, mas de um modo geral ela sobrevinha apesar  de todos os cuidados. Não se encontrou remédio algum, pode-se dizer, que contribuísse para o alívio de quem tomasse – o que beneficiava um doente prejudicava outro – e nenhuma compleição foi por si mesma capaz de resistir ao mal, fosse ela forte ou fraca (…) Mas o aspecto mais terrível da doença era a apatia das pessoas atingidas por ela, pois seu espírito se rendia imediatamente ao desespero r elas se consideravam perdidas, incapazes de reagir (…)”.

TUCÍDIDES. História da guerra do peloponeso. 2. ed. Brasília, Ed. UNB. 1986, p. 104.

Novamente recorremos a Tucídides para exemplificar a luta desesperada do homem para sobreviver as agressões biológicas do meio. Este relato foi feito entre os anos 430 e 427 a.C. na cidade de Atenas na Grécia.

Quando entre outubro de 1980 e maio de 1981, os Centros para Controle de doenças (CCD) dos Estados Unidos receberam a notificação da ocorrência de vinte e seis casos de sárcoma de Kaposi (uma das muitas formas de manifestação de um grupo de doenças designadas pela palavra  CÂNCER),  jamaispoderiam imaginar que estava sendo aberta a porta de nova ameaça a sobrevivência da espécie humana: a AIDS (ACQUIRED IMUNODEFICIENCY SINDROME).

A revisão dos prontuários médicos dos doentes mostrou dois pontos coincidentes em todos eles: tratava-se de pessoas que moravam de New York e los Angeles além de serem todos homosexuais masculinos.

Os estudos laboratoriais imediatos mostraram que se tratava de uma nova forma de doença, até então  desconhecida, que tinha como principal característica a diminuição das defesas naturais do organismo infectado. Em consequência , o sistema imunológico não oferecia qualquer resistência  às infecções, levando ao aparecimento de graves e resistentes formas de infecção  que evoluia para o óbito em todos os casos estudados.

As manifestações clínicas mais comuns da nova doença eram o aumento do volume dos linfonodos periféricos (ínguas), diarréia crônica, febre, perda de peso e infecções graves de evolução rápida.

A partir dessa data, centenas de novos casos foram descritos em todos os continentes, com absoluto predomínio nos Estados Unidos, Europa Ocidental e África Equatorial.

No Brasil, a primeira notificação foi registrada em setembro de 1982 e desde então os casos têm aumentado em proporção alarmante e 80% deles no eixo Rio-São Paulo.

A descoberta do vírus responsável da AIDS foi feita dois anos depois do reconhecimento da existência da doença. Foi feita, quase simultaneamente, por BARRE-SINOUSSI  do Instituto Pasteur, em Paris e por RBERT GALLO do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos. O vírus isolado recebeu a denominação de HTLV (HUMAN T LEKEMIA LYMPHOMA VIRUSES).

os vírus são partículas muito pequenas (dentro de uma célula podem se instalar centenas de vírus) e incapazes de realizar as suas funções vitais. Por esta razão penetram no interior das células de vegetais e de animais para apropriar-se do mecanismo da síntese das proteínas, que lhes garante a reprodução.

Inicialmente, a partir do estudo retrospectivo dos casos confirmados, foi possível confirmar que mais de 90% do total estava distribuído entre homossexuais masculinos, hemofílicos, bissexuais masculinos e usuários de drogas injetáveis. Este grupo passou a ser considerado como de grande risco, isto é, eram os mais susceptíveis em adquirir a doença.

 

Seis anos depois do diagnóstico do primeiro doente, a AIDS é notícia diariamente em todos os jornais das principais cidades do Mundo. A leitura antenta destas informações, obrigatoriamente nos dirige atenção no sentido de confirmar que a reação coletiva, sob alguns dos relatos descritos ao longo dos séculos que o homem conviveu com a paste negra.

A partir da leitura do Apocalípse de São João Apóstolo no novo Testamento, foi possível estabelecer as ”provas” do furor divino contra os pecadores. Os judeus, os feiticeiros, ciganos, bruxas e leprosos foram supliciados e queimados vivos como tentativa de aclamar a fúria divina.

dois séculos mais tarde, com a chegad de Cortez no México, a população nativa da América sofreu um dos maiores genocídeos que a humanidade tomou conhecimento. Milhares de pessoas morreram em poucas semanasdepois de terem contraído a varíolatrazida pr um escravo negro do exército de eforço que Cortez recebeu em 1520.

Rapidamente os conquistadores perceberam que a varíola era a sua maior aliada. Com o apoio dos reis católicos da Espanha, a horda européia promoveu a disseminação da doença nas Américas.

De acordo com os cálculos aproximados, a população autone do méxico era de 25 milhões de pessoas em 1519 e ficou reduzida para um milhão em 1605.

novamene, a Europa sofre nova investida da peste negra a partir de 1630. Foram as quatro maiores cidades sa época as que mais sofreram: Milão, Paris, Londres e Marselha.

Uma vezmais, os homens desesperados e ameaçados na sua sobrevivência coletiva, atribuiram a causa da peste negra a pessoas que possuíam urguentos misteriosos e que quando besuntados nas paredes das casas eram capazes de promover a disseminação da peste. Foi iniciada, com a autorização das autoridades, a caça aos culpados, centenas de pessoas foram sentenciadas por tribunais populares, queimadas e enforcadas depois da confissão sob tortura.

Foi em Londres, a partir de 1670, que começou o controle efetivo da epidemia. Foi decretado o isolamento compulsório de todas as famílias onde havia doente ou suspeitos de estarem com a peste. Foram nomeados inspetores de saúde que visitavam as casas e assimilavam aonde existiam doentes, além de fiscalizarem o confinamento .

A epidemia continuou em pequenos surtos localizados até 1830, quando começaram a surtir efeitos das medidas higiênicas tomadas. O esforço concentrado dos governos envolvidos possibilitou o isolamento do vibrião colérico por Pacini, em 1854, e o bacilo de Yersin em 1894.

Estava demonstrado pela racionalidade dos conhecimentos científicos que a peste negra, como todas as doenças do homem, nada tem de divino. ela constitui somente um, entre muitos obstáculos, que o homem venceu na sua luta pela sobrevivência no planeta.

Os estudos das fontes históricas não cristãs, principalmente das obras de Filon de Alexandria, Flávio Josefo e Justo de Tiberíade, reforçam o pensamento de que as relações entre a medicina e o cristianismo primitivo se fizeram baseadas principalmente na herança cultural dos judeus e de outros povos escravos que viveram próximos do centro de influência da nova religião .

O cristianismo primitivo cresceu à custa de um conjunto de circunstâncias que estavam presentes numa sociedade escravista atuando com enormes pressões econômicas e políticas.

A nova entidade religiosa representou uma das principais manifestações da crise social em curso. No seu início, traduiu o protesto das massas populares contra a ordem vigente. Esse sentido está absolutamente claro no Didauqe (doutrina dos doze apóstolos) que exigia a libertação dos escravos e protestava contra a ordem vigente. Culminou com o tom inconciliável do Apocalípse de São João que condenava o poder de Roma e previa o seu fim próximo (Ap. 17, 15-18 e 18, 1-3).

 

A prática no cristianismo primitivo deve ter seguido rigidamente os preceitos míticos do Velho testamento até a sua ruptura com o judaísmo. Esta nova fase deve ter começado a partir da recusa dos judeus-cristãos de se envolverem na guerra messiânica contra os romanos no ano 66. A importância deste acontecimento não passou desapercebido de Eusébio (História eclesiática, III, 5, 3). As autoridades militares romanas evacuaram alguns para Pela, na Transjordânia, outros se refugiaramnas cidades da Síria, da Ásia Menor e em Alexandria. O resultado final foi a desvinculação dos cristãos com o destino nacional de Israel  e maior difusão dos seus ensinamentos.

Até que elaborada a estrutura teórica da teórica da religião cristã, o Velho Testamento foi o suporte ideológico. A doença se apresentava como resultado do castigo divino pelas transgressões morais cometidas (Ex. 4,6; Jo 16,12; SI 39,11 e outras) ou como um mal que nas promessas escatológicas será suprimido no novo mundo que deus dará aos homens (Is 35,5; 25,8; 65,19 e outras). Porém, no judaísmo pós-exílio aparece mais a ação dos demônios e espíritos maléficos como os grandesresponsãeis pelo aparecimento das doenças.

As atenções médico-míticas do velho testamento reproduzem as antigas preocupações já encontradas no politeísmo. as doenças, lepra, loucura, cegueira e paralisia, descritas como sendo de origem divina, são as mesmas e com o mesmo sentido, descritas nas sociedades que povoavam aquela região antes do aparecimento do juda~ismo.

é interessante notar que o Velho Testamento não proíbe o recurso médico formal (“R 20,7 e Tb 11,8-11) e o emprego de certos remédios (Is 1,6; Jr 8,22 e Sb 7,20), contudo ao mesmo tempo afirma: ”Antes de tudo, A Deus que se deve recorrer, pois ele é o Senhor da vida” (Si 38,9-14), ”Ele é quem fere e quem cura” (Dt 32,29) e ” Ele é o médico por excelência do homem”

A gradativa consolidação do cristianismo como nova religião, foi uma das consequências das alianças políticas com o poder de Roma.

A sua separação do judaísmo foi fundamental. Este divórcio ficou ligado na literatura eclesiática ao nome de São Paulo, que no Novo Testamento é caracterizado como apóstolo dos pagãos.

Sem pormenorizar as contradições históricas dos evangelhos, jesus apareceu inicialmente como Deus feito homem e como Messias, o Salvador anunciado pelos profetas hebreus do Velho Testamento.

A profecia rezava que a chegada do Messias redimiria o povo de Israel. Nada disto se materializou e a situação dos judeus agravou-se durante e depois da revolta contra os romanos.

mesmo tendo nascido no meio da nação judáica, o cristianismo enorme resistência do judaísmo. Esta oposição aumentou na medida em que os cristãos assimilavam rapidamente os elementos das outras religiões, inclusive alguns ritos e festas pagãs.

depois da segunda e última revolta dos judeus, sob a liderança de Bar-Kocheba, entre os anos 132-136, ocorreu o definitivo afastamento entre as duas religiões.

no local do santuário de Iahvé, os romanos ergueram em jerusalém um templo para Júpter. A seguir, as autoridades sobretaxaram os judeus para a conservação deste santuário.

Para que a separação entre judaísmo e o cristianismo fosse efetivada, começou a elaboração, por este último, de um conjunto normativo de proibições. Um dos primeiros ritos judáicos abolidos foi o da circuncisão. A salvação só poderia ser alcançada com a desobediência da aliança feita entre Abraão e Deus )Gn 17,9-14; 21-24).

Segui-se com o tom violento da Primeira Epístola aos Tessalonicenses que afirma, pela primeira vez, a acusação contra os judeus de terem crucificado jesus (1 Ti, 2, 15). Foi com base neste veredito que os representantesda igreja, ao longo de diferentes períodos, perseguiram os judeus.

 

A consequência da interrupção desse rito entre os cristãos foi comprovada nas estatísticas médicas de mil e setecentos anos depois. Os homens que não são circuncisados nos primeiros meses de vida pagam um maior preço na incidência dos tumores malignos do pênis e as suas companheiras do câncer de colo de útero.

A base doutrinária cristã – os Evangelhos – já elaborados nesta fase, se espalhou por grande parte do Império Romano, apesar da resistência da hierarquia militar em algumas regiões.

Com muita rapidez o cristianismo renunciou a santa pregação contra as opressões e induziu as massas populares a pensar que tudo era a vontade de Deus(Rm 8,18;2 Co 5,1).

Os escritores eclesiásticos se sforçam para apresentar a famosa setença ”A Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” como uma forma de compromisso com o poder divino.

A separação cada vez mais nítida entre os chefes das comunidades cristãs e a massa dos religiosos está contida na declaração ” Se alguém vos subjugar, se alguém vos devorar, se alguém se apoderar de v´s, se alguém for arrogante, se alguém vos bater na cara, suporta-o” (2 Co 11,20).

A partir daí a igreja é um fato histórico, tal como o estado, a ordem feudal e o próprio cristianismo. A primeira premissa da sua constituição foi a gradual união das comunidades cristãs dispersas.

nesse conjunto sócio-político se estabeleceu duas medicinas: a praticada pelo povo oprimido e miserável e a que era privilégio da pequena minoria que detinha o poder econômico e político.

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em AS EPIDEMIAS – DA PESTE A AIDS – O MEDO COLETIVO DA MORTE

A DOENÇA ALÉM DO SOCIAL

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

As proposições de Galeno retendo o perfil existencial das pessoas aos fatores natos pré-existentes – os temperamentos – fixaram os limites da cura além do social durante quase vinte séculos.

A micrologia associada ao desembarque da louca industrialização, no Ocidente, obrigaram à revisão da ordem galênica. O rápido desgaste do corpo, comprovado na micro e na macro-dimensão, determinado pelo manuseio das máquinas, contribuiu para deslocar a dor e o prazer para o exclusivo limite do social.

A partir da segunda metade do século passado, a Medicina oficial continua transmitindo como verdade final,  a morfologia das doenças, desprezando como e por que as pessoas se relacionam com a dores e os prazeres1.

Apesar da associação saúde-sociedade não ser recente na história da Medicina, nunca se tornou tão obrigatória nos trabalhos acadêmicos, quanto nos últimos cinqüenta anos.

Notadamente, nos países do Terceiro Mundo, onde a dor-histórica (DH) é mais gritante, escrever ou orientar uma tese médica desprovida do suporte metodológico em torno da doença como fruto do social acabou sendo proibida.

Admitir como pressuposto que a doença só depende da ordem social, remete o raciocínio, de maneira obrigatória, à falsa premissa da exclusão da dor-pessoal (DP) e da DH em certas sociedades. Nada é mais prepotente! Como se o poder pudesse indicar, por intermédio dos decretos, o caminho condutor aos prazeres.

A herança genética que molda os corpos dos animais multicelulares foi estruturada, em milhões de anos, para fugir da DP e buscar o prazer com resposta inata contra o sofrimento. As vidas são impossíveis sem a distensão entre a dor e o prazer.

Ao contrário, os sentimentos pessoal e coletivo determinados pelas DP e DH que induzem ao juízo de valor do tipo da organização social, ou sejam, os circuitos biológicos identificadores da dor e do prazer pessoais e coletivos, estão embutidos em processos muito mais densos e pouco compreendidos.

Apesar de a  Medicina oficial ter feito progresso no trato da saúde coletiva, retirando-a do espaço fechado da classificação nosológica, é saudável insistir que prevalecem, nas academias, as correntes que colocam a doença como um produto exclusivo da organização social.

Nesse sentido, a principal proposta teórica, na modernidade, que associou o patológico à desordem social e à dor (por corruptela ao capitalismo, como o agente do caos) e o normal à ordem social como agente do prazer (por corruptela  à ditadura do proletariado, como condição indispensável à Grande Ordem Coletiva), nasceu a partir da descrição  das condições de trabalho e da saúde dos operários ingleses2.

Todavia, a  tendência de associar a doença à desorganização das sociedades  é bem mais antiga. Na Grécia, nos tempos de Sólon, já estava clara3:

“A função da justiça na sociedade corresponde para o corpo à da Medicina, que Platão ironicamente denomina pedagogia das doenças. Todavia, o momento da doença é muito tardio como ponto de partida para uma verdadeira influência educacional. Sendo o médico o conhecedor da doença, ele pode intervir politicamente para evitá-la”

 

As sementes intelectuais da estranha concepção linear da dor e do prazer, já estavam delineadas no século XVI. Como esse mecanicismo primário interagia nos meios acadêmicos, a máquina foi escolhida como o modelo ideal. O corpo humano passou, como num passe de mágica, a ser comparado a um grande relógio, onde as doenças eram simples desajustes na engrenagem.

A leitura mecanicista dos corpos serviu para fundamentar uma das mais conhecidas tentativas para explicar a diferença entre o homem, possuidor de alma, e os outros animais, feita pelo médico espanhol Gomes Pereira, em 1554, ao afirmar que os animais são máquinas, incapazes de falar e raciocinar4.

O peso decisivo foi, sem dúvida, o das idéias do filósofo francês René Descartes (1596-1650), ao reforçar a corrente mecanicista, defendendo o corpo como o domínio da física e a alma, da religião5.

As idéias oitocentistas, provavelmente, incentivadas pela fisiologia experimental, presente nos trabalhos de Claude Bernard, aprumaram a ciência na tarefa de explicar como funcionava o corpo, quase sempre associando aos avanços da técnica.

O pleno exagero do mecanismo coube às palavras do pensador La Mettrie, em 1748, que conduziu a mecanização das pessoas ao limite máximo6:

 

“…em todo o universo não há senão uma única substância diversamente modificada, portanto o homem é uma máquina.”

 

No início do século XX, a situação em nada mudou. Ao contrário, com a industrialização impondo as linhas de montagem e a necessidade rápida de mão-de-obra, os corpos tornaram-se complementos das máquinas.

O mecanicismo trouxe um impressionante conjunto metafórico à linguagem moderna. O coração passou a ser a bomba; o pulmão, o fole; o rim, o filtro e, finalmente, o cérebro, o computador.

Os reflexos sobre as mudanças na formação do médico não tardariam. Em 1910, o Relatório Flexner sobre as cento e cinqüenta faculdades de Medicina, existentes naquela época, nos Estados Unidos, seguido dois anos depois, pelo segundo Relatório que descrevia os cursos médicos da França, Inglaterra, Alemanha e Áustria, selaram o destino da nova metodologia do ensino da Medicina.

As universidades passaram a considerar como produtor de saúde, exclusivamente, as relações científicas vindas dos laboratórios de pesquisa. O conjunto formador estava apoiado na certeza de que o uso de aparelhos, para intermediar a ação médica oficial, seria responsável, em futuro muito próximo, pela melhoria das condições de saúde das populações.

Talcott Parsons, em 1951, somou para que a  Medicina oficial, de modo semelhante às crenças e às idéias religiosas, compreendesse as enfermidades como significan-tes de desvio social7. A coesão social só poderia ser alcançada com o controle das doenças, mas sob a estreita supervisão do médico. Essa abordagem foi marcada pelo etnocentrismo americano do Norte, da década de cinqüenta, e legitimou os Relatórios Flexner quando afirmou:

 

“O paciente tem a obrigação de buscar ajuda técnica competente (fundamentalmente um médico) e cooperar no processo de recuperação”.

 

A compreensão de Parsons estabeleceu a premissa de que o homem não pode ajudar-se a si mesmo e transformou-o num ser passivo e obediente que deve submeter-se inteiramente ao poder do médico. Essa conduta fortaleceu a Medicina oficial e a morte hospitalar fixando uma relação de dependência do paciente frente ao médico.

É evidente que o estudo de Parsons só poderia ser aplicado em alguns segmentos sociais, nos países  industrializados, com grandes recursos disponíveis para pagar os serviços de saúde.

Do mesmo modo como a concepção da saúde atada exclusivamente ao social, a aplicação dessa Medicina oficial mecanicista é questionável, pelo menos, em grande parte da população do Primeiro Mundo e nos maiores segmentos dos países subdesenvolvidos, onde a DH esmaga as  camadas sociais que não têm acesso aos hospitais.

Essa imensa parcela populacional desassistida, tanto no Primeiro quanto no Terceiro Mundos, continua recorrendo aos curadores populares para resolver os problemas da saúde e da doença.

Apesar da clara evidência, a prática médica nos países do Terceiro Mundo, desde os anos sessenta, ficou impregnada pelas teorizações de Engels, Flexner e Parsons. Os trabalhos acadêmicos ora primam para qualificar a dor como fruto da injustiça social, ora oferecem a máquina como solução para prolongar a morte temida.

Apesar da maior questão dos saberes médicos não está resolvida – em qual dimensão da matéria viva a doença começa a substituir a forma preexistente para transformar o normal em patológico? –  os médicos oriundos da sedução marxista ou do tecnicismo exacerbado acreditam, perigosamente, na infalibilidade da Medicina oficial e distanciam-se do doente.

A intolerância dos dois seguimentos forçaram o abandono da milenar tradição médica que valoriza a relação médico-paciente como ponto de partida para alcançar a cura.

As ordens médicas vindas da doutrina flexneriana e da Grande Ordem Coletiva são impessoais e a demonstração de sentimentos, junto ao leito do enfermo, é sinônimo de incompetência. O dom não tem lugar nas propostas de  Engels, Flexner e Parsons.

Se, por um lado, os Relatórios Flexner concorreram para  consolidar o ensino da Medicina, nos Estados Unidos da América e dos países da Europa e a publicação de Engels remeteu à crítica dos abusos do capitalismo, por outro, ambos podem ser responsáveis pelo descrédito com que a ciência lidou, a partir de então, com o conhecimento historicamente acumulado dos curadores populares.

O resultado final da tecnocracia médica refletiu-se no olvidar do modo como os doentes sentem as doenças e na valorização do abuso dos medicamentos como suporte indispensável para alcançar o sucesso profissional.

O médico não precisaria conhecer o paciente, bastaria estabelecer o diagnóstico e prescrever o tratamento. Os testes laboratoriais seriam confiáveis para garantir que as doenças, e não os doentes, responderiam de acordo com o esperado.

Paralelamente à intolerância que afastou o médico do doente, muitas universidades iniciaram os estudos para entender como o homem e as mulheres se relacionavam com as doenças e com as práticas de curas fora dos muros das universidades.

O trabalho dos críticos, que armaram as primeiras barreiras contra o tecnicismo, trouxe para dentro da academia os conflitos resultantes das relações do profissional de saúde com os dois sistemas de saberes – o mítico e o empírico – presentes, desde tempos remotos, na história da Medicina.

Ao contrário da tendência modernista, ao longo da História, o controle das doenças sempre esteve além do social9:

 

“A doença não pertence somente à história superficial do progresso científico e tecnológico, mas à história profunda dos saberes e práticas ligadas às estruturas sociais, às instituições, às representações, às mentalidades”.

É insuficiente entender a doença somente como uma conseqüência das agruras sociais. As evidências apontam para a doença como dependente do social e do genético para que os indivíduos possam fugir da dor pessoal, transpor a dor-histórica  e procurar o prazer.

Cada pessoa possui incontáveis padrões específicos para identificar qualquer ameaça de DP. As respostas biológicas frente às sensações dolorosas foram acumuladas durante o processo de humanização. Estão contidas nos circuitos específicos dos sistemas nervosos central e periférico e em cada segmento microscópico do corpo, todos moldados no ADN.

A  herança genética é a responsável pela recombinação desses incontáveis padrões, quando o patrimônio dos genes paternos, residente no espermatozóide, penetra no óvulo e garante a transmissão aos descendentes na reprodução sexuada ou na inseminação artificial.

Muitas dúvidas quanto à possibilidade de o social causar alterações genéticas, transmitidas à prole, desapareceram após os estudos das mutações genéticas e  dos trabalhos do cientista Susumi Tonegawa, o ganhador do Nobel de 1987, esclarecendo como se dá a variação na ordem dos aminoácidos dos anticorpos produzidos nos linfócitos B.

O pesquisador demonstrou que, quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são selecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de seqüências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com competência a defesa do corpo humano contra as agressões micro e macroscópica do exterior.

Como conseqüência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel e capaz de desenvolver, durante a vida, uma infinidade de combinações gênicas adaptadas às necessidades vividas. Com essa certeza, é possível articular o sólido elo entre a herança genética e a vida social.

A doença e a dor, por serem entidades abstratas e não existindo só em si mesmas, recebem nomes e classificações do homem. Esse mesmo homem que as teme quando sente a possibilidade da DP sem controle ou a proximidade da morte prematura, interliga-as aos sistemas cognitivos dos saberes e símbolos míticos e empíricos, oriundos de tempos muito distantes, para ativar os circuitos biológicos, que se projetam no social, tão vivos e verdadeiros co-mo a cor dos olhos, dos cabelos  e da pele, com poderes suficientes para mudar os comportamentos pessoal e coletivo, com o objetivo de moldar a sociedade.

Esses circuitos natos –as memórias-sócio-genéticas1–  localizadas no genoma, respondem pelas correntes que ligam o ser ao social e à genética, impulsionam-no contra as ameaças da dor e aproximam-no do prazer.

Como a forma antecede qualquer manifestação do ser vivente, para que ele se expresse, entre as incontáveis maneiras, é indispensável existir um ou mais segmentos na forma  do corpo, nas dimensões macro e microscópica, que sejam os responsáveis pela função.

Para cada função biológica existe uma ou mais formas singulares adaptadas, anatomicamente, à necessidade do ser. Esse elo, indispensável à vida, preserva a multiplicidade das sensações corpóreas objetivas e subjetivas, como existem nas linguagens oral e escrita, na audição, libido, fome, sede, medo, amor, raiva, choro, sono, etc.

Considerando o ser como produto de longo processo da evolução, ele possui, obrigatoriamente, nas cadeias do ADN, muitos segmentos de combinações que o religam, de modo permanente, ao passado comum recente e ao muito distante.

Uma vez que o processo de mudança da forma e da função do corpo deu-se lentamente, adaptando-o à sobrevivência e forçando-o a fugir da dor, o ser possui, no ADN, vestígios das memórias-sócio-genéticas (MSGs) adquiridas e armazenadas antes de ter assumido a atual forma humana.

Por esse motivo, as  doenças e os símbolos que as ligam aos limites da cura e ao medo da morte prematura  são partes do conjunto biológico que, ao contrário de dependerem só do social, possuem a força motriz capaz de moldar o grupo social às necessidades da sobrevivência a partir das ordens ditadas pelas MSGs.

 

Bibliografia do Capítulo I

 

1.BOTELHO, João Bosco. Arqueologia do Prazer, Manaus, Metro Cúbico, 1993.

2.ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Rio de janeiro, Global, 1986.

3.JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do home grego. São Paulo, Martins Fontes, 1986.

  1. THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.
  2. DESCARTES, René. Discurso do Método: para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. In:______. DESCARTES. São Paulo, Abril (Os Pensadores), 1983.

6.ANCORA, Clemente et all. Homem, In: ENCICLOPÉDIA EINAUDI. Anthropos-Homem. Lisboa, Imprensa Nacio-nal-Casa da Moeda, 1985. V.5.

7.PARSONS, Talcott et all. Papel e sistema social. In: CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octavio, orgs. Homem e Sociedade, São Paulo, Nacional, 1966.

8.LE GOFF, Jacques; SOURNIA, Jean-Charles. -Les Maladies ont une histoire. Paris, L’Histoire-Seuil, 1984.

 

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em A DOENÇA ALÉM DO SOCIAL