A Medicina no tempo – VII ( América Pré-Colombiana)

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

 

Segundo alguns autores o homem americano já estava fixado no continente há aproximadamente 15.000 anos, como resultado de diferentes fluxos migratórios através do Estreito de Bering. Estes grupos ao se fixarem deram início ao processo de estruturação sócio-política que culminaria com o fantástico desenvolvimento encontrado pelo europeu no século XVI nas civilizações asteca e inca.

Quando os conquistadores espanhóis começaram o saque na América recém descoberta, no século XVI, Encontraram as civilizações americanas estruturas e rigidamente hierarquizadas, com sistema político social definido e domínio do conhecimento na agricultura, metalurgia, escrita astronomia e cuidados médicos que incluiam farmácias, que vendiam xaropes, curativos e pomadas, barbearia para tomar banho e cortar os cabelos, médicos especializados e hospitais.

Desde que o homem iniciou a organização da sua comunidade, passou da produção de sobrevivência para o excedente e admitiu a propriedade privada e dos meios de produção, já fez várias partilhas do mundo, sempre se baseando em direitos inquestionáveis.

As negociações urdidas entre Portugal e Espanha que culminaram com o Tratado das Tordesilhas, em 1494, dividiam o mundo entre Portugal e Espanha, com a conivência do Papa, através de um meridiano traçado do pólo e passando a 370 léguas, das ilhas do Cabo Verde. Tudo que existisse a oeste seria das Espanha e a leste de Portugal. Como todas as outras partilhas já feitas pelo homem, restam, sempre, os inconformados pela arbitrariedade, o que motivou o Rei da França, Francisco I, a dizer: “Gostaria que os espanhóis e portugueses me mostrassem onde está o testamento de Adão que divide o mundo entre Espanha e Portugal”.

Como conseqüência imediata desta partida do mundo tivemos um dos maiores saques e genocídios de que a humanidade tomou conhecimento, com a chegada de Cortez, em 1519, em Tenochtitlán (hoje cidade do México) e Pizarro, em 1533, em Cuzco no Peru.

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A MORTE DRAMATIZADA A MORTE DO OUTRO

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

 

Acabamos de ver duas atitudes frente à morte: a primeira, a mais antiga, a mais comum, é a resignação familiar ao destino coletivo da espécie e pode se resumir nesta fórmula: “vamos todos morrer”. A Segunda, que aparece no século XII traduz a importância reconhecida em sua própria existência individual e pode se traduzir nesta outra fórmula: “a morte do próprio indivíduo”.

A partir do século XVIII, o homem das sociedades ocidentais, tem a tendência de dar à morte um sentido novo: exalta-a, dramatiza-a, que uma morte mais impressionante, mas, ao mesmo tempo, ele já está menos preocupado com sua própria morte é a morte “romântica”, é sobretudo a morte do outro.

O outro, cujo pesar e lembranças inspiram nos séculos XIX e XX o culto novo dos túmulos e dos cemitérios.

Se, durante pouco tempo, o século XVI, a morte se carregou de um sentido erótico, ela vai logo perder esse caráter ou pelo menos ele vai ficar sublimada e reduzida à beleza; a morte será admirável pela sua beleza. É a morte que chamamos de “romântica de Lamartine, na França, das irmãs Bronte” na Inglaterra, ou de Mark Twain nos Estados Unidos. Existe numerosos testemunhos literários sobre este fenômeno; eles descrevem a nova atitude das pessoas cercando o agonizante: elas gesticulam, choram, rezam.

A expressão de dor dos sobreviventes é devida a uma nova intolerância à separação.

Mas, não é só à cabeceira dos agonizantes ou à lembrança dos desparecidos que as pessoas se perturbam: a idéia mesma da morte comove.

Tal é a primeira grande mudança  que aparece no final do século XVIII e que simboliza um dos aspectos do romantismo. A Segunda grande mudança é relativa à ligação entre o agonizante e sua família. Para exprimir as suas últimas vontades, o agonizante redigia um testamento. Do século XIII ao século XVIII, o testamento exprime o seu pensamento profundo, a sua fé. As cláusulas piedosas obrigavam os herdeiros a respeitar as vontades do desparecido. Estes testamentos mostravam uma grande desconfiança frente aos parentes; o agonizante temia não ser obedecido.

Mas, na Segunda metade do século XVIII, uma mudança importantíssima intervém na redação dos testamentos; essa mudança foi geral no Ocidente Cristão. As cláusulas piedosas somiem e o testamento só fica como ele é hoje: uma ato legalizado de distribuição de bens. É um evento muito importante na História das Mentalidade: o testamento é portanto, secularizado. Como podemos explicar esses fenômenos? Segundo o historiador francês Michel Vovelle, seria um dos sinais da descritianização da sociedade. Mas, há talvez, também uma outra explicação: o testador separou as suas vontades em relação a seus bens, das que a sua sensibilidade inspirou, sua piedade por exemplo; essas últimas, são, agora, comunidades oralmente aos próximos, à família.

Não se deve esquecer as grandes mudanças que aparecem na família no fim do século XVIII: as relações são agora baseadas no sentimento e na afeição, segundo os estudos do grande historiador que foi o Philippe Ariés.

Agora, o agonizante testemunha a seus próximos uma confiança que não tinha até o final do século XVII.

Na hora da morte, a atitude dos assistentes muda. Se o moribundo fica como o “papel principal”, os assistentes não são mais os “figurantes” de antigamente, passivos, refugiados na oração. A partir do século XIV, o luto é manifestado com ostentação. É uma volta às demonstrações excessivas e espontâneas como o início da Idade Média. O século XIX é época dos lutos histéricos.

Essa exageração do luto significa que os sobreviventes aceitam com mais dificuldades a morte do outro: a morte que dá medo, não é a do outro.

Esse sentimento está na origem do culto moderno dos túmulos e dos cemitérios. É muito desenvolvido na França e na Itália. Os túmulos viram o sinal aparente da presença do morto depois da sua morte; á uma resposta da afeição do sobrevivente e a repugnância nova a aceitar o desaparecimento do ser querido. Deseja-se agora, visitar os seus mortos. Para isso. Compra-se um pequeno terreno assegurando a perpetuidade, e vai se visitar o túmulo do mesmo jeito que vai-se visitar um parente vivo. Mesmo os anticlericais e os agnósticos vão visitar os túmulos de seus familiares. Os que não vão à igreja para a cerimônia fúnebre, vão sempre ao cemitério. Pouco a pouco se tomou o habito de florescer os túmulos. Assim, o cemitério virou de novo, na cidade um lugar importante. A presença de um cemitério aparece como necessária à cidade.

O culto dos mortos é também uma das expressões do patriotismo: o final das guerras é festejado na França como a festa dos soldados mortos. Cada aldeia, mesmo pequenina, possui seu monumento aos mortos das diferentes guerras.

Mas, durante o século XIX, esta semelhança das mentalidades se altera e diferenças importantes aparecem. América do Norte, a Inglaterra e uma parte da Europa do Noroeste se separa na França, da Itália e da Alemanha: as primeiras ficam no quadro tradicional; as segundas constroem para seus mortos monumentos cada vez mais complicados e figurativo.

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