MEDICINA HEBRAICA ANTIGA

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

A análise do texto, do contexto e das mensagens do Antigo Testamento constitui uma das mais importantes fontes de informações sobre:

  1. A organização social, política, religiosa do povo de Israel;
  2. A ordem e a desordem predominante na saúde e na doença nos tempos bíblicos.

A maior parte da vida da sociedade hebraica girava em função dos ensinamentos contidos no Livro Sagrado. Em relação aos preceitos que contribuem para evitar as doenças, podem ser encontrados inúmeras recomendações que sedimentaram a Medicina hebraica antiga.

Os estudos lingüísticos desenvolvidos com o maior acesso à escrita cuneiforme, utilizada pela gente letrada assírio-babilônica, acentuam a profunda interligação entre os hebreus e os povos da   Mesopotâmia.

As práticas médicas hebraicas na antigüidade tinham normas bem definidas quanto as doenças conhecidas e as temidas. A legislação social preocupava-se, claramente, com a profilaxia das patologias cujos tratamentos eram de competência duvidosa.

As normas sociais ancoradas em direitos e deveres religiosos que   envolviam as primitivas relações médico-míticas, posteriormente incorporadas ao Antigo Testamento.

É provável que esses ensinamentos, de incrível objetividade e coerência, foram incorporados ao cotidiano do povo hebreu a partir da confluência de dois fatores:

 

  1. Médico-mítico:

 

De ordem religiosa, está inserido no incrível poder de convencimento dos líderes atrelado à submissão   pelo medo do castigo   divino aos rebeldes do sistema, uma das características organizacionais da prática monoteísta.

 

  1. Utilidade social:

 

Demonstrada a partir dos efeitos benéficos nos corpos de  quem praticava. É provável que os excluídos fossem as maiores vítimas das patologias temidas.

Existem várias dúvidas quanto os fluxos migratórios hebreus, porém não existe questão a respeito do acádio-egípcio que conduziu os primitivos semitas a Babilônia, em torno do ano 3.000 a.C.

Segundo a tradição do Antigo Testamento, a origem aramaica dos patriarcas de Israel vieram da Babilônia para a Palestina, descrita em Ge 24, 10 :

 

O servo tomou dez camelos de seu senhor e, levando consigo de tudo que o seu senhor tinha de bom, pôs-se a caminho para Aram Naaraim, para a cidade de Necor.”

 

O lugar referido Aram Naaraim significa Aram dos Rios, isto é, a Alta Mesopotâmia, onde se encontra Hara, a residência dos pais de Abraão.

No começo da história de Israel não existia um grupo étnico homogêneo. Os seus membros pertenciam a tribos diferentes que acabaram miscigenados, provavelmente, motivados pelo impulso da sobrevivência.

A história do povo de Israel pode ter começado nas ondas migratórias semíticas saídas da Síria e da Arábia em direção ao Crescente Fértil. Ë razoável supor que os judeus já detinham, nesta época, as organizações social e política necessária para controlar as principais contradições internas e adapta-las às normas dos conquistadores. Sem a posse do território e sem o poder militar de dissuasão, foi graças a essa capacidade adaptável, o povo judeu sobreviveu à dominação, durante o longo cativeiro babilônico, e conservou a etnia.

É impossível não pensar que os cuidados com os corpos e com o comportamento coletivo, desenvolvidos nas populações hebraicas, não tenham sofrido grande influência do ritmo social das sociedades escravistas dominantes dos primeiros milênios a. C.

Os judeus do cativeiro babilônico, pelo menos os pertencentes aos estamentos privilegiados, letrados e artífices renomados, houve a absoluta premência de seguir as regras sociais do conquistador marcadas na relação compulsória da doença vinculada ao pecado. Desta forma, o sistema divinatório mantinha estreito laço com um Deus poderoso e punitivo.

A partir desse vínculo de poder e submissão entre o ser-tempo e o ser-não-tempo, o povo de Israel montou a base disciplinar nos duros padrões médico-míticas, que serviram para manter o controle social nas etapas migratórias.

Porém, não foi só a medicina que sofreu a interferência da compreensão mítica da realidade. Encontra-se marcas profundas desse procedimento das normas disciplinares no luto, na alimentação, no vestuário e na sexualidade.

As instruções punitivas bíblicas, provavelmente, muitas oriundas dos tempos ágrafos, só existiram em razão dos conflitos operados a partir da grande freqüência das infrações sociais.

Entre os muitos modelos de exclusão social médico-mítica que nortearam, durante séculos, os cuidados com a saúde, destacam-se:

 

  1. Doença sexualmente transmissível:

 

Lv 15, 1-5:  “Iahweh falou a Moisés e a Aarão e disse: Falei aos filhos de Israel e lhes disse: Quando um homem tem um fluxo que sai do seu corpo tal fluxo é impuro. Enquanto tiver o fluxo, a sua impureza consistirá no seguinte: Quer a sua carne deixe sair o fluxo, quer o retenha é impuro. Todo o leito em que tal se deitar ficará impuro e todo móvel onde se assentar ficará impuro. Aquele que tocar o seu leito deverá lavar as próprias vestes, banhar-se em água, e ficará impuro até a tarde.”

 

  1. Perigos da consangüinidade e do incesto:

 

Lv 18:6-18 – “Nenhum de vós se aproximará de sua parenta próxima para descobrir a sua nudez.”

 

E proíbe a relação carnal com a própria mãe, irmã, filha, neta, sobrinha e tia.

 

  1. Bestialidade:

 

Lv 18:23 – “Não de deitarás com animal algum; tornar-te-ias impuro. A mulher não se entregará a um animal para se ajuntar com ele. Isto é uma impureza.”

 

Lv 20: 15-16: – “O homem que se deitar com um animal deverá morrer, e matareis o animal. A mulher que se aproximar de um animal qualquer para se unir a ele, será morta, assim como o animal.”

 

  1. Sexo durante a menstruação:

 

Lv 15:25: “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue de seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras. Toda cama sobre a qual se deitar com o seu fluxo ficará impura; todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro.”

 

É possível estabelecer, pelo menos, uma corrente contraditória de ordem e desordem, vinda como onda retardatária do passado muito distante, das primitivas relações do homem com o animal, empurrando a menstruação na direção da impureza bíblica: contrapondo-se ao menstruo, o sangue quente que coagula sempre recebeu importância sagrada como a fonte da vida e do renascimento após a morte.

 

O simbolismo dessa relação está contido nos inúmeros esqueletos humanos pré-históricos que foram propositalmente exumados certo tempo após a morte e após terem sido pintados com ocra vermelha, foram enterrados com a cabeça do morto voltada para a nascente.

 

Lv 17,13-14: Qualquer pessoa, filho de Israel ou estrangeiro residente entre vós, que caçar um animal ou ave que é permitido comer, deverá derramar o seu sangue e recobri-lo com terra. Pois a vida de toda a carne é o sangue, e eu disse aos filhos de Israel: não comereis o sangue de carne alguma, pois a vida de toda a carne é o sangue e todo aquele que o comer será exterminado.”

 

As arcaicas relações do homem com o animal, predominantes no universo mítico dos nossos ancestrais caçadores-coletores, foram modificadas pelo sedentarismo da agricultura regida pelo excedente de produção. A ordem religiosa do mundo animal foi substituída pela solidariedade mística entre o homem e o vegetal. Como resultados das novas adaptações sociais a terra  e o esperma deslocaram o osso e o sangue.

 

 

  1. Proibição de certos alimentos:

 

A clareza dos interditos de algumas comidas, no Antigo Testamento, excede em muito os limites com a qualidade da alimentação em si mesma. É possível que estivessem relacionadas com outras questões sociais da sobrevivência do grupo.

No Levítico 11: 1-29 detalha os nomes e os motivos dos muitos animais que não deveriam ser ingeridos. Alguns deles é possível estabelecer associações imediatas, como o porco com os parasitas intestinais e o camelo com a utilidade do transporte. Porém, fica difícil explicar a proibição de comer o coelho a lebre e o peixe sem escama.

 

  1. O medo da lepra:

 

A distinção morfológica da lepra de outras doenças da pele no Levítico 13:A 1-8 a B1-17 acrescidos dos cuidados  para isolar ou não o enfermo retrata muito bem o quanto essa doença era temida:

 

Lv 13: B1-18: “Quando aparecer em um homem uma enfermidade do gênero da lepra, será levado ao sacerdote. O sacerdote o examinará e se constatar sobre a pele um tumor esbranquiçado, pêlos que se tornaram brancos e o aparecimento de uma úlcera, é lepra inveterada sobre a pele. O sacerdote o declarará impuro. Não o isolará, pois que, sem dúvida alguma, está impuro.”

Por outro lado, a prática da adivinhação e da cura milagrosa, do mesmo modo que entre os egípcios e assírio-babilônicos, inundou o Antigo Testamento. A crença no poder de homens especiais, possuidores do dom, especialmente escolhidos pela divindade, com a capacidade de curar ou causar a doença e de prever ou determinar os infortúnios coletivos, marcou a vida de muitos líderes de Israel.

 

Ex 9: 8-9 – Disse Iahweh a Moisés e Aarão: “Apanhai mãos cheias de cinza de forno, e Moisés a lance para o ar, diante dos olhos de faraó. Ela se converterá em pó fino sobre a terra do Egito e provocará, nos homens e nos animais, tumores que se arrebentarão em úlceras, por toda a terra do Egito.”

 

  1. Circuncisão

 

A prática médico-mítica da circuncisão pode estar também inserida na primitiva relação do homem com o animal através do sangue para caracterizar um rito de maioridade do de iniciação social.

A circuncisão era praticada por judeus pertencentes a diversas tribos. Existem duas referências no Antigo Testamento bem significativas a esse respeito.

 

  1. A primeira marca com sangue na carne a aliança e a submissão do homem ao Deus único:

 

Ge 17: 9-14 – “Disse mais Deus a Abraão: Quanto a ti, guardarás a minha aliança, tu e atua descendência depois de ti, nas suas gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Todo macho entre vós será circuncidado. Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal da aliança entre mim e vós. Quando completarem oito dias, todos os machos serão circuncidados, nas vossas gerações, tanto o nascido em casa, como o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua linhagem. Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro. Assim estará a minha aliança na vossa carne como aliança perpétua. O incircunciso, cuja carne do prepúcio não for circuncidada, será extirpado do seu povo; violou a minha aliança.”

 

  1. A segunda seleciona a entrada no grupo social a partir da recusa de casamento com homem sem circuncisão:

 

Ge 34-14 ; “Não podemos fazer isso, dar a nossa irmã a um homem incircunciso. Isso seria uma vergonha para nós.”

 

 

No intervalo de tempo que se seguiu entre o martírio, na Babilônia, e a segunda pilhagem do templo de Salomão, realizada por ordem de Roma, no século I d. C., os judeus fundaram muitas escolas que responderam pela transmissão das tradições religiosas e médico-míticas.

O povo de Israel começou, pela segunda vez, a longa viagem em direção das terras distantes e a gradativa absorção de partes da cultura de muitos povos. É possível que este fato tenha contribuído para a melhor compilação do Talmud, estruturado a partir de inúmeras funções. Uma delas, talvez a mais importante, tenha sido evitar o esquecimento da herança cultural do povo de Israel, acumulado em alguns milhares de anos de lutas.

É possível que desde a primeira destruição do templo de Salomão, no ano 586 a. C., seguido do aprisionamento babilônico, o Talmud tenha sido utilizado como peça fundamental na educação social e religiosa do povo de Israel.

O conjunto de informações sobre os cuidados médico-míticos do Antigo Testamento é relativamente pequeno se comparado com o existente no Talmud. Nesse período, a prática médica dominante, mas comunidades judias ficou conhecida como medicina talmúdica.

A palavra hebraica talmud significa acostumar-se, aprender. Posteriormente, incorporou o sentido de estudo, instrução, ciência e para caracterizar o halakot ou direito consuetudinário ao lado da torah formada pela tradição oral e jurisprudência.

O Talmud está escrito em hebraico, aramaico, grego e latim. Divide-se em seis partes:

 

  1. Zeraim (Sementes) que trata da agricultura;

 

  1. Moed (Festas) abrange o laser, a solenidade e o jejum;

 

  1. Nashim (Mulheres) estabelece as leis do noivado, casamento e divórcio;

 

  1. Nezikim (Prejuízos) expõe a jurisprudência cível e penal;

 

  1. Kodashim (Coisas Santas) ensina o abate dos animais e os sacrifícios rituais;

 

  1. Toharoth (Purificações) estabelece as regras para a purificação.

 

Existem dois Talmudes, frutos dos interesses diversos que moviam as populações judias da Babilônia e da Palestina.

O Talmud da Babilônia ( Talmud Bauli) contém os ensinamentos das escolas de Nehardea, Sura, Mahuza e Pumpedita. Foi redigido entre os anos 352-427 a. C. e completado no século VI.

O Talmud de Jerusalém (Talmud Yeruchalmi) recebeu a compilação maior, entre os anos 199 a 279 a. C., nas cidades palestinas de Seráfis, Tiberíades e Cesarea. Está escrito em hebraico e aramaico.

Os saberes médicos dois Talmudes foram citados nas obras de Galeno, Celso e Plínio. Não há dúvida de que os estudantes das escolas talmúdicas terem praticado uma medicina competente. Uma das comprovações é carta do Imperador Antônio solicitando um médico entre os alunos do rabino Yehuda Hanasi para tratar um escravo muito doente.

Os Talmudes estão repletos de cuidados com a saúde pessoal e coletiva tanto em nível curativo quanto profilático. Entre os milhares de recomendações, três são particularmente atuais:

 

  1. 1. Um médico que trabalha sem cobrar, não vale nada (Baba cam 80).

A legalidade  do honorário médico estava presente, de modo explícito, na sociedade assírio-babilônia, que legislou o pagamento de acordo com o estamento social do doente. Esta característica da profissão foi também absorvida na sociedade grega e  na romana dos primeiros séculos.  As dúvidas quanto ao mérito dessa questão iniciaram-se com a prévia cristã que associou o ato de curar à caridade benemérita.

 

  1. Uma pessoa não deve permitir que seja tratada por médico proveniente de terras distantes, pois este não conhece suficientemente as características do meio ambiente e as influências climáticas (Baba cam 85 a);

A medicina praticada na Escola de Cós, na Grécia antiga, igualmente, preconizava a necessidade do doente conhecer a natureza do médico.

 

  1. Não se devem fazer ensaios com nenhum medicamento, nenhuma prescrição ou conjuro do Talmud, sem que se conheça o seu verdadeiro uso ( Yalcut).

A atualidade desse interdito é indiscutível. Diz respeito as competências de intenção e do saber do médico com o objetivo de não prejudicar o doente.

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MEDICINA EGÍPCIA

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

Apesar dos esforços dos pesquisadores da medicina egípcia antiga, infelizmente os poucos dados disponíveis das práticas médicas dizem respeito, exclusivamente, aos estamentos dominantes.

Como as outras civilizações regionais estruturadas ao lado dos rios férteis, a egípcia se desenvolveu nas margens piscosas do Nilo, de onde retiravam o sustento da maior parte da população.

A mitologia sofreu constantes modificações de acordo com as épocas e os espaços. Os deuses, deusas e reis eram, essencialmente, curadores e protetores contra o mal. Os sacerdotes representavam os intermediários do poder divino e a eles cabia a arte de curar e adivinhar.

Entre os principais personagens taumatúrgicas, destacaram-se:

 

  1. Thoth, um dos mais antigos do panteão, curou Horus da picada do escorpião e as feridas causadas pela luta entre Horus e Set;
  2. Imnhotep, filho de Ptah, representado por incontáveis estatuetas de bronze, achadas nas escavações arqueológicas de vários períodos políticos do Egito antigo;
  3. Isis, a curadora de Ra, possuía o poder de ressuscitar os mortos;
  4. Sechmet, a protetora das doenças das mulheres;
  5. Zoser, rei da terceira dinastia, utilizava nas correspondências a designação Sa ou aquele que cura e nas inscrições do templo o título de médico divino.

 

Por outro lado, apesar da medicina egípcia ter sido incompetente para estabelecer um sistema médico, acumulou impressionantes avanços no trato empírico da saúde e da doença. Diferente da tradição assírio-babilônica, considerava a respiração a função mais importante do corpo.  O sangue foi substituído pelo ar como a substância vital.

Sem abandonar a força do sangue, O Livro dos Mortos descreve o nascimento dos deuses Hu e Lia a partir do sangue saído do pênis do deus-sol Ra.

A origem das doenças estava lidada:

 

  1. Vento;
  2. Parasitas da pele e dos intestinos;
  3. Alimentos;

 

A estreita relação entre doença e parasita nasceu, provavelmente, a partir da grande quantidade de infestação parasitária dos que moravam e trabalhavam nas áreas de várzea do Nilo. O conhecimento historicamente acumulado, ao longo de centenas de anos, interligou os vermes saindo pela boca ou pelos anus com a origem das doenças dos indivíduos debilitados e incapazes de trabalhar.

Os principais pontos articulados da medicina empírica do Egito antigo estão contidos nos papiros de Berlin, Carlsberg, Chester Beatty, Ebers, Edwin Smith, Hearst, Kahoun, Londres, Ramesseum.

Os mais importantes e melhores conservados, o papiro de Ebers, escrito entre 1553 e 1550 a. C., e o de Edwin Smith, produzido em torno do ano 1550 a. C., foram encontrados em Tebas:

 

  1. Papiro de Ebers

 

Após a longa introdução dedicada aos deuses curadores, compilou os saberes médicos da época sobre os medicamentos para:

 

  1. Aumentar o apetite;
  2. Melhorar a função intestinal e a digestão;
  3. Dores reumáticas;
  4. Paralisia dos membros;
  5. Estados gripais;
  6. Doenças dos olhos;
  7. Doenças do ouvido;
  8. Doenças do estômago;
  9. Doenças do fígado;
  10. Obstruções intestinais;
  11. Doenças Pulmonares;
  12. Mordeduras de animais;
  13. Queimaduras;
  14. Cuidados com a pele e o cabelo;
  15. Poliúria;
  16. Doenças dos dedos e das mãos;
  17. Cuidados com os dentes e a língua;
  18. Doenças ginecológicas;
  19. Abcessos e tumores;
  20. Doenças do coração;

 

E descreveu de modo preciso a hérnia inguinal, a angina do peito, a gastrite, conjuntivite e otites entre outras.

 

2, Papiro de Edwin Smith

 

Uma parte significativa é dedicada ao diagnóstico, tratamento e prognóstico dos traumatismos. As descrições pormenorizadas incluem o quadro clínico dos traumas faciais, pescoço, clavícula, úmero, esterno, tórax, costelas, ombro, coluna lombar.

Os seus autores foram fascinantes ao não deixar dúvidas quanto ao valor na prática médica:

 

  1. Anatomia cirúrgica;
  2. Cautério;
  3. Curativos;
  4. Redução e imobilização das fraturas;
  5. Sinais clínicos distinguindo a fratura da luxação;
  6. Importância da crepitação óssea;
  7. Luxação da mandíbula;
  8. Paralisia dos membros secundária ao trauma da coluna e do crânio;
  9. Prognóstico ligado aos recursos disponíveis para beneficiar o doente.

 

A especialização dos conhecimentos médicos do Egito era um fato. O mais antigo médico conhecido, um certo Hesy-Ra, exercia a odontologia como especialidade nos anos 3000 a.C. Os registros dos papiros também citam oftalmologistas e ginecologistas.

Heródoto refere o início da prática da circuncisão no Egito:

 

É óbvio , realmente, que os côlquios são de origem egípcia, e eu mesmo fiz essa observação antes de ouvi-la de outros…os côlquios, os egípcios e os etíopes são os únicos povos que desde sua origem  praticam a circuncisão. Os fenícios e os sírios da Palestina reconhecem que aprenderam esse costume com os egípcios…”

 

A prática não era obrigatória. Existem muitas ilustrações de como realizar essa operação. A mais antiga está na tumba de Ankh-ma-Hor e descreve-a como um ato religioso realizado por um sacerdote especializado.

O embalsamamento está intimamente ligado à crença egípcia do renascimento após a morte. O corpo enterrado deveria estar conservado tendo a cabeça voltada ao Oeste para poder renascer na outra vida.

O sacerdote era também o médico da morte. Entre as suas funções estava a imperativa necessidade de depositar o corpo intacto no sepulcro.

Não existem registros precisos do início do embalsamamento. No período pré-histórico, os egípcios enterravam os seus mortos sem qualquer tipo de tratamento. A especial qualidade do terreno desértico, quente e seco, conservou intactos muitos corpos. Não é improvável que a observação desses mortos, exumados muitos anos após o óbito, tenha contribuído no aperfeiçoamento das técnicas do embalsamamento com o objetivo de alcançar melhores resultados que favoreceriam o renascimento.

Os mais antigos registros de mumificação datam de 3.400 a. C. Trata-se de Hetep-Heres, mãe de Keops e mostram os membros desar-ticulados antes de terem sido envoltas com as bandagens. As múmias do Médio Império eram tratadas com as vísceras nas suas posições.

Modificações importantes ocorreram nos procedimentos para embalsamar os mortos, no Egito antigo, antes de existir a codificação., elaborada no Novo Império. Nesta época, o trato do cadáver obedecia às normas mais ou menos rígidas de acordo com as posses financeiras e a importância social do morto. Em alguns casos, os embalsamamentos duravam sessenta dias:

 

  1. O corpo era transportado à Casa dos Deuses;
  2. O conteúdo craniano era retirado através dos orifícios naturais;
  3. A evisceração abdominal se fazia com uma longa incisão no flanco para a retirada inteira dos órgãos;
  4. O coração permanecia no lugar;
  5. As vísceras liberadas recebiam cuidados especiais e eram depositadas em recipientes adequados;
  6. O corpo era criteriosamente desidrato, submetido às lavagens com óleos e essências e envolto com tiras de pano.
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