INSTRUMENTOS CURADORES DAS MSGs

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

I.INSTRUMENTOS CURADORES DAS MSGs PRÉ-NEO-CORTICAIS

  1. A DOR E O PRAZER

Um dos aspectos mais fascinantes do corpo humano é como ocorreu o processo de adaptação da dor-pessoal (DP) e do prazer à sobrevivência da espécie.

Um do grande obstáculo da neurofisiologia continua sendo estabelecer as correlações entre a forma e a função1, no sistema nervoso central e no sistema nervoso periférico, nos níveis macroscópico (órgão), microscópico (célula), ultramicroscópico (molécula), atômico (partículas formadoras do átomo) e subatômico (interação massa e energia).

Restam inúmeras e angustiantes dúvidas de como é possível, por exemplo, os infinitos átomos, que compõem as incontáveis moléculas, existentes em cada célula do corpo, se articulam entre si e com o todo para formar o ser vivente.

Dito de outro modo, se o saber empírico é suficiente para comprovar que as pessoas são capazes de sentir a DP e o prazer, de muitos modos e diferentes intensidades, torna‑se obrigatório existirem áreas, em todos os níveis acima mencionados, responsáveis pelas sensações dolorosas e prazerosas.

Apesar de os estudos da anatomia e da fisiologia terem desvendado alguns aspectos importantes da forma e da função dos corpos, especificamente, dos sistemas nervosos central e periférico, relacionados à DP e ao prazer, estamos longe, muito longe de compreender a maior parte das dúvidas.

Uma das barreiras é a fantástica multiplicidade das formas no micro e na macroestrutura, no ser vivente, gerando funções semelhantes.

As maneiras de sentir a DP e o prazer são infinitas. Desta forma, os limites da cura, entendidos como o produto final das sensações desagradáveis e prazerosas são modulados por meio de componentes distintos e interligados:

  1. Extrínsecos: a natureza circundante, o social e a História;
  1. Intrínsecos: os padrões genéticos herdados na reprodução sexuada e expressos nas cadeias do ADN.

O estudo das mentalidades, em diferentes períodos, mostra um repetir coletivo para escapar da DP2, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala filogenética, atrás dos anseios fundamentais, ditados pelas memórias-sócio-genéticas (MSGs).

É traduzida na vida de relação, desde os tempos imemoriais, na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto físico e emocional, aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio, nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.

Todos fogem da DP e procuram o prazer. A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentidos no corpo, são as chaves acionadoras das MSGs.

Todas as relações interpessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da técnica, que resultem prazerosas, são acatadas, sem esforço, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limitá‑las, ocorre resistência. A rebeldia contra a falta da terra, como garantia da comida, o sexo limitado, o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.

As mensagens oral e escrita, estruturadas na ambiguidade objetivo‑subjetivo ou, sob certas leituras, do profano-sagrado, trazendo a esperança de amenizar a DP, são sempre bem aceitas e festejadas pelas MSGs.

Nenhum poder ordenador   conseguiu conter, durante o tempo todo, apesar de utilizar, frequentemente, da brutal repressão nos porões da intolerância de todos os matizes, a expressão clara das MSGs no cotidiano.

A capacidade de convencimento, fazendo parte da ideia institucionalizada, assenta‑se, sobretudo, na história das representações, das ideologias e das mentalidades constituídas a partir do saber acumulado e sobre ele. Por essa razão, continua muito significativo, junto às massas populares, a sedução exercida pela ação política, prometendo maior conforto.

O empenho do poder, propondo a mudança, não obtém resultados, quando toca, de modo inadequado, nas MSGs.

O medo da DP continua tão forte quanto os mecanismos objetivos organizados pelo corpo para superar a dor3, comprováveis no laboratório, e os subjetivos, instituídos nos confins das moléculas dos sistemas nervosos4, de impossível reprodução laboratorial, criados pelos ainda insondáveis instrumentos ficcionais, para atenuá‑lo ou confundi‑lo.

É possível compreender, nesse ponto, a fantástica relação entre a DP e o prazer com o nascer da consciência, diferenciando o cérebro da mente5, traduzindo uma etapa significativa da corrente, entrelaçando a natureza circundante e o social nas MSGs.

O castigo, necessariamente carregado de sofrimento doloroso2,6, é imposto nos espaços sagrado e profano das relações sociais para gerar obediência.

O medo, advindo da ameaça da DP, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.

O arcabouço da DP nas MSGs, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor-histórica7 (DH) nas MSGs na espécie Homo.

A DH é o grito humano pela vida, pela liberdade, pela saúde, pelo conforto, pela dignidade, pela paz e pela ruptura das correntes que prendem o homem e as mulheres às tiranias.

É a razão da existência contínua, desde os primeiros tempos, da sistemática procura de uma ética na conduta humana, ligada à sobrevivência comum, registrada nos códigos de postura.

A atração pelo sagrado como mecanismo inato, parte integrante das MSGs, para compensar as DP e DH, ativando todos mecanismos endógenos da analgesia, encontrou resposta no brado da dor de todas as origens.

O exercício do poder, impondo o castigo doloroso aos resistentes, resultou nos princípios da dinâmica social, onde a coesão e a dissolução, em equilíbrio dinâmico, são dependentes, respectivamente, do predomínio do conforto e da DP, em determinado segmento da sociedade.

Os contestadores, compreendidos como agentes da dissolução ou pecadores, são punidos com o pior dos castigos: a dor:

Gen. 3, 16-19: À mulher, ele disse: “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará. Ao homem, ele disse: “Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimento dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás a erva dos campos. Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.”

Pelo outro lado, os curadores assumiram um papel de realce porque possuíam o dom de atenuar a DP e adiar a morte temida8. Também nos livros sagrados, referências maiores da ambiguidade sagrado-profana, são claros quanto ao destaque do curador:

Eco 38, 1-2:  rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei.  A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

Os mais antigos registros são contundentes. Os assírios e babilônicos entendiam o pecador como o rebelde possesso da anti-divindade. As palavras sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos10.

Os atos coletivos, empregados para modificar a realidade, têm de estar, obrigatoriamente, assentados em pressupostos teóricos, ligados às MSGs. A coerência ao ato apreendido passa nas pontes que interligam o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico com o social.

Quem está vivendo a DP e a DH, de qualquer natureza, estampadas no rosto de penúria dos entes queridos estará sempre pronto para seguir qualquer proposta para finalizar o sofrimento. De modo semelhante, quando as aspirações são satisfeitas, a tendência é afrouxar a crítica e aumentar a coesão.

Os anseios dos homens e das mulheres, presentes nas MSGs, para reforçar o conforto, são um dos fatores que provocam o movimento social. Quando as ideias são desarmônicas com o anseio, nem mesmo os mais brutais meios de repressão conseguem mantê‑las ativas.

O poder ordenador, mesmo sem saber porquê, percebeu o valor dos registros sócio genéticos. Os seus agentes, os políticos vestidos de curadores, investem na conquista dos grupos sociais, através das mensagens repletas de dádivas ativando as variações simbólicas que tocam profundamente as MSGs gerando respostas na organização social.

Contrariando as concepções antigas do mapa neurológico das emoções, os trabalhos experimentais   demonstraram que o cérebro não tem uma só área responsável pelos sentimentos opostos10. Os indicadores apontam que os sentimentos de alegria e de tristeza estão situados em regiões cerebrais diferentes. Apesar de intimamente interligadas por meio de incontáveis sinapses, esses compartimentos cerebrais, certamente, ao receber o alerta contra a dor ou ao identificarem o indicativo ao prazer, processam de modo diverso as informações recebidas.

A região cerebral responsável pela expressão da raiva, que coloca o animal em guarda quando sente a sobrevivência ameaçada, está situada no septo anterior, na porção central do sistema nervoso. O estímulo com eletrodos dessa área, realizados em gatos domésticos, conseguiram mudar o comportamento desses felinos dóceis, transformando-os em animais agressivos a ponto de atacarem violentamente mesmo não existindo ameaça.

Muitas dúvidas continuam constrangendo os mais curiosos. A amasia ou a incapacidade de reconhecer as canções, descrita depois de acidentes vasculares cerebrais11 e a perda da capacidade de tomar decisões na vida social, após os traumatismos cranianos com lesão pré-frontal12 estão contidas nesse hiato.

Na acusa, mesmo com acuidade auditiva aérea e ósseas normais, as pessoas portadoras dessa patologia são até capazes de acompanhar o ritmo e dançar, porém, a música soa estranha e torcida. Nos traumas cranianos com lesão pré-frontal, o paciente mantém a totalidade da capacidade cognitiva, contudo assumem um ritmo de vida sem emoções frente aos imprevistos brutais do cotidiano, acompanhado de postura francamente antissocial. A ausência patológica de emoção no dia-a-dia pode contribuir no aumento da agressividade pessoal.

A partir desses estudos configurou-se a certeza do cérebro humano ter desenvolvido circuitos altamente especializados, decodificadores das emoções frente a muitos aspectos da vida social.

Os estudos da neurofisiologia se configuram no sentido de entender esses circuitos como entidades anatômicas e funcionais seletivas capazes de reagirem de modo diversos frente aos estímulos quanto mais conhecida é determinada sonoridade, menos neurônios são utilizados para ativar o circuito. É possível que essa evidência esteja relacionada com o fato de existir maior tensão emocional quando alguém sente o risco de enfrentar circunstâncias desconhecidas ou estressantes. Por outro lado, quanto mais sabida é determinada ação, mais tranquilo torna-se o repetir.

Não temos por que duvidar da maior abrangência desses circuitos cerebrais. Eles alcançam uma infinidade de aspectos da vida de relação por meio das ordens específica das MSGs.

Os entraves aumentam na razão direta do desvendar da menor estrutura. O desconhecimento fica mais denso a partir da molécula, portanto ainda muito distante do subatômico.

A DP e o prazer estão unidos em complexa ponte, construída durante o lento processo de humanização, envolvendo o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico com a genética, a natureza circundante o social.

Com o objetivo de aliviar a DP, o corpo, em nível molecular, elabora opiáceos endorfina, de morfina e encefálicas de composição química semelhante à morfina3. Na forte emoção, os opiáceos naturais podem exacerbar, a ponto de causar bem-estar, provavelmente, do jeito similar ao prazer determinado pelo uso da morfina e a heroína. Apontando na mesma direção, os modelos matemáticos experimentais demonstram que a sensibilidade dolorosa aumenta no estresse.

A fuga da DP e busca do prazer continua sendo duas    incontroláveis ordens filogenéticas. Por essa razão, constituem os pilares da ordem e da desordem sociais e impulsionam as pessoas para organizarem‑se com o objetivo de evitar a DP e buscar as fontes determinantes de prazer, a partir da liberação endógena dos opiáceos naturais.

Figuram entre os mais importantes mecanismos pessoais e coletivos que incitam ao prazer: o sagrado, a esperança no renascimento, a sexualidade como integrante da cooperação e a posse do território como garantia do alimento, da proteção contra as intempéries, todos acompanhados das variações simbólicas.

Aceitar o prazer e recusar a DP tem sido um ponto comum de incontestável relevância na vida humana. O corpo foi adaptado na intimidade dessas determinantes sociais e genéticas.

O processo evolutivo delimitou mudanças, em todos os níveis do corpo, capazes de ajustá-lo ao movimento social. É inconcebível pensar na DP e no prazer ligados somente às trocas metabólicas físico‑químicas ou ao exclusivo contexto societário. É tempo de interagir o social com a genética.

O conjunto das reações neurológicas e bioquímicas, ligando o ser ao mundo das ideias, só é consolidado nas mentalidades memorizado e reproduzido quando estiver elaborado em estreita consonância com as exigências pessoais e coletivas, requeridas no processo de humanização.

O ser é biológico e social. Ele não existe sem as relações de trocas e estas não seriam possíveis sem ele.

O conjunto formador que gera a ação apreendida não se dá sobre o nada. Não existe a função sem a forma. As estruturas nervosas, centrais e periféricas, responsáveis pela intercomunicação entre a memória, a linguagem, os sentidos e o social ligam‑se através de bilhões de sinapses. É a prisão mental de cada um. É a jarra de Pandora, de onde saem os infortúnios e as esperanças da humanidade.

As análises, pretendendo compreender e transformar a sociedade, desprezando um dos componentes extrínsecos (o social) e o intrínseco (a genética) não pode resistir à crítica.

As MSGs adicionam a coerência entre a forma e função de cada segmento dos corpos com o mundo das ideias. Só assim é possível entender a fina sintonia individual para sentir a DP e expressar o prazer nascendo das relações biológicas e sociais.

Esse conjunto muito denso dos limites da cura é a crítica da proteção pura.

2.SEXUALIDADE-COOPERAÇÃO-TERRITORIALIDADE

Não temos porque duvidar da interferência dos componentes sociais e genéticos nas telas que moldam as organizações socais de todos os animais. A partir desse pressuposto, os estímulos inatos em torno da sexualidade, da cooperação e da territorialidade estão unidos e determinam, em última análise, o tipo da organização social.

Os indivíduos adultos de sexos diferentes, de todas as espécies, arranjam-se para proteger um território capaz de garantir o alimento necessário à sobrevivência, em primeiro lugar, dos mais aptos do grupo e, secundariamente, dos mais frágeis.

A interação mais elementar entre o processo de busca, conquista e partilha do alimento para garantir a vida está inserida na afetividade materno-dependente. Deste modo, o pico máximo da dependência sócio genética entre indivíduos da mesma espécie está contido na relação mãe–filho.

As MSGs conduzem à prematura e maravilhosa aprendizagem sem experiência, moldando o ser no conjunto gregário da espécie. Com esse fito utiliza a sexualidade, a cooperação e a territorialidade como instrumentos atávicos oriundos da filogênese, isto é, pré-neocorticais, para fugir da dor e da busca do prazer.

Como os três elementos são complementares e indissociáveis, não basta o indivíduo possuir o território, a plena cooperação só é alcançada com o contentamento sexual duradouro.

Fora dos estudos comparativos das populações de hominídeos, torna-se mais difícil entender o corpo humano e lenta adaptação entre a forma e a função para fugir da dor e buscar o prazer.

Na África oriental, o sítio arqueológico de Afra, na Etiópia, revelou dados importantes sobre pequenos grupos de Australopitecos que viveram em torno de três milhões de anos13. É provável que possuíssem hábitos semelhantes aos atuais chimpanzés, com comunidades de até quinze indivíduos, vivendo fora das árvores e alimentando-se de vegetais e pequenos animais.

A mais importante adaptação à vida na savana, refletida na forma do corpo, foi a retificação do eixo da coluna vertebral que possibilitou a postura bípede. A libertação dos braços na marcha, obrigou o surgimento de significativas metamorfoses dos sistemas nervosos central e periférico. Por outro lado, a posição ereta provocou a mudança do coito, passando da preferência dorsoventral para a vento-ventral.

Os produtos finais dos ajustamentos dos corpos à sobrevivência na savana refletiram-se, decisivamente, no surgir das MSGs encortiçais, na espécie Homo, a partir da divisão de tarefas. O estorvo do deslocamento da fêmea grávida e da cria recém-nada, obrigou o aumento da cooperação entremeada da sexualidade e da territorialidade.

Nessa fase, os saberes acumulados apontaram para o sangue coagulável como o elo da vida. Ao contrário, o menstruo, impossível de coagular, tornou-se o sinônimo da antítese vital.

A evolução do trato sócio genético dos atos cooperativos avançou no sentido de estender a solidariedade além dos laços consanguíneos e envolver os indivíduos representativos na sobrevivência do grupo. Nesta fase do desenvolvimento das MSGs, é possível observar, sem qualquer dúvida, a existência de indivíduos especializados em adiar os limites da cura como os elos mais importantes para evitar a morte prematura.

Alguns esqueletos encontrados nos sítios arqueológicos, mostram a perfeita recuperação de ossos que sofreram graves fraturas nos braços e nas pernas, provavelmente, fruto das disputas pessoais ou dos acidentes de caça14. A formação do calo ósseo sobre a linha de fratura, que possibilita a restauração da função do membro, não se forma se membro não for imobilizado.

As comprovações arqueológicas em torno da cooperação, empurrando os limites da cura e firmando as bases da sociabilidade, não se restringem somente aos cuidados das fraturas. No Iraque, na gruta de sandar, encontrou-  -se um úmero amputado acima do cotovelo13 e na caverna de La Lave, na França, osso sacro transfixado por uma seta15. Pelo menos nos dois casos, alguém cuidou dos feridos e proporcionou a proteção e o alimento.

As MSGs que moldaram a convivência entre os indivíduos, possuindo ou não laços consanguíneos, desde tempos imemoriais, foram armazenados, notadamente, sobre a proximidade dos corpos. O sistema de comunicação pessoal que possibilitou a expressão dos sentimentos, traduzida na mímica ou nas linguagens, do agrado ou da repulsa frente ao par, também não se dá sobre o nada. É a aceitação dos sentidos natos, gerando respostas prazerosas na visão, no tato, no paladar, na audição e no olfato, os responsáveis pelo encanto.

Contudo, para que exista, na forma e na função dos corpos, o processamento de uma resposta positiva ou negativa frente ao estímulo, é indispensável haver um padrão anterior que sirva de referencial analítico.

As ferminas são partes integrantes desse sistema. Reconhecidas como substâncias químicas específicas produzidas e eliminadas pelos animais, são capazes de determinar modificações no comportamento social de outros animais, gerando aproximação ou distanciamento. As moléculas que as compõem são constituídas de poucos átomos de carbono e com o peso molecular variando de acordo com a função biológica. As que interferem no comportamento sexual possuem os maiores pesos moleculares.

As ações das ferminas alcançam o estado de alerta contra o perigo, a formação do grupo antes de atitudes coletivas, como a migração de aves, o repelir da competição, a proteção do território e o reconhecimento dos sexos.

Como a formação de qualquer molécula no corpo é intermediada pela ação conjunta entre o RNA e o DNA, portando de natureza genética, as infinitas variedades dos ferminas são frutos das sucessivas adaptações das MSGs, para atuarem como alertas contra a dor e pontes na busca do prazer.

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INFLUÊNCIA DO SÉCULO DAS LUZES NA MEDICINA

Prof. Dr. HC João Bosco Botelho

O século 18 reconhecido como o século das luzes brilhou sob esplendor das ideias de Kant que reconheceu a supremacia da razão como instrumento para superar a ignorância. Sob certas condições é possível também entender certa semelhança com as ideias sobre a natureza dos homens, defendida pelos autores setecentistas, como o início da generosidade explícita, como manifestação da virtude, que os médicos devem adotar no trato com os doentes.

Nesse contexto, dois filósofos se destacaram:

– Denis Diderot (1713-1784), no livro “Carta sobre os cegos para uso por aqueles que veem”, onde descreve as mudanças no próprio pensamento, do deísmo ao ceticismo e materialismo ateu. A mais importante obra de Diderot, composta durante 21 anos, “Enciclopédia”, com 28 volumes, retratou todo o conhecimento até então publicado. Essencialmente atento à natureza humana, problemas morais e o sentido do destino. Como ferrenho crítico do clero, declarou: “O homem só será livre quando o último déspota for estrangulado com as estranhas do último padre”. As obras desse filósofo, considerado por alguns o pioneiro do anarquismo, só foram publicadas pelo fato de já estar em curso ideias políticas mais forte do que a repressão real e da Igreja.

– Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escreveu na “Enciclopédia” de Diderot, adepto de uma religião natural, recusando os dogmas revelados e propondo que o encontro com Deus poderia ser no próprio coração. Uma das mais importantes obras, “Do contrato social”, defende que a população deve tomar cuidado ao transformar o direito natural no direito civil e que a soberania do poder deve estar nas mãos do povo. Com especial atenção à natureza como “delicada amiga do homem” e princípio da verdade e da virtude.

Desse modo, o século 18 também refunda a ideia da generosidade virtuosa, fora dos dogmas da Igreja, rapidamente aderiu à Medicina. Também é interessante assinalar que a ideia de progresso, central no século das luzes, não se desprendeu dessa generosidade, como está claro na declaração dos Direitos do Homem.

Esse ideário de generosidade, direito e ética se transformou em mensagens de liberdades e acenderam os pavios das revoluções que forçariam, outra vez, a abordagem da ética, sob a ótica do genial Kant. Esse homem extraordinário sem jamais sair de sua cidade natal Kõnigsberg, na antiga Prússia oriental, publica dois livros que mudariam algumas abordagens da ética e da moral. Em 1788, “Crítica da razão prática” e, em 1790, “Crítica da faculdade de julgar”, essencialmente contra o autoritarismo que dominava o mundo político no qual vivia, sob o reinado de Frederico II, rei da Prússia, cujos julgamentos sumários lembravam os realizados pela Inquisição católica, nos quais o réu já entrava no julgamento previamente condenado e só eram permitidas as respostas “sim” ou “não” do próprio réu e das testemunhas. O desfecho contra o vício nos julgamentos viria na introdução do não menos genial “Crítica da razão pura”, onde a categoria metafísica é utilizada para repudiar todos os dogmatismos despóticos, falsas genealogias, as indiferenças quanto as diferentes naturezas dos saberes humanos.

Por outro lado, a presença do pensamento micrológico, inaugurado por Marcelo Malpighi, no Renascimento, atingiu e ocupou a maior parte do ideário da Medicina na busca da materialidade da doença sob as lentes de aumento.

Por outro lado, chegaram os avanços nos saberes em vários aspectos da Medicina:

– Fisiologia: a anatomia já não bastava à liberdade, as academias e sociedades médicas promoviam debates sobre o funcionamento dos órgãos;

– Fisiologia experimental: muitas funções foram monitoradas e melhor compreendidas nos animais de experimentação, principalmente o cachorro e o gato domésticos;

– Os estudos de Virchow foram fundamentais para a consolidação da histologia;

– Com a associação entre anatomia-fisiologia-microbiologia-histopatologia nasceria a anatomia patológica explicando o mecanismo da morte causada pelas doenças;

– Muitos cirurgiões descrevem técnicas cirúrgicas com o objetivo de diminuir as complicações per e pós-operatórias. Contudo, permanecia a temeridade pelas cirurgias cavitários, no crânio, tórax e abdome, quase sempre sinônimo de morte do doente.

Claramente, uma vez mais, a ética médica estava ligada aos bons resultados das práticas.

– Rudolf Ludwig Karl Virchow (1821-1902), médico e político alemão, considerado o pai da patologia moderna. Em Würzburg, trabalhou como anatomista. Em 1856, retornou a Berlim, para assumir a cátedra de anatomia patológica da Universidade de Berlim. Durante a Guerra Franco-Prussiana, liderou pessoalmente o primeiro hospital móvel para atender os soldados na frente de batalha. Também participou ativamente, em Berlin, na melhoria do saneamento básico, construção hospitalar, técnicas de inspeção de carne e higiene escolar. Descreveu o mecanismo do tromboembolismo, hoje a reconhecida tríade de Virchow. Entre outras grandes contribuições, foi o primeiro a publicar um trabalho científico sobre leucemia.

Construções da ética da Medicina e do Direito, na Europa, ajustadas à busca da materialidade da doença e do delito no século 19

 

Esse século foi caracterizado:

– Busca do agente etiológico de muitas doenças;

– Entender as doenças, com o mesmo agente etiológico, que apresentavam diferentes manifestações clínicas;

– Utilização de equipamentos que poderiam ver além dos olhos desarmados;

– Exame histopatológico de partes do corpo e de doenças, para firmar o diagnóstico;

– Reprodução nos laboratórios de reações físicas ou químicas corpóreas;

– Melhor compreensão das doenças infecciosas que provocaram epidemias temidas;

– Entender o desenvolvimento fetal.

Sob essa perspectiva, foram descritas as bases da microbiologia bacteriana tanto preventiva quanto curativa, oferecendo às populações certa tranquilidade quanto algumas doenças infecciosas que causaram medo e mortalidade, desde a Idade Média: hanseníase, tuberculose, estafilococos, estreptocócicas, malária, tifo, tétano, entre outras.

A Medicina se acoplou, sem esforço, às ideias evolucionistas de Charles Darwin e, sem imaginar a grandeza do evento, em 1866, presenciou a publicação de Gregor Mendel, sobre o cruzamento de ervilhas, que inauguraria o pensamento molecular. Mantendo a leitura de Gaston Bachelard, a ruptura determinada pelos trabalhos de Mendel pode ser compreendida como Terceiro Corte Epistemológico da Medicina.

O século 19 fortaleceria a anatomia-clínica que assentou as bases da atual formação médica e a fisiologia, ampliando as respostas quanto os mecanismos da digestão, respiração, urinário, vascular venoso e arterial.

Ao mesmo tempo em que as ordens sociais endereçavam elogios à Medicina e aos médicos pelos inimagináveis progressos no controle de muitas doenças infecciosas, as ideias políticas giravam em torno de seis vertentes, que nos anos seguintes proporcionariam outras discussões na ética médica:

– Humanismo de Feuerbach:

  Ludwig Feuerbach (1804-1872), aluno de Hegel durante dois anos, é reconhecido pela teologia humanista e influência exercida em Marx por meio do livro “Sobre filosofia e cristianismo”, ao defender que a religião é uma forma de alienação porque projeta o ideal humano não ser superior. A sua obra é considera uma transição entre o idealismo alemão e o histórico.

– Evolucionismo de Darwin:

Charles Darwin (1809-1882), no livro “A origem das espécies” propôs a teoria evolucionista por meio da seleção natural e sexual. Com a magistral frase: “O homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével da sua origem primitiva”. Claramente em confronto com a Bíblia, até hoje, existem grupos religiosos que mantêm forte resistência ao evolucionismo.

– Individualismo romântico de Chateaubriand:

François- René Auguste de Chateaubriand (1768-1848), diplomata e político francês se imortalizou pelo conjunto da sua obra de natureza pré-romântica: “As ciências explicam tudo para a inteligência e nada para o coração”. Entre os principiais livros figura “O gênio do cristianismo”.

– Manifesto comunista de Marx e Engels:

Sem dúvida, as ideias de Marx e Engels em torno do socialismo científico expresso no “Manifesto comunista”, em 1848, e as publicações seguintes, especialmente, após a Revolução Russa, reconstruíram a deontologia e a ideologia atadas à ética médica voltadas muito mais, quase exclusivamente, ao bem coletivo em detrimento do pessoal. Esse conjunto ético-moral, direta e indiretamente, mais ou menos, influenciou práticas médicas em todos os continentes.

– Positivismo de Comte:

Isidoro Auguste Marie François Xavier Comte (1798-1857), considerado o pai da Sociologia e do Positivismo. Um dos pontos fundamentais do Positivismo está fincado em torno da lei dos três estágios, descrito no livro “Curso de filosofia positiva”, renomeado “Sistema de filosofia positiva”, em 1848, onde propõe conhecer o real, sem se ater aos conflitos, e a razão por meio do conhecimento positivo, como instrumento científico para melhorar a realidade. Descreve que todas as concepções humanas passam por três estágios sucessivos:

– Teológico: fatos observados explicados pelo sobrenatural com três subfases: fetichismo, politeísmo, monoteísmo;

– Metafísico: onde já existe a pesquisa da realidade, mas ainda há a presença do sobrenatural por meio de abstrações personalizadas, de caráter absoluto como natureza, povo e capital;

– Positivo: explicando os fatos por meio de leis gerais, de ordem inteiramente positiva, possibilitando o avanço da ciência e da tecnologia.

– Historicismo de Hegel.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), considerado como o ápice do idealismo alemão, influenciou muito o materialismo histórico de Karl Marx. O livro mais importante de Hegel, “Fenomenologia do espírito”, onde expõe a proposta de deduzir toda a realidade a partir do conceito da identidade que não concebe espaço para o contingente, para a diferença. Introduziu a dialética como sistema para compreender a história da filosofia e do mundo: sucessão de movimentos para superar as contradições inerentes ao movimento anterior.

Os movimentos sociais, no século 19, rejuntam os agentes da Medicina e do Direito, em fiscalizações mútuas que provocam continuas reconstruções: a busca da materialidade da doença e do delito se torna parte importante da Medicina e do Direito, para evitar a morte e a injustiça.

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