As ideias e crenças religiosas continuam explicando aspectos da natureza circundante e, ao mesmo tempo, são usadas em certos controles sociais. As teogonias (nascimento dos deuses e deusas relacionados à formação do mundo) e a cosmogonia (narrativa, doutrina ou teoria que explica a origem do mundo e do Universo) estão ligadas aos ciclos naturais visíveis como à chuva, fecundação do solo, seca e às pestes.
As regras garantindo a saúde e evitando a morte, no Antigo e no Novo Testamento, é suficiente para estabelecer vinculo entre o processo histórico da consolidação da medicina como instrumento social voltado à compreensão e cura das doenças, entre os séculos 1 a.C. e o 1 d.C., e o cristianismo primitivo.
Tanto naquele tempo quanto nos dias atuais é facilmente identificável a grande distância entre medicina dos ricos e a dos pobres. Parece-nos ser importante partir desse pressuposto: as práticas médicas oferecidas aos cidadãos romanos e os próximos da corte eram melhores da recebida pelos escravos e oprimidos pela ordem dos imperadores.
O cristianismo surgiu em condições sociopolíticas sob o regime escravista do Império Romano. Nessa época, as massas populares, parte delas de origem judia, que continuavam fugindo após a diáspora, tiveram um papel fundamental na construção do pensamento cristão. É possível que a medicina praticada por esse povo, habitante nova no espaço geográfico aonde se formaria o cristianismo, fosse impregnada dos preceitos médicos do Antigo Testamento.
De acordo com os exegetas as fontes cristãs que remontam às origens do cristianismo não são muitas. Apesar das controvérsias uma das tendência acredita que a mais antiga seja o Apocalipse de São João, do ano 68; seguido das Epístolas, da metade do século 2; dos Evangelhos, da segunda metade do mesmo século, e a mais recente de todas as fontes históricas cristãs, o Ato dos Apóstolos. Isto quer dizer que não foi encontrado documento cristão produzido no século 1.
Por essas razões é razoável pressupor que a medicina praticada pelos cristãos dos primeiros séculos estivesse mais próxima das práticas médicas judaicas. Possivelmente, por essa razão, o cristianismo primitivo pode ter incorporado o conceito da doença como castigo pelos pecados cometidos, existente séculos antes, entre os judeus da diáspora. Na realidade, essa interpretação da doença, sob a exclusiva interpretação das ideias e crenças religiosas, compreensão do sagrado, está presente desde os primeiros registros, na Mesopotâmia, Egito e Índia, nos respectivos livros sagrados dessas respectivas culturas.
Afora o sentido sagrado neotestamentário, de inigualável senso religioso, os Apóstolos também entenderam Jesus Cristo como profeta (Mt 16,14; Lc 7,16; Jo 4,19 e 9,17) capaz de provocar milagres.
Estabelecendo o juízo de valor, o grande Thomás de Aquino dividiu o milagre em: absolutos ou de primeira ordem e relativos ou de segunda ordem. O milagre apologético, sempre de primeira ordem, serve de louvor. Deve ser perceptível e confirmar a origem divina da revelação. Tem particular interesse o aspecto físico porque é observável nos corpos. Logo, a cura de uma doença, considerada fatal e irreversível, pode ser entendida como milagrosa e um sinal de Deus.
A extraordinária beleza descritiva apostólica dos milagres operados por Jesus Cristo, inclusiva na prática médica dos primeiros tempos cristãos, envolve a essência da medicina como prática social: a generosidade que cativou o mundo e consolidou a Nova Aliança.
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