É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes da organização social da ontogenia, voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os operadores do Direto construindo mecanismos nas linguagens para impor a legalidade, a licitude.
Nessa longa construção, é importante relembrar que o alfabeto grego possui duas letras ?e?, a longa = eta e a curta = epsílon. Dessa forma, êthos com eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com épsilon, corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética oriunda da tradição grega tem caminhado ao lado da moral.
A etimologia da palavra ?moral? parece ser de origem latina: ?mores? significa ?costume?, mas não qualquer costume, mas o estritamente aderido à virtude. Assim, Kant de modo genial caracterizou a ação moral, em caráter universal, plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis.
Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas.
Não é impertinência pensar que esse desejo humano, a partir de passado impossível de precisar, de concretizar a ética, valorizar a virtude, como antagonismo ao vicio, à desordem, seja processo sócio-genético gerado ao longo da ontogenia, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes, já que não seria possível manter a vida coletiva sem regras e mecanismos para cumpri-las.
Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar as regras valorizando a ética junto à moral atadas como características insubstituíveis e universais da condição humana, como genialmente Kant descreveu.
Dessa forma, é possível articular processo teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização do bem, da virtude, moral e ética como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar a desordem, o mal, imoral, que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas MSGs também interfeririam na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício que corrompe e compromete a sobrevivência pessoal e coletiva.
Esse conjunto organizador social presente nas MSGs da espécie humana, vinculado à sobrevivência, ajustado ao ético-moral, amparando a vida pessoal e coletiva claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude) está em curso, amparando a sobrevivência, por meio da Medicina e do Direito.
Nesse momento, cabe a pergunta: porque esse mecanismo genético de busca da ética, da virtude ainda não conseguiu controlar a agressividade da espécie Homo sapiens sapiens: capaz de matar e trucidar pessoas inocentes; crenças religiosas que geram ódios e matanças? Se comparado ao passado distante, é possível argumentar que o processo genético de mudança está em curso.
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