Com a ajuda da minha prática profissional acumulada durante quarenta anos, hoje, ainda mais consciente da imensa falibilidade da medicina, é possível refletir que as atitudes moduladoras nas crenças das curas, tanto as do médico quanto as do doente, em algumas situações, comportam componentes além dos muros da universidade, infelizmente, ainda sem explicações razoáveis.
É possível teorizar alguns elos que ligam as expressões coletivas e pessoais de cura com o social, tanto na ciência quanto no espaço sagrado. Com esse pressuposto, é válido o argumento de existirem estruturas moleculares, no genona, suficientemente coerentes com os mecanismos da sobrevivência, inatos e adquiridos, provenientes da filogenia e da ontogenia, capazes de sustentar a fé na cura, desde tempos imemoriais, com harmonia suficiente para moldar a ordem social. Nesse complexo conjunto entrelaçado nas cuturas-linguagens se destacam os curadores de todos os matizes.
Os homens e mulheres, portadores do dom de curar, ambos rejeitando a morte e empurrando os limites da vida, tem acompanhado todas as sociedades, desde a pré-história, ricos e pobres, numa dimensão e repetição que não podem ser atribuídas somente ao ordenamento social.
O interesse em estabelecer um sistema teórico, capaz de buscar explicações de sustentabilidade das crenças nos limites da cura, amadureceu em etapas e como fruto das indagações nascidas nas atividades profissionais como médico e professor. Em três diferentes momentos presenciamos práticas de curas fora dos muros universitários, envolvendo pessoas e lugares absolutamente diversos entre si, assumiram papéis decisivos no processo:
1. Nas enfermarias do Hospital Getúlio Vargas, em Manaus, durante trinta anos assistimos à angústia de incontáveis doentes que suplicaram a cura aos santos das suas devoções e os rituais das dádivas depositadas no altar da capela, como agradecimentos pela saúde recuperada;
2. Entre 1979 e 1981, durante o Doutoramento, na Universidade de Paris VI. O doente emagrecido, com a pele apergaminhada sobre os ossos, inerte no leito, sussurrando os suspiros da longa agonia, resistente a todos os tipos de analgésicos, olhava esbugalhado na direção do rezador. O homem bem vestido segurou a mão seca do enfermo e o confortou com palavras de generosa bondade. Ao final da reza, colocou as suas mãos sobre a cabeça do canceroso e iniciou um murmúrio incompreensível. Minutos após o início do rito, o doente calou-se e dormiu profundamente. Os familiares presentes choravam, ao afirmarem ter sido a primeira vez, em várias semanas, que o moribundo conseguia descansar sem a injeção de morfina na veia. É claro que, naquele momento, o juízo crítico das pessoas presentes discernia que não se tratava, absolutamente, de qualquer tipo de cura do câncer. O cerne da questão era o profundo elo de confiança ligando o rezador e o doente, capaz de provocar a resposta objetiva frente à dor.
3. Entre os anos de 1985 a 1986, no projeto EDEN, financiado pela Universidade do Amazonas, com o objetivo de estudar, comparativamente, os dados sociais e nosológicos do Município de Coari, e os do bairro Novo Paraíso, na periferia urbana de Manaus. Durante o desenvolvimento dos trabalhos de campo, comprovamos que a maior parte da medicina praticada no Hospital Universitário estava muito distante da compreensão de saúde e doença das três mil pessoas entrevistadas. Na cabeceira do rio Copeá, nós vimos os leprosos, com as faces desfiguradas, portando a imagem de São Lázaro, pedirem a bênção do padre para curar as chagas. Também admiramos a idosa curadora desenhar, com a borda do polegar direito, repetidas vezes, a cruz na testa da criança sonolenta e desidratada pela violenta diarreia nos braços da mãe aflita, enquanto rezava algo ininteligível para tratar a espinhela caída.
Nas três circunstâncias, nos parece estarem claros os profundos elos de confiança entre os curadores e os doentes, formando um conjunto coerente de ações e respostas, em nada diferente dos descritos nas tradições da história da medicina.
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