CONSTRUÇÕES DA ÉTICA PRÉ-SOCIAL

O fato de na atualidade ainda não existem mecanismos na engenharia genética capazes de identificar os genes e as respectivas proteínas que ativam as MGSs, não invalida a construção teórica da existência da ética pré-social.
É difícil atribuir a milenar busca da virtude somente às relações sociais!
Em incontáveis ações humanas pessoais ou coletivas, nos grupos sociais das muitas etnias, nos quatro cantos do planeta, existem fortes indicativos de esse encanto coletivo pela virtude, ético-moral voltado ao bem comum, ligando práticas de cura e anseios de justiça, seja motivado por impulsos que transcendem o exclusivamente social.
Sob essa perspectiva, os significantes da ética ligada à moral, oriundos da escrita grega, com o ?e? longo, o eta, ou com o ?e? curto, o épsilon, reproduzem importantes e indispensáveis mecanismos sócio-genéticos da sobrevivência da espécie humana, materializados nos códigos de ética de muitas atividades, nas quais as éticas da Medicina e do Direto são duas entre outras construções, ao longo da ontogenia, que valorizaram o bem, o bom, o certo, como antagonistas do mau, do ruim, do errado.
Ainda em torno da associação entre o ético-moral gerando o bem, o bom, o certo, antepondo-se ao vicio ligado ao mal, ao mau, ao pior, é interessante assinalar um ensaio teórico para apreender a ética médica integrada à virtude. Na tese de doutorado, defendida em Paris, em 1955, intitulada ?A ética médica?, o professor Derrien, firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do paciente, isto é, aos bons resultados das práticas médicas.
No entendimento desse conceituado professor, é possível entender a virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, ligada ao ?bem?, ao ?bom?, no qual o médico controla a dor e adia os limites da vida, sempre festejado pelo doente. Dessa forma, seria inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos bons resultados entendidos como ?boas práticas?, gerando bem-estar ao doente, está presente na historicidade e na maior parte das atuais abordagens teóricas referenciais.
Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado atando a ética médica à boa prática, entendida pelo senso comum como aquela que oferecia bons resultados às demandas da clientela por meio de ações que deveriam, obrigatoriamente, trazem melhorias à vida pessoal e coletiva.
A historicidade dos códigos das éticas das práticas de curas se construiu entendendo os respectivos curadores como especialistas sociais que devem saber controlar a dor e aumentar os limites da vida.
Historicamente, é possível distinguir três vertentes das práticas de curas:
– Medicina-divina: fortificada nos templos dedicados às muitas divindades, cujos agentes, sacerdotes e sacerdotisas, reconhecidos como intermediários das deusas e deuses curadores, oferecem curas mágicas, sob a vontade das divindades.
– Medicina-empírica: com forte partilha com as idéias e crenças religiosas, os agentes que compreendem parteiras, erveiros, encantadores e benzedores, homens e mulheres sem escolaridade, exercem as práticas fora dos templos. Até hoje, em muitas linguagens-culturas, são respeitados e festejados.
– Medicina-oficial: muitíssimo mais recente em relações as anteriores, oferece curas por meio de processos de aprendizados amparados pelos poderes dominantes.

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HISTORICIDADE DA ÉTICA COMO HERANÇA GENÉTICA

É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes da organização social da ontogenia, voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os operadores do Direto construindo mecanismos nas linguagens para impor a legalidade, a licitude.
Nessa longa construção, é importante relembrar que o alfabeto grego possui duas letras ?e?, a longa = eta e a curta = epsílon. Dessa forma, êthos com eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com épsilon, corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética oriunda da tradição grega tem caminhado ao lado da moral.
A etimologia da palavra ?moral? parece ser de origem latina: ?mores? significa ?costume?, mas não qualquer costume, mas o estritamente aderido à virtude. Assim, Kant de modo genial caracterizou a ação moral, em caráter universal, plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis.
Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas.
Não é impertinência pensar que esse desejo humano, a partir de passado impossível de precisar, de concretizar a ética, valorizar a virtude, como antagonismo ao vicio, à desordem, seja processo sócio-genético gerado ao longo da ontogenia, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes, já que não seria possível manter a vida coletiva sem regras e mecanismos para cumpri-las.
Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar as regras valorizando a ética junto à moral atadas como características insubstituíveis e universais da condição humana, como genialmente Kant descreveu.
Dessa forma, é possível articular processo teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização do bem, da virtude, moral e ética como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar a desordem, o mal, imoral, que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas MSGs também interfeririam na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício que corrompe e compromete a sobrevivência pessoal e coletiva.
Esse conjunto organizador social presente nas MSGs da espécie humana, vinculado à sobrevivência, ajustado ao ético-moral, amparando a vida pessoal e coletiva claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude) está em curso, amparando a sobrevivência, por meio da Medicina e do Direito.
Nesse momento, cabe a pergunta: porque esse mecanismo genético de busca da ética, da virtude ainda não conseguiu controlar a agressividade da espécie Homo sapiens sapiens: capaz de matar e trucidar pessoas inocentes; crenças religiosas que geram ódios e matanças? Se comparado ao passado distante, é possível argumentar que o processo genético de mudança está em curso.

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