CRANIOTOMIA PRÉ HISTÓRICA

Permanece como marco nas atitudes do homem na busca dos mistérios do corpo, os crânios trepanados na pré história, há 10.000 anos, atados às solidariedade para controlar a dor e empurrar os limites da morte.
Outros estudos paleopatológicos confirmam a solidariedade entre os nossos ancestrais distantes. Um deles, é representado pelos ossos achados na caverna La Lave, na França, de um homem pré histórico, que sofreu ferimento perfurante de artefato com ponta de pedra, pela frente, no osso sacro, no final da coluna. Esse hominídeo sobreviveu muito tempo após a ajuda de alguém que arrancou parte externa do objeto perfurante, e, sem outra opção, deixou a haste pontiaguda de pedra encravada no sacro. O tempo que a vítima viveu, depois do ferimento, pode ser calculado a partir da regeneração óssea em torno do ferimento no osso.
Porém, os crânios que foram abertos, em diferentes lugares, na Europa neolítica, continuam intrigando os especialistas em história da Medicina. Muitos indivíduos submetidos às trepanações sobreviveram vários anos, o suficiente para que as bordas do osso cortado se regenerassem parcialmente
O local escolhido do acesso para cortar os espessos ossos cranianos parece ter tido uma significação específica. Alguns povos faziam a craniotomia do osso temporal, outros do parietal, retirando pedaços com formas geométricas diferentes, de poucos centímetros, até grandes aberturas, como a do crânio achado em Collombey Muraz, na Suíça, feito através da órbita direita, da qual o doente não sobreviveu à cirurgia.
A diversidade de como as craniotomias foram realizadas contribuiu para supor que eram muito difundidas e fizeram parte de um conjunto maior de intervenções do homem no homem, assinalando um momento específico na luta contra a dor e o sofrimento dos entes queridos. O ?médico?, naquele momento, deixou de ser mero espectador para tentar mudar, com a sua ação, o curso de um acontecimento na saúde.
Pouco importa qual tenha sido a motivação para que houvesse a concordância do ?médico? e do ?doente?, respectivamente, para fazer e aceitar a intervenção como necessária. O fato é que foram realixadas e é pouco provável que tenham sido praticadas sob violência.
A freqüência dessa cirurgia, nos esqueletos estudados, surpreende ainda mais. No sítio neolítico de Saint Martin la-Rivière, na Áustria, foram desenterrados sessenta crânios pré-históricos, dos quais cinco (8%) foram trepanados. Essas cirurgias, feitas em grande número, há mais de 10 mil anos, encontraram a força necessária para a reprodução a partir do momento em que o homem desejou mudar o curso da vida, depois de reconhecer a importância das funções vitais abrigadas na intimidade do cérebro.

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CARIDADE CRISTÃ

O conjunto sociopolítico que consolidou o hospital como instituição assis-tencial se originou em algumas decisões elaboradas no Concílio de Trento no século 16. Entre as mais importantes figuram: a unção dos enfermos com o sacra-mento e participação leiga na graça santificante. Sob essa construção, os cristãos encontraram na abertura conciliar a argumentação para justificar o amparo aos enfermos e necessitados.
Na assistência aos doentes, se fortaleceu o atendimento aos doentes em lugares determinados, conhecidos como xenodochium pauperum, debilium et in-firmorum (hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos).
Como uma das conseqüências, irmandades foram organizadas para admi-nistrá-los; as Ordens dos Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo se destacaram entre as mais competentes. Essa união de interesses comuns laicos e religiosos gerou frutos imediatos em torno da necessidade coletiva de suprir as grandes deficiências na atenção à saúde, no medievo europeu, funcionando também como mecanismo para afrouxar as tensões sociais geradas pelos flagelos da fome e das doenças endêmicas.
Quanto maior a miséria coletiva, maior o chamamento à caridade. Foi o que aconteceu em Portugal. A península foi particularmente castigada pelos efeitos da peste negra, com duas dezenas de surtos registrados entre 1188 e 1496. Especialmente, no século 14, a epidemia se mostrou tão devastadora que o enter-ro de todos os mortos se tornou impossível. Os cadáveres se acumulavam nas casas e ruas, dando um aspecto da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.
Acompanhando a estrada que ligava Portugal à cidade espanhola de Com-postela, onde ficava a igreja de São Jaime, existiam centenas de xenodochium pauperum, debilium et infirmorum utilizados pelos peregrinos e devotos, que se dirigiam em romaria para obter a cura naquele santuário cristão.
Por outro lado, os xenodochium pauperum, debilium et infirmorum também ofereciam muitas vantagens pessoais, financeiras e políticas aos dirigentes. Essa afirmação ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao seu ir-mão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração desses hospitais, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino. Por ordem de D. Duarte e publicada nas Ordenações Alfonsinas de 1446, foi decretada a interdição real nos xenodochium pauperum, debilium et infirmoru, ainda determinando que todos os legados que fossem doados às irmandades deveriam passar pelas cortes civis e não mais pelos tribunais religiosos.
Essas mudanças edificaram os alicerces das Santas Casas, nas colônias portuguesas, na Ásia e Américas, administradas pelas ordens religiosas Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo.

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